1st
Shotokaï Meeting
Almada,
Portugal - October 2003
A prática Shotokai é multiforme. Contudo o que é que constitui a especificidade
Shotokai? Qual é o nosso denominador comum?
Suponho que estaremos todos de acordo em fazer nossa a investigação levada a
cabo pelo Mestre Shigeru Egami. Suponho igualmente que todos vós fostes
interpelados por um magnífico paragrafo do seu livro, « The Way
of Karate, Beyond Technique» (p. 19), que os nossos amigos aikidokas
também não desaprovam:
«Se em vez de vos opordes ao movimento do atacante, vos moverdes com ele de
forma natural, o que é que irá acontecer? Ireis descobrir que vós e
ele se tornarão num só e que quando ele se mover para atacar, o vosso
corpo move-se naturalmente para esquivar o golpe. E quando vos tornardes
capazes disso, descobrireis um mundo completamente diferente - um que
nem suspeitavam que existisse. Quando fordes um com o vosso adversário
e que vos moverdes naturalmente com ele sem oposição, então não há primeiro
ataque! A significação de Karate ni sente nashi («Não
há primeiro ataque em karaté») não pode ser compreendida sem que não
tenhais atingido esse estado.»
Mestre Egami não pôde levar até ao fim da sua investida. Ele estava muito doente
(no Japão) e é extremamente difícil fazer evoluir uma Via tradicional.
Para além do mais, infelizmente - não é excessivo falar de um empobrecimento
(no Japão) dos valores do Budo.
E nós, os depositários dessa mensagem, teremos coragem de perseguir a sua obra?
Teremos a coragem de voltar a colocar em questão os nossos hábitos e
os nossos preconceitos para oferecer às gerações futuras uma alternativa
válida aos desportos de competição? Visto que, se o ideal foi claramente
delineado pelo Mestre Egami, estou pessoalmente convencido que a pedagogia,
o ensino habitual do karaté ainda não está de todo adaptado a este
objectivo!
Durante cerca de 25 anos, pratiquei com apreensão: os meus adversários eram
- vós o compreendeis - maiores, mais fortes, mais flexíveis... mais
jovens. Bem difícil, nestas condições de descobrir irimi, e de
efectuar correctamente gedan barai! E depois retomei o Aikido
e, entre outras coisas, uma reflexão de Sensei Enzo Cellini colocou-me
sobre uma outra via: irimi, antecipar, engloba, bien sûr,
Uké mas também o atacante! Em vez de procurar destabilizar o
meu adversário, metendo-me, pois, em competição com ele, é porque
sinto que a comunicação está ganha, que o meu adversário está presente
e capaz de me esquivar, que vou, verdadeiramente, autorizar-me a
bater sem reserva.
Falta-nos, absolutamente, em muitos domínios, inverter a nossa maneira de
pensar, e isso exige um esforço considerável. Exemplos concretos:
- Muito dos budokas pensam que é necessário trabalhar com dureza e passar para
a competição antes de esperar para descobrir a harmonia e um espírito
de abertura. É um grave erro pedagógico: falta-nos, antes de mais,
desenvolver a descontracção e a confiança em si e em direcção aos seus
adversários, para, somente depois, nos aproximarmos progressivamente
de um assalto realista.
- Aprendemos a antecipar entrando no ataque, esquivando o lado do ataque, o
que é totalmente irrealista se o adversário é mais potente que nós:
imaginemos uma criança efectuando gedan barai para confrontar
o mae geri de um adulto! Devemos, pelo contrário, antecipar todo
o ataque entrando nas costas de Tori tal como ele se apresenta
no instante onde ergue a sua acção ofensiva. Sei que se trata de uma
verdadeira perturbação na prática, mas, desde há anos, este modo de
fazer permitiu-nos evoluir rapidamente para o ju midare, isto
é, uma sucessão de esquivos sobre ataques totalmente livres.
- Aprendemos a conservar o pé atrás completamente esticado para melhorar a estabilidade.
E se tentarmos, pelo contrário, como em Kendo pela partida dum sprint,
elevarmo-nos sobre a ponta do pé atrás, conservando a bacia de frente,
para desenvolver dinamismo e disponibilidade?
- Outro exemplo: repetimos incansavelmente, desde há anos, as katas tradicionais
com atacantes imaginários. Não deveríamos colocar o acento sobre as
katas com um ou mais adversários já que o objectivo não é realizar um
ballet, mas comunicar com atacantes bem reais?
Vários colegas, lamento-o, ficaram magoados pelas minhas críticas vis-à-vis
dos katas tradicionais. Portanto:
-como se pode justificar técnicas tão pouco compatíveis com o nosso ideal como
partir um membro (começo de Heian nidan) ou arrancar os testículos
(fim de Heian godan) já que pedimos aos nossos adversários que
nos comuniquem o máximo de energia que aprendemos a canalizar?
- como justificar os eixos, os encadeamentos, os bunkai que nunca
reproduziremos fora do midare?
O principal receio será que a nossa investida aniquile a dimensão marcial, a
sinceridade dos golpes que caracterizam a nossa Escola. Desculpem-me,
mas aqueles que pensam assim enganam-se. É exactamente o contrário!
É impossível bater totalmente, sem a menor inibição, se ignoramos
que o nosso adversário arrisca a confrontar-nos com um gedan
barai clássico e um gyaku zuki! Se, pelo contrário, o meu
adversário sabe cair e a minha exibição vem «colher» o seu ataque para
a desviar agilmente, então não faremos mais que um e descobriremos por
vezes este universo insuspeitável evocado pelo Mestre Egami.
Depois do seu encontro com Egami sensei, Mestre Murakami transformou radicalmente
a sua prática e esta não deixou de evoluir. Aí reside o verdadeiro domínio,
nesta capacidade de voltar a colocar em questão.
Desejo, a todos, descobrir esta formidável qualidade.
Yves
Thélen, Le Shudokan, 12, rue des hêtres 4870 B-Fraipont
thelen.shudo@dnbkbelgium.org
The Way
of karate, beyond technique
« If
instead of opposing the movements of your opponent, you moved with him
in a natural way, what would happen ? You will find that you and
he become as one, and that when he moves to strike, your body will move
naturally to avert the blow. And when you become capable of this, you
will discover a completely different world - one that you had not know
existed. When you are as one with your opponent and move naturally with
him without opposition, then there is no such thing as a first strike.
The meaning of karate ni sente nashi (« There is no first strike in karate »)
cannot be understood until you achieve this state. »
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