1- Pode-nos dizer o seu
nome, idade e graduação de Aikido?
Agostinho Vaz- Agostinho Vaz, tenho quarenta e nove anos, quanto a graduações
devo dizer que a meu ver estas só fazem sentido no âmbito de uma mesma
escola ou Associação, e mesmo assim... Digamos que, sou cinto negro
desde 1987.
2- Compreendo
o seu ponto de vista, no entanto, a graduação faz parte do bilhete de
identidade do praticante, independentemente da importância que cada
pessoa, individualmente, lhe confira e o seu valor dentro da escola.
Além disso, parece-me que se não fosse importante, a Federação Portuguesa
de Aikido (FPA) não teria um sistema de graduação nacional, a par de
um internacional. Pode abrir uma excepção e revelar qual a sua graduação
publicamente? Qual o motivo de base por trás deste sistema nacional
de graduação da FPA?
AV-
As graduações têm de facto importância para que as pessoas se situem
no caminho. A FPA têm um sistema de graduações nacional, reconhecido
também internacionalmente, não temos graduações chamadas "internacionais",
o que temos é a possibilidade de dar graduações, dan, da Aikikai
- Hombu Dojo, aos praticantes que a desejarem
(não é obrigatória) e requererem exame, o qual será feito perante um
delegado e júri daquela Instituição, na qual a FPA é a única organização
portuguesa que está reconhecida.
Não
sei a quem possa interessar saber a minha graduação, sou 3º dan.
Poderá parecer estranho, dado que pratico há tantos anos, e sou
provavelmente um dos mais antigos praticantes de Budo (desde 69) e de
Aikido do nosso país, no activo, e tive alunos que são hoje 4º dan.
Enfim, nada de grave, no que me diz respeito. O que deverá evitar-se
é que de futuro as organizações venham a estar dominadas (como já aconteceu)
por indivíduos que fazem das graduações um instrumento
político e não fazem ideia do que seja a tradição
a que os japoneses chamam Sempai-Kohai.
Penso
que com a criação de uma Comissão de Graduações, composta de professores
experientes e com regras de funcionamento bem definidas, o sistema irá
melhorar e dará maior credibilidade às graduações. Refiro-me às graduações
dan, já que as graduações de kyu são muitas vezes conferidas
em exames efectuados nos próprios Dojos, quando o instrutor tem
nível para os realizar.
3- Quando começou
a praticar Aikido? Descreva, por favor, o seu percurso até este momento.
AV-
Comecei pelo Judo em 1969, o qual pratiquei entre 69 e 74, tendo inclusive
entrado em competições oficiais. Após um interregno, iniciei o estudo
do Aikido em 1977, em Almada no Ginásio Clube do Sul, com o Prof. Katsumi
Motomura, o qual ensinava também em vários Clubes de Lisboa. Em 1978,
K. Motomura regressou ao Japão sendo substituído por Toshio Kawakami
da mesma Associação japonesa, a "Shiseikai".
Este professor tinha a particularidade de ensinar, a par do Aikido,
o Kenjutsu "Kashima Shin Ryu"
Como na época a profissionalização no ensino de Artes Marciais era difícil,
também este prof. regressou ao Japão em finais
de 1979, passando o ensino nos Dojos desta Associação, nomeadamente
o Clube TAP, o Ginásio Clube do Sul ou o Clube Lisnave a ser assegurado
por outros professores nacionais e estrangeiros. A minha prática continuou,
na União de Budo, depois na AKP (Associação Aikikai de Portugal-ed)
e, por fim, na FPA. Desde 1986 que tenho seguido em Portugal e no estrangeiro
o ensinamento do Mestre N. Tamura, o qual em conjunto com o Mestre S.
Sugano, que nos visita regularmente desde 1996, constituem as minhas
principais referencias. De referir também
a presença em Portugal de outros importantes alunos de O-sensei, sob
cuja direcção tive a honra de praticar: Y. Yamada, e em 1992 o saudoso
Mestre Morihiro Saito. Desde 1985 que ensino
na cidade de Almada, primeiro no Clube Lisnave de 1985 a 1990,
no Núcleo Cultural do Alfeite de 1987 a 1992 , e desde 1992
na Sociedade F. União A. Piedense.

Foto 1 - Katsumi
Motomura e Toshio Kawakami no antigo Ginásio Clube do Sul, em 1978
-
Início de katas de Kenjutsu -
4-
Pode-nos falar um pouco do Prof. Katsumi Motomura e do Prof. Toshio
Kawakami? (Quem é ele como praticante? De onde veio e como chegou a
Portugal? Ainda pratica e tem contacto com ele? Que organização é esta
a que estava ligado? Quanto tempo permaneceu em Portugal? Que outros
alunos, ainda praticantes, teve ele? Ainda existe essa escola em Portugal?)
