1- Fale-me do que se
recorda dos primeiros tempos das Artes Marciais em Portugal, por favor.
Sebastião
Durão- Uma vez o Corrêa Pereira mandou vir do Japão um mestre
que foi o Shirooka. Ele escreveu para o Ministério de Educação nacional
e disse que precisava de um professor que ensinasse Judo, aqui em Portugal,
mas que ensinasse o Judo verdadeiro. Veio a resposta do Ministério da
Educação onde indicavam esse mestre. Ele era de grande competência e,
se não me engano, era 6º dan. Sim, penso que era isso, porque o outro,
o Kobayashi era 4º dan na altura. Nós nunca conseguimos organizar um
combate, de demonstração, entre ambos. Nunca se conseguiu. O Shirooka
era um tipo engraçado e acabou por ensinar mais qualquer coisa do que
simplesmente Judo. Eu tinha um medo de lutar com ele que você não faz
ideia! Na verdade, eu estava mais seguro a lutar com ele do que com
qualquer outra pessoa, porque pelo menos ele sabia o que andava a fazer
(Risos). Mas ele estoirava-me completamente, agarrava em mim e atirava-me
para um lado e para o outro. Uma pessoa, às duas por
três, estava perfeitamente desfeito. Por isso, quando eu ia para
o tapete se visse o Shirooka numa ponta ia para as outras, para ver
se ele não me pegava, mas ele acabava sempre por me chamar (Risos).
Dava conta de mim.
Ninguém aproveitou
este Shirooka, quer dizer, não fez escola aqui, não houve ninguém que
se tivesse dedicado a ele. Acabou por estar aqui um ano. Entre as várias
coisas que nos ensinou foi lutar de joelhos, por exemplo.
Uma vez a Academia
Militar solicitou-nos um mestre para ir ensinar lá e nós lembrámo-nos
do Shirooka. Pedimos-lhe então que ensinasse Judo na Academia Militar
do Exército e ele respondeu que não poderia aceitar sem antes pedir autorização
ao seu governo. E nós achámos graça.
Mestre Masami Shirooka
O Judo desportivo
nasceu depois da Segunda Grande Guerra. No Japão o Judo era só marcial,
mas os americanos, quando acabou a Guerra, proibiram a prática do Judo.
Então eles apareceram com uma arte desportiva do Judo. Estou crente
que ainda hoje devem praticar o Judo original, aquele a que nós chamamos
Budo, o Judo verdadeiro. O Budo engloba mais do que uma arte, o que
dá mais possibilidades para uma pessoa se defender.
Lembro-me de
ouvir um episódio de um mestre, que esteve muitos anos em Inglaterra,
embora não me recorde do nome agora, por causa do kiai. Parece
uma coisa que é fantasia, isto do kiai, mas não é. O Corrêa Pereira
tinha lá por casa um jornal, Judo, que se fazia em Marselha e devia
sair uma vez por mês ou uma coisa assim, que descreve uma demonstração,
realizada em Marselha, em que o mestre no final derrubou o atacante
com um kiai. O tipo caiu para o chão e já não se levantou. Isso
parece uma coisa estranha, para nós. Tem graça que um amigo meu francês
que praticava Judo dizia que o kiai produz umas certas vibrações
que entram no ouvido e provocam a síncope. Esta era a sua interpretação.
Não se devia a uma força espiritual, mas sim à vibração, o efeito deve-se
à modelação da vibração. Sabe que os animais captam vibrações que nós
não captamos, há apitos que chamam logo a atenção a um cão e nós nem
sequer ouvimos. Há fenómenos que não sabemos interpretar. Então o kiai
era considerado como a força espiritual despertada pelo aiki.
Enfim, o meu amigo francês, que era médico, explicava o kiai
desse modo, como uma emissão de vibrações que, através do ouvido humano,
são transmitidas ao coração e leva a pessoa a colapsar.
O Aikido é a arte de
derrubar o adversário por torção. Ao fazer a torção a pessoa desequilibra-se
e é obrigado a dar uma cambalhota. No Karate desequilibra-se por uma
pancada, ou seja, há uma agressão directa com o pé ou a mão nos pontos
que são considerados vitais. Nos filmes que por vezes vejo abusam muito
dos pontapés, parece que só sabem lutar como na Capoeira, vejo claramente
que fazem coisas que não seriam possíveis no combate real. Se você reunir
duas ou três artes de combate, então ficará com o verdadeiro Judo, que
reúne todas as formas de combate. Um combatente faria tudo o que é característico de cada arte, ou seja, aquilo que fosse melhor
para vencer o combate.
