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ENTREVISTA AO PROFESSOR  JOSÉ ARAÚJO

 

 

1- Pode-nos dizer o seu nome, idade e graduação?

JA- Chamo-me José Manuel da Silva Araújo, nasci em 1955 e a minha graduação em Aikido é cinto negro, dan. Na União Portuguesa de Budo, actualmente, não atribuímos graus dentro dos dan. Temos uma outra graduação, pedagógica, que é a de professor, que só é atribuída ao praticante com funções de instrutor, depois de vários anos de prática.

2- Mediante algum exame?

JA- Específico, não. Mas acaba por ter que passar por uma série de etapas, como assiduidade e capacidade técnica demonstradas nos estágios, tanto internos como dirigidos por outros professores, encontros com outras associações, demonstração de interesse pela arte que pratica, etc.

Há ainda um outro grau que muito poucas pessoas têm, como o Mestre Corrêa Pereira, o Mestre Leopoldo Ferreira ou o Engenheiro Sebastião Durão, que é o de Professor de Budo, atribuído a professores que se distinguiram especialmente, ou que atingiram esse grau nas três artes praticadas na UBU (Judo, Karate e Aikido).

Neste momento, há poucos praticantes que tenham um cinto negro em mais que uma arte. O único praticante a ter essa graduação nas três artes é, actualmente, o Mestre Leopoldo Ferreira.

3- Quando iniciou a sua prática de Artes Marciais?

JA- O primeiro dia em que pratiquei Artes Marciais, tinha ainda dez anos, foi em 1966, em que fiz uma aula de Judo, outra de Aikido e ainda de Karate, na Academia de Budo, tudo em dois dias.

4- Quem eram os professores nessa altura?

JA- Já não me lembro do nome do professor de Judo, pois nessa altura pratiquei muito pouco tempo. O professor de Aikido era o Carlos Pereira, aluno do Mestre Stobbaerts, o de Karate era o Dr. Fragoso Fernandes, aluno do Dr. Pires Martins, (o introdutor do Karate em Portugal) que era o responsável pelo Karate. Professor de Filosofia, foi uma das pessoas que mais me marcou nas Artes Marciais, pela sua abordagem séria, rigorosa e profundamente empenhada. O Karate que se praticava na altura não era Shotokai, como veio a ser mais tarde. Fiquei muito sensibilizado quando, muitos anos depois, num encontro casual, ele me reconheceu, apesar de só ter praticado com ele durante pouco tempo, tendo optado por me dedicar apenas ao Aikido. Mais tarde, voltei a praticar Karate durante alguns anos, tanto na Academia como noutras escolas, tendo como professores o Mestre Alexandre Gueifão, outra das personalidades que muito me influenciaram, o Francisco Gouveia e outros. Mas isto foi já na década de setenta.

Primeiro estágio do Mestre Stobbaerts na União Portuguesa de Budo. Pode ver-se José Araújo (12 anos): 1º da esquerda, da fila da frente; M. Stobbaerts e Dr. Durix. 1967

Foto 1 - Primeiro estágio do Mestre Stobbaerts na União Portuguesa de Budo. Pode ver-se José Araújo (12 anos): 1º da esquerda, da fila da frente; M. Stobbaerts e Dr. Durix. 1967

5- Quem eram as pessoas que praticavam lá na altura?

JA- Das que praticavam Aikido na década de sessenta, penso que já não há ninguém que tenha continuado a praticar até ao presente. Por isso, posso dizer com um certo à vontade, não sei se é uma vantagem se uma desvantagem, que sou o praticante português de Aikido mais antigo, actualmente em actividade. Há o caso do Jean-Marc Duclos, que é mais antigo do que eu, pelo menos já era muito mais graduado do que eu, quando o conheci. E, claro, o Mestre Stobbaerts, que foi o primeiro responsável técnico do Aikido dentro da União Portuguesa de Budo.

6- Depois do Professor Carlos Pereira ter deixado de ser o responsável pelo Aikido na Academia de Budo, quem o sucedeu?

