1- Pode-nos dizer o seu nome, idade e
graduação?
Manuel Galrinho – Chamo-me Manuel Galrinho, tenho 43
anos e sou 5º dan de Aikido.
2- De que organização?
MG- Ten-Chi Internacional e Federação Portuguesa de
Aikido e Disciplinas Associadas.
3- Quando começou a praticar Aikido?
MG- Comecei em 1977 em Setúbal, mas muito cedo comecei
a frequentar as aulas do Mestre Stobbaerts, em Cascais e Alcântara.
4- Eram os locais onde o Mestre Stobbaerts tinha centralizado o
seu ensino?
MG- Exactamente. Em Setúbal só leccionaram alunos
seus. O Mestre ia lá apenas para dirigir estágios.
5- Quem eram essas pessoas?
MG- A Secção de Aikido do Vitória Futebol Clube de
Setúbal foi fundada pelo Eng. Carmo Ferreira e pelo Dr. Pinto Marques.
Ambos haviam praticado com o Mestre Honda. O Eng. Carmo Ferreira já
praticava nessa altura com o Mestre Stobbaerts. Como tinham pouca experiência
de Aikido, praticavam só há três ou quatro anos, pediram ao Mestre
Stobbaerts para enviar um dos seus alunos a Setúbal.
O primeiro professor foi Francisco Garção que esteve lá muito pouco
tempo, talvez um mês.
De seguida leccionou Jean-Marc Duclos, que saiu um ano e meio depois. Até
se encontrar um substituto, as aulas foram orientadas pelo Eng. Carmo
Ferreira e pelo Dr. Pinto Marques.
O Eng. Manuel Cardoso viria a substituir Jean-Marc Duclos e ensinou em
Setúbal durante cerca de 5 anos e foi, nos primeiros anos da escola, o
professor que mais nos apoiou e mais nos ensinou. Pelo menos no que me
diz respeito.
Depois da saída do Eng. Manuel Cardoso ficou a ensinar na escola o Dr.
Pinto Marques, um ano depois abri, também eu, uma classe no Vitória
Futebol Clube. Mais ou menos por essa altura, o Dr. Pinto Marques
abandona o ensino e a prática do Aikido. Foi nessa altura que me tornei
o responsável pela classe de Setúbal e mais tarde nomeado director técnico
da AAS – Associação de Aikido do Sul.
6- Nessa altura já havia um grupo de alunos apenas ligado ao
Mestre Stobbaerts, ou eram independentes?
MG- Não. No início havia uma só associação - a
APADA. Mas está-se a referir a grupos de alunos do Mestre Stobbaerts
apenas?
7- Desses e não só. Também de outros grupos de Aikido que se
tivessem vindo a formar nessa época.
MG- Quando comecei, já existiam outros grupos de
Aikido. Nessa altura, já estava há vários anos em Portugal o Mestre
Honda e o Mestre Kobayashi já tinha vindo a Portugal dirigir estágios.
Portanto, quando eu comecei, já existiam pelo menos dois grupos: o do
Mestre Stobbaerts e o do Mestre Honda. Leopoldo Ferreira havia
trabalhado com o Mestre Honda, o Mestre Stobbaerts e o Mestre Kobayashi,
mas não sei se nessa altura teria já um grupo próprio.

Manuel Galrinho com o Mestre
Stobbaerts no Brasil
8- Qual foi a motivação para começar a praticar Aikido?
MG- Primeiro comecei a interessar-me pelo Yoga, mas
acabei por praticar Aikido. Penso que o que foi determinante para a
minha opção foi o facto de em Setúbal, nessa altura, não existir
Yoga. De qualquer modo, agora que conheço o Yoga e que o podia
praticar, acho que o Aikido tem mais a ver comigo. Porém, acho que os
princípios essenciais não são muito diferentes: a procura da harmonia
e a procura de si próprio. Parece-me que o Aikido tem mais a ver comigo
devido às formas e aos movimentos mais dinâmicos. Mas penso que na essência
não há grandes diferenças, apesar do Aikido ser uma Arte Marcial.
9- Pratica outras artes marciais?
MG- Não, só pratico Aikido.
10- Como decorre uma aula na sua escola? Qual o procedimento,
saudações, etc.
MG- Há um cerimonial, que considero um dos aspectos
fundamentais da aula e não uma mera formalidade. Este cerimonial marca
uma ruptura entre o mundo quotidiano e a prática. A vida lá de fora não
deve perturbar a prática. O cerimonial é como se fosse uma porta. Por
isso fazemos uma saudação à entrada do tapete, as pessoas não entram
por ali de qualquer maneira.
Ao subirmos para o tapete colocamo-nos em seiza e saudamos o espaço do
dojo. O gesto deve ser bem cuidado, deve-se manter uma postura correcta;
tudo isto é um apelo à atenção. Não basta simplesmente fazer uma
saudação.
11- Não pode ser uma coisa mecânica…
MG- Exactamente. A preocupação em seguir os
movimentos, como são ensinados, requer uma atitude especial, um certo
recolhimento. As regras são importantes porque ajudam a esse
recolhimento. No dia a dia andamos dispersos. Repare que na maior parte
do que fazemos diariamente estamos ausentes. Aqui, temos de estar
presentes. Estar presente é não estar numa flutuação constante.
Sentou-se – é isso que deve agora absorver a sua preocupação. É
disso que deve cuidar.
12- E depois dessa saudação?
MG- Depois há o cerimonial de conjunto. Os alunos
sentam-se por ordem de graduação e faz-se um momento de silêncio.
Depois desse momento de recolhimento há uma saudação em direcção ao
tokonoma e depois uma outra entre os alunos e o professor. Durante a prática
cada aluno saúda o parceiro, antes e depois de treinar.
