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Pedi a três alunos para fazerem um pequeno texto
sobre José Cardoso Pires. E as boas almas fizeram, bem hajam. Três
pequenas, gentis, comoventes elegias. Também posso dizer o contrário:
três acumulações de lugares comuns, prodígios de vacuidade, com erros
crassos. Podiam ser discursos presidenciais. Lá estava a
"personalidade única", que podia também ser
"ímpar", lá estava a "vivacidade da sua escrita",
lá estava o "homem polémico".
O meu pedido, para além de extra-curricular, tinha
uma armadilha: como podiam três boas almas, que não leram - ou mal leram
- a obra de Cardoso Pires, falar sobre ela? O certo é que podiam, porque
puderam. E, verdade seja dita, "falar da morte de um escritor não é
tarefa fácil".
Uma aluna clamou mesmo: "Sim. Concordo que
Cardoso Pires não teve o devido reconhecimento em vida." E aqui, o
seu a seu dono, a asneira não é dela. Ouvira-a a Lobo Antunes, no dia
anterior. Infelizmente, a moça foi ao engano, porque, felizmente, não é
verdade que José Cardoso Pires não tenha tido o "devido
reconhecimento" em vida.
Teve-o. Poucos escritores antes de Cardoso Pires
tiveram tanta felicidade literária, no nosso país, em pleno gozo da
vida. Além dele, que eu saiba, só Herberto Helder. O que lhe faltou foi
o grau de projecção internacional que, recentemente, outros autores
tiveram. Mas isso é outra história.
Santos de casa às vezes fazem milagres. E José
Cardoso Pires, o tal que andava "a cavalo no diabo", fê-los,
provavelmente, por nunca ter sido santo.
Quantos aos meus alunos, a estes três e aos outros
todos do mundo, irão lê-lo, hoje, amanhã, talvez um dia? Não sei.
Faço o que posso. Apenas sei é que, se não o fizerem, o problema não
é do José Cardoso Pires. É deles. |