Os mestres dizem
que a arte está 90% na cabeça e 10% no corpo. A libertação do espírito
consegue-se através da meditação. A parte espiritual de qualquer coisa
tem que ser feita por qualquer coisa, só se consegue libertar, dominar,
o espírito praticando. Há é quem pratique a vida inteira e mesmo assim
não consiga, que é o que acontece na maior parte das vezes (Risos).
No Yoga o espírito domina o corpo, é por essa razão que eles conseguiam
ficar horas na mesma posição. Na meditação transcendental passa-se o
oposto, o espírito liberta-se do corpo, este deixa de ser matéria.
Vou-lhe contar
uma coisa curiosa. Entre os meus esquemas de ginástica, que faço normalmente
ainda hoje, realizo cinco exercícios respiratórios, sentado, oito exercícios
de Tai Chi Chuan, que são uma versão resumida para quem não faz todos
os oitenta exercícios que constituem esta arte, e ainda meditação transcendental.
E faço ainda dois exercícios de Yoga.
Nesta meditação
transcendental fazemos o seguinte: estamos sentados e pensamos que deixamos
de sentir o corpo, procuramos deixar de sentir o corpo. Chegamos a uma
altura em que dá a impressão que já não sentimos que estamos sentados.
Isto de facto consegue-se. De facto, o corpo liberta-se, o espírito
liberta-se e vem para fora, viaja por vários locais, pelos que você
quiser. Conforme a altura você vai mais longe, é a sua visão, é a impressão
que tem. Tenho chegado a alturas em que penso o seguinte, que gostava
de passar por cima de certas barreiras para ver se é assim, porque sou
surpreendido por coisas que não estou pensando. Penso que isto se passa
porque o subconsciente lança imagens que o consciente, quando as recebe,
recebe-as desfasadas no tempo. Eu gostava de
passar por certas coisas para saber se é mesmo assim.
Mestre Masami Shirooka
Nas Artes Marciais
chega-se a uma altura em que a União Portuguesa de Budo tem um papel
fundamental. A palavra Budo era desconhecida no país. Antes de surgir
a União havia a Academia de Judo, onde se tentava fazer o Judo que se
fazia em toda a parte. Dessa Academia saíram os rapazes que formaram
as organizações que surgiram depois. De lá é que partiram os fundadores
do Judo Clube de Portugal, por exemplo. E saíram porquê? Porque o Corrêa
Pereira procurava fazer o Judo como Arte Marcial verdadeira e eles queriam
o combate desporto, a competição, e a Academia não fazia isso. Por isso,
organizaram-se de outra maneira para seguir outras aspirações. A partir
daí organizou-se, pelo Corrêa Pereira, a União Portuguesa de Budo. Aquilo
que se procurava era a Arte Marcial verdadeira, não havia graduações,
o cinto negro era o limite, não havia dans, o que ainda se passa
hoje.
Nessa altura
eu estava muito bem relacionado socialmente, porque trabalhava no Ministério,
era secretário do Ministro das Obras Públicas, Lourenço de Oliveira,
em comissão de serviços, por isso, conhecia os ministros em geral, os
chefes de gabinete, etc. Elaborei então um documento, que era o estatuto
da União Portuguesa de Budo, e pedi aos ministros para darem o seu parecer,
para ser aprovado. O curioso é que me fizeram as perguntas mais variadas,
como: Oiça lá, isso é alguma religião?; O que é esta coisa do Budo? (Risos) E eu lá procurava
dar umas explicações. Efectivamente criou-se a União Portuguesa de Budo,
com um estatuto aprovado oficialmente pelo Ministério. A Academia de
Budo depois passou para o Campo Pequeno, para a Rua Visconde Seabra,
onde o tapete era bastante melhor, assim como os balneários, enfim,
as instalações tinham outras condições.
A seguir veio
para cá o primeiro mestre, o Shirooka, que veio ensinar, mas ninguém
aproveitou como devia. Depois surgiu o Pires Martins que lançou o Karate,
não sei se já ensinava no tempo do Shirooka. Não sei de onde lhe veio
a ideia de começar com o Karate, acho que ele achou graça àquela forma
de luta e durante um tempo, até a Academia fechar, praticaram-se sempre
o Judo, o Karate e o Aikido.