13- Trocam de parceiro ao longo da aula?
MG- Sim.
14- Relativamente ao vestuário, usam cintos de cor e hakama
branco. Pode-nos falar um pouco desse sistema?
MG- O normal é os alunos usarem hakama negro quando
recebem o cinto preto. Antigamente, em 1º kyu, também se usava, mas
agora não. Alguns praticantes com graduação de kyu usam hakama
branco, sei que nas outras escolas os praticantes com este tipo de
graduação não usam hakama desta cor. Foi o Mestre Stobbaerts quem
introduziu isso, não sei bem porquê. Quando eu comecei a praticar já
alguns praticantes usavam.
O hakama ajuda a ter uma maior consciência do corpo, a ter maior percepção
da postura e do movimento.
15- E para quem corrige, não acha que esconde o movimento das
pernas?
MG- Acho que não. O professor vê bem se a perna está
colocada como deve ser ou não. Colocar mal um pé ou um joelho
reflecte-se no movimento e na postura global. Não me parece que isso
seja uma limitação.
Quando a pessoa possui um bom nível técnico, recebe o cinto preto.
Como forma de chamar a atenção para o facto de que não é aí que está
a sabedoria. Ficar agarrado à técnica pode ser um sinal de ignorância.
O negro, em muitas culturas, significa a ignorância. É um sinal de que
não é ali que está a essência da arte. O hakama branco, pelo contrário,
representa a pureza e a sabedoria. É por isso que no Japão apenas
mestres com elevada graduação usam hakama branco. Talvez por isso o
Mestre Stobbaerts permita a sua utilização por principiantes. Também
um principiante tem uma certa pureza e uma certa sabedoria. Possui a
douta ignorância, tem consciência de que não sabe e por isso possui
uma abertura que por vezes se perde à medida que avança.
16- Nesta escola há uma grande preocupação pela estética,
beleza.
MG- O Mestre Stobbaerts diz que não se deve procurar a
beleza, mas sim o gesto respirado, bem vivido, bem habitado, bem
presente. Então o gesto será belo. É belo porque é verdadeiro. E não
o contrário. Algo que é autêntico torna-se belo. Não é a beleza
pela beleza. Não basta a beleza. A beleza pode ser vazia. Uma pessoa
pode fazer um gesto belo sem qualquer conteúdo.
17- As flores são belas mas morrem cedo.
MG- Nós também morremos, mesmo com gestos com conteúdo.
18- Mas as raízes podem produzir novas flores. Mudando de
assunto, as armas que utilizam na vossa escola foram aprendidas de quem,
qual é a raiz?
MG- Uma parte do trabalho vem do próprio Fundador e do
que foi transmitido pelos seus alunos. Apesar do Mestre Stobbaerts não
ter trabalhado com o Fundador recebeu muitos desses ensinamentos, através
dos discípulos do Fundador com quem contactou. Por outro lado há que
levar em conta todo o trabalho que fez, a sua própria experiência, o
trabalho com os alunos, os katas e movimentos novos que ele criou.
19- Aquelas que são conhecidas, nesta escola, como a primeira e
a segunda kata de jo foram criadas pelo Mestre Stobbaerts?
MG- Sim, são katas criadas pelo Mestre Stobbaerts.
Bem, os movimentos que formam as katas já existiam, não foram
inventados por ele, são como as notas da música. É possível que se
encontrem os mesmos movimentos noutras katas. Mas o fundamental numa
kata é o todo, a composição.
20- E no que diz respeito ao Boken?
MG- Nós damos mais ênfase ao jo. O trabalho do ken não
é tão intenso como o do jo, mas a maior parte dos movimentos são também
criados pelo Mestre Stobbaerts. O Mestre Stobbaerts praticou e ensinou
Kendo também. Ele conhece katas de Kendo e a partir daí e da sua
experiência, criou outras katas. Ele é uma pessoa bastante criativa, não
se limita a repetir aquilo que viu, cria muitos movimentos a partir da
sua experiência. Eu penso que o Aikido que um mestre transmite não
pode ser uma cópia do que ele viu. Se assim fosse os mestres seriam
todos iguais. O Mestre Stobbaerts não pode pôr de lado o facto de ter
praticado Zen, Yoga e Kendo. Isso faz parte também do seu ser e estas
artes estão interligadas.

Manuel Galrinho fazendo uma
projecção de Aikido:
kokyu-nage em ushiro ryote-dori
21- Onde e com quem o Mestre Stobbaerts praticou Zen?
MG- Na Europa com o Mestre Deshimaru e também no Japão.
22- Onde foi que o Mestre Stobbaerts começou a praticar ?
MG- Penso que foi na Europa com os primeiros mestres
que por cá passaram, mas não estou muito dentro do assunto. Nunca lhe
perguntei, é uma coisa que não me tem preocupado.
23- Existe alguma razão específica para darem maior ênfase ao
jo?
MG- Na nossa escola não se dá às armas a importância
que é dada noutras escolas. Na minha perspectiva o progresso do Aikido
passa um pouco pela supressão das armas. Não digo totalmente mas penso
que o nível mais elevado da prática é o kokyu-nage e o aiki-nage. É
essencialmente essa prática que vemos nos últimos anos de vida do
Fundador.
As armas são importantes para a postura, energia, força, rigor e
precisão. É muito importante o trabalho com as armas e gosto muito,
mas penso que se ficarmos agarrados às armas será difícil chegar ao nível
mais avançado do kokyu-nage e do aiki-nage. O aiki-nage é um movimento
muito fluido, em geral o trabalho com armas não desenvolve muito a
fluidez.