JA- Foi o Leopoldo Ferreira. Embora não possa precisar neste momento quando, o Dr. Pires Martins conseguiu trazer um professor japonês, Misao Honda, na época 2º ou 3º Dan, que passava por Portugal, para ensinar na Academia de Budo, depois do Carlos Pereira se ter ido embora. Por essa altura, houve um período de um ou de dois anos, no máximo, em que estive afastado da Academia de Budo, praticando apenas Karate no Judo Clube com o Mestre Raul Cerveira e quando voltei à Academia, encontrei o Leopoldo, que tinha vindo de Angola para fazer o seu curso de Educação Física, a dar aulas. O Mestre Honda já tinha vindo a Portugal. Eu tive o meu primeiro contacto com ele por volta de 1972 ou 73, mas ele depois voltou para o Japão. Mais tarde, regressou, tendo-se se fixado por cá durante algum tempo. Mas quem ficou na Academia, em permanência, a dar aulas de Aikido foi o Leopoldo Ferreira.

Hirokazu Kobayashi e Misao Honda. Academia de Budo. 1972
Foto 2 - Hirokazu Kobayashi e Misao Honda. Academia de Budo. 1972

7- E praticantes como o Luís Antunes e outros que foram alguns dos mais próximos praticantes do Mestre Honda, durante a sua estadia em Portugal?

JA- O Prof. Luís Antunes veio de uma outra escola onde o Honda dava aulas, creio. Não me posso pronunciar com exactidão. O meu contacto com ele foi posterior.

8- Portanto, os praticantes da Academia de Budo ficaram ligados ao Mestre Honda.

JA- Sim, sim. Sempre tivemos a política de convidar as pessoas para ensinar na Academia de Budo, desde que considerássemos que tinham capacidade para o fazer, porém, nunca nos ligámos institucionalmente a qualquer entidade estrangeira ou nacional. Ainda hoje funcionamos desse modo, o que tem as suas vantagens e desvantagens.

9- Como decorreu então a orientação na União Portuguesa de Budo ao longo dos anos, no que diz respeito à prática de todas as artes?

JA- É melhor perguntar isso ao Prof. Leopoldo, porque ele foi o único a praticar todas as artes de um modo contínuo. Em termos de Aikido, o início esteve muito marcado pelo Mestre Stobbaerts. O professor de Aikido do Carlos Pereira era um praticante de Karate da União Portuguesa de Budo, também aluno do Mestre Stobbaerts, chamado Daniel Laurent. Portanto, já havia contactos com o Mestre Stobbaerts quando este ainda não estava radicado em Portugal. Lembro-me perfeitamente dessa altura, cheguei mesmo a passar para cinto amarelo com ele, num estágio de que há uma fotografia, penso que em 1967. Pouco tempo depois ele abriu o seu Dojo em Cascais, o Budokan, onde íamos muitas vezes praticar. Sempre tivemos, como política, o estabelecimento da melhor relação com os praticantes de outras escolas. Porém, a verdade é que o nosso Aikido ficou marcado, muito profundamente, pela vinda a Portugal do Mestre Hirokazu Kobayashi, professor do Mestre Honda. A partir daí, os nossos praticantes mais graduados foram presença regular em todos os estágios que ele dirigiu, tanto em Portugal como em França.

No caso do Karate, a escolha do Mestre Tetsuji Murakami na década de setenta para orientar a prática dentro da UBU foi porventura o facto mais marcante. Participei em vários estágios deste grande mestre, tanto quando pratiquei na Academia de Budo, como no Judo Clube.

José Araújo. Estágio H. Kobayashi. Março de 1975
Foto 3 - José Araújo. Estágio H. Kobayashi. Março de 1975

10- O Mestre Corrêa Pereira estabeleceu algumas relações com pessoas muito conceituadas no Budo. Como surgiram esses contactos?