Dr.
Pires Martins
Claro que tivemos
muitas dificuldades, como você compreende, porque eram professores que
se faziam a si próprios, íamo-nos ensinando uns aos outros, pouco a
pouco, porque não havia mestres, estes só apareceram mais tarde. Depois
de muitos anos de prática estes professores começaram a dominar as artes
e fizeram-se mestres. Há, no entanto, uma coisa que ainda hoje falha
extraordinariamente e eu acho que se devia fazer isso, aliás, eu tenho
culpa por não se fazer. E o José Araújo também. (Risos) Nós combinámos
uma vez fazer uns estudos, uma espécie de umas publicações sobre a parte
mental e espiritual das Artes Marciais. Pretendíamos dar umas explicações
sobre o assunto, dizendo o que soubéssemos e descrevendo os conhecimentos
acerca da nossa experiência. Mas nunca chegámos a fazer isso.
José Araújo-
A ideia não caiu e há até uma publicação, por parte do Karate, que se
está a iniciar agora e nós provavelmente vamos poder aproveitar essa
publicação para introduzir o tema.
SD-
O que se pretendia não era fazer isso para uma arte especificamente,
pois isso depende de cada mestre, mas em geral. A parte espiritual é
muito importante, é preciso compreender esta parte da luta. Por exemplo,
um tipo quando luta o olhar está parado, ele tem que ver tudo, não deve
olhar para parte nenhuma, porque se olha denuncia a sua intenção. É
preciso ver que está um tipo do outro lado que se não percebe nada de
luta tanto faz, mas se for um bom lutador fica a saber que vai ser atacado
para onde o outro está a olhar. Enfim, depende da maneira como o tipo
olha. Outra coisa, não pode, ou melhor, não deve haver na arte de combater
qualquer manifestação de iniciativa que o denuncie, como um tique, uma
expressão, para não despoletar o golpe. Não o deve fazer porque o outro
apercebe-se. Os golpes só são eficazes quando
são inesperados. Se um tipo sabe o que o outro vai fazer, não consegue.
Eu tenho que lhe dar sem ele dar por isso. (Risos) Por isso, toda essa
parte espiritual, o domínio do espírito perante o combate, era o que
nós queríamos introduzir, com exemplo, aos alunos e devíamos ter obrigatoriamente
uma aula por semana ou de duas em duas semanas exclusivamente para a
parte teórica mental. Havia uma grande vantagem em fazer isso, porque
se não se faz não se sabe dominar a sua força. A pessoa tem que ter
consciência da sua força, saber dominá-la e graduá-la conforme entender.
Tem que ser ele a fazer isso espontânea e automaticamente, não pode
estar a pensar. Como quando se liga um interruptor. Se assim não for,
a pessoa denuncia-se em tudo.
Há
um conto japonês que é o Conto do Gato. Havia um celeiro que estava
repleto de ratos, que comiam o arroz que lá estava armazenado. E havia
outro celeiro vizinho que não tinha quaisquer ratos, pelo menos não
se viam. Então o dono do celeiro com ratos pediu ao vizinho o seu gato,
que ele emprestou, para ver se acabava com os ratos. Quando levou o
gato para o seu celeiro começou a observá-lo, mas ele comportava-se
como qualquer gato, comia, dormia, espreguiçava-se, etc. (Risos) Até
que os ratos começaram a aparecer. Iam saindo do buraquinho e aproximando-se
a pouco e pouco, até que foram comer ao prato do gato. De repente, um
dia, o gato mata dois. Os japoneses dizem que quando não se compreender
qualquer coisa, leva-se até compreender. Cada qual tem que tirar a sua
lição disto, eu tirei-a de uma maneira: a actuação do gato é imediata,
o tipo não pensa que vai atacar, ataca, não premedita, chegou a altura
e actua. Pronto!
Há muitos contos
destes que foram tirados do japonês, traduzidos para alemão e depois
para português e quem fez isso foi o Corrêa Pereira. Eram contos muito
curiosos, acerca de toda a filosofia do combate, que é de facto fundamental.
A União neste
momento, tecnicamente e na prática, já não actua sobre ninguém, já não
ensina nada, neste momento há mestres suficientes dentro da União para
se fazer o ensinamento das Artes Marciais. Havia uma coisa mais simbólica,
para promover a união, porque faz a força, entre esses rapazes.