Quando eu digo que não se trabalha tanto com as armas como noutras
escolas, quero dizer que não se trabalha tanto como na escola do Mestre
Saito. Ou seja, não dedicamos tantas horas ao trabalho de armas, nem é
um trabalho tão profundo como nessa escola. Nas outras escolas que
conheço, também não há uma insistência tão grande.
Eu penso que tem de ser respeitada a tradição, a essência, mas o
Aikido é uma coisa viva. O próprio Mestre Ueshiba disse mais ou menos
isso.
24- Claro, mas é necessário entender o que ele quis dizer com
isso, concorda?
MG- Bem, é difícil dizer com rigor o que é que ele de facto
disse. Por exemplo: “O Aikido é harmonia com a natureza”. O que é
que isso quer dizer? O que significam aqui as palavras “harmonia” e
“natureza”? E será que ele escreveu mesmo isso, ou será que é
algo dito por alguém que diz que ele disse? Que palavras japonesas é
que foram traduzidas por “harmonia” e “natureza”? Se nós
quisermos ser rigorosos temos pela frente um trabalho imenso.
25- Então, como é que se pode minimizar esse erro?
MG- Eu acho que é muito difícil. Podemos começar por estudar
o universo cultural e espiritual onde isso foi dito. E aí já se torna
mais fácil entender o que ele quis dizer. Por exemplo, quando ele diz
“natureza”, isso não tem nada a ver com o conceito actual de
natureza pensado pela física moderna ou contemporânea. Claro que há
quem interprete assim, e pense que estar em harmonia com a natureza
consiste em fazer movimentos que imitam as espirais das galáxias, ou
outra coisa assim. Como se isso fosse uma coisa que fizesse parte do
universo cultural e espiritual em que nasce o Aikido. Mesmo no ocidente,
as noções de natureza são múltiplas. Isto é muito complicado. A que
é que nos podemos então agarrar? Não podemos acabar como algumas
seitas religiosas que analisam a Bíblia, cada uma acreditando possuir a
verdade, porque partem do princípio que só elas interpretaram
correctamente a palavra de Deus.
26- Não acha que por haver essa interpretação, que na maioria
das vezes é meramente pessoal, passa a haver mesmo uma grande diferença
entre o que o Fundador disse e fez, e o que actualmente se faz?
MG- Por isso, é que a imitação não serve de nada. Por essa
razão é que eu defendo que dizer simplesmente o que ele dizia ou
imitar os seus gestos não serve de nada. Um dia fiz um estágio com um
grande mestre que repetia sem cessar: “Eu sou um com o universo”. No
final do estágio disse que dizia isto porque o Fundador o havia dito
mas não sabia o que é que ele queria dizer com estas palavras.
O que este mestre fazia com as palavras pode outro fazer com as técnicas:
repeti-las para ser fiel, mas não saber porque é que as faz assim. Não
é, portanto, repetindo, que eu já estou a ser fiel. Provavelmente,
estarei a ser mais fiel estando a seguir um mestre que procurou ter, ele
próprio, aquela experiência que está na base do Aikido e agora a
ensina, apesar de utilizar uma linguagem que não é exactamente a
mesma.
Imagine alguém que teve um percurso em que procurou aprofundar o saber
e a cultura oriental e que se apaixonou essencialmente pelo Aikido. Alguém
que procure viver com todas as suas forças, essa experiência oriental,
através da prática do Aikido. Provavelmente, essa experiência, de uma
vida inteira dirá mais aos seus discípulos do que alguém que nunca
teve essa experiência e que imita, simplesmente, essa linguagem, essas
formas.
Há várias maneiras de se ser fiel. Ser fiel a uma tradição não é só
papagueá-la, imitá-la no seu aspecto exterior. Se assim fosse o
Fundador nunca teria criado nada. Nem aqueles onde ele foi beber teriam
sido fonte de coisa alguma. O que é importante, na fidelidade a uma
arte, não é respeitar de uma forma cega tudo o que é dito ou feito.
Mais importante do que tentar preservar uma tradição imitando e
conservando todos os gestos e palavras é ter uma experiência autêntica.
A imitação simples é mesmo perigosa, afasta-nos do espírito da arte.
Uma coisa é o núcleo da arte, o espírito, outra coisa são os
aspectos particulares. Há desenhadores que conseguem traçar a cara de
uma pessoa com 2 linhas e toda a gente vê quem é a pessoa, outros
poderão ter muito cuidado com os pormenores e não conseguem.
27- Mas por esse raciocínio também se pode dizer o oposto,
como não foram ao detalhe não se sabe quem é.
MG- Por isso é que eu digo que o importante é a essência, o
traço essencial.
28- E onde encaixa a técnica, isto é, o detalhe técnico, no
meio disto tudo?
MG- Quando se vêem os filmes do Fundador verificamos que ele
nunca faz a mesma técnica duas vezes da mesma maneira. Ele não faz os
irimi-nage sempre da mesma forma. Quando era mais jovem os movimentos
eram muito mais directos.
29- Não é isso que me parece a mim quando os vejo.
MG- Na sua última fase os movimentos são mais subtis e mais
amplos.
30- Que última fase é essa? Como é que sabe se nos seus últimos
anos de vida a deterioração física, devida à idade e à própria
doença, não condicionavam a execução das técnicas? O Fundador não
poderia ter aos 80 e tal anos o mesmo vigor físico que tinha aos 50.
MG- Repare que no Aikido não se está a lidar propriamente com
objectos mas com pessoas. A energia usada para lidar com uma coisa não
é a mesma para lidar com uma pessoa. O tipo de forças é diferente.