AV
São muitas questões, a que tentarei responder de forma sucinta. O Prof.
Motomura veio para Portugal ao que penso por volta de 1975/76, era na
altura 3º dan de Aikido e formado em engenharia, penso que tinha uma
bolsa e estudava também Português. Começou a ensinar na antiga Escola
de Budo que funcionava em Lisboa no Largo de Sapadores e a que estavam
associados outros professores japoneses, como o Tsuchyia (Nipon Kempo,
depois Taido) e outros. Katsumi Motomura ensinou igualmente em vários
Dojos de Lisboa e de Almada e lançou a dita Associação no nosso
país. Como teve que regressar ao Japão, foi substituído por Toshio Kawakami
em 1978, mas a Associação não avançou pois alguns interesses, já instalados,
contrariavam a implantação. Não chegou a ser reconhecida pela antiga
CDAM, não sei porquê, e houve até alguém que
disse mesmo que não havia lugar para mais uma Associação (os tempos
eram outros), de forma que em finais de 1979 também este professor regressou
ao Japão, passando alguns Dojos a estar sob a orientação do Professor
M. Honda e outros da União Portuguesa de Budo. Há muitos anos que não
tenho contacto com estes professores de forma que não sei se ainda praticam
ou se ensinam. Ambos tinham um Aikido muito perfeito e cheio de kiai.
T. Kawakami era mais tradicional, a começar na própria saudação
e ensinava o kenjutsu a par do Aikido. A Shiseikai
era na altura dirigida por Shigeo Tanaka (8º dan) , que chegou a vir a Paris dar estágios. A Academia Shiseikan
de Tóquio penso que é actualmente dirigida
por outro mestre. Em Portugal há um outro instrutor a ensinar, que foi
aluno do K. Motomura, mas com a vinda do T. Kawakami não se adaptou
a este professor e foi de imediato estudar com o Honda.
Actualmente acho que está ligado ao Aikibudo do Professor francês
Floquet. Quanto a mim integrei muitos dos ensinamentos e técnicas desta
escola na minha prática e ensinamento, com excepção do kenjutsu, que
não ensino.

Foto 2 - Toshio
Kawakami, executando Juji Garami - 1978
Uke:
A. Vaz
5-
Pratica outras Artes Marciais? Quais?
AV-
Pratico o Iai Do
6-
Que relações observa entre a prática do Iai Do e do Aikido?
AV-
No Iai Do, como no Aikido, a etiqueta (rei-shiki) é muito importante.
Existem igualmente algumas semelhanças com o Aikiken do ponto
de vista técnico, nos suburi, e nas posturas (kamae),
embora a posição dos pés seja um pouco diferente. A busca da harmonia
e a concentração é um objectivo comum a ambas as artes.
7- É da opinião
que para se compreender melhor o Aikido é necessário, por vezes, praticar
outras formas de Budo?
AV-
De maneira nenhuma, o Aikido é uma Arte Marcial Superior, Completa
e Educativa, em que podemos progredir e evoluir durante toda a nossa
vida de praticantes e atingir altos níveis de mestria técnica e de desenvolvimento,
na Via do auto-conhecimento e da harmonia espiritual, sem necessidade
de complementos. Mais, o Aikido é uma das poucas Artes Marciais em
acção no mundo contemporâneo (Japão incluído), a maioria está direccionada
apenas para a vertente competitiva do Desporto. Se algumas pessoas praticam, além do Aikido, outras
Artes como, o Iaido, o Tai Chi Chuan, ou outras, é apenas por fascínio
pelas Artes Orientais, pela sua estética, ou pela sua cultura.
8-
O Professor referiu que o Aikido é uma Arte Marcial Superior, Completa
e Educativa. Pode caracterizar o que lhe confere estes adjectivos?
AV-
Superior, porque contém ensinamentos e estratégias específicas
desenvolvidas ao mais alto nível das capacidades do ser humano, ao contrário
de algumas artes mais especializadas, como por exemplo as do kobudo
que podem contemplar apenas o manuseio de um instrumento (nunchaku;
sai, etc.). Completa, porque não tem necessidade de se
complementar com recurso a outras disciplinas. Educativa, porque,
contribui para educar o ser humano, no seu todo, não só o corpo mas
também o espírito, como a palavra "Do" implica.
9- Qual o papel
que para si têm as Artes do Budo na vida real? De que forma faz a sua
integração no dia-a-dia?