Para você ver
como são as coisas vou contar-lhe uma coisa curiosa. Houve um período
há uns anos atrás, antes do 25 de Abril, em que o Ministério da Defesa
quis começar a controlar as Artes Marciais, queria ter controlo
sobre tudo, inclusivamente as desportivas. Este organismo era
a Comissão Directiva das Artes Marciais (CDAM) e funcionava na Avenida
Infante Santo. Na União cumpria-se tudo o que ele determinavam, mesmo assim éramos quem eles mais incomodavam,
andavam sempre em cima de nós. Havia malta que não ligava nenhuma às
coisas e nós que éramos muito certinhos é que
levávamos. Entretanto acabou essa comissão e agora não sei como fazem
esse controlo. A União não se encontra filiada em parte nenhuma, não
está clandestina porque tem os estatutos aprovados, mas não se faz qualquer
controlo sobre ela. Hoje em dia vive à custa da carolice dos mestres,
dos rapazes que hoje dirigem a União, muito mais do que do seu presidente,
que sou eu, que não faz nada. Isto é verdade! (Risos)
2- Na Década
de quarenta já havia a preocupação em distinguir uma Arte Marcial praticada
como um Budo de uma praticada como Desporto. Hoje em dia ainda existe
essa luta. Onde acha que se encontra a linha que divide ambas?
SD-
Eu devo dizer fundamentalmente o que penso. As Artes Marciais são uma
arte de defesa, deve ser de defesa. Deveria ser como o Dragão, que tem
a Sabedoria. O Judo, muitas vezes, é o Tigre, que possui a Força. O
Tigre actua com a força, mas não a domina, o Dragão sabe como aplicar
a força, representa por isso a sabedoria. As Artes Marciais sendo uma
arte concebida para defesa, não se fazem para atacar, mas quando se
defende é mesmo para valer, é a sério. Esta é a diferença para mim entre
umas e outras. O Judo é visto como um Desporto, mas as Artes Marciais
são um pouco mais do que o Desporto é o estudo
mental; procura ser um pouco o desenvolvimento físico do corpo e o domínio
do espírito sobre o corpo. À medida que a pessoa se vai aperfeiçoando
nas técnicas, automaticamente, vai tirando os proveitos que esta efectivamente
lhe dá. Esta é a minha interpretação, pode estar errada, mas é como
eu penso.
3- Esta distinção
neste momento é muito importante, porque o Estado está a tentar novamente
controlar a prática, aglomerando as diversas artes dentro de organizações
desportivas, onde uma grande parte não se revê.
SD-
Mas aquilo que eles chamam Artes Marciais, não são Artes Marciais verdadeiras,
esta é o Budo. Enquanto você vir combates a peso, fique a saber que
ali não há Artes Marciais verdadeiras. No Japão há muitas escolas que
desconheço as técnicas, mas são todas muito parecidas, é muito difícil
fazer diferenciações. Há livros que ensinam várias maneiras de fazer
um golpe, ponha o pé assim, ou daquela forma, até desenham os pézinhos.
Isto não tem qualquer sentido. Nas Artes Marciais diz-se faça como se
sente melhor a fazer . Se é incómodo pôr o
pé de uma forma, porque há-de pôr? Cá está a parte espiritual, o nosso
espírito é a nossa consolação, a gente faz como se sente melhor, não
é so uma questão física. É traduzido por uma parte espiritual também.
4- O Sr. Eng.
começou a praticar Artes Marciais em 1945, creio...
SD-
Comecei a praticar quando ingressei nos Sapadores de Assalto. Fui
obrigado a fazer o serviço militar apesar de já estar formado como engenheiro
e cheguei a Alferes. Um dia fui nomeado para instrutor do pelotão de
Sapadores de Assalto, mas não me sentia preparado, fui então ter com
o comandante e comuniquei-lhe que não me sentia habilitado para ser
instrutor do pelotão, pois não conhecia as técnicas. A única coisa que
ainda poderia fazer era aplicar os meus conhecimentos de explosivos.