Toda a gente sabe que é difícil mover e levantar uma pessoa bem
relaxada. Por isso é que se fala de “Ki”, não se fala muito de
“força física” no Aikido. O facto de uma pessoa ter menos força física
não quer dizer que não consiga ter um movimento forte. Se a energia do
Aikido consiste em utilizar a força do outro, alguém que tenha chegado
a um grande nível de compreensão da arte não precisa de muita força.
O que eu concluo da sua ideia é que os movimentos de uma pessoa idosa e
fraca são fracos também.
31- O facto de O’Sensei escolher, para demonstrar, uke
bastante leves e executar as técnicas quase sem tocar neles revela essa
constatação.
MG- Pois, mas quando está a ver os filmes do Fundador está a
ver movimentos de Aikido ou está a ver uma luta?

Encontro do Grupo da Escola
Ten-chi com o Doshu Moriteru Ueshiba no Aikikai de Tokyo.
Podemos ver em baixo, à esquerda do Doshu, Manuel Galrinho e à direita
o Mestre Stobbaerts.
32- Estou a ver um artista marcial.
MG- O que se vê é o gesto. Ele não pretende mostrar que é
capaz de vencer um agressor. O que ele está a mostrar é o Irimi-Nage,
o Kotegaeshi, etc. É isso. O outro vai bloquear para quê? Para mostrar
que é mais forte?
33- Acha que eles faziam ataques sinceros?
MG- Porque é que acha que os ataques não eram sinceros? O
Aikido é Harmonia.
34- O que me está a dizer é que a Harmonia deve vir do
atacante?
MG- Eu acho que não se pode separar, quando há harmonia há
Unidade e não se pode falar de “um” e “outro”. A maior luta do
oriente visa superar o dualismo. Se eu tenho um ancião à frente, é óbvio
que não me dirijo a ele do modo que me dirijo a um jovem forte. Isso
também faz parte da harmonia do Aikido. E em todas as outras artes é
igual. Isso não é ser falso no meu ataque. Se assim não fosse como se
poderia praticar com uma criança? Há crianças que praticam com
adultos. Não podemos pensar no ataque apenas como um acto de violência.
35- Porque não?
MG- “Ataque” nunca significou apenas isso, em nenhuma
cultura. Diz-se que o violonista ataca as cordas com o arco, por
exemplo. Na Arte Marcial o mais importante é não lutar, não tirar a
espada. Não é essa a mensagem fundamental? O nível mais elevado da
sabedoria oriental é não lutar, e isto encontra-se em todas as Artes
Marciais. Não tirar a espada é a mensagem mais bela das Artes
Marciais. Pelo menos foi isto que aprendi do meu Mestre. Não só do meu
Mestre, mas também de todo o estudo que fiz do pensamento que suporta
as Artes Marciais. Nós pensamos muitas vezes o “ataque” num sentido
muito limitado.
36- Suponha que um principiante, interessado em aprender um
sistema marcial, quando lhe é pedido para agarrar o seu punho o faz com
toda a garra, não o deixando mexer de todo. Como reagia?
MG- Isso depende do praticante. A um principiante posso dizer
para agarrar com mais força ainda, se achar que isso é útil para ele
e para o que eu quero que ele aprenda.
37- E acha que isso é que é harmonizar? Não se esqueça que
um principiante nada sabe, se lhe diz para agarrar firmemente ele
cumpre, e tenta imobilizá-lo com essa pega.
MG- Aí temos de explicar que esse não é o processo para
melhor aprender Aikido. Se Aikido é harmonizar, utilizar a energia do
outro, acho impossível que se possa atingir isso começando
precisamente por bloquear.
38- Agarrar com força e fazer ataques sinceros não é o mesmo
que bloquear. Bloquear é saber a técnica, ou movimento, que o outro
vai fazer e usar esse conhecimento para o impedir de todas as formas que
puder. Aliás, um principiante não sabe distinguir entre estas duas
coisas, ele simplesmente faz o que lhe indicam.
MG- Se tiver o espírito de bloquear o professor pode explicar
que esta não é a melhor forma de progredir no Aikido. Isso não quer
dizer que no Aikido não se possa agarrar com força e, por vezes,
bloquear, se isto for útil à aprendizagem. Alguém que segue com
demasiada facilidade os movimentos terá de fazer uma pega mais forte. Não
pode haver uma resposta única para isso. Segundo Tsuda, o Aikido é a
arte do particular. A ciência, pelo contrário, visa o geral. Existem
equações matemáticas que explicam os fenómenos em geral, mas nós
somos indivíduos únicos, irrepetíveis, não nos podemos explicar
todos pela mesma equação. O que se diz a um aluno não se pode dizer a
outro.
O que as pessoas têm que ver é que o Aikido é uma arte que tem
determinados princípios, se não os aceitam têm que escolher outra
arte. Um dos princípios é que a pessoa deve vir para cá procurando
absorver as técnicas como uma esponja, de corpo e alma. Se começar com
a “resistência” como poderá alguma vez desenvolver o grande princípio
da “não-resistência”? Se vai pensar o ataque como agressão não
progredirá muito dentro do Aikido. Mas isso acontece em todas as artes,
não é só no Aikido.
Claro que há escolas que apenas pensam na defesa pessoal. Mas para mim
o Aikido não se restringe à defesa pessoal. Acha que no Kyudo os
praticantes estão a pensar em se defender ou atirar sobre alguém? O
mesmo se passa no Aikido.
39- Acha que a técnica rigorosa, com preocupação pelo mais
pequeno detalhe, é necessária se o outro atacar sem intenção firme?