JA- O Mestre Corrêa Pereira teve muitos contactos, epistolares e pessoais, com ilustres personalidades, como o Mestre Minoru Mochizuki e outros, devido essencialmente ao facto de ter estudado engenharia, na década de trinta, em Berlim. Nessa altura, como se sabe, havia uma relação privilegiada entre a Alemanha e o Japão. Ele conheceu o embaixador japonês, que pertencia à família real, e como já tinha um grande interesse pela cultura oriental acabou por ter acesso à prática das Artes Marciais. Aliás, o Mestre Corrêa Pereira era uma pessoa com interesses muito variados, em termos culturais, como a literatura, pintura, cinema, etc. E em Berlim teve ocasião de contactar com a cultura japonesa. Tudo isto me foi contado por pessoas dessa altura, algumas já falecidas. Assim, começou a praticar Judo (como arte marcial, não como desporto) em Berlim, com um mestre japonês, cujo nome desconheço. Ao fim de alguns anos, teve início a guerra e ele voltou a Portugal. Ficou de tal maneira interessado em continuar a praticar, que abriu um dojo em Lisboa na rua de S. Paulo, em 1940, a que chamou Academia de Judo, onde começou a ensinar o que tinha aprendido em Berlim. No entanto, ficou sempre com a ideia de trazer a Portugal um grande mestre para ensinar, porque ele não tinha, a nível pessoal, nem tempo nem disponibilidade para se encarregar dessa tarefa. O problema não era tanto a nível profissional, mas essencialmente a nível social, pois a sua vida era extremamente preenchida. Preferiu fazer vir um mestre japonês, a suas expensas, o que acabou por acontecer, embora uns anos mais tarde apenas, já na década de cinquenta. Os contactos que levaram à sua vinda foram estabelecidos através da embaixada japonesa em Portugal, cujo embaixador era já conhecido do Mestre Corrêa Pereira, penso que dos tempos de Berlim. Como esse embaixador tinha contactos ao nível das mais elevadas esferas no Japão conseguiu-se trazer para Portugal uma pessoa com as mais elevadas qualificações no Judo marcial, o Mestre Masami Shirooka, na altura sexto dan. Esse mestre tinha sido tenente durante a guerra. Poderá saber mais informações através do Eng. Sebastião Durão que trabalhou directamente com ele. Tem, inclusivamente algumas histórias curiosas passadas com ele. O Mestre Shirooka, por ter sido militar, levava as Artes Marciais muito a sério, muito mais do que nós, ocidentais, tanto no aspecto ético como da disciplina.

11- O contacto com o Mestre M. Mochizuki veio dessa época?

JA- Creio que não, esse contacto deve ter sido ligeiramente anterior.

12- Já havia nessa altura a preocupação de distinguir o Judo marcial do desportivo?

JA- Absolutamente. O Mestre Corrêa Pereira trocou correspondência com o Mestre Mochizuki, por exemplo, em que este lhe dava inteira razão quanto à necessidade de distinguir o Judo marcial, Budo-Judo, do outro, Undo-Judo, como lhe chamava. Numa dessas cartas, o Mestre Mochizuki refere mesmo que o Mestre Mifune (uma das figuras mais carismáticas do Judo) estava plenamente de acordo com essa distinção. O Judo desportivo tem o seu mérito, mas constitui apenas uma parte do outro. Eu não posso falar muito do Judo, porque pratiquei muito pouco, sobretudo Judo marcial (pratiquei alguns quinze anos Judo não marcial no Judo Clube de Portugal), não tendo autoridade nenhuma para o fazer. Essa distinção, no entanto, é fundamental porque atinge a própria essência das Artes Marciais e no meu caso pessoal, do Aikido. Como sabe, há tendências para que o Aikido seja competitivo, possivelmente o Pedro conhecerá muito melhor do que eu os escritos do Fundador e saberá como considerava importante essa distinção.

Quando algumas Artes Marciais foram transformadas em desporto começaram a ter muito mais praticantes, sem dúvida. O Judo, por exemplo, começou a ter uma dimensão mundial, olímpica e penso que o Karate também. Se observar uma competição de Judo actual, com os praticantes mais graduados, e uma demonstração do Mestre Mifune, que temos a sorte de poder ver em filmes da época, parece que estamos a ver duas coisas completamente diferentes. Duvido muito que o facto de uma Arte Marcial se tornar muito mais praticada e difundida a dignifique por si só, porque o número de praticantes nada tem a ver com a qualidade intrínseca da própria arte. Tal como um programa de televisão pode ter uma grande audiência e não é por isso que tem mais qualidade. Geralmente, os picos de audiência são atingidos em programas de puro lixo, enquanto um programa sobre Arte, Cultura ou Ciência tem, nos países cultural e socialmente atrasados, uma audiência irrelevante. Eu não quero menosprezar as pessoas que transformaram o Karate ou o Judo nessa nova forma e penso que as pessoas devem mesmo ter o direito de optar, mas tentar reduzir as Artes Marciais a essa vertente, como dizem grandes mestres como Mifune, Mochizuki, Tadashi Abe e muitos outros, é no mínimo redutor, para não utilizar outro adjectivo.