AV-
As artes do Budo são na actualidade sistemas de Educação que através
de uma prática guerreira, devem desenvolver um corpo e espírito sãos
para o dia a dia. Permitem reequilibrarmo-nos face às tensões do dia
a dia e, ainda, ao darem-nos um melhor conhecimento de nós próprios,
e autocontrole, permitem uma melhor resposta a todo
o tipo de solicitações, sejam elas de ordem física ou mental, com que
somos confrontados na nossa vida diária, por forma a criar mais harmonia,
com nós próprios, com os outros e com a Natureza. Não para destruir
ou vencer adversários, mas sim, como dizia o fundador do Aikido
Morihei Ueshiba, « ... ... fazer da
humanidade uma só família».

Foto
3 - Com os Professores da União Portuguesa de Budo, Leopoldo
Ferreira e João Luís
Demonstração
na Figueira da Foz, em 1981
10-
Se, como afirmou, o Budo prepara para a vida e sendo a sociedade actual
extremamente competitiva aos mais diversos níveis, não lhe parece irónico
que se tenham tantos anticorpos para com a Competição?
AV-
Talvez haja quem tenha os ditos anticorpos, não sei. Porém, as competições
desportivas não são como as da vida real (por exemplo, na vida real,
ninguém ataca com faca de borracha, como nas competições do Tomiki Ryu
Aikido). As competições para os títulos desportivos, engendram regras,
normas, limitações que as afastam da realidade. Ora
o Aikido vive na realidade, na Natureza, não rejeita nenhum ataque,
não tem limitações nem regras artificiais. Tal como na vida o Aikidoca
treina-se para poder fazer face a ataques reais, por vezes sem regras
com que se depara. Evitando contudo a violência
desnecessária, e tentando, sempre que possível, a resolução pacifica
dos conflitos. Como disse o Doshu, Kisshomaru Ueshiba «OAikido pode
ser doce e suave, ou,
ao inserirmos um pouco de força, ser devastador».
11- O Aikido
é, em parte, especial dentro de outras artes, por não possuir a vertente
competitiva, resumindo-se a prática quase exclusivamente à execução
de técnicas pré-combinadas em que uke e tori desempenham
um papel pré-definido. Gostaria de saber qual a relação existente entre
Arte Marcial, Combate e Competição, na sua perspectiva?
AV-
A execução de técnicas da forma que o Pedro refere é a meu ver apenas
uma parte da prática, existem outras. A partir de um certo nível o
praticante deve poder fazer face a qualquer ataque, venha de onde vier
e qualquer que seja a situação em que se encontre.
Sinto-me
honrado, por o Pedro me colocar perguntas tão complexas, pois não sou
um mestre, nem um teórico das artes de combate, e portanto a minha opinião
vale o que vale. Respondendo à questão: Arte
Marcial é, a meu ver, um sistema completo de combate guerreiro, com
Estratégias, Princípios e uma filosofia específica, que a caracterizam
e formam um conjunto coerente. O "Combate" poderá ser contra
o/s adversário/s, aplicando ou não as técnicas de uma A.M. ou poderá
ser contra os adversários nossos conhecidos: a dúvida; o orgulho; a
preguiça; a indecisão; etc. A Competição é o combate com regras e
limitações de segurança, com vista a uma performance desportiva. Costuma
dizer-se que: no Aikido a competição é connosco próprios, isto é procurar
sempre fazer melhor. Ou será: ... ser melhor ?
12-
Qual a sua opinião acerca da aprendizagem do Aikido frequentando estágios
pontuais, por vezes mesmo com professores distintos, quando comparado
com a forma tradicional de viver com o mestre?
AV-
O sistema de "uchi-deshi", que o Pedro afirma, ser
uma forma tradicional, será sem dúvida uma forma ideal de aprender uma
arte marcial. No entanto julgo que nos dias de hoje é cada vez mais
difícil a frequência de escolas de A.M. em regime de internato, penso
que mesmo no Japão serão poucas a funcionar nessa forma tradicional,
poucas pessoas poderão dedicar-se inteiramente ao estudo de uma A.M.
Nos dias que correm, sobretudo no Ocidente, as pessoas têm que
trabalhar para ganhar o seu sustento e da família, ou fazer os seus
estudos oficiais e só nos tempos que lhes restam do dia, poderão praticar
artes marciais.
Quanto
aos estágios pontuais que refere, não creio que alguém aprenda dessa
maneira, o aluno normalmente segue o seu professor, no dojo onde pratica,
durante vários e bons anos. Mais tarde poderá praticar com os seus próprios
alunos (se estiver a ensinar), mas continuará a visitar o seu professor
de forma periódica, ou a frequentar os seus estágios, ou os estágios
do mestre que o seu professor aconselha. Mais tarde ainda, aquele que
foi aluno torna-se professor e, embora continue sempre a visitar o seu
mestre, ou a ser visitado por este, de quando em quando, deve aos poucos,
e segundo dizem os antigos - ir cultivando
a "Arte de caminhar com os seus próprios pés".