Ele olhou para mim e apenas disse que um rapaz com o meu curso e a minha
idade não podia ter dificuldades e mandou-me ir dar uma volta. (Risos)
E lá fui instrutor! Tive que aprender. E sabe como aprendi? Num relatório
que um oficial fez quando foi à Alemanha por causa da Guerra, sobre
as SS alemãs, militar, não a política. As SS eram uma
tropa de engenharia de assalto que atacaram os fortes franceses e os
ocuparam no início da Segunda Guerra. Eu li o relatório que descrevia
a forma como eles actuavam e procurei estudar isso com cuidado. Li também
um relatório inglês, sobre uma organização pequena formada por militares
de todas as forças, Engenharia, Infantaria, Artilharia, etc.
Conforme as
necessidades sempre se ensina qualquer coisa. (Risos) Por exemplo, quando
uma pessoa está no campo do inimigo e realiza uma acção denuncia-se
imediatamente. Por isso, o que tem a fazer a seguir é safar-se, fugir,
e dentro da fuga pode ter necessidade de utilizar a defesa individual.
Admita isto, um soldado corre através de uma zona onde se encontram
três inimigos, dentro de um aquartelamento, um está de pé, o outro sentado
e o terceiro deitado. O soldado deve neutralizar o que está em pé e
continuar, porque os outros dois reagem mais tarde. Aquele que tem possibilidades
de reagir imediatamente é o que está de pé. Com os outros dois não se
perde tempo. Este é um dos exemplos do que eu dizia aos instruendos.
Aprendi algumas coisas que transmiti e ainda fiz duas recrutas.
5- Foi daí
então que surgiu a necessidade de aprender Artes Marciais?
SD-
A defesa individual era uma coisa que se impunha. Nós transportávamos
sempre connosco, na bota, um punhal, com cerca de 20 cm de lâmina. Um
dia peguei no punhal olhei para ele e questionei-me
acerca da forma de manejar a arma. Fui à Escola do Exército e falei
com o Mestre de Armas que ensinava os cadetes, para ver se ele me podia
ensinar a utilizar aquela coisa. Ele disse-me que as armas brancas
já não se utilizavam em combate, mas para eu aparecer ali daí a dois
dias que ele ia estudar isso. Lá apareci passados os dois dias e ele
só me disse, Quando te vires aflito, estende o braço e corre! (Risos).
Fora isso, disse-me ele, o ponto para atacar é o pescoço, cortando as
carótidas o mais depressa possível. Para defender disse-me para colocar
qualquer coisa no braço, que pudesse servir de escudo para as facadas
do outro, e actuar com a outra mão. Pouco mais me disse do que isso.
Isto é apenas um exemplo de como as necessidades nos fazem aprender
coisas que parecem obsoletas, mas que vêm sempre à actualidade.
A
necessidade da defesa individual não a procurei
para mim, mas para ensinar, pelo menos os pontos principais. Na tropa
não se pode estar com fantasias de combate, é preciso aprender golpes
mortais de defesa, a altura em que se deve tirar a faca para esfaquear.
Agora, quem o faça de uma maneira desportiva não pensa bem no que está
a ensinar. Isso é um bocado assim. Na tropa dessa altura as coisas faziam-se
um pouco na desportiva.
6- Como é
que foi parar à Academia de Judo?
SD-
Como é que eu soube, não lhe sei dizer. Já conhecia o Corrêa Pereira
nessa altura. Penso que terei visto um anúncio. Penso que apesar do
meu pai conhecer bem o o
do Corrêa Pereira não terá sido por aí.
Mestre
Corrêa Pereira
7- O termo
Artes Marciais já era conhecido por ser uma forma de combate?
SD-
Ah sim, com certeza, já havia muita malta que tinha praticado e ensinado
aqui.
8- Que tipo
de pessoas apareciam para praticar na Academia de Judo?
SD-
Procurávamos rapazes de todo o género. Havia alguns que iam, mas acabavam
por desistir. Apareciam militares também.
9- Fale-me
um pouco do Mestre Corrêa Pereira?
SD-
Ele foi efectivamente a pessoa que mais compreendeu as Artes Marciais,
tinha um perfeito conhecimento do que elas eram. Tudo vivia às suas
custas. Foi ele que pagou ao Mestre Shirooka. Era um entusiasta pelas
Artes Marciais e pela União que criou. Era um homem, sob o ponto de
vista pessoal, com uma noção muito profunda da amizade. Na minha opinião
as Artes Marciais devem-se muito a ele, conseguiu criar um grupo de
rapazes que ajudaram a criar todos estes dojo pelo país, até para Moçambique
foram. Mas praticava pouco, ensinava uma vez por outra, mas de maneira
geral praticava pouco.