A União Portuguesa de Budo sempre optou por manter a prática das Artes Marciais como Budo, o que vem contemplado mesmo nos próprios estatutos, onde claramente se escreve que está vedada a prática das Artes Marciais como desporto. Porém, não se impedia os praticantes de Judo que o quisessem fazer de participarem em competições desportivas. Não o podiam era fazer em nome da União Portuguesa de Budo. Contudo, alguns desses praticantes pioneiros começaram a sentir maior interesse e atracção pela componente desportiva e afastaram-se, acabando por formar outras organizações.

Quanto ao Aikido, seja qual for a associação, apesar de algumas se reunirem dentro de uma federação desportiva, penso que nenhuma defende o Aikido verdadeiramente como um desporto, mas sim como Arte Marcial.

13- Em Portugal, o líder de um dos principais grupos de Aikido não só defende que esta é uma Arte Marcial praticada no plano desportivo, como atribui essa definição ao próprio Fundador.

JA- Enfim, é uma opinião. Por outro lado fico contente por saber que assim os campos estão mais clarificados. É importante sublinhar que quando falo na vertente desportiva, estou-me a referir tanto à componente competitiva como ao que se designa agora por "actividade de lazer". O poder quer-nos fazer acreditar que há uma grande diferença entre a componente competitiva e a não competitiva, estando agora em moda a designação, que irá ser substituída mais cedo ou mais tarde por outra, como acontece com todas as modas, de "actividade física orientada". O que se passa na realidade é que a prática competitiva ocorre numa faixa etária mais baixa e a não competitiva numa mais elevada; de resto, o espírito é o mesmo, só se distinguem pelo nível de treino exigido. Eu sou um pouco alérgico à palavra "desporto". Pratico uma actividade com uma componente física e mental, mas nunca pratiquei "desporto". Mesmo quando pratiquei ginástica no "Lisboa Ginásio", ou atletismo, no "CDUL", nunca me senti verdadeiramente a praticar "desporto". Observando o que se passa, sobretudo a nível de desportos colectivos, compreender-se-á que, para mim, a palavra "desporto" seja quase um palavrão.

14- Voltando um pouco atrás, gostaria de saber no caso do Aikido como lidavam com as diversas influências técnicas que recebiam das principais referências, Mestre Kobayashi, através de Misao Honda, e Mestre Stobbaerts?

JA- Estava habituado ao Aikido do Mestre Stobbaerts que, como sabe, é muito suave, dinâmico e movimentado e fui apanhado de repente pelo Mestre Kobayashi e fiquei impressionadíssimo. Uma das coisas que mais me impressionou no início foi estar em seiza, de costas para a entrada, como todos no tatami, e sentir que alguém tinha entrado no dojo, mesmo sem o ver. Nunca tinha sentido isso com ninguém. A praticar, praticamente não se mexia, tudo andava à sua volta, sem fazer esforço algum. Eu via os praticantes mais fortes, como o Leopoldo ou o Jean-Marc, atacarem com toda a força e pareciam uns brinquedos nas mãos dele. Isso marcou-me muito. Passei de uma concepção de muito movimento para uma de quase estatismo. Estático ao nível do movimento, mas dinâmico ao nível da força, da energia interior. Mais tarde, fiz outros estágios com vários outros mestres japoneses, mas o Mestre Kobayashi foi quem mais me marcou. Ao longo dos anos, fomos procurando complementar estas duas atitudes, aparentemente opostas.

José Araújo. Estágio H. Kobayashi. Março de 1975
Foto 4 - José Araújo. Estágio H. Kobayashi. Março de 1975

15- Actualmente, a União Portuguesa de Budo parece um pouco adormecida, poucas pessoas sentem a sua presença ou sequer sabem da sua existência.

JA- Talvez seja verdade, pois não temos muito interesse em marcar de sobremaneira a nossa presença. Talvez seja uma política errada, mas nunca procurámos divulgar muito as nossas actividades. Não temos esse objectivo de popularizar, talvez porque não tenhamos ninguém a dar aulas como profissional. Agora temos uma pequena presença na Internet, que vamos desenvolver mais.