Ainda acerca
dos professores distintos, a meu ver, embora o aluno possa pontualmente
frequentar aulas ou estágios de outros professores ou mestres, a fim
de testar a sua técnica com outros praticantes, verificar diferenças
ou mesmo conhecer um pouco de outras "correntes" da sua Arte
ou outro Budo, não é de facto desejável que o aluno, ande constantemente
a mudar de professor, a não ser por motivos fortes.

Foto 4 - Demonstração
no Festival de Artes Marciais de Almada em 2000
Jo-Tai-Ken
13-
O'Sensei desenvolveu um sistema de armas, ken e jo, bastante peculiar
e característico, embora baseando-se nalguns sistemas de armas japonesas
tradicionais. Actualmente sabe-se que O'Sensei nunca permitiu que se
praticassem técnicas com armas na sua ausência e Morihiro Saito Sensei
foi a única pessoa a ter autorização para as ensinar, o que fez em Tóquio
durante um curto período na aula semanal que leccionava, guardando apenas
cerca de 15 minutos para esse estudo. Levando em conta estes dados,
o que considera ser o aikiken ou aikijo do Aikido? Aprender
um sistema de luta com uma arma por um praticante de Aikido faz com
que se torne o aikiken ou aikijo?
AV
Não tenho respostas, mas tenho perguntas: Quando se vê o Mestre Kisshomaru
Ueshiba a atacar o Fundador com boken ou jo, nos livros
e filmes, será que ele não estava também a aprender?
O que fazia o Mestre Tamura quando ia a Iwama (como se vê nalgumas
fotos), e com quem aprendeu as técnicas de kumitachi ou de kumijo
que ensina? Ou o Mestre Sugano (que de resto penso que também estudou
em Iwama)? Porque é que o OSensei deu um diploma de armas ao Mestre
Hikitsuchi? Será que foi mesmo só o Mestre Morihiro Saito que aprendeu
armas com o Fundador? Não sei.
O que
sei é que de facto, o Mestre Morihiro Saito,
teve o mérito de fazer uma Codificação e uma apresentação muito completa
e exaustiva dos trabalhos de armas, a qual serve de referência a muitos
praticantes no mundo inteiro.
Considero
como aikiken e aikijo, os trabalhos de ken,
e de jo (kumitachi, tachi dori, ken suburi,
kumijo, kata, etc.) segundo os Princípios Aiki. No me diz respeito, aikiken
e aikijo é o que me foi transmitido directamente por vários professores
e mestres, em especial aqueles cujos ensinamentos constituem as minhas
principais referências, cimentadas em dezenas de estágios no nosso país
e no estrangeiro: Nobuyoshi Tamura (desde 1986) e Seiichi Sugano (desde
1996). Neste campo, foi também importante para mim, o estágio do Mestre
Morihiro Saito em Lisboa, 1992, o qual foi de uma extraordinária riqueza
em ensinamentos de armas.
14- Teria muito
gosto em responder às questões que me colocou, mas como as respostas
às suas dúvidas podem ser rapidamente clarificadas com uma cuidada pesquisa
histórica dos documentos já publicados e acessíveis a todos, creio ser
mais útil que cada um o faça por si. No entanto,
não deixarei de fazer um pequeno apontamento. Nenhum dos praticantes
de Tóquio, como o Mestre Tamura ou Sugano, estudou alguma vez em Iwama.
A única excepção foi o Mestre Chiba que permaneceu durante três meses
apenas. As fotos que refere dizem respeito a momentos pontuais, quando
algum dos praticantes de Tóquio acompanhava OSensei nas suas viagens.
15- O Prof.
é actualmente o Presidente da Federação Portuguesa de Aikido. Quais
são as principais lacunas da arte em Portugal?
AV-
A principal penso que é o facto de não estar ainda acessível a grande
parte da nossa população. Estou-me a lembrar por exemplo de grandes
cidades e mesmo vários Distritos do nosso País, onde não existe sequer
um Dojo com Aikido. Algumas pessoas perguntam-nos: Porque é que não
há Aikido na minha cidade ?. É uma tarefa para os próximos anos. A nossa disciplina,
apesar de estar em Portugal há mais de trinta anos, tem ainda uma grande
margem para se expandir, a exemplo de outros países. Não a qualquer
preço e com pressas, mas sim com passos seguros, com instrutores credíveis
e formados na Tradição, no Do, a fim de que a essência da nossa arte
não se perca ou desvirtue. Cumpre à Federação e mesmo às Associações
fornecer apoio logístico e técnico aos praticantes e Dojos e
nesse aspecto penso não haver lacunas, os instrumentos estão criados.