MG- A técnica não é apenas para nos defendermos de ataques,
tal como a técnica do Kyudo não é para matar pessoas, embora no
passado tivesse sido. Nós não vivemos no feudalismo japonês. Quando
falo do “tiro com arco” falo de uma sabedoria, de um saber de si próprio,
não estou a falar de uma arte de guerra. Provavelmente, na base de
todas as Artes Marciais, estão técnicas para as pessoas se matarem
umas às outras, mas as artes evoluíram no sentido duma sabedoria que
está muito além disso.
40- É então da opinião que há uma dicotomia, como se fossem
entidades separadas, entre a parte espiritual e a parte Marcial, marcial
no sentido de aprender a lidar com uma agressão?
MG- Eu não digo que as Artes Marciais não possam servir para
defesa pessoal. Até um jogador de futebol, habituado a dar pontapés,
é capaz, provavelmente, de se defender muito bem com um pontapé e não
é por isso que dizemos que o futebol é uma arte de defesa pessoal. O
que eu acho é que a defesa pessoal não é o fundamental. Não me
lembro de nenhuma palavra do Fundador que fosse nesse sentido. É claro
que uma pessoa que ao longo dos anos pega em armas e faz projecções
pode utilizar isso como defesa. Mas isso não significa nada, não quer
dizer que seja mais eficaz. A eficácia depende principalmente do espírito
com que a técnica é aplicada. Depende da clareza, da presença de espírito
que se consegue no momento em que se tem de aplicar essas técnicas. A
boa técnica não significa, necessariamente, eficácia.
41- Não percebo o que quer dizer com boa técnica. Quando penso
em boa técnica penso em saber lidar eficazmente com um ataque que
pretende causar dano. E harmonizar com ele é Aikido. Se o ataque for
sincero, a defesa será também sincera.
MG- Eu acho que é difícil harmonizarmo-nos com quem não se
quer harmonizar.
42- Mas não é esse o desafio e o objectivo do Aikido?
MG- Nesse caso porque é que os professores da vossa escola não
deixam os alunos atacar como querem?
43- Não me parece muito importante, mas se quer realmente saber
também se faz esse tipo de treino.
MG- Duvido.
44- Está a julgar pelas demonstrações?
MG- Quando falo em Artes Marciais falo em arte, não no sentido
ocidental, mas no oriental. Arte é aquilo que leva a uma determinada
sabedoria, a um determinado saber sobre si próprio. A técnica é
apenas um utensílio. “Harmonia” poderá significar alguma vez
neutralizar ataques violentos? Não é nesse sentido que se está a
falar de harmonia. Se assim fosse que sabedoria seria essa? Era preciso
ir ao oriente? O ocidente desenvolveu técnicas e métodos de combate
muito mais eficazes que as orientais.
Quando se fala em harmonia, entre dois praticantes, em Aikido, não se
quer dizer: “Eu estou em harmonia porque, por mais violento que o
outro seja, consigo neutralizá-lo e voltar a energia dele contra si próprio”.
Isto não me parece a tal harmonia e unidade que se fala no oriente.
Isso é um degrau para a procura. Um dia toda a gente passa por isso.
Nas há muito essa ideia que temos que ser eficazes, controlar bem o
movimento do outro. Isto é uma fase apenas. E depois uma coisa é a
eficácia no dojo ou num ringue, outra bem diferente é na rua em situações
reais. A melhor técnica pode não resultar, o melhor praticante poderá
ter uma grande surpresa. De que serve a técnica se não houver
serenidade e desprendimento? Uma técnica é um esquema para uma
determinada situação. A pessoa que temos à frente é única e
imprevisível.
Como no ocidente temos o espírito de controlar e dominar tudo, acabamos
por pensar que isso é que é a essência das Artes Marciais . A
harmonia do oriente nada tem a ver com isso. Estar em harmonia significa
que não existe cisão entre sujeito e objecto. É estar em unidade.
Isto percebe-se melhor quando se compara com o que é diferente: o
ocidente. O que se viveu no ocidente, durante dois mil anos, foi: nós
somos um sujeito, consciência, pensamento e o que está à nossa volta
são objectos, coisas. Esta visão é útil para a evolução da ciência.
É óptima. Mas para a sabedoria oriental tal visão não existe.
Unidade quer dizer que a pessoa passou pela experiência mais originária:
anterior à separação sujeito/objecto. É essa a harmonia do Aikido.
É claro que esse seria o estado mais elevado. Isso tem várias fases.
Primeiro o praticante procura harmonizar-se com o movimento do outro
através do controle e da eficácia. Essa é uma fase, é desta harmonia
que você fala: conseguir, perante um ataque violento ser capaz de
“dar a volta”. Mas a ideia de harmonia oriental é que o Eu e o
Universo são Um. O universo é visto na perspectiva de um envolvimento
com o todo. Os sábios orientais perceberam isso. No Ocidente os místicos
também se deram conta que antes da separação sujeito/objecto há uma
relação mais originária com as coisas.
45- Parece-me que o mais importante não são as interpretações
pessoais, mas o estudo da vida e obra do Fundador, de forma a
compreender o que ele quereria dizer, e não ficarmos por interpretações.
MG- O Fundador teve várias fases. Para ele a técnica era um
ritual de purificação. A sua insistência no encontro com os Kami
revela que a sua procura estava muito para além da técnica.
46- O que nos chega de Iwama é que o Fundador, para além das
suas práticas religiosas que mantinha pessoais, era extremamente severo
com a forma de praticar e executar as técnicas. O seu rigor pela técnica
era tal que nem admitia que se praticassem armas sem ser na sua presença
ou na do Mestre Saito.
MG- Nós também temos que ter esse rigor, pois é ele que nos
pode levar ao progresso.
47- Mas afinal o rigor da técnica não era apenas uma fase primária?
MG- É apenas um aspecto do Aikido.