16- Fale-nos um pouco do Mestre Kobayashi.

JA- O Leopoldo é a pessoa mais forte que conheci até hoje a nível das Artes Marciais. Mas mesmo ele, com todo o seu vigor e garra não chegava para se impor ao Mestre Kobayashi, mesmo quando ele já estava envelhecido e doente. O Prof. Leopoldo diz mesmo que quando esteve com ele, pela última vez, em França, em que já estava um pouco enfraquecido e pouco praticava já, mas quando demonstrava uma técnica era poderosíssimo.

O Mestre Honda contou-me que quando ia praticar com ele a Osaka e ele o chamava para demonstrar uma técnica, tinha que se mentalizar porque a queda nunca era fácil, apesar de já ser um quinto dan, chegando mesmo a perder os sentidos.

José Araújo. Estágio Kobayashi. Março de 1975
Foto 5 - José Araújo. Estágio Kobayashi. Março de 1975

17- Portanto, o Mestre Kobayashi foi na verdade a figura mais marcante a nível de Aikido na orientação técnica da União Portuguesa de Budo, até hoje?

JA- Sim, é a grande referência, absolutamente. Quanto ao Karate, essa figura foi o Mestre Tetsuji Murakami, como já referi acima, se bem que o Karate que se pratique agora já não seja rigorosamente o seu estilo, antes tenha evoluído para uma forma mista de alguns estilos.

18- E o Mestre Leopoldo Ferreira, o que nos pode dizer daquele que é hoje o responsável técnico da mais antiga organização de Artes Marciais em Portugal?

JA- Ele é das pessoas que mais admiro nas Artes Marciais, vive-as intensamente, de uma forma muito apaixonada e, com o mesmo interesse, pratica as três artes, Judo, Karate e Aikido. Pratica ainda Yôga e Tai-Chi. Toda a vida praticou Artes Marciais de uma forma muito metódica, treinando diariamente, mesmo quando está sozinho. A sua forma de estar na vida vai muito de encontro à própria orientação da União Portuguesa de Budo. O igual respeito pelas várias artes é uma das características da nossa organização. Por exemplo, uma das coisas que mais custava ao Mestre Kobayashi quando fazia estágios na Academia de Budo era ter que fazer o cerimonial da saudação virado para a parede de honra onde estavam fotografias dos três Fundadores destas artes, Kano, Funakoshi e Ueshiba. Ele nunca conseguiu engolir isso (Risos). Levava mesmo a mal, mas tinha que aceitar! Ficou mesmo irritado com o Leopoldo, pelo que ele me contou, por o ver a participar no estágio de Judo, que decorria antes do de Aikido, em Casteljaloux.

19- Sobre a Comissão Directiva das Artes Marciais (CDAM), o que se recorda?

JA- Muito pouco, pois eu, na época, dava aulas apenas como substituto do Leopoldo, ou do Honda, ou de outro professor, como o João Luís, por exemplo, outro excelente praticante da UBU.

 20- Este foi um organismo criado para controlar os praticantes de Artes Marciais em Portugal. Sentiu a sua presença?

JA- Na verdade é melhor passar por cima disso, porque tenho muito pouca informação que lhe possa dar. Acompanhei-a muito pouco, participei nalguns cursos e encontros organizados por ela. Na altura era muito ingénuo, ainda sou, mas nessa época era ainda mais. O que me interessava era chegar ao tapete e praticar. Sabia da existência da CDAM, mas era muito novo para me aperceber das suas implicações políticas. Como praticante passou-me um pouco ao lado. Nessa altura, fui entrevistado para um jornal diário sobre esse assunto. No dia seguinte, o Dr. Pires Martins, director da Academia, veio ter comigo e deu-me os parabéns pelas minhas declarações. Sei que houve algumas questões, essencialmente burocráticas, entre a CDAM e a União Portuguesa de Budo, mas que foram ultrapassadas. É claro que, por vezes, as questões burocráticas são suficientemente perturbadoras para influenciar a prática, mas creio que não chegou tão longe.