Todos os apoios que foram solicitados a esta Direcção, quer a
nível de apetrechamento (tatamis), quer a nível de formação de
Agentes de ensino, etc., tiveram uma resposta positiva.
Apenas para dar um exemplo, o dos Açores, onde o Aikido apesar
de já ter existido, estava inactivo. A pedido dos praticantes locais, apoiámos a criação de uma
Associação e a abertura de dois Dojos, enviámos para lá tatamis
para a prática e damos formação aos instrutores, quer apoiando a sua
vinda ao Continente, quer enviando professores para a fazerem no local.
16-
Quais são os objectivos fundamentais, da FPA, neste momento?
AV-
Estão no Programa Eleitoral que elegeu esta Direcção, e são expressos
nos "Planos de Actividades" anualmente, apresentados e aprovados
pelos Associados. Resumindo diria que, para além dos Eventos nacionais
e internacionais, de uma contínua Elevação Técnico-pedagógica
dos praticantes e do apoio aos projectos de expansão a todos
os Distritos do país, que já referi, temos como grandes objectivos:
A continuação dos contactos para a uma reunificação do Aikido em Portugal.
Em liberdade, respeitando as diferenças e mantendo o respeito mútuo
entre as diversas Escolas. A modernização dos Estatutos, de acordo
com a nova lei, que se aguarda a todo o momento e com as necessidades
das Associações. Procurar também a harmonização do nosso Regulamento
Técnico com as recomendações da Federação Europeia de Aikido. O projecto
para uma nova Sede social, mais adequada a uma Federação. Que inclua um Dojo ou sala polivalente, com possibilidade
de realização de Seminários, conferências ou cursos de formação.
17- O que pensa
do facto de uma grande quantidade de escolas de Aikido não pertencerem
à Federação?
AV-
É uma herança do passado, com a qual temos que viver e procurar dar
respostas no sentido de uma maior união. Os principais obstáculos são
o medo que alguns grupos têm de perder a sua identidade e influência,
aliado ao facto de haver ainda alguma desconfiança entre os diversos
grupos. Outra condicionante, tem a meu ver um carácter geral, pois é
uma das características da nossa época, marcada pelo fomento das actividades
e produtos individualizados, chegamos ao ponto de alguns criarem a sua
própria arte marcial. Cada um tem o direito
de escolher o seu mestre, e até a sua Associação, mas porque não trabalharmos
em conjunto para objectivos comuns? É uma forma de combatermos a dispersão
e criarmos sinergias, de contrário não vamos a lado nenhum e corremos
o risco de vir a ser submergidos ou confundidos com as artes marciais/desportos
de combate, fast-food, que todos os dias surgem, algumas apenas com
pequenas variações ou simplificações das já existentes, outros não passam
de aeróbica.
18- Que mais
valia trouxe a formação dos agentes de ensino para o Aikido? De que
forma melhorou a prática, o ensino e a divulgação da arte?
AV-
Desde a antiguidade que o Professor de Artes Marciais tem um estatuto
elevado, que o obriga ao estudo de diversas disciplinas. O Mestre Tamura
diz no seu livro "Aikido": «Arte marcial não é apenas aprender
a lutar, dominar ou destruir o adversário, isso não é senão o princípio
da técnica, em seguida vêm as noções de protecção, de saúde, de arte de viver(...) para isso estudamos a anatomia,
psicologia, sociologia geografia, (...) etc. para o combate estes estudos
impõem-se, para chegarmos por fim ao homem realizado ». Os cursos
que realizamos incluem toda uma série de conhecimentos úteis a quem
quer seguir a Via: Conhecimento do corpo humano; Psicologia; Pedagogia;
Metodologia do Treino; História; etc. Cabe a cada um aplicar no ensino
da nossa arte, o melhor dos conhecimentos adquiridos.
Não
esqueçamos que a Lei obriga a frequência desses cursos, a quem está
a ensinar, os quais são também uma recomendação da Federação Europeia
de Aikido, pois permitirá o reconhecimento dos professores a nível Europeu.
19- Para termos
uma ideia, quantos agentes de ensino já formou a FPA. e
quantos estarão a ensinar?
AV-
FPA já realizou vários cursos de Nível I e também de Nível II, nos quais
deu formação a cerca de oitenta praticantes com o nível requerido para
os frequentar , no entanto apenas metade estarão a ensinar, limitando-se
outros a funções coadjuvantes.
