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Centro de Artes Orientais www.cao.pt


 

ENTREVISTA AO PROF. JEAN-MARC DUCLOS

 

  

Mestre Hassan Iddedir e o seu aluno Jean-Marc Duclos,
Casablanca, Marrocos, 1970(?)

1- Pode-me dizer o seu nome, idade e a organização a que pertence?
JMD- Jean-Marc Duclos, 47 anos, tenho a nacionalidade portuguesa e francesa. Actualmente sou membro e director técnico da Associação Portuguesa de Aikido e Disciplinas Associadas. Sou aluno do Mestre Mitsugi Saotome Shihan desde o ano 2000, não tenho graduação. No passado, recebi o 5º dan em Aikido dado pelo Mestre Georges Stobbaerts Hanshi.

 

Mestre Hassan Iddedir (no centro), Marrocos, 1970(?)

2- Porquê e quando iniciou a sua prática de Aikido?
JMD- Primeiro comecei pelo Judo, creio que mais ou menos em 1964, com o Mestre Stobbaerts. Era ainda um jovem, um pouco turbulento, e gostei muito. Por temperamento gostava da competição, mas não tinha grandes resultados, tinha energia a mais. Um dia, estava a assistir a um estágio de Aikido do Mestre Nobuyoshi Tamura, em Casablanca, Marrocos, onde eu vivia nessa altura, quando de repente Mestre Stobbaerts me interpelou - "Kimono! (keikogi!)", e lá fui eu vestir-me. Contrariado, porque achava que o Aikido não era para mim. Mas curiosamente, a partir daí passei a gostar. Até hoje! Isto aconteceu em 1968. Ao princípio, praticava simplesmente por gosto, depois à medida que a idade foi avançando a motivação também evolui. Uma prática orientada modificou-me e deu-me a oportunidade de ficar sensibilizado por outras coisas, uma delas é o gosto pela Arte Marcial.

 

No primeiro plano, Mestre Georges Stobbaerts (Dojo Cho)
e Mestre Nobuyoshi Tamura, Budo Club du Maroc, Casablanca, 1968(?)

3- Fazia Judo com o Mestre Stobbaerts?!
JMD- Sim, sim, fazia Judo com o Mestre Stobbaerts. Ele foi meu Mestre de 1964 até 1998, portanto, durante 34 anos. Mesmo sabendo que há coisas que não podem ser abordadas num mero aspecto contabilístico, muito daquilo que sei e sou, a ele o devo.

4- Foi por influência dele que veio para Portugal?
JMD- Mais ou menos. Frequentava na altura um curso profissional de mecânico, quando pedi para ser chamado para a tropa aos 17 anos. Vim definitivamente para Portugal em Setembro de 1974. Já tinha estado em Portugal no Verão de 1972 e na Páscoa de 1973.

Mestre Stobbaerts e Jean-Marc Duclos, durante uma visita ao Norte de
Portugal para demonstrações, 1973

5- Quando é que teve o primeiro contacto com o Mestre Hirokazu Kobayashi?
JMD- O primeiro contacto que tive com ele foi em Marrocos, deve ter sido em 1971, porque antes de ele vir para Portugal deu estágios em Marrocos.

6- Pode-nos falar um pouco da sua formação e do Mestre Stobbaerts?
JMD- Duma maneira muito resumida, a minha formação teve dois períodos fortes: o primeiro período foi de 1965 até 1967 e o segundo período de 1974 até 1988. Estudei o Judo com Mestre Stobbaerts e com um dos seus alunos, Mestre Hassan Iddedir. Em relação ao Aikido, estudei com Mestre Stobbaerts. Entretanto estudei 2 ou 3 anos em Casablanca, quando da ausência de Mestre Stobbaerts (já em Portugal), com um aluno dele o Prof. Gérard Obélianne (conhecido em Portugal, por ser agora aluno do Mestre Tamura).

Exame para 1º Kyu Kendo - Said Ideddir e Jean-Marc Duclos, Kendo-no-Kata da Zen Nippon Kendo Reimei, 1972.

 

Mestre Georges Stobbaerts e Jean-Marc Duclos, Budokan de Portugal, Cascais, 1975.

O Mestre Claude Durix foi o meu Mestre em Kendo e Iaido. Ainda hoje, tenho em boa memoria, a notável qualidade das aulas que ele ministrava. Foi um marco na minha formação geral. Teve muita paciência comigo. No Hatha-Yoga fui aluno da Prof. Ana Oliveira e da Prof. Maria Augusta de Vasconcelos. Hoje em dia, sou aluno no Centro Português de Yoga, sob a orientação do Mestre Carlos Rui Ferreira.

Pedro Alexandre, Paula Chambel, Francisco Garção, Jean-Marc Duclos, Mestre
Georges Stobbaerts, João Manuel Cardoso, Jaime Salazar Sampaio, António
Piano, Paulo Plath Xavier, Budokan de Portugal, 1977

Quando vemos o Mestre Stobbaerts praticar Aikido, Kendo, Iaido ou Judo, o que chama logo a atenção é que ele consegue conjugar eficácia com uma certa elegância. Em relação ao Judo, ele foi um óptimo professor, a todos os níveis, incluindo a vertente competitiva. Em Marrocos, houve vários alunos seus que foram várias vezes campeões nacionais, com participação nos Jogos Olímpicos, Campeonatos do Mundo, etc. No Kendo, Mestre Stobbaerts chegou a derrotar um grande campeão japonês nos Campeonatos do Mundo. Este último ficou estupefacto, quando soube através da televisão (NHK) que nessa altura não existiam shinai em Marrocos, e que os entusiastas kendocas praticavam com um material muito rudimentar (género "cabo de vassouras" ou semelhante...). Uma das características especiais do ensino do Mestre Stobbaerts tem a ver com a influência que o Yoga imprimiu na vida dele e na sua pedagogia. Com uma capacidade de explicar as coisas tocando o seu aspecto central, consegue com relativa facilidade destrinçar aquilo que alguns demorariam anos a entender.
Em Kendo e Iaido, Mestre Stobbaerts foi aluno de Kiyoshi Nakakura, já falecido, nomeado tesouro nacional pelo governo japonês, e Doshu do Aikido há uns anos atrás por O'Sensei Morihei Ueshiba.