Leopoldo Ferreira, Misao Honda e José Araújo. Arganil
Foto 6 - Leopoldo Ferreira, Misao Honda e José Araújo. Arganil

21- Parece-lhe que se pode estabelecer algum paralelismo com o que se passa hoje em dia, em que há uma tentativa de aglomerar todas as escolas dentro de federações desportivas?

JA- Quanto a isso vou dar a resposta que o Mestre Leopoldo deu há uns anos atrás quando tentaram impor os critérios que estão a tentar hoje: - "No dia em que me vierem aborrecer, vou praticar sozinho para o pinhal". (Risos) Mas, agora a sério, há meios de ultrapassar esta situação, a criação da APAE-BUDO (Associação de agentes de ensino de Budo) poderá vir a resolver, ou a ajudar a resolver esta situação.

22- Pensa que mais cedo ou mais tarde estas imposições vão modificar a prática?

JA- Sim, penso que sim. Essencialmente, vai limitar a multiplicidade de opções das pessoas assim como a liberdade de associação que está consagrada na constituição. Mas ao mesmo tempo penso que vai ser muito difícil implantar essas regras, vai ser muito complicado pôr certas coisas em prática.

23- Mas coisas como o seguro desportivo não lhe parecem importantes?

JA- Sim, sim, isso deve ser da responsabilidade dos próprios locais onde se pratica. Não vamos perguntar aos praticantes se têm seguro da federação A ou B. Isso é limitativo.

24- E os atestados médicos para se poder praticar?

JA-   Essa iniciativa é positiva e até uma segurança para os professores, porque o facto de nada saberem acerca dos alunos que têm à frente pode ser arriscado. Pode haver indicações médicas que nos chamem a atenção para determinadas situações, tanto a nível cardíaco como esquelético. Eu informo-me sempre da existência ou não desse tipo de problemas a cada novo praticante que me aparece.

25- Não lhe parece irónico, ao mesmo tempo, que um dos objectivos da prática das Artes Marciais seja o de fortalecer o corpo e agora poder passar-se a ser impedido de o fazer porque não se é totalmente saudável?

JA- Acho, mas... Por aquilo que eu disse atrás pode parecer que sou uma pessoa antiquada e reaccionária, mas não sou nada disso. O que acontece é que hoje a vida tem muito mais valor do que tinha quando estas artes foram criadas, no Japão. E essa mudança é positiva. Tem que se integrar este aspecto do pensamento ocidental na prática das Artes Marciais. Em toda a filosofia oriental, a vida como entidade individual sempre teve um valor muito relativo. Nós, ocidentais, temos uma concepção da vida em esta aparece como algo extraordinariamente importante. Penso que será melhor que uma pessoa que não tenha condição física suficiente para praticar algo a possa praticar com algumas reservas, prevenindo-se de problemas de saúde, do que aconteça algum acidente, como já vi acontecer uma vez com um praticante de Judo com muitos anos de prática (não na UBU), que teve um ataque cardíaco durante uma aula.

Há grandes mestres como Koichi Tohei, por exemplo, que, pela sua condição física bastante frágil em criança, com as regras de hoje, talvez nunca tivesse podido praticar ou se o tivessem deixado seria com muitas limitações e nunca se teria tornado naquilo em que se tornou. Efectivamente estamos numa época diferente, onde a transmissão dos conhecimentos é diferente da daquela época. É evidente que, actualmente, uma pessoa se pode inscrever em qualquer escola e praticar o que quiser, mas no tempo de O'Sensei não era assim tão fácil.

26- No dojo de O'Sensei, em Iwama, ainda é assim hoje em dia, nada se alterou.

JA- Ainda bem que é assim, mas temos que reconhecer duas realidades distintas.

27- O único trabalho que conheço acerca da história do Aikido em Portugal foi realizado por si, como um registo para a União Portuguesa de Budo.

JA- Não é um trabalho exclusivo de Aikido, é acerca das várias artes. Mas existem outros trabalhos em português, sei que o Mestre Stobbaerts tem alguns livros.

Portela. Estágio de Aikido. Professores da União Portuguesa de Budo
Foto 7 - Portela. Estágio de Aikido. Professores da União Portuguesa de Budo

28- Mas sobre a história da arte não.