20-
Tal como afirmou, o Budo hoje em dia é um Sistema Educativo, independentemente
do que possa ter sido no passado, nesse caso, o que está a falhar para
que seja necessário complementar com formação adequada a nível de Agentes
de Ensino? A prática de um Budo, por si só, não deveria desenvolver
estas competências?
AV-
Sim, pode desenvolver essas competências, se a prática do Budo nos
Dojos abranger as noções do que é importante para quem está a
ensinar (Pedagogia, conhecimento do corpo humano, etc). Mas como a
nossa sociedade actual é muito complexa, gosta de regulamentar, de instituir
regras de segurança, de qualificar as pessoas, e em consequência exige
de quem está a ensinar (por ser um educador), que possua os conhecimentos
segundo os padrões que ela, sociedade, considera os mais aceitáveis.
21- O Aikido
é uma arte plenamente difundida pelo país, continente e ilhas, sobretudo
devido à acção da FPA Como foi possível chegar a uma tão grande disseminação
da arte?
AV-
Não concordo com as premissas que o amigo Pedro coloca na pergunta.
Como referi atrás, o Aikido não está plenamente difundido no país, muito
terá de ser feito para que isso aconteça. A meu ver estamos apenas a
meio caminho de fazer o pleno, poderia referir-lhe dezenas de grandes
cidades, Distritos e Ilhas onde não há sequer um Dojo de Aikido, de
nenhuma Associação.
22-
Quando me refiro ao Aikido estar difundido por todo o Portugal não estou
a afirmar que existe um Dojo em cada esquina, mas sim que o Aikido não
é uma arte regional. Essa situação, que todos felicitamos, era totalmente
diferente há poucos anos atrás, antes da FPA.
Olhando para a dificuldade que existe nas escolas, com menor expressão,
para se difundirem, principalmente porque muito poucos aprendem o suficiente
da arte para ensinar e ainda menos os que escolhem a via do ensino,
gostaria de saber que iniciativas tomou e toma a FPA para conseguir
aumentar a abrangência do Aikido em Portugal?
AV-
Gostava de deixar claro que nas respostas que dou a esta entrevista,
expresso apenas a minha opinião pessoal, a qual poderá porventura, nalguns
casos não ser coincidente com a de outros membros da Direcção da FPA.
Para que as respostas representem a visão oficial da FPA, teria que
as submeter aos colegas de Direcção, para darmos respostas consensuais,
o que tornaria esta entrevista muito complicada e morosa. Com este pressuposto,
tentarei no entanto responder à entrevista o melhor que me é possível.
A expansão
foi feita, de início, essencialmente através dos alunos com anos de
prática nos Dojos das grandes cidades (principalmente nas da
área metropolitana de Lisboa), que por motivos profissionais ou da sua
vida pessoal iam ou vão, viver para as zonas de interior, e passaram
a ensinar Aikido, com o apoio da FPA. Apoio esse dado pelas sucessivas Comissões Técnicas da FPA, que através
de Apoios e Encontros técnicos nos locais mantinham os Dojos
a funcionar e a elevação técnica dos Agentes de Ensino, desde o Minho
ao Algarve, passando por Bragança e incluindo as Ilhas. Este trabalho
tem sido continuado nos últimos anos por esta Direcção e Comissão Técnica,
incluindo a realização de Estágios Internacionais no Norte e Centro
e Sul do país, assim como a realização dos Cursos de formação pedagógica
para Agentes de Ensino, iniciados na vigência do Professor Luís Antunes
à frente desta Federação, e a que estamos a dar continuidade e a melhorar
os conteúdos.
Foto 5 - Estágio
com o Mestre Tamura (ao centro)
Lisboa,
2001
23- Na génese
do Desporto existe a Competição. Uma vez que o Aikido não possui a vertente
competitiva, é fácil conciliar os interesses da arte com os requisitos
de uma federação desportiva como esta?
AV-
Tive o privilégio de avançar com a definição de objectivos desportivos
da nossa modalidade, no nosso site, www.fpaikido.pt, e até hoje ainda
ninguém os contestou ou discordou, talvez porque esses objectivos são
também compatíveis com os objectivos da Arte marcial Aikido, embora
os desta última, como sabemos, não se esgote naqueles.