48- Só se conhece o Fundador através de filmes, pode dar
exemplos a que filmes se refere?
MG- Não vi todos os filmes sobre ele mas vi alguns.
49- Gostava que fosse mais específico e dissesse em que se
baseia então para fazer essas comparações?
MG- Nos filmes, claro. No final da vida dele os movimentos são
mais rodados, mais suaves, mais bonitos. O que não quer dizer que os
outros não fossem movimentos de Aikido.
50- É preciso passar por todas as fases?
MG- Não sei. Acho que é preciso passar por uma fase de rigor.
Pedagogicamente é melhor assim. Só mais tarde podemos passar para
outras técnicas mais livres.
51- Conhece o trabalho de Stanley Pranin?
MG- Não
52- Nem as revistas nem os livros?
MG- Não.
53- Tem a noção que ele é o único investigador/historiador
profissional de Aikido, há quase trinta anos, e que as suas descobertas
têm permitido corrigir uma série de informações sobre a história do
Aikido e do Fundador que são tidas como verdade mas que o não são?
MG- Eu desconfio sempre que se fala de correcções. O mais
importante nas Artes Marciais é a experiência. Nós já não podemos
ter a experiência directa do Fundador, ele já morreu, mas podemos ter
a experiência dos nossos mestres. E penso que não é a análise histórica
ou filológica que vai resolver os nossos problemas.
54- Não lhe parece fundamental que saibamos com a maior precisão
possível quer o contexto que rodeava o Fundador quer os seus
ensinamentos e citações, para realmente compreendermos como ele
desenvolveu o Aikido?
MG- Depende do tipo de citação, se é uma coisa fundamental
ou não. Nós não podemos estar a ver o Aikido unicamente na
perspectiva do Fundador do Aikido. Ele foi um homem como nós, que viveu
na sua época.
55- Não nos podemos esquecer que o Aikido é uma Arte Marcial
criada por uma determinada pessoa. Se alguém se baseou nesta arte para
criar uma coisa pessoal deveria chamar-lhe outra coisa, ou na pior das
hipóteses Aikido A, B ou C e assim pode fazer o que entender. Tal como
o Fundador fez em relação ao Daito Ryu Aikijujutsu.
MG- E isso acontece.
56- Aconteceu com muito poucos. Todos os outros apropriaram-se
simplesmente da palavra Aikido.
MG- Sim, há muitos que fazem coisas que nada tem a ver com
Aikido e chamam a isso Aikido.
57- Nem todos fizeram isso.
MG- Mas por outro lado, a filosofia ocidental não tem que ser
toda igual à de Platão.
58- A filosofia de Platão é dele, por isso tem o seu nome, não
se chama filosofia de Sócrates.
MG- Eu não acredito que pelo facto de mudar o nome à escola e
depois fazer um trabalho onde se exprime o seu lado pessoal que seja uma
traição ao Aikido.
59- Mas eu também não digo que é uma traição ao Aikido.
Pode até ser um sistema muito válido e que mereça ser reconhecido. É
uma questão de honestidade.
MG- Era impossível fazer Aikido como o Fundador. Ele tinha
cerca de um metro e cinquenta de altura. Viveu numa outra época e
noutro contexto cultural. Quando nós praticamos Aikido fazemo-lo com o
espírito da nossa época – a época da internet. Ele fez com o seu
corpo e com o seu espírito e nós temos que fazer com o nosso.
60- Pois, mas se aquilo que fazemos é diferente do que ele
criou, então deveríamos chamar-lhe outro nome.
MG- Mas isso não é importante. O Mestre Ueshiba também mudou
o nome da arte muitas vezes. Ele esteve indeciso entre vários nomes.
Isso só revela que o nome não é o mais importante.
61- O nome faz parte da definição, da especificidade, de uma
arte ou escola.
MG- O que interessa é que fazer Aikido não é copiar o que
ele fez.
62- Se ele fosse vivo escolhia ser aluno dele, ou bastava-lhe
ser aluno de um aluno dele?
MG- Não necessariamente. No Japão, enquanto ele foi vivo,
muitas pessoas seguiram discípulos dele.
63- Por isso é que lhe estou a fazer esta pergunta.
MG- Nós não podemos estar a misturar o que é a essência com
o que não é essencial, com os pormenores. A mensagem do Aikido pode
persistir independentemente da época, região ou pessoa, isto é que é
a essência. O Aikido não nos dá garantia nenhuma. Imagine o que seria
se as pessoas só praticassem Aikido quando tivessem a certeza de ter
encontrado um mestre que transmite o verdadeiro Aikido.
64- Na sua opinião acha que não há essa garantia ou que não
é importante ter essa garantia?
MG- As duas coisas. Não é importante porque é impossível.
Se assim não fosse significaria que a mensagem do Aikido seria como uma
equação matemática, em que se podem ter certezas. O próprio Fundador
do Aikido era uma pessoa muito indecisa e só quem está indeciso é que
procura, quem tem certezas não procura nada. Ele procurou até ao fim
da vida. Na sua procura envolveu-se com a religião Omoto Kyo e tentou
ir longe à sua maneira. Como é que podemos ter certezas nas incertezas
dele? Não é a análise filológica e histórica que vai salvar o
Aikido, se este estiver em perigo. Será salvo se as pessoas procurarem
sinceramente o saber o que está na base das artes orientais. O Fundador
não inventou a mensagem que está por detrás do Aikido, essa é
milenar e mais antiga do que ele. Acha que foi ele que inventou a
harmonia nas Artes Marciais? Isso, de um modo ou outro, está presente
em todas.
65- Sente que em Portugal há uma necessidade, sede, de saber
mais sobre o Fundador?