JA- Pois, isso não. Este pequeno trabalho não tem a profundidade ou a dimensão que pretenda ser um livro sobre o desenvolvimento do Aikido em Portugal. Isso caberá a outras pessoas com mais tempo e que tenham acesso a outro tipo de informação.

29- Qual considera ser o papel das Artes Marciais hoje em dia?

JA- Gostaria de deixar claro que o ambiente que rodeava o ensino do Aikido na época de Ueshiba é totalmente diferente daquele que existe hoje em dia. Mesmo a diferença entre a sociedade oriental e a ocidental, dessa época, deve ser levada em conta. E qual é a função que está reservada às Artes Marciais, actualmente, em que se vive ao ritmo do século XXI? Evidentemente, a parte da componente de defesa, marcial, de combate é muito pouco importante, porque as pessoas não andam a lutar, a menos que sejam marginais, esses é que lutam na rua. Em princípio, uma pessoa que não seja anti-social não o fará. Não é para andar à pancada que as pessoas devem aprender Artes Marciais.

Uma pessoa não anda a praticar uma qualquer arte durante dezenas de anos para um dia eventualmente a poder aplicar; isso é muito pouco como motivação. Felizmente nunca tive necessidade de utilizar o que aprendi nas Artes Marciais, sempre fui pacífico e ninguém me obrigou a utilizá-las. Não tenho dúvida de que a minha personalidade, o meu comportamento social e mesmo profissional foram muito marcados pela minha prática das Artes Marciais.

José Araújo praticando Kyudo com Mestre Yokokoji. Sesimbra. 1995
Foto 8 - José Araújo praticando Kyudo com Mestre Yokokoji. Sesimbra. 1995

30- Afinal, esse não era o principal objectivo desde sempre da prática de Artes Marciais?

JA- Sabe que o motivo que levou o Ueshiba a desenvolver o Aikido foi diferente do dos seus professores. Sokaku Takeda, por exemplo, era uma pessoa muito conflituosa e que andava regularmente a combater. Era uma pessoa muito complicada.

31- Sabe que muitas das coisas que se contam de Sokaku Takeda foram desmentidas pelos historiadores e por quem o conheceu realmente. O Aikikai parece ser o responsável por passar uma imagem dele que não corresponde à verdade, como forma de abafar a influência que teve em O'Sensei.

JA- Não sei, só estou a dizer o que consta. Seja como for, essas pessoas viviam numa época em que passavam perigos de morte. A componente de combate estava, por isso, ao nível das outras, se não mais. Os indivíduos ou eram eficientes naquilo que faziam... ou acabava-se. (Risos)

É mais do que claro que hoje em dia essa componente não tem qualquer importância, ou se tem é muito relativa. As pessoas que conheço nas Artes Marciais com histórias de violência são pessoas que não me merecem credibilidade nenhuma. Quanto a mim são pessoas muito próximas da marginalidade. Não vou referir nomes, como é óbvio, mas são sobejamente conhecidas no meio do Karate, em particular.

Qual é a função que eu vejo para uma pessoa tirar tempo da sua vida para praticar uma Arte Marcial? Ainda para mais hoje em que o tempo é tão escasso, horas que podem valer muito dinheiro e que se tiram para a prática de uma coisa que é difícil, custosa, onde se pode contrair lesões graves, mais cedo ou mais tarde. Vejo as Artes Marciais para o homem moderno como um complemento para a sua formação ética, social e individual, sem esquecer a vertente da saúde. No Aikido, para além da preparação cardio-pulmonar, muscular e de flexibilidade, para só referir a parte física, temos uma componente de massagem em pontos sensíveis muito boa para a saúde. Em nenhuma outra arte encontramos esse aspecto tão desenvolvido.

A possibilidade de aperfeiçoamento moral, ético e social é o aspecto mais importante para mim, da prática de uma Arte Marcial, independentemente de cada escola praticar a mesma técnica de formas diferentes. Essa diferença é, num certo sentido, relativamente pouco importante.

32- Considera então que o Aikido não é caracterizado também por uma definição técnica específica e típica?

JA- Não, não é isso, expliquei-me de modo deficiente. É evidente que a componente técnica é fundamental. Mas se observarmos o Mestre Ueshiba, ele faz certas técnicas de maneiras diferentes, com movimentos corporais muito distintos e são todos do Mestre Ueshiba. Se compararmos com as mesmas técnicas executadas por mestres como Tohei, Saito, Shioda, Tamura ou Kobayashi, por exemplo, estamos em presença de modos de execução completamente distintos e, no entanto, todas são Aikido ao mais alto nível.