24-
Quando delineou os objectivos, na visão da FPA, da modalidade Aikido,
pediu um parecer às diversas escolas, uma vez que se tratava de os definir
num âmbito alargado que não se confinava apenas ao de uma ou outra escola
que integram a FPA? Uma vez que entendeu interpretar o silêncio das
diversas escolas, relativamente a estas linhas de orientação, como "quem
cala consente", será possível que agora estando criados os objectivos
da arte não poderão estes ser um obstáculo à integração de
mais escolas, visto não se reverem neles? É que quem cala nem sempre
consente, apenas se pode extrapolar que não fala, nada mais se pode
deduzir.
AV-
Não exageremos. Quem sou eu (!), para criar (?) os objectivos de uma
arte, que me transcende e de que sou um mero praticante?! Aquilo que
referi ter colocado na net, não passa de uma informação genérica
para os cybernautas e de uma tentativa de definição de objectivos, enquadráveis
numa perspectiva desportiva, se bem que os que apontei (resumindo:
Expressão Artística, Educação e Actividade Física) vão, a meu ver,
muito mais longe do que a simples prática desportiva. Não são
também nenhuma directiva da FPA, amanhã mesmo posso retirá-los do site,
se entendermos que são errados ou que não correspondem ao interesse
da nossa Disciplina. Os objectivos da arte são mais vastos, cada pessoa
pode praticar a nossa arte com diferentes objectivos, desde que não
vão contra os Princípios.
O Aikido
e as artes do Budo em geral, são tão ricas de conteúdos que podemos
encontrar nelas um programa para toda a vida.
25-
Sendo o Budo um sistema piramidal hierarquicamente rígido em que tudo
se centra na pessoa mais graduada e antiga, como vê a compatibilidade
deste com o sistema democrático que rege as estruturas federativas e
associativas, nomeadamente em Portugal?
AV-
O sistema piramidal é desejável a meu ver, sobretudo no âmbito técnico
da arte. O aluno segue o seu instrutor ou professor, que por sua vez
segue o seu mestre, o qual por vezes é também o líder da organização.
A pirâmide pode existir dentro das Associações. As
estruturas Federativas eleitas democraticamente devem respeitar as opções
dos seus Associados e os seus líderes e apoiar as suas necessidades,
com base em princípios de equidade.
26- Gostaria
que comentasse por favor a seguinte afirmação de Morihei Ueshiba (Budo:
Teachings of the Founder of Aikido, 1ªed., p.32, Ueshiba M.): Os Desportos
são vastamente praticados hoje em dia e são bons para o exercício físico.
Os guerreiros, também, exercitam o corpo, mas ao mesmo tempo utilizam-no
como um veículo para desenvolver a mente, tranquilizar o espírito e
encontrar a bondade e a beleza, dimensões de que carecem os Desportos.
AV-
A concepção que o Mestre Ueshiba tinha de Desporto baseava-se muito
provavelmente nos aspectos competitivos destes. Actualmente
a definição de Desporto, expressa na Carta Europeia do Desporto,
subscrita pelos Ministros da CE , não obriga a actividades competitivas.
De resto o antigo ideal Olímpico «Mens sana in corpore sano», também
não me parece incompatível com os objectivos preconizados por M. Ueshiba.
É claro que na nossa arte podemos ir mais longe, nada nos obriga a ficar
apenas pelos aspectos fisico-lúdicos. Na condição de não enveredarmos
pela vertente competição. Como diz o actual Doshu Moriteru Ueshiba
« Se as competições fossem autorizadas,
o desejo de ganhar, e o desejo de vencer um adversário fariam a sua
aparição; esta fixação tornaria impossível toda a harmonização com a
natureza (...) O verdadeiro objectivo do Aikido é a união com a natureza
e agir de maneira harmoniosa com todas as
criaturas . Participando em competições um tal "estado de espírito"
não pode ser atingido.»
Como
não temos competição, não vejo por conseguinte que o facto de as Artes
Marciais estarem na maior parte dos países da UE, enquadrados pelas
Estruturas Desportivas, seja um obstáculo a que cada um encontre nelas,
no seu Dojo e na sua prática, a bondade, a beleza e o desenvolvimento
espiritual de que falava O-sensei Ueshiba.
27- Muitas escolas
de Aikido olham de forma desconfiada para uma federação, pois têm receio
que integrá-la signifique perder a autonomia e identidade. É assim que
se passam as coisas?
AV-
É provável que essa seja uma ideia corrente, mas tal não corresponde
a nenhuma realidade. Os actuais estatutos e regulamento técnico da FPA,
apesar de necessitarem de ser revistos e melhorados, já permitem autonomia
técnica, às Associações que a desejem, mantendo estas
o seu próprio programa técnico, graduações, mestres de referência,
etc. As únicas obrigações para com a Federação, que de resto são de
Lei, dizem respeito à frequência por parte dos Agentes de Ensino, dos
cursos de formação pedagógica aprovados pelo Instituto do Desporto de
Portugal, e a inscrição dos praticantes e efectivação dos seguros desportivos
na Confederação do Desporto, através da FPA.