MG- Não sei se há essa necessidade ou sede de aproximação
ao Fundador. Há uma sede, de quem pratica, de aprender Aikido e tudo o
que vem à mão pode ser importante.
Parece-me que não há dúvidas de que, pelo facto de haver pouca coisa
escrita sobre o Aikido, as obras do Mestre Saito tenham uma grande
importância. Mas repare que essas obras são essencialmente descritivas
de exercícios. Sobre a essência do Aikido não dizem nada. São
importantes para preservar aspectos técnicos para as gerações
seguintes.
66- Mas se essa informação técnica é útil é porque há um
vazio de informação e se há de técnica também haverá do resto. A técnica
é o primeiro passo, como se pode evoluir daqui para a frente se é tudo
muito vago? Veja o caso das armas do Aikido, o Mestre Saito foi o único
que as aprendeu e por isso as pode ensinar.
MG- Não sei se é bem assim, não conheço todas as escolas.
Agora veja, os suburi, não são específicos do Aikido.
67- Os do Aikido foram desenvolvidos pelo Mestre Saito baseado
nas práticas pessoais com o Fundador.
MG- Os suburi?! Eles vêm de técnicas de sabre muito mais
antigas.
68- Eu falo da especificidade do movimento do suburi. O sistema
de armas que o Fundador ensinava era absolutamente diferente do Iai-Do.
MG- Sim, mas é daí que vem a influência, não é uma invenção
total.
69- Mas é o suficiente para tornar o sistema de armas do
Fundador característico, distinto e único.
MG- O que eu estou a dizer é que isso não foi inventado
totalmente, é uma compilação feita pelo Mestre Saito.
70- Foi ele que os sistematizou e classificou, atribuindo-lhes
nomes, por exemplo.
MG- O trabalho dele foi importante no sentido de recolher
informação.
71- A maioria das escolas, em Portugal, por exemplo, adoptou o
que vem nos livros e vídeos do Mestre Saito, pois é a única fonte de
informação sobre as armas do Aikido. Poucos professores saberão que a
origem das técnicas de armas que praticam nas suas escolas provêm
destes registos do Mestre Saito.
MG- Não pode dizer com toda essa certeza que há escolas que não
sabem qual a origem dessas técnicas. A maior parte das pessoas que estão
à frente das escolas investigaram bastante e fizeram um trabalho muito
sério.
72- Eu não digo o contrário. Posso-lhe dar um exemplo de um vídeo
de Jo Do em que os suburi tinham os nomes dos suburi de jo criados pelo
Mestre Saito.
MG- O que é mais importante no Aikido? É uma escola saber
repetir esses movimentos todos milimetricamente para se manterem fieis
à tradição, mesmo sem terem a experiência profunda do que estão a
fazer, ou uma escola que não tem isso tão bem esquematizado, mas tem
uma experiência mais profunda daquilo que está em jogo?
Eu digo que a repetição milimétrica, só por si, não é nenhuma
garantia de que se está a salvar a arte. Mais importante é o espírito
com que se pratica.
73- Dito assim parece que uma coisa não pode existir sem a
outra. É da repetição que vem a compreensão e da compreensão que
vem o suporte para a repetição milimétrica. São uma só entidade.
Quando se refere ao Mestre Saito não se pode esquecer que viveu
directamente com o Fundador cerca de 20 anos, o que não aconteceu com
mais ninguém. Para além de ter sido ao longo destes anos o companheiro
de treino do Fundador. O máximo de tempo que estiveram com ele numa
relação de discípulos directos, e foram os alunos de antes da 2ª
Grande Guerra, como o Mestre Shioda e Shirata, não viveram mais de 5, 6
anos.
MG- Isso não quer dizer nada.
74- Eu acho que quer dizer tudo, porque senão estaríamos a
afirmar que o ensino directo, dia e noite, com o mestre, é
perfeitamente dispensável.
MG- Não quer dizer nada e eu digo-lhe porquê. Tsuda diz, nos
seus livros, que quando o Fundador falava da parte mais filosófica
ninguém prestava muita atenção. Então como é que se pode garantir
que se está a praticar o Aikido autêntico (ou o único autêntico) com
um mestre que viveu 50 anos com o Fundador? Eu não digo que ele não
transmite um verdadeiro Aikido, antes pelo contrário, o que digo é que
não é o tempo que passou com o Fundador que garante isso. Claro que a
proximidade face ao Fundador deve ter sido importante, mas mais
importante do que isso foi o trabalho que ele próprio realizou. A sua
experiência. Aristóteles foi quem viveu mais perto de Platão, era o
melhor aluno, e foi quem virou o sistema de pernas para o ar. Viver
perto não é garantia. Os óculos estão perto dos meus olhos e eu não
os vejo.
75- Acabou de dizer, e a história factual confirma, que os
alunos do Fundador não ligavam ao que este dizia, nem sequer o
percebiam, logo, como é que acha possível que venham agora pessoas,
que nem sequer estavam lá, afirmar que o que o Fundador queria dizer
era isto ou aquilo, ou que a mensagem dele era esta ou aquela?
MG- O que é que eu posso dizer? Só posso reafirmar o que já
disse: a proximidade não é garantia. Os movimentos básicos do Aikido
não são em grande número, a mensagem do Aikido não é específica
desta arte, discípulos dotados e que tenham trabalhado arduamente podem
ter atingido uma profunda compreensão do Aikido apesar de terem estado
menos tempo com o Fundador ou mesmo nunca o ter encontrado. O melhor que
se pode fazer é encontrar um mestre que tenha tido uma experiência
profunda de sabedoria oriental, porque isso é comum ao Aikido, ao
Karate mais tradicional, ao Judo mais tradicional, ao Iai-Do, ao Kyudo.