33- O que pergunto é se uma Arte Marcial não passa também pela forma técnica e que a transmissão precisa desta é essencial para a sobrevivência da sua especificidade.

JA- A parte técnica é obviamente fundamental. Se eu executo determinada técnica de uma maneira e não de outra, é porque sinto que do modo como eu a executo é mais eficaz, e só o modificarei quando alguém me demonstrar que de outra maneira é melhor. Mas, tal como no exemplo que dei na resposta anterior, encontramos diferenças entre aqueles grandes mestres, mas também encontramos muitos pontos comuns. São eles que constituem, quanto a mim, a essência técnica do Aikido. É evidente que a aprendizagem se faz pela imitação, mas o desenvolvimento técnico só é conseguido pela prática, em condições próximas da realidade. Não penso que a imitação do Mestre Ueshiba, ou de outro qualquer, constitua só por si um garante de fidelidade.

O que gostava de ver era as pessoas a respeitarem a prática uns dos outros, pois todos temos que aprender uns com os outros. Uma coisa que os grandes mestres tinham era um enorme respeito pelos outros mestres. O melhor exemplo é o de Jigoro Kano, quando disse que a arte praticada por Ueshiba era o seu Judo ideal.

Praticando Kyudo com Mestre Yokokoji 1995
Foto 9 - Praticando Kyudo com Mestre Yokokoji 1995

34- Uma das minhas grandes desilusões e que levará com certeza à destruição do Aikido, pela deturpação, foi ter-me apercebido da superficialidade dos conhecimentos de muitos dos professores com quem tenho conversado, acerca da vida e arte que Morihei Ueshiba desenvolveu. É óbvio que assim há espaço para todo o tipo de conceptualização acerca do Aikido. O que O'Sensei deixou não foi apenas uma ideia que cada um pode desenvolver como lhe apetecer, mas sim algo extremamente concreto que serve de ponto de partida, mas só depois de aprendido. E a técnica é a escada que nos permite compreendê-lo, é o centro. Infelizmente, o ensino de O'Sensei foi muito pouco específico e aliado ao facto de muito poucos alunos terem passado muito tempo com ele, o resultado é que a raiz ficou extremamente fraca. Não vejo em Portugal, com uma ou outra excepção, pessoas a tentarem seguir realmente as pisadas do Fundador, vejo-as apenas a alimentarem uma ideia romântica acerca dele.

JA-  É interessante essa ideia, realmente nunca tinha pensado dessa forma e em dar tanta importância à questão técnica. Na minha metodologia, não sou muito rigoroso com a forma, em relação aos alunos que se iniciam, procurando antes sensibilizá-los para a atitude, a coordenação entre a postura e a respiração, por exemplo. Porém, esse rigor vai aumentando à medida que progridem.

35- Gostaria de dizer mais alguma coisa?

JA- Penso que devemos ter o máximo de cuidado em preservar a integridade física das pessoas com quem praticamos. É muito, muito importante. Trata-se de uma questão de respeito. Porém, logo que o praticante esteja em condições físicas e técnicas de se saber defender de qualquer lesão, esse respeito passa por se ser verdadeiramente efectivo, quando se ataca e quando se executa a técnica. Vou citar a este respeito um passo de uma entrevista recente de Tohei: "Havia um aluno meu que (...) se distinguia pelo seu excelente ukemi, e muitas vezes acompanhava o Mestre Ueshiba. Usei-o como meu Uke uma vez numa demonstração (...), mas ele iniciava o enrolamento ainda antes de eu o projectar. Disse-lhe: "O que é que está para aí a fazer, a atirar-se para o chão ainda antes de eu o começar a projectar? Saia já daqui!" Estavam muitos espectadores presentes que ficaram muito surpreendidos, mas isso constituiu uma oportunidade inesperada para que compreendessem que as técnicas de Aikido não são falsas nem pré-combinadas.

36- Muito obrigado.

JA- Eu é que agradeço.

Entrevista realizada em 12 de Dezembro de 2000

Pedro Escudeiro

 

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