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1º
Estágio do Mestre Hirokazu Kobayashi em Portugal, 1972. Pode-se ver
ainda Misao Honda (sentado),
Leopoldo Ferreira (em pé, segundo da direita), Dr. Pires Martins (em pé,
quarto da direita).
1-
Pode dizer-nos o seu nome, idade, graduação e de que organização?
LF-
O meu nome é Leopoldo António Serra Ferreira, tenho 48 anos e sou
cinto negro de Aikido da União Portuguesa de Budo.
2-
Não tem graduação?
LF- Na União Portuguesa de Budo não temos graduações. A
graduação mais elevada é o cinto negro, a partir daí acabaram-se os
exames. Não existe 2º, 3º dan., etc.
3-
Mas a Comissão Directiva das Artes Marciais (C.D.A.M.) não instituiu
graduações de Dan?
LF-
Sim, sim, instituiu diplomas e graduações. Eu tenho um diploma de
graduação, que anda para aí, mas nem sei qual foi a graduação que
me atribuíram, não ligo mesmo nada a papeis. Ligava tanto àquilo que
já nem me lembro! (Risos) Não ligo mesmo nenhuma a graduações de Dan.
O que me interessa são as pessoas, a maneira como praticam, a humildade
que demonstram, a forma como se entregam ao treino, ... isso é que é
importante para mim, agora se é 3º ou 60º, não me diz nada. A partir
de cinto negro não existe mais graduação nenhuma na União Portuguesa
de Budo (UBU).
4-
Pode-nos fazer uma pequena resenha histórica da forma como surgiu o
Aikido em Portugal?
LF- O Aikido começou na Academia de Budo, nos anos sessenta, creio
que em sessenta e seis ou sete, aproximadamente. Não sei precisar a
data porque não estava em Portugal nessa altura, só cheguei em 1971. O
Aikido foi ensinado pela primeira vez devido a um pedido expresso do Dr.
Pires Martins por um aluno que ele tinha, de Karate, que se chamava
Daniel Laurent e que era belga.
O Dr. Pires Martins sempre gostou de Aikido, costumava ver filmes de
Aikido, mas não tinha ninguém para ensinar a arte. Então, numa
ocasião, surgiu em conversa, com o Daniel Laurent, que este tinha
praticado Aikido durante quatro anos. O Dr. Pires Martins pensou logo
que, se ele tinha feito Aikido durante quatro anos, já sabia o
suficiente para ensinar. Mas o Daniel Laurent era uma pessoa muito
simples e humilde e disse que não tinha condições para estar a
ensinar Aikido. Contudo, o Dr. Pires Martins insistiu e ele aceitou
ensinar Aikido, mas com a condição de que o mestre dele, que era o
Mestre George Stobbaerts, viesse a Portugal realizar estágios.
Portanto, o início do Aikido em Portugal deve-se ao pedido concreto, e
insistente, do Dr. Pires Martins a um senhor chamado Daniel Laurent, que
era seu aluno, e que começou a ensinar Aikido na Academia de Budo, nos
anos sessenta, com a condição do Mestre Stobbaerts vir a Portugal
ensinar em estágios. Este é o início do Aikido em Portugal.
Entretanto, o Mestre Stobbaerts veio várias vezes a Portugal realizar
estágios, em vários locais, como na praia ou nos jardins da casa do
Mestre Corrêa Pereira, no Monte Estoril. A mulher do Mestre Corrêa
Pereira, ainda viva, continua a guardar esses filmes, que eu já vi.
5-
Haviam aulas regulares?
LF- Sim, o Daniel Laurent dava aulas regulares de Aikido na A.P.B.,
enquanto o Mestre Stobbaerts vinha de vez em quando dar estágios.
6-
A Academia de Budo era o único centro de prática de Artes Marciais em
Portugal?