Um dia fizemos
uma demonstração para o Embaixador do Japão em Portugal que veio
publicada numa revista inglesa de Judo, integrada num capítulo,
que trazia sempre, dedicado ao Judo no estrangeiro. Dizia esse artigo
que tinha havido uma demonstração da União Portuguesa de Budo e vê-se
uma fotografia em que eu estou no chão e o Corrêa Pereira a fazer-me
uma técnica ao pé. (Risos) Esse embaixador era uma pessoa muito gentil,
de grande classe, esteve como embaixador, durante a Guerra, na Alemanha
e em parte foi devido a ele que o Shirooka veio do Japão.
Mestre
Corrêa Pereira e Eng. Sebastião Durão
10- Porque
surgiu mais facilmente a ligação da União Portuguesa de Budo a artes
japonesas do que de outro país oriental, como da China, por exemplo?
SD-
Há certas coisas que surgem ao mesmo tempo. Se eu disser que as Artes
Marciais japonesas são mais antigas do que as chinesas é capaz de não
ser verdade. Seria preciso dedicarmo-nos sobre a documentação dos diversos
países para sabermos, o que não está ao nosso alcance. Houve uma altura
em que o Japão enviou para a Europa alguns representantes. O Japão não
pode tecnicamente fazer as Artes Marciais reais, tem que fazer sempre
as desportivas. Como esses representantes eram sempre desportivos nós
não nos ligámos.
11- Qual foi
a grande dificuldade que tiveram em impor a filosofia da União Portuguesa
de Budo, que preconizava essa prática real?
SD-
Como já lhe disse o Governo da altura aceitou tudo quanto lhes disse.
Havia essencialmente um factor de confiança, partiam do princípio que
como eu era conhecido dentro dos ministérios, não poderia ser uma coisa
que prejudicasse o país. Sabiam que era uma coisa nova, uma arte de
defesa, à semelhança da esgrima. Foi assim que coloquei o problema.
12- E assim
conseguiu aprovar a primeira associação de Artes Marciais em Portugal.
Quando surgiu a C.D.A.M., o Sr. Engenheiro disse que ela surgiu para
controlar as Artes Marciais em Portugal. Porquê essa necessidade?
SD-
Eles partiram do princípio que se as Artes Marciais tivessem um
grande desenvolvimento poderiam levar à criação de grupos perigosos,
gangs. Os problemas de segurança seriam maiores. A menos que as forças
de segurança tivessem as mesmas armas aliás, penso que procuraram fazer
isso. Calculo que as forças de segurança aprendem defesa pessoal. O
problema da segurança e o problema do contacto entre o público e a polícia
é muito complicado. Se a polícia e o público utilizam as mesmas armas,
na mesma dimensão, pode ser um problema para os primeiros. A polícia
tem que representar muito mais poder e força, para conseguir dominar
milhares de pessoas, pois encontra-se sempre em inferioridade numérica,
por isso, se não for mais eficaz com as suas armas não tem hipótese,
pois as multidões são muito numerosas.
13- E as Artes
Marciais desportivas, seriam igualmente perigosas?
SD-
As Artes Marciais desportivas têm que ser jogadas em condições semelhantes
e nas verdadeiras não há condições, vale de tudo a pessoa combate
com quem tiver de combater. Quando aparece um tipo para o roubar ou
matar, não lhe pode dizer que como ele tem mais 30kg pode levar o quiser!
(Risos) Não pode ser. Os homens têm todos os mesmos pontos fracos, como
os testículos, virilhas, plexo solar, região abdominal inferior, etc.
Podem haver excepções, como pessoas com abdominais fortíssimos ou os
lutadores de Sumo que recolhem os testículos, mas são raras.
Eu gosto muito
de utilizar armas de fogo, gosto muito de ir à carreira de tiro. Agora
imagine que tem uma arma na mão, a decisão de disparar, numa situação,
por exemplo, de estar a ser assaltado e ter que defender a sua vida
e de quem vai consigo, é uma coisa muito difícil. É muito complicado
saber qual o momento exacto para actuar. Em qualquer circunstância.
Gostaria de
agradecer e deixar expresso o prazer e orgulho que sinto por o ter conhecido
pessoalmente. Muito obrigado.
Entrevista realizada em 4 de Janeiro de 2001
Pedro
Escudeiro
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