Foto 6 - Com
o Mestre Seiichi Sugano (ao centro), e alguns alunos da SFUAP
Lisboa,
Fevereiro de 2003
28- O que teríamos
a ganhar, enquanto arte, se as escolas todas estivessem reunidas dentro
da mesma organização?
AV-
Ao estarmos inseridos numa Organização como a FPA, enquadrada pelas
estruturas desportivas oficiais, como o Instituto do Desporto de Portugal,
permite-nos ganhar sinergias para beneficiar de apoios financeiros,
logísticos e de formação, para a prática e para os Eventos dos Associados,
num quadro de benefícios e respeito mútuos.
29- Como se
encontra organizada a estrutura da Federação e como actua em termos
funcionais?
AV-
A estrutura da Federação assenta principalmente nos clubes e Associações
nela filiados, os quais elegem uma Direcção e Corpos Sociais. A nível
técnico o ensino é assegurado por uma Comissão Técnica, presidida pelo
Director Técnico Nacional escolhido pela Direcção da FPA. Esta Comissão
responde às solicitações de formação técnica pedidas pelos Associados,
elabora um programa técnico, e funciona igualmente como Comissão de
Graduações, realizando os exames de graduação técnica dos praticantes.
Conforme recomendações da Federação Europeia a que pertencemos, haverá
necessidade de criar num futuro próximo uma Comissão de Graduações.
Deverá também ser feita em breve uma revisão dos Estatutos, por forma a adaptá-los às necessidades derivadas do crescimento
e do alargamento às Associações.
30- O papel
da F.P.A. é unicamente contribuir para o desenvolvimento do Aikido na
perspectiva das escolas que a integram?
AV-
Não, sempre que possível na actual Direcção da FPA, procuramos contribuir
para o desenvolvimento de toda a família Aikido. As Federações têm
também a incumbência de representar o país perante as estruturas
supra-federativas nacionais e internacionais (FEA, FIA, etc.)
e quando o fazemos procuramos dar uma perspectiva alargada e tanto quanto
possível positiva, do Aikido em Portugal.
31- Como vê
o futuro do Aikido em Portugal? Que desenvolvimentos esperam a arte
com as directrizes que os organismos oficiais competentes têm estado
a emanar?
AV-
Sou por natureza optimista, talvez por esse facto eu veja ainda um grande
desenvolvimento da nossa disciplina no nosso país, quer em número de
praticantes, quer no nível técnico que será sempre cada vez mais elevado,
sem sacrificar os Princípios da nossa Disciplina. O futuro do Aikido
está nas nossas mãos, será aquilo que nós: Os Aikidocas, os Professores,
os Dirigentes Associativos, quisermos que ele
seja. Não há organismos competentes em Aikido, além de nós. Não sei
por isso que directrizes o
Pedro refere, estarem a ser emanadas.
Por
outro lado, ao estarmos inseridos numa Comunidade, temos de fazer o
jogo democrático, não podemos pretender ter mais direitos do que aqueles
que têm os nossos congéneres.
32-
Está arrependido de ter aceite o cargo de Presidente?
AV-
Não. Tenho alguma dificuldade em recusar os desafios que me colocam,
embora saiba que este cargo implica alguns sacrifícios pessoais, procuro
fazer o melhor que sei. Felizmente estou rodeado de algumas pessoas
de Qualidade e com coragem, que me apoiam e que tornam compensadoras
as realizações que levamos a bom termo.
33-
Gostaria de dizer mais alguma coisa?
AV-
Na hora actual a sociedade sofre transformações muito rápidas, a todos
os níveis, científico, técnico, organizativo, etc., com tudo o que isso
implica de positivo, ou de negativo. Por serem sistemas Educativos que
defendem elevados valores éticos, e humanistas, as Artes do Budo, têm
um papel importante a desempenhar nos tempos que correm e devem ser
apoiadas e desenvolvidas, devendo por isso cada um de nós
contribuir para as manter, procurando uma maior união.
A comunicação
uns com os outros é um primeiro passo nesse sentido, quero por isso
agradecer ao Pedro Escudeiro e ao Centro de Artes Orientais a oportunidade
que me dão de expressar por esta via a minha forma de estar no Budo
e também enviar-lhes os meus parabéns pelo
grande trabalho de divulgação destes ideais, que tem sido feito no vosso
site.
34- Muito obrigado.
Pedro
Escudeiro
Entrevista realizada a 16 de
Dezembro de 2003
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