LF- Penso que sim, que era o único em Lisboa e no país. Mais
tarde, o Judo Clube de Portugal começou a ter Judo, mas só Judo
desportivo, pela Federação Portuguesa de Judo.
7-
Já nessa altura se fazia a distinção entre o Judo desportivo e o
marcial?
LF- Sim, já havia essa diferença, o chamado Budo Judo e o Judo
desportivo.
8-
Quem formou a escola de Judo desportivo?
LF- Foi o Mestre Kiyoshi Kobayashi, no Judo Clube de Portugal.
Alguns desse grupo tinham sido alunos de Judo do Mestre Corrêa Pereira,
mas como queriam fazer competição e desporto foram para lá, onde
tinham essa possibilidade.
9-
Portanto, até o Mestre Stobbaerts se fixar em Portugal ...
LF- O Mestre Stobbaerts fixou-se em Portugal a partir de 1971 e
fundou o Budokan de Cascais. Também dava aulas na Casa da Mocidade. Eu
comecei em 1971, mas com Misao Honda.

Budokan
de Cascais, 1975
10-
Como é que Misao Honda veio parar a Portugal, foi através de algum
convite de cá?
LF-
Creio que ele queria sair do Japão e vir para o Ocidente, não foi
nenhum pedido. A pedido veio o Mestre Masami Shirooka, do Judo. O Mestre
Corrêa Pereira fez um pedido ao Ministério da Educação do Japão
para enviarem para Portugal um mestre credenciado de Judo. E assim veio
o Mestre Shirooka, ensinar Judo para Portugal, na Academia de Budo.
11-
Quem é que suportava os custos das despesas com os mestres?
LF-
O Mestre Corrêa Pereira. Ele pagava nessa altura dezassete mil escudos,
por mês, do próprio bolso. Ficavam na casa dele, com comida, bebida e
roupa lavada, tudo pago, e ainda recebiam dezassete mil escudos. Isto no
princípio dos anos sessenta.
12-
As aulas eram cobradas aos alunos?
LF-
Penso que sim, que se pagava uma quota, mas bastante reduzida.
13-
Era mesmo encarar as Artes Marciais como Budo.
LF-
Exacto. O Mestre Corrêa Pereira dizia que o Budo não se paga, se é
professor de Budo dá aulas gratuitamente. Porém, sabe-se que não era
exactamente assim, pois ele teve que pagar ao Mestre Shirooka para
ensinar Judo. Ele dizia isso porque era muito rico. (Risos)
14-
Este Mestre ensinava Judo não desportivo?
LF-
Exacto. O Mestre Shirooka tinha sido Capitão Kamikaze durante a Guerra
e quando se estava a preparar para a sua missão, para se atirar de
avião contra os americanos, a Guerra acabou e ele já não seguiu. Este
mestre foi muito desaproveitado, porque os alunos que praticavam com ele
não tinham capacidade para absorver os seus ensinamentos técnicos,
ainda estavam muito no início. Entretanto ele foi-se embora,
aborreceu-se quando soube que um outro mestre japonês, (Mikinosuke-ed)
Kawaishi, que estava em França, ganhava mais do que ele, ganhava 20
contos por mês. Ele ficou mesmo zangado, porque eram da mesma
graduação e queria ganhar o mesmo que o outro. Ele é que não
percebeu que, relativamente ao nível de vida em França, os 17 contos
que ganhava cá valiam uns 20 ou 30 lá, além de ter casa, roupa e
comida de graça.
O Mestre Kobayashi veio para Portugal um pouco antes, a convite do Judo
Clube de Portugal e penso que da Federação de Judo, também, e acabou
por cá ficar. Contribuiu muito para o desenvolvimento do Judo, sem
dúvida nenhuma, Judo desportivo.
A expressão, em Portugal, do Judo como Arte Marcial, é muito reduzida,
há muito poucos alunos. Há em Portugal mais um mestre, um senhor
inglês, Glyn Bannister que também ensina este Judo, mas não temos
tido muitos contactos.