Estágio no Ginásio Clube Português dirigido pelo Mestre Georges Stobbaerts,
onde se podem ver, da esquerda para a direita: Pedro Girão Marques, Isabel
Pereira Branco, Teresa Faria Blanc, Miguel Costa, Jorge Trigo de Sousa e
João Manuel Faustino, 1977

 

Paula Chambel, Budokan de Portugal

 

Aula de porta aberta no Ginásio Clube Português,
Novembro de 1977

 

Estágio com o falecido Mestre Hirokazu Kobayashi
com os alunos do Mestre Georges Stobbaerts, CDUL,
24 de Janeiro de 1977

 

7- Chegou inclusivamente a ser seu genro durante algum tempo.
JMD- Parece que sim.

Puja feito por Satchidananda Yogi, Dojo Tenchi, Portugal, 1985

8- Nem todas as artes que o Mestre Stobbaerts praticou estavam ligadas ao Budo.
JMD- Sim, é verdade. Praticou também Yoga. O Yoga é, entre outras coisas, uma fonte de "desbloqueio" para um praticante de Artes Marciais. Os professores de Artes Marciais deveriam praticar actividades parecidas, como por exemplo o Taichi. São actividades que permitem dar uma dimensão mais abrangente da prática e não restritiva, como o imediatismo do eficaz. É claro que é preciso ser eficaz, mas às vezes é preciso não ficar limitado à relação de força. Mestre Stobbaerts foi ensinado por grandes mestres de Yoga como Satchidananda Yogi que vive em Madras. Também tive a oportunidade de participar numa cerimónia dada por este último Mestre: um Puja durante a noite, com muitas luzes (velas ou similar), cores e aromas... foi deslumbrante.

Satchidananda Yogi, Dojo Tenchi, Portugal, 1985

Satchidananda Yogi de visita à Nazaré, Portugal, 1985

 

9- Durante muitos anos teve um papel de relevo dentro da organização do Aikido em Portugal.
JMD- Como vamos falar do funcionamento do Aikido em Portugal, temos de falar automaticamente de política, pois trata-se do exercício dum pequeno poder. Antes do 25 de Abril não tinha nenhuma consciência política. Para compreender e desempenhar correctamente o cargo que exercemos é fundamental ter noções de política em geral. Na altura dos meus 20 anos não estava muito ligado a este tipo de problemática (Risos). Portugal foi, neste aspecto (e noutros), uma escola para mim. Obrigou-me a prestar atenção a política. Era uma época revolucionária. Tive que saber o que era democracia, fascismo, isto e aquilo, etc. e comecei a desenvolver algumas ideias básicas sobre estes assuntos.
Mas vamos voltar às Artes Marciais...

 

Aula de Jean-Marc Duclos no Ginásio Clube Português,
em cima à esquerda, 2 monitores,
José Manuel Fiúza Guerreiro, Mário Santos


A Comissão Directiva das Artes Marciais (CDAM), foi criada em 1972 e durante os primeiros 3 ou 4 anos da sua existência, estava focalizada num controlo desadequado e policial dos praticantes de Artes Marciais, e por isso não serviu em nada os interesses dos praticantes. A maior sorte desta organização foi o facto de, já na altura, ser dirigida por um militar, o Sr. Capitão José Manuel Monteiro Fiadeiro, que pela sua moderação conseguiu evitar a repressão que se podia esperar duma estrutura tal como foi concebida. Esta predisposição do Comandante José Fiadeiro (então promovido) foi confirmada nos anos que vieram a seguir, quando ele encabeçou uma reestruturação completa da CDAM, dando a este organismo uma vocação educacional. Essa mudança permitiu a centenas e centenas de agentes de ensino de todas as artes em Portugal ter um tipo de formação que, no mínimo, foi inovador no desenvolvimento das Artes Marciais em Portugal. E até hoje em dia, o Sr. Cmdt José Fiadeiro estimulou o único processo democrático no Aikido, à escala nacional, directamente apoiado pelo Estado.

Manuel Galrinho, António Galrinho, durante a construcção das paredes do Dojo
Tenchi e Joana Duclos durante a aprendizagem

Cada Arte Marcial tinha o seu Conselho Técnico Nacional. O primeiro Conselho Técnico de Aikido (CTA) foi nomeado, não foi eleito. Era constituído por três ou quatro pessoas. O CTA era nomeado por Despacho do Secretário de Estado por proposta do Presidente da C.D.A.M. Mais tarde, fizeram-se eleições, na actual Faculdade de Motricidade Humana, onde participaram todos os cintos negros de todos os grupos de Aikido: o grupo ligado ao Mestre Stobbaerts, o grupo Aikikai do Mestre Tamura, a União Portuguesa de Budo, etc. Tratando-se da eleição dum conselho ligado a competências técnicas e pedagógicas, entendeu-se que a assembleia eleitoral deveria ser compostas pelos cintos negros. O Presidente eleito foi o Prof. Leopoldo Ferreira. Contudo, ele não quis aceitar o cargo e como segundo da lista fui eleito Presidente. A partir daí o CTA decidiu instituir uma graduação nacional, independente de qualquer graduação externa. A ideia era que o sistema central de graduações fosse nacional e que todos os outros sistemas tivessem apenas a sua razão de ser em cada escola. Foi difícil gerir esta situação, pois cada um dizia: "sou isto ou aquilo", foi um pouco complicado.

Construção da placa do Dojo Tenchi, primeiro plano, Stéphanne Goffin e
Jean-Marc Duclos


Gerir os interesses comuns do Aikido obrigava a ter em mente alguns princípios básicos tais como: regulamentar o Aikido ao nível do estado e dos organismos privados, visando estabelecer um mercado, para os agentes de ensino e praticantes, em que as condições de acesso fossem iguais e efectivas para todas as escolas, estilos ou tendências, evitando assim a situação de monopólio; ü dar formação aos Agentes de Ensino, fomentando conhecimentos ao nível pedagógico e biológico, e/ou duma maneira geral apresentar o Aikido como uma prática vocacionada para a educação; ü apoiar financeiramente todos os grupos de Aikido, de forma alternada, na aquisição de material e na organização de estágios.