São artes que se assumem como a tradição japonesa. Este aspecto é
comum a todas.
Quando se lêem os livros de Tsuda fica-se com a impressão que os
alunos não se preocupavam muito com a espiritualidade, estavam apenas
fascinados com o poder do Fundador.
76- Falar muito sobre o aspecto filosófico do Aikido é um
contra-senso, pela razão que já enunciou acima, uma vez que ninguém
compreendia a linguagem do Fundador, profundamente esotérica, mesmo
para pessoas ligadas à Omoto Kyo.
MG- A verdade está dentro de cada um de nós. A verdade do
Aikido não é como andar à chuva, em que acabamos necessariamente por
ficar molhados. Os andaimes vêm de fora para dentro. A técnica pode
ser ensinada, mostrada, analisada objectivamente, mas o fundamental, a
experiência essencial do Aikido, só o próprio a pode ter, ninguém
lha pode mostrar.
77- A precisão milimétrica é a distância que vai entre ficar
com ou sem cabeça, faz parte da essência.
MG- Isso é outra coisa, não estou a falar disso, estava a
falar em termos de imitação. Imitar com precisão.
78- Quando se refere a imitação está a dizer que aqueles que
mais perto estiveram do Fundador e se dedicam a ensinar o que o Fundador
lhes ensinou directamente são os que menos compreendem a sua mensagem?
MG- Não. Falo daquelas pessoas que estão agarradas àquilo
que alguns discípulos do Fundador fazem. O Aikido é vida. A vida é
uma coisa que pára? Não pára. Portanto, tem que ser uma coisa
necessariamente aberta. O que pode salvar o Aikido é irmos ao
fundamental em termos técnicos, postura, respiração, mas
principalmente procurando aquela sabedoria em que se fundamenta.
79- Acha que essa ideia se pode aplicar a uma disciplina como o
Yoga? Parece-lhe possível que se os alunos não cumprissem com precisão
milimétrica o que o mestre ensina seriam capazes de chegar onde o
mestre chegou?
MG- Eu não estou a dizer que as técnicas não devam ser
feitas como ele dizia, não se deve é parar no tempo. O Fundador não
parou no tempo. Então porque é que os alunos dele têm que parar? Nós
somos seres hermenêuticos estamos sempre a interpretar, e quando o
fazemos é com todo o nosso ser: físico, psicológico, social,
cultural, histórico, etc. Se fossemos todos fazer como ele, então teríamos
de ser todos xintoístas.
80- Não é assim. Não há historicamente qualquer referência
ao facto do Fundador ter obrigado os alunos a praticar os seus rituais
esotéricos, bem pelo contrário, ele considerava-os como algo pessoal.
Curiosa e sintomaticamente, são os alunos que mais anos viveram
directamente com o Fundador os mais reservados sobre esses assuntos esotéricos.
MG- O Fundador dizia que era impossível compreender o Aikido
sem se compreender o Kojiki, o que vai dar ao mesmo.
81- O professor é o Director Técnico da Federação Portuguesa
de Aikido e Disciplinas Associadas?
MG- Não, sou o Presidente do Conselho Técnico. Existe a
F.P.A.D.A., que é uma organização democrática, e existe o Ten-Chi
Internacional que é a escola do Mestre Stobbaerts. Claro que esta
escola está federada na Federação. A maior parte das pessoas que
pertencem à Federação estão ligadas ao Mestre Stobbaerts mas a
Federação está aberta a todas as escolas. O Conselho Técnico não
impõe qualquer linha técnica, tem principalmente um carácter
organizativo.

Alguns dos praticantes mais
graduados da Associação de Aikido do Sul
Da esquerda para a direita em cima: Eunice Palhano 2º dan, José Manuel
Silva 1º dan, Daniel Silva 1º dan, Mário Claro 1º kyu, Fransisco
Burnay 1º dan, Miguel Rosado 1º dan, Álvaro Santos 1º dan, Pedro
Melo 1º kyu, Agostinho Torres 1º dan, Rodrigo Gouveia 2º dan, Eduardo
Oliveira 1º kyu; em baixo: Domingos Linhares 1º dan, Miguel Sendim 1º
dan, Carlos Salsinha 2º dan, Manuel Simões 2º dan, Ofélia
Mascarenhas 2º dan, Manuel Galrinho 5º dan, Carmo Ferreira 4º dan (o
praticante mais antigo da AAS, iniciou a prática em 1973), António
Galrinho 4º dan, Heitor Matos 2º dan, Frank Abt 1º dan e Mário
Chainho 1º dan.
82- Nessa qualidade, o que pensa das alterações que o governo
está a tentar implantar para as Artes Marciais em Portugal, como os
cursos de formação, por exemplo?
MG- Acho que é importante que as pessoas que estão à frente
dos centros de prática sejam responsáveis, que tenham conhecimentos não
só de Aikido mas também de pedagogia. Acho que o mais importante nas
Artes Marciais é a formação que se recebeu do seu mestre. O que está
a acontecer é inevitável. Este é um mundo planificável, organizado.
É inevitável que este tipo de sistema surja e que tente controlar.
Este é também um sinal da morte do Aikido e de outras artes, pois elas
dificilmente se encaixam neste tipo de organização.
O Estado português deveria observar quem de facto fez um trabalho sério
em Portugal. Eu não acredito que o burocrata, que está sentado lá em
cima, se dê ao trabalho de ir verificar quem é este ou aquele mestre,
eles só estão preocupados em saber quem recebe dinheiro do Estado e são
estes que eles reconhecem como responsáveis.
83- Muito obrigado.
Entrevista
realizada em 18 de Setembro de 2000
Pedro
Escudeiro |