15-
Como é que se deu a transição entre a Academia de Budo e a União
Portuguesa de Budo?
LF-
O clube que existia, na Rua de S. Paulo, chamava-se Academia de Judo,
porque lá só se fazia Judo, que era a única Arte Marcial conhecida em
Portugal. Estamos a falar dos anos quarenta e do início com o Mestre
Corrêa Pereira que era quem dava as aulas. Mais tarde, começaram a
fazer Karate, através do Dr. Pires Martins, que tinha estado em França
e se tinha interessado por esta arte. O Karate da linha dos mestres como
Enoeda (Kenosuke-ed), Kase (Taiji-ed), etc. Como na Academia de Judo se
passou então a ensinar outras artes, para além do Judo, o nome
alterou-se para Academia de Budo. Mas continuou a ser um clube. Como
associação só surgiu mais tarde com a União Portuguesa de Budo,
creio que em 1966, portanto, uns vinte anos mais tarde. A U. P. B.,
funcionava, na sua parte burocrática, na Academia de Budo, mas era uma
associação de Artes Marciais que incluía vários clubes por todo o
país.
16-
E quem foram as pessoas que constituíram essa associação?
LF-
Foi o Mestre Corrêa Pereira, o Dr. Pires Martins, o Engenheiro
Sebastião Durão, que ainda se mantém, desde o início, como
Presidente da Direcção da União, e mais umas quantas pessoas que
praticavam lá, como o Raul Cerveira, o Alexandre Gueifão, o Mário
Rebola e outros destes praticantes mais antigos. Já passou muita gente
pela União, ao longo destes anos todos.
17-
Todos os professores de Artes Marciais que tenham começado a praticar
nessa época passaram pela Academia de Budo?
LF-
Exacto. Começaram todos na Academia de Budo, foram todos alunos do Dr.
Pires Martins, como o José Manuel Custódio, Almeida Cunha, Manuel
Ceia, Mário Rebola, Francisco Gouveia, Alexandre Gueifão, Raul
Cerveira, o Vilaça Pinto, etc.
A certa altura houve um sul-africano, Ronald Clark, indivíduo muito
robusto, que começou a ensinar na Academia de Budo, um Karate do tipo
do Shotokan. A Academia de Budo queria que um mestre japonês viesse dar
estágios a Portugal, tal como acontecia com o Mestre Stobbaerts, do
Aikido. E começaram a pensar que mestre deveriam contratar, pois haviam
vários na Europa, como o Kase e o Tetsuji Murakami, que estava em
Paris. Como o Murakami foi aquele que ofereceu as melhores condições,
à Academia de Budo, veio ele. Os outros eram muito caros. Mas alguns
alunos do Dr. Pires Martins, que começaram depois a fazer Karate com o
Clark, que fazia um Karate muito contraído, cheio de força, não se
adaptaram ao estilo do Murakami, muito mais flexível. As pessoas
estavam acostumadas a um estilo e o Murakami veio fazer outro e houve
aqueles que se adaptaram e os que não. E como não se adaptaram saíram
da Academia de Budo como, por exemplo, o Custódio, o Cunha, o Carlos
Pereira e outros. Quem continuou com o Karate na Academia foi o Rebola,
o Gueifão, o Cerveira e o Gouveia. Esses é que continuaram.
18-
Estes alunos faziam outras artes?
LF-
Sim, sim, quase todos eles eram praticantes de Judo, por exemplo. O Raul
Cerveira era um excelente praticante de Judo. O Carlos Pereira também
fazia Aikido e foi quem ficou no lugar do Daniel Laurent quando este
deixou de dar aulas de Aikido. O José Araújo, era miúdo, mas fazia
Aikido com o Carlos Pereira, por exemplo. O José Araújo deve ser o
praticante mais antigo de Aikido (iniciou a prática em 1966-ed).