 

6º Campeoonato do Mundo de Kendo, equipa portuguesa: 
Eric stobbaerts, Filipe Chamorro e Jean-Marc Duclos, 
Paris, 1985


Na altura, o mais importante era reunir as vontades e ao mesmo tempo, organizar práticas em conjunto, através das quais se poderia provavelmente sensibilizar as pessoas para um determinado tipo de problemática que eventualmente não existia. Assim, era importante que toda a gente se juntasse para estabelecer um debate de ideias e preocupações. Só por si, o convívio, já foi importante. As aulas orientadas por cada responsável de grupo, serviram para expor a pedagogia e os objectivos que o Aikido representava para cada um deles. Isto contribuiu para que os Agentes de Ensino pudessem perceber que havia, erradas ou certas, muitas maneiras de olhar para o Aikido. Mesmo que cada um se mantivesse na sua posição (exemplo: "o meu Aikido é o verdadeiro"), o simples facto de começar a aceitar a existência dum outro Aikido que não o seu, já era uma grande conquista.
As graduações estão ligadas a conteúdos. Dar graduações sem outras preocupações é extremamente negativo e infantil. Foi importante ouvir as opiniões dos praticantes de cada grupo, com a preocupação de tentar comunicar, o que não acontecia até então (hoje em dia voltámos ao ponto da comunicação reduzida a zero).

(Da direita para a esquerda) Mestre André Nocquet, John Madsen, Michel Hamon
e Jean-Marc Duclos, Congresso da União Europeia de Aikido,
Lille


O CTA aceitou à partida as graduações de todas as associações, tal e qual foram apresentadas, foi um risco claro, mas bem assumido na altura. Cada associação enviou um ofício com a relação de todas as graduações que foram simplesmente homologadas tal qual. Agora, se voltava a fazê-lo? Não sei, é complicado dizer... Mas na altura realmente resultou. Tenho ainda toda a documentação produzida nessa época. Como resultado desse trabalho houve uma publicação no Diário da República de todas as graduações reconhecidas. Houve ainda uma segunda publicação do Diário da República onde foram publicadas algumas graduações que tinham sido esquecidas na primeira. Mas isto, foi apenas um princípio e não um fim. Um princípio para, a partir daí, criar um programa de graduação nacional, principalmente vocacionado para os Agentes de Ensino e estabelecer assim os critérios a ter em conta para o acesso ao ensino. É óbvio que as graduações dadas pelos Mestres de renome internacional seriam na altura e no futuro automaticamente homologadas.
É importante que o Estado apoie a criação de grupos de excelência, regulamentando a articulação de interesses diversos em presença e a formação de Agentes de Ensino, dando a todos as mesmas oportunidades. Infelizmente a C.D.A.M. foi dissolvida e não se conseguiu dar continuidade a esse trabalho.

A lista de Aikido em língua portuguesa, na Internet, foi mais tarde criada para tentar pôr as pessoas a comunicar e também dar a oportunidade aos Mestres de se exprimirem, dizendo o que pensam, e assim todos serem confrontados com a realidade e não estarem em círculos fechados, onde facilmente se conseguirá ter a verdade absoluta num meio muito restrito. Mesmo assim é muito difícil! (Risos). Tentar abrir um pouco, não torna as pessoas melhores, nada disso, mas o diálogo é condição prévia para repor as questões num nível mais adequado e equilibrado.

Demonstração de Portugal durante o
Congresso da União Europeia de Aikido, Lille, com
Mestre André Nocquet a observar

10- Quais eram os vários grupos existentes nessa altura?
JMD- A União Portuguesa de Budo, a Associação Portuguesa de Aikido e Disciplinas Associadas, a Associação Desportiva Aikikai de Portugal e a Associação Bushidokan das Artes Marciais.

11- Essas práticas em conjunto que se pretendia que fossem para todos os praticantes mais graduados, pelo menos, eram ministradas por quem?
JMD- As primeiras práticas foram orientadas pelo Mestre Stobbaerts. Depois algumas foram orientadas por mim, uma ou duas, e depois alternadamente por vários professores, o Prof. Leopoldo Ferreira, o Prof. António Piano, o Prof. Luís Antunes, etc.

12- Houve uma grande adesão dos praticantes?
JMD- No início sim, houve uma grande adesão. Depois, quando já se faziam esforços, nos bastidores, para eliminar a C.D.A.M., começou a diminuir.

Da esquerda para a direita, desconhecido, Karin Mueller, João Tourais, John
Madsen, João Manuel
Cardoso, Pedro Girão Marques, Tom Mueller e Jean-Marc Duclos,
Congresso da União Europeia, Lille

13- A aceitação das graduações alguma vez passou por realizar um exame?
JMD- O processo inicial consistiu na homologação já anteriormente referida, e dado o curto espaço de tempo que se seguiu, não inaugurámos o processo dos exames de graduações, nem conseguimos estabelecer um programa de graduação nacional. Não houve tempo para isso (Risos). A ideia, como já disse, era criar uma base, mas para isso era fundamental conhecermo-nos primeiro e sabermos o que o outro fazia (ficámos apenas pela fase de escuta). O reconhecimento imediato das graduações era para ajudar a criar essa plataforma.
Acalmar os ânimos e as suspeitas, fazer entender que ninguém queria pôr o pé em cima de ninguém, tentar construir algo que servisse o Aikido nas suas várias vertentes, tal era o objectivo. A ideia era positiva e não negativa. Podia-se fazer isso sem grandes custos. É claro que podem ter acontecido pontualmente coisas menos correctas pelo facto de homologar as graduações sem mais nem menos, estou consciente disso. Mas temos que ver o projecto no seu todo e não uma acção pontual que, eventualmente, poderá ser considerada menos correcta. Se o projecto se tivesse desenvolvido poderia ter dado frutos positivos.
O processo começou devagar. As ideias começaram a aparecer, além disso, éramos completamente inexperientes. Ninguém sabia qual seria o resultado da graduação nacional, como articular os vários interesses. Era tudo completamente novo...

14- Quem era o responsável por essas graduações?
JMD- Na vida corrente, quem toma as decisões é que deve assumir a responsabilidade das mesmas. No caso da homologação feita pelo CTA, assumo plenamente a responsabilidade das minhas decisões.

15- O Mestre Stobbaerts tinha uma ligação directa ao Aikikai ou era através do Mestre Tamura?
JMD- Tinha uma ligação directa, mas penso que foi Mestre Tamura quem ajudou a estabelecê-la.

Estágio em Le Vigan, França, 2001:
(Da direita para a esquerda) Filipe Vasco, Joana Duclos, Mitsugi Saotome Sensei e Jean-Marc Duclos

16- Há pouco tempo a sua prática sofreu uma grande reviravolta, pois deixou de estar ligado directamente ao Mestre Stobbaerts. Gostaria que falasse um pouco desta nova fase.
JMD- Agora, com a pedagogia do Mestre Saotome, estudo de uma maneira diferente. Aprendo também outras técnicas e uma outra maneira de estar. São novas sensações, nova disciplina. Há também um trabalho intensivo com armas. A presença é uma coisa constantemente requerida. O Mestre corrige regularmente os alunos, é pouco falador e exigente.

Estágio Internacional de Aikido, com Saotome Sensei. Em cima, da esquerda
para a direita: Paulo Martins, Paulo Santos, Rodrigo Dias, Vasco Oliveira;
em baixo: Patricia Engracia, Isabel Neves, Joana Duclos, Mitsugi Saotome
Sensei, Jean-Marc Duclos, Filipe Vasco e Nadia Morais. Le Vigan, 2002

17- Porquê a relação com o Mestre Mitsugi Saotome?
JMD- Foram os meus alunos que me falaram nele. Antes de conhecer o Mestre Saotome estudei um pouco o que ele escreveu, o que fez, etc. Depois fui a um estágio dirigido por ele para o ver actuar ao vivo e gostei. É um Mestre que tem uma prática forte e redonda ao mesmo tempo. A sua prática está fundamentalmente ligada a preocupações de ordem espiritual. É muito atento a toda gente, parece um gato, muito suave, mas com reacções instantâneas. Mestre Mitsugi Saotome dirige a organização internacional Aikido Schools of Ueshiba.

18- É curioso verificar que há pelo menos um ponto em comum entre estes dois mestres (Stobbaerts e Saotome), ambos foram uns outsider do Aikikai.
JMD- Não estou a perceber?!

19- O Mestre Saotome não foi um dos enviados oficiais do Aikikai quando viajou para os Estados Unidos, ou seja, criou uma organização independente do Aikikai e só agora, mais recentemente, foi novamente integrado pelo Aikikai.
JMD- O Mestre Mitsugi Saotome nunca se desligou da Escola Aikikai. E quando viajou pela primeira vez do Japão para os Estados Unidos, se não foi como um enviado oficial, sempre teve o apoio do Aikikai. E a prova flagrante desta afirmação, é que mais tarde, foi nomeado representante oficial do Aikikai para os Estados Unidos da América.

20- Acha importante receber formação directa de alunos que tenham estado realmente próximos ao Fundador?
JMD- Considero importante que se receba o ensino de alguém que entendeu profundamente o Aikido. Ser aluno directo do Mestre Morihei Ueshiba é naturalmente algo de muito especial, mas todos os alunos do Mestre Morihei Ueshiba perceberam duma maneira desigual o seu ensinamento. Quando lemos alguns dos livros relatando factos da época, podemos verificar que na altura, os alunos não estavam todos interessados da mesma forma no ensino do Mestre Ueshiba.

21- Há ainda algumas excepções, como por exemplo o Mestre Saito em Iwama.
JMD- Pois, ... Não sei se foi o caso... Havia alguns alunos que seguiam o Mestre Ueshiba e que eram também membros da seita Xintoísta Omoto, como por exemplo o Mestre Tsuda. Com efeito, para perceber o percurso do Aikido de O'Sensei Morihei Ueshiba, era e é preciso se interessar pelo ensino do Mestre Deguchi.

22- Acha que se consegue separar isso, no caso do Aikido, filosofia/espiritualidade de técnica?
JMD- O estado de unidade não surge espontaneamente. Suponhamos: o Pedro ensina um movimento, eu observo e tento fazer tal e qual, mas os pressupostos do Pedro não estão obrigatoriamente incluídos naquilo que tentei reproduzir. Podemos deixar qualquer coisa para trás, porque é evidente que estamos separados à partida. Se falhamos na percepção dos conteúdos adjacentes a um movimento, podemos cair no puro mimetismo, sem chegar a praticar correctamente. Geralmente, quando somos jovens, estamos mais interessados em aspectos como atirar uma pessoa a três metros, em lutar, a esvaziar a vesícula biliar, do que em coisas mais diferenciadas ou até espirituais. A idade e a maturidade dum aluno permite, em certas circunstâncias, ver de modo diferente factos antigamente ignorados, às vezes é preciso esperar um pouco...

23- Mas há mestres que estão envolvidos com a mesma religião que O'Sensei e com outras práticas comuns.
JMD- A maior parte dos alunos que participaram na seita Omoto e que sobreviveram à 2ª guerra mundial, contribuíram muito pouco ao desenvolvimento do Aikido. Recuperar as coisas à posteriori, não é a mesma coisa, o ensino directo já não está lá. A presença do Mestre quando se recebe o ensino é determinante. Não estou a dizer que as pessoas não podem voltar à essência das coisas, mas parece-me que terá de ser de outra maneira.

24- Um certo mestre disse que a raiz da nossa prática se encontra só no Fundador e acrescentava que o que lhe lembram as pessoas que não têm o Fundador como referência da sua prática é como estarem sentadas num ramo de uma árvore e cortarem este ramo. Perdem a ligação à arte original.
JMD- Quem é o sucessor do próprio Morihei Ueshiba? O seu filho, e hoje o seu neto. Se defendemos uma tradição marcial japonesa, devemos ser consequentes e aceitar regras que têm séculos. Podemos facilmente deduzir que a pessoa designada recebeu esta confiança e responsabilidade por mérito. Ou será que o Mestre Morihei Ueshiba se enganou, estava cansado ou distraído quando nomeou o Doshu??? Morihei Ueshiba deu ao Doshu a competência para decidir o futuro. Cada um é livre de não aceitar a decisão de Morihei Ueshiba, mas seguindo este raciocínio, estamos provavelmente todos condenados a cair da árvore. Aliás, mesmo que existisse a capacidade de provar que um Aikido é mais verdadeiro que outro, declará-lo obcecadamente é deslocado à luz dos ensinamentos de Morihei Ueshiba. O Mestre Morihei Ueshiba foi também ensinado e o Mestre do Mestre dele também. Existem também Mestres de Tai Chi, de Yoga, de Zen, que ensinam... Se há uma origem, é essa origem que é importante. Dizer que fora duma certa comunidade não há salvação, pode fazer sorrir pela ingenuidade. Se um princípio é único, pode haver muitas maneiras de exprimi-lo. Acreditar que existe uma só Via ou uma só maneira de exprimi-la pode desencadear guerras, porque as pessoas não são robôs. O importante, quando alguém segue uma Via, é não mudar de Mestre todos os cincos minutos como uma borboleta. E para os afortunados que conhecem o Princípio, imagino que devem respeitar algumas regras intrínsecas para não adulterarem o sentido da Via. Imagino que quando uma pessoa chega ao cume da montanha, pode ver ao longe muitos caminhos que convergem nesse sítio. No meu caso, em baixo, não chego a ver o cume, e a diversidade das hipóteses cria uma verdadeira confusão... Deve haver caminhos que são destinados a variadíssimas paragens, umas mais baixas, outras mais altas. Os interessados devem procurar e encontrar o caminho que lhes convém. Ninguém se pode arrogar de ser o dono da Via.

25- Eu faço o paralelismo com o Yoga. É uma arte, um sistema, de prática física, milenar, com uma metodologia própria em que há regras muito específicas que fazem o corpo funcionar de uma forma muito específica e rigorosa. No Aikido, ao contrário, parece que cada um pode fazer o que quiser, porque é tudo muito vago e o espaço para as opiniões pessoais é imenso.
JMD- O Yoga permite, entre outras coisas, soltar os "nós". Mas as coisas não funcionam separadamente, em sistemas estanques, a forma de estar no mundo, a execução criteriosa de uma asana, a maneira de falar, a maneira de se preocupar, de pensar, de estar em silêncio, contribui directa ou indirectamente aos progressos duma pessoa... Bem, como deve entender, estes comentários estão a extravasar largamente a minha condição de principiante... Mas tem razão, é importante ser muito preciso em relação ao "como se faz" respeitando a natureza desta pesquisa.

26- O que estou a dizer é que há uma forma específica definida e concreta de praticar uma arte como estas.
JMD- Sim, é verdade, cada ensinamento é específico e o relevante é aquilo que é essencial. Quando movido pelo essencial, o ensino específico adquire todo o seu significado e a sua forma. De outra maneira torna-se um sistema rígido, sem verdadeiro significado relativamente à própria Via.

27- Essa não é uma forma fácil e sem grande peso de consciência para a pessoa não fazer esforço de forma a minimizar o afastamento para com o Fundador?
JMD- O afastamento ao ensino do Fundador do Aikido resulta da não compreensão dos princípios envolvidos nos movimentos que o Fundador ensinava, e não dum "mimetismo técnico". Se a forma é fundamental, é só a sua ligação aos princípios que a torna viva ou Aiki.

Estágio com Saotome Sensei, passeio do grupo português, perto do Monte
AigualLe, Vigan, 2002

 

28- Quando olhamos para um determinado movimento, numa técnica, este pode ser ou não eficaz, ou seja, estar correcto ou não. Parece-me tão simples ...
JMD- O facto de uma técnica resultar não quer dizer que traga uma mensagem por trás disso. Se dou uma cabeçada ao Pedro, não vai ficar a pensar que se tratava de uma mensagem daquelas... (Risos). O facto de haver uma eficiência imediata pode ser portador de qualquer coisa, mas também pode ser uma coisa que não interessa a ninguém.

29- Quando falo em eficiência da técnica falo em definição, rigor e capacidade de aplicá-la.
JMD- Ah bom, então é preciso definir o significado que atribuímos a eficiência.

30- Provavelmente cada escola tem o seu próprio conceito sobre Aikido, o que faz com que a essência seja diferente.
JMD- Acho que conceito não é essência. Quando conseguimos transformar dois movimentos opostos num só, a noção de atacante e de atacado esvazia-se. Os conceitos funcionam melhor na descrição de coisas em estados separados ou mais estáticos; para noções como unidade, essência, Amor, é um pouco desajustado usar medidas ou linguagem não correspondente. O Aikido dualista (marcado pelas noções atacante/atacado, ou pior pelo sono...) que pratico, é um Aikido "separado", quase virtual. Se fosse dotado de sabedoria, o Aikido resultante expressava um estado de unidade com a natureza que dispensava qualquer comentário...

31- Está a dizer que há colaboração da parte do atacante?
JMD- Não é uma questão de colaboração, nem de condescendência. Por exemplo, durante irimi não evitamos o murro, estamos com o outro. É qualquer coisa difícil de explicar. Deve haver graus maiores ou menores deste tipo de unidade, mas acho que é essencial haver uma tendência para adquirir esta unidade, harmonia e equilíbrio. Podem existir dois parceiros, mas deve haver um movimento.

32- Eu já tive a experiência com vários praticantes de certas escolas, alguns com quinze ou vinte anos de prática de Aikido, que quando são agarrados com muita firmeza, têm muitas dificuldades de se harmonizarem com esta oposição, porque o atacante não está a ser colaborante. É óbvio que isso significa que na sua prática normal há colaboração por parte do parceiro.
JMD- Há vários níveis implicados na palavra colaboração. De um lado, não podemos aprender algo sem haver alguns atritos. Imaginar que fazer assim (realiza um gesto abstracto no ar - ed.), gera só por si harmonia... (Risos). No Aikido a harmonia é algo mais profundo que isto, não corresponde, só por si, a uma forma exterior formal. A harmonia é qualquer coisa vivenciada que se manifesta externamente. O estudo orientado da forma pode ajudar a desenvolver a Harmonia. Colaborar no Aikido é tentar evitar a prática dum Aikido que funciona mecanicamente (não confundir com a mecânica do movimento...). Os ataques, como as replicas, devem na medida do possível ser espontâneos. Não devemos bloquear à partida para afirmar o nosso ego, mas devemos tentar experimentar todas as formas e intensidades, num espírito de abertura, de disponibilidade e de predisposição para a excelência. Claro que há casos, onde se pode utilizar a resistência activa durante um certo tempo para ajudar alguém em determinada circunstância, mas esta forma de proceder nunca se deve estabelecer como método. Não devemos cair em qualquer tipo de estereótipo, mas antes tentar despertar a imaginação.

33- Também está de acordo com a classificação do Aikido que pode ser redondo ou directo?
JMD- Uso pouco essa terminologia, mas é muito comum no nosso mundo. Agora, classificar o Aikido directo ou redondo, como se alguém instituísse duas maneiras de andar separadas, é um ponto de vista limitativo. Mas se utilizamos estes termos como um fenómeno polar no Aikido, podemos reavaliar os mesmos factos de outra maneira. Pessoalmente acho dispensável, o uso duma terminologia que não corresponde a um ensinamento mais profundo ou com alguma utilidade.

34- Quando comecei a ouvir esta classificação creio que se pretendia distinguir a forma de Aikido dos últimos anos, do Fundador, da sua fase mais precoce.
JMD- Pois, tem razão. A partir de uma certa idade o Fundador praticava o Takemusu Aiki. Mas cada pessoa faz o seu percurso, não podemos tentar imitar o percurso dos outros para obter os mesmos efeitos. Mozart tocava sonatas aos dez anos, mas o percurso de Mozart não pode ser facilmente comparado com qualquer outro músico. O importante é ser ensinado por alguém que conhece os princípios da modalidade em questão e que descobre intuitivamente, para um determinado aluno, qual é a melhor opção a seguir para o seu percurso. Tudo isso, tendo em conta (e conjugando) todos os aspectos da modalidade, da prática da modalidade e do indivíduo em questão.

35- Há pouco, em conversa, referiu que uma das lacunas, na escola do Mestre Stobbaerts, passava por dar menor ênfase à prática de armas. Que importância atribui a este tipo de prática?
JMD- Como sabe, Mestre Saito teve o desembaraço de ser o primeiro, ou um dos primeiros, no Aikikai, a se preocupar a ensinar aos seus alunos um programa sistematizado em buki waza. Em geral, só mais tarde, há mais ou menos quinze ou vinte anos, é que o Aikikai e as outras escolas, como a do Mestre Stobbaerts, começaram a preocupar-se em preencher essa lacuna. Mestre Saito, Mestre Seigo Yamagushi e Mestres antes da Segunda Grande Guerra, tiveram a preocupação de praticar armas. Mas o Mestre Saito foi o primeiro a sistematizar e a divulgar a sua prática. Sob este aspecto, foi um marco. Isso é fácil de reconhecer e seria má fé ignorar esse facto.

36- Ainda há muitas pessoas, de grande responsabilidade, que não sabem, por exemplo, que os nomes dos suburi de armas, que se utilizam em todas as escolas, pensando-se que foram criados por O'Sensei, têm origem no Mestre Saito. Considera que qualquer sistema de armas desde que inclua um boken ou um jo se podem tornar automaticamente, só por serem manobrados por um Aikidoca, em aiki ken e aiki jo?
JMD- Considero que a pratica de O'Sensei é diferente da do Mestre Saito.

37- Em que é que se baseia para poder fazer essa afirmação?
JMD- Baseio-me naquilo que observei. Considero que há um hiato, uma diferença fundamental entre ambos. Esta é a minha sensação, mas posso estar completamente errado.

38- Mas que observações realizou para poder afirma isso?
JMD- A distinção que o Mestre Saito faz entre o Shomen Uchi do Kendo ou Iaido e no Aikido é uma afirmação natural em si, porque o próprio Mestre Ueshiba desenvolveu diferenças, mas entre essas diferenças há alguns pontos que são talvez mais específicos ao Mestre Saito. Aliás, é perfeitamente natural que o Mestre Saito não seja uma cópia do Mestre Ueshiba. Em Iaido a descrição do movimento de corte pode ser vista (pela conveniência da explicação) em duas fases não separadas, um amplo movimento de trás para frente, e o corte em si que finaliza o movimento. Se não há um movimento amplo dos braços na primeira fase do movimento, temos que cortar a uma distância mais curta. O outro ponto é a atenção dada, durante o corte, a manutenção do plexo aberto, das omoplatas não muito afastadas, dos ombros relaxados e baixos.

39- Confesso que me faz uma certa confusão como é que as pessoas comentam certos pormenores de outros mestres sem terem qualquer tipo de contacto directo e prolongado com eles. Tem por exemplo a ideia do Fundador ser extremamente crítico com o Iai Do? E por ter alterado uma série de coisas, convencionadas, na sua forma de armas, ser duramente criticado entre a comunidade de artistas marciais? Estes dados históricos atestam bem que não é o boken nas mãos do Aikidoca que faz o aiki ken, mas sim uma certa maneira de o utilizar.
JMD- Quando o Fundador fazia Shomen Uchi, e só relativamente aos aspectos descritos anteriormente, fazia exactamente como os praticantes de Iaido e Kendo. Podemos ver isso nos vídeos.

40- Temo-nos estado a centrar num mestre que, por acaso, foi o único que acompanhou o Fundador em Iwama, onde ele esteve retirado, nos anos mais intensivos de prática que alguma vez teve. Mestre este que não teve mais nenhum professor para além de Morihei Ueshiba. Foi também o único que teve licença de O'Sensei para ensinar armas quando este estava ausente, quando todos os outros estavam proibidos de as treinar caso o Fundador não estivesse presente.
JMD- En Iwama, durante a guerra em 1942, O'Sensei estava muitas vezes doente, mas é indiscutível o papel relevante que Morihiro Saito teve nas armas. Ninguém lhe quer retirar esse mérito.

41- O que é absolutamente fascinante é que se considere que aquilo que aprendeu, neste caso, foi incorrecto ou incompleto.
JMD- Quando vejo um Shomen Uchi nos vídeos do Mestre Morihiro Saito é diferente do Shomen Uchi do Mestre Morihei Ueshiba. Mas provavelmente sou ainda muito ignorante para fazer tais afirmações.

42- Alguma vez ouviu a explicação da boca do Mestre Saito?
JMD- Não. O problema do Aikido é que o Fundador não estabeleceu um sistema de armas e provavelmente não foi uma omissão. Qualquer prática de Aikido não pode ser baseada num só sistema ou conceito, embora tenhamos todos de aceitar que tem de haver uma técnica de base, o kihon. O Mestre Ueshiba tinha o controlo do ki, o kihon para ele... Talvez ele tenha pegado nas coisas noutro nível, é impossível ou muito problemático reproduzirmos o percurso dele. Mas voltando ao Mestre Morihiro Saito, é importante dizer que tenho um profundo respeito por ele e por aquilo que ele fez e por sua escola em geral. Tenho as melhores relações com o seu aluno directo em Portugal, Mestre Tristão da Cunha (5º Dan de Aikido). E aprendi coisas muito interessantes durante os dois estágios que segui.

43- O que as pessoas tentam imitar são os vídeos, que têm gravado apenas as demonstrações, as suas exibições, e não o ensino da arte. E copiam isso para se poderem parecer ao Fundador, como se assim estivessem a praticar o verdadeiro Aikido, mesmo sem perceberem nada do que ele está a fazer.
JMD- Se vejo um aluno meu a "armar-se em Morihei Ueshiba", mando-o logo parar com isso (Risos). Mas o caricato da situação é imaginar que se pode obter os pressupostos mentais ou perceber a mensagem do Mestre Morihei Ueshiba pela simples repetição ou imitação. Esta superstição é ainda hoje enraizada na mente de muitos praticantes. Nas armas o Fundador desenvolveu o seu trabalho partindo de um certo patamar e não há ninguém que o possa imitar a partir dos mesmos pressupostos. Por qualquer razão, que desconheço, ele não "desceu cá abaixo" e disse vocês têm que fazer assim e assim. Talvez não tenha tido essa disponibilidade ou vontade... parece que era um pouco contrário às noções de programa e de metodologia.

44- Desculpe insistir, mas parece-me um ponto histórico central para o Aikido. Em Iwama o seu ensino era, de certa forma, sistematizado e para os alunos que conviviam com ele diariamente podiam ir apanhando esta linha de coerência. Tem ideia porque é que ele não fazia o mesmo em Tóquio?
JMD- Não sei, mas posso imaginar que fosse por uma questão de inspiração. Penso que é um pouco por isso. Fazia misogi (exercícios de purificação - ed.), desenvolvia um determinado tipo de coisas, num determinado meio. O ambiente podia também ser uma inspiração e todos sabemos que em Tóquio não era o melhor local para se ser inspirado. Por isso, o facto de ele ter praticado as armas era porque tinha a ver com o percurso dele. Naturalmente, o Mestre Saito que estava a seu lado teve a sorte, a grande sorte de estar no momento certo, na altura certa. Eu acho que foi um golpe de sorte dele.
O Mestre Ueshiba pode ter ensinado em outros locais armas, mas a época de Iwama foi importante porque ele estava na natureza, num meio propício, acho que era mais fácil convocar os deuses ali do que em Tóquio, no Aikikai. Mestre Ueshiba é um pouco como um artista, no sentido em que quando estava a puxar a própria corda da sua evolução, estava sujeito à energia das coisas. A natureza forçou-lhe a mão (Risos).

45- Não lhe parece que se vai introduzir um erro, na forma original, nesta tentativa de repor as técnicas de armas utilizando outros sistemas diferentes, que como disse tem sido uma opção dos últimos anos das principais escolas de Aikido?
JMD- Como o Mestre Ueshiba não desenvolveu, à partida, um programa, o erro existe. Mesmo no taijutsu, ele estava contra os programas. Com ou sem ensino sistematizado, desde que percebamos os princípios, a abordagem é sempre possível, se não for "por cima" é "por baixo". Se uma pessoa pensa que só com a parte de baixo resolve está enganado e o mesmo para a parte de cima. É complexo porque esta maneira de abordar requer um saber fazer muito rodado e criativo. Acredito que o ensino do Mestre Ueshiba poderá um dia ser cabalmente resolvido se alguém conseguir através da prática do Aikido, e de outras coisas, chegar um pouco ao mistério do Ser e a partir daí voltar a reencontrar o Aikido do Mestre Ueshiba. Uma pessoa que compreenda o mistério do Ser terá todos os elementos possíveis e mais alguns, para compreender o ensino do Mestre Ueshiba e talvez até transcendê-lo, não da maneira como ele fez, mas duma maneira própria. Até acontecer esse momento, não vejo grandes hipóteses de ver o Aikido transcrito na íntegra (respeitando a mensagem do Mestre Ueshiba) para a nossa época.
A juventude na época dele era diferente da nossa, havia guerras, os valores eram diferentes, assim como a maneira de ver o mundo e até as próprias técnicas. O Universo não é bem o mesmo. O tempo parece passar cada vez mais depressa. Só pegando as coisas mais no "centro" poderemos vislumbrar um Aikido distinto, mais parecido com o do Mestre Ueshiba na sua essência, talvez algo diferente na sua forma.

46- Como acha que se pode fazer isso?
JMD- Se soubesse não estava agora a falar consigo, já estava nas nuvens (Risos). Nem falava, falar de quê?... (Risos)

47- Parece-me que as pessoas dizem muitas coisas, de sua criação, e atribuem-nas ao Fundador, como conceitos, frases feitas, etc., e é por isso que o Aikido vai ser cada vez mais diferente de escola para escola e vai-se afastar ainda mais do Fundador.
JMD- Isso vai acontecer. A multiplicidade acontece e vai continuar a acontecer. Da própria matéria resultou uma evolução que originou a complexidade. Há mesmo quem diga que, no panteão, os deuses se multiplicam. É engraçado, acho que é na Índia que dizem isso, há cada vez mais deuses. Acho esta imagem expressiva.

48- A mim parece-me que é por outro motivo. Porque as coisas forma ensinadas com pouca definição e rigor, no principal centro de onde saíram os mestres que divulgam o Aikido, Hombu dojo do Aikikai, agora há liberdade para cada um interpretar o assunto à sua maneira.
JMD- Uma das formas para voltar à excelência é de aprender a conjugar correctamente os aspectos fundamentais com os aspectos periféricos.

49- Para mim é muito simples, é preciso definir, marcar fronteiras, dizer isto está correcto ou isto está errado, ou isto está correcto neste caso, mas errado no outro. Se não se marcar esta diferença ao fim de algum tempo será impossível dizer o que é errado ou correcto. Parece-me que preservar uma arte passa por manter intacto o que é original e essencial, quer se goste, quer não. De uma variação pode surgir algo fantástico, mas já não é o original.
JMD- Não, não, a disciplina nunca resolveu nada por si. A diferença reside na aplicação e compreensão de princípios. Talvez o momento mais complicado para um Professor seja o da correcção dum(a) aluno(a). Como podemos dizer que uma coisa está simplesmente correcta ou errada? Preto sobre branco? Sem falar do caso de ser confrontado com a presença de alunos(as) principiantes que parecem mais dotados(as) que nós... (Risos) É muito difícil, temos que evitar definições apressadas. Devemos evitar a indecisão, sem esquecer as nossas limitações. Há um provérbio chinês que diz que "quando apontas o teu dedo (indicador) sobre algo, o médio, o anular e o mínimo estão a apontar para ti... Cuidado!... (Risos)

50- Mas não lida com os seres humanos? Então tem que estar num plano concreto também.
JMD- O plano concreto é termos que vivenciar e acreditar numa coisa, procurar desenvolvê-la, procurar que ela frutifique, ter uma ideia do caminho que se deve fazer. Os alunos que seguem um ensino tentam perceber os preceitos transmitidos através da linguagem utilizada. É o mais coerente que posso arranjar.

51- Se o Mestre Ueshiba fosse vivo e tivesse essa possibilidade, optaria por ser aluno directo?
JMD- Não sei, não vou dizer, tipo cliché - claro que seria aluno dele. Mas se pudesse, acho que sim.

52- Não podendo, escolheria o elo mais directo?
JMD- Sei lá...Sim, na perspectiva que o elo mais directo são os alunos de O'Sensei que perceberam o ensino.

53- Mesmo que ela fosse diferente da do Fundador?
JMD- O próprio Fundador se regia por princípios que ainda existem. A diferença mais significativa reside na leitura que cada um pode fazer destes princípios.

54- Algumas das coisas que ele ensinava eram absolutamente objectivas, como quando repreendia firmemente algum aluno por estar a fazer algo incorrectamente.
JMD- Um Professor parece-se um pouco com um painel de trânsito, ele comunica certas coisas, a decisão e o caminho a percorrer fica com os alunos. A relativa infalibilidade do Mestre, que transmite ao discípulo, é atinente à sua pedagogia. Quanto à infalibilidade do Papa, alguns orientais declaravam: "A infalibilidade do Papa é uma coisa boa, o que achamos esquisito é que não haja mais pessoas!". Na procura da excelência pode haver duas ou mais Vias contraditórias, e podem estar todas certas. Pois, todas elas podem levar a excelência. Dentro duma Via, um Mestre segue um sentido que é objectivo, nem sempre para os alunos, ainda menos para as pessoas fora do seu círculo próximo... (Risos)

55- O Professor tem sido um pioneiro na iniciativa de levar ao seu dojo outros professores de Aikido, de escolas diferentes. Pode-nos falar um pouco desse projecto?
JMD- Deveria sempre existir oportunidades para se poder observar o Aikido no interior e no exterior da sua própria escola. No que me diz respeito, considerar que não há nada a aprender com os outros é actualmente inoportuno, nem sei se é salutar um dia viver despreocupado a este respeito. A iniciativa destes contactos pode ser desenvolvida nos estágios e está aberta a qualquer um.

 

 

 

56- Como profissional de Aikido, considera ser importante esta opção, ou seja, é positivo surgirem cada vez mais praticantes a enveredarem pela profissionalização?
JMD- Maurice Béjart dizia que "Um profissional é um amador que só faz aquilo" (Risos). Não vou tomar o meu café duma maneira amadora, e o meu pão com manteiga duma maneira profissional. Acho que os Aikidocas devem ser profissionais na sua prática e seriedade. Do outro lado, quando um Agente de Ensino de Aikido aceita a sua função, as circunstâncias que consistem em ser remunerado ou não, ou ainda desempenhar o ensino em tempo parcial ou em dedicação exclusiva, não deveria diminuir ou alterar a responsabilidade contratada perante os alunos. Ser profissional de Aikido em Portugal é ainda um luxo. E sem querer generalizar, deve haver muito poucas pessoas que conseguiram enriquecer, ou pior, sobreviver, ensinando o Aikido como único meio de subsistência.

57- Gostaria de acrescentar mais alguma coisa?
JMD- Não, acho é que já falei de mais (Risos).

58- Muito obrigado Professor.

Entrevista realizada em 26 de Setembro de 2000

 

Gostaria de deixar aqui expressos os meus agradecimentos ao Jorge Nascimento pela sua ajuda na elaboração desta entrevista.

Pedro Escudeiro


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