19- Chegou a ser aluno do Carlos Pereira?
LF- Não, eu só comecei a praticar em 1971, mais precisamente a 30
de Dezembro de 1971, quinta-feira, às 18.30h (Risos), na Academia de
Budo, com Misao Honda. Nem conheci o Daniel Laurent, tenho muita pena,
mas não o conheci, aliás, posso até ter-me cruzado com ele, não sei,
porque passava tanta gente pela Academia, mas se isso aconteceu não me
lembro dele.
20-
O Sr. Honda estava cá nas mesmas condições que outros mestres, em que
tudo lhes era pago, para além de um ordenado?
LF- O Honda recebia apenas o dinheiro das aulas de Aikido que dava,
o Mestre Corrêa Pereira embora ainda estivesse vivo, já estava
retirado, por isso, as condições eram outras. Ele já pouco ia à
Academia de Budo, quem a dirigia era o Dr. Pires Martins, era o
Director.
21-
Que outras pessoas se recorda praticarem nessa época com o Mestre Honda?
LF- Muitas pessoas, a maior parte já nem pratica.
22-
Mas os que ainda estão em actividade, por exemplo, o Prof. José
Araújo, o Prof. Luís Antunes, etc.
LF-
Não, não, o Luís Antunes nem sequer é dessa época, ele nunca
pertenceu à Academia de Budo. Ele só apareceu em 1975, quando o Honda
voltou, pela segunda vez, para Portugal, para ficar definitivamente. O
Honda passou pelos países nórdicos, esteve em Portugal uns quatro ou
cinco dias e foi-se embora. Depois voltou novamente a convite da Escola
de Budo do Tsuchyia (Mitsuharu - ed.), para ensinar Aikido, e aí é que
o Luís Antunes começou a praticar com o Honda.
23-
Mas que escola era essa?
LF-
Esta escola funcionava na Penha de França. O Tsuchyia era um indivíduo
que praticava um estilo de Karate. No Japão existe uma Arte Marcial que
se chama Shorinji Kempo. Alguns praticantes desta escola que vinham à
Europa, talvez passear, eram convidados a ensinar em Portugal. Estavam
cá uns tempos, davam umas aulas e depois iam-se embora para o Japão.
Mas o Tsuchyia praticava uma arte a que chamava Nippon Kempo, não sei
se existe no Japão, não sei. Ele costumava ir treinar à Academia de
Budo, nos tempos do Honda, portanto, entre Novembro de 1971 e Julho de
1972. Ele não ia dar aulas, mas praticar apenas. Inclusivamente, chegou
a ter a chave da Academia de Budo, cedida pelo Dr. Pires Martins, por
deferência, uma vez que era um praticante japonês de Artes Marciais.
Nessa altura, o Dr. Pires Martins perguntou-lhe se ele queria dar aulas
da arte dele, mas este recusou, dizendo que era muito perigoso, que
ensinar Kempo a ocidentais era muito perigoso. Uns anos depois abriu uma
escola de Kempo, na Escola de Budo! (Risos) Agora, das duas uma, ou o
Kempo deixou de ser perigoso ou a mentalidade dos ocidentais ficou
melhor. Se calhar foi isso (Risos). Isto é verdade, tem uma certa
graça, mas é verdade.
24-
E aquele mestre coreano que veio ensinar Taekwondo para Portugal, Chung
Sun-Yong?
LF-
Eu creio que ele veio em 1973 ou 74, veio ensinar Taekwondo para o
Sporting Clube de Portugal, mas nunca esteve ligado à U. P.B., de forma
nenhuma.
25-
Gostaria de voltar novamente ao início do Aikido em Portugal. O Mestre
Stobbaerts quando se fixou em Portugal foi dentro da União Portuguesa
de Budo?
LF- O Mestre Stobbaerts chegou a ser Director Técnico da União, da
parte do Aikido, no início. Ele ficou com esse cargo, com a missão de
desenvolver o Aikido dentro da organização. Isto antes do Honda ter
vindo.
26-
Eles chegaram a estar os dois dentro da União?
LF- Não, não. Quando o Daniel Laurent se foi embora ficou o Carlos
Pereira. Depois o Carlos, como praticava Karate, juntamente com outros
como o Custódio, o Cunha e o Vilaça, foram-se embora da União para o
Centro Português de Karate, na Parede, onde estava a Japan Karate
Association, pois queriam seguir um rumo diferente da União. Portanto,
nessa altura acabou o Aikido na UBU, foi uma altura de indefinição.
O Mestre Stobbaerts deixou então de ser Director Técnico do Aikido na
União porque não havia Aikido. Entretanto, em 1971, veio o Honda que
começou a ensinar Aikido, mas não havia nenhuma organização
burocrática como suporte. O Honda limitava-se a ensinar, dava-nos
graduações, mas não tínhamos cartões nem nada. Só mais tarde é
que começaram a aparecer os cartões de graduação, os diplomas e isso
tudo. Portanto, o Honda era o professor, mas não tinha qualquer cargo,
nem nunca teve, apenas dava aulas.
27-
Então esse cargo de Director Técnico deixou de existir na União?
LF-
Continuava a existir, não tinha era ninguém que o ocupasse.
28-
Mas não havia nenhuma classe de Aikido constituída?
LF-
Essa classe de Aikido existia, mas quando os mestres se foram embora
deixou praticamente de existir e quando o Honda voltou surgiram novos
alunos..
29-
Portanto, o Mestre Stobbaerts era o Director Técnico, mas ainda não
estava radicado em Portugal, ainda estava na fase de vir apenas para dar
estágios.
LF-
Exacto. O Mestre Stobbaerts não era o professor da Academia de Budo, os
professores eram o Daniel Laurent, primeiro e, depois, o Carlos Pereira.
Por isso, quando saíram deixou de haver Aikido na Academia de Budo,
até aparecer o Honda. Ele foi apresentar-se à Academia dizendo que era
segundo dan de Aikido e imediatamente lhe disseram para começar então
a ensinar Aikido. Creio que só houve uma pessoa que tinha sido aluna do
Daniel e do Carlos que continuou, com o Honda, a praticar, era o
Engenheiro Salazar Sampaio.

Professores
de Aikido da UBU
Pode-se
ver o Prof. José
Araújo (primeiro da esquerda) e o
Prof. Leopoldo Ferreira (terceiro)
30-
E o José Araújo?
LF- O José Araújo interrompeu a prática nessa altura, ele não
chegou a ser aluno do Honda nessa época, eu é que comecei nessa
altura, em 1971, e nunca o vi por lá. Quando o José Araújo recomeçou
a praticar já estava eu a dar aulas, portanto, foi por volta de 1973,
creio. Inclusivamente houve outros praticantes que começaram por ser
meus alunos e que obtiveram a graduação de cinto negro ainda antes do
José Araújo, como o João (Manuel da Silva-ed) Luís, por exemplo. O
José Araújo fez um interregno muito grande, nessa altura. Mas foi sem
dúvida um dos primeiros alunos de Aikido em Portugal. Mais tarde
praticou com o Mestre Stobbaerts e também na Academia de Budo. Agora
penso que está novamente com dificuldades para continuar a praticar
Aikido, tenho muita pena, porque o José Araújo é um excelente
praticante, um óptimo mestre, com um conhecimento muito profundo da
Arte Marcial. Lamento muito se ele tiver que deixar de praticar Aikido,
pois faz muita falta.
31-
Entretanto, o Mestre Stobbaerts radica-se em Portugal e forma o seu
próprio grupo.
LF-
Sim, em Cascais e depois, mais ou menos em 1977, parece-me, forma a
Associação Portuguesa de Aikido e Disciplinas Associadas, A.P.A.D.A.,
da qual eu também sou membro fundador, porque eram necessários vários
nomes e entidades nacionais para criar uma associação portuguesa de
Aikido.
32-
Pelo que estou a perceber, nessa altura, não se fazia distinção entre
aqueles que estavam ligados ao Mestre Stobbaerts e os que tinham
praticado com o Mestre Honda?
LF-
Fazia-se, fazia-se, porque os que estavam dentro da Academia de Budo,
entre 1971 e 1972, não tinham sequer conhecimento que existia outro
local onde se praticava Aikido, assim como eles não tinham conhecimento
de nós.
33-
Nem sequer conhecia o Mestre Stobbaerts?
LF-
Nem isso, nem sabia que ele vinha dar estágios a Portugal nem nada. Mas
o José Araújo conhecia-o, assim como o Carlos Pereira. Eu só conheci
o Mestre Stobbaerts, em Agosto ou Setembro de 1972, pelo simples motivo
que quando o Honda se foi embora, como eu era o aluno mais graduado, e
também porque era estudante de Educação Física, o Dr. Pires Martins
insistiu para que eu ficasse a dar as aulas de Aikido. Mas eu mal sabia
para mim, quanto mais para estar a ensinar outros e disse-lhe: "Sr.
Dr., eu não vou estar agora a dar aulas com o cinto laranja, o que é
que eu sei de Aikido?" E ele respondeu-me que o Honda me tinha
passado a cinto verde antes de se ter ido embora, "Ai sim?! Não
sabia ... (Risos) Pronto, é menos grave, mas daí a ensinar Aikido
..."(Risos) Então, o Dr. Pires Martins dá-me a direcção do
Budokan de Cascais, do Mestre Stobbaerts, que funcionava na Rua Gomes
Freire, Lote 1, Cascais. E aí fui eu para Cascais, que nem conhecia.
Isto em 1972.
Como tinha chegado a Portugal só em 1971 ainda conhecia pouco, sabia
que havia um comboio que começava no Cais do Sodré e acabava em
Cascais, "Ora, se acaba em Cascais é porque é o fim da
linha." Meti-me no comboio e esperei que o comboio parasse e lá
cheguei a Cascais. Saí na estação, olhei para um lado e para o outro,
não conhecia nada, e resolvi perguntar a um taxista onde ficava a Rua
Gomes Freire e ele disse-me logo, "Ui, isso... nunca a vai
encontrar, eu levo-o lá! E quanto é que isso vai custar ...? Obrigado,
eu prefiro ir a pé! Eu vou procurar" (Risos) E lá fui eu. Depois
de muita volta lá vi então a porta do Budokan de Cascais, aquilo era
uma cave. Eu já tinha passado pela rua várias vezes, já tinha visto o
nome da rua, mas não via nada que dissesse Budokan, não havia nada
escrito e só depois de ter passado pela terceira ou quarta vez por lá
é que encontrei o símbolo do Yin-Yang, olhei para aquilo, "Eh
pá, é capaz de ser aqui!" Bati à porta, mas nada, ninguém
atendeu. Depois fui dar a volta e encontrei uma senhora que, por acaso,
fazia a limpeza do Budokan e que me disse que não estava ninguém
agora, mas que costumavam estar lá ao sábado à tarde. Quando dei a
volta novamente vi que a porta estava aberta. Tinha chegado o Mestre
Stobbaerts e uma senhora, Andreia, a quem chamavam "Plume",
porque era muito levezinha. Quando espreitei lá para dentro vi que
havia uma fotografia do Mestre Ueshiba, no canto esquerdo, logo à
entrada e pensei, "Aqui há Aikido de certeza", porque eu já
tinha visto uma fotografia do Mestre Ueshiba na Academia de Budo. E
quando eu estava a olhar para a fotografia surge o Mestre Stobbaerts,
que eu nem sabia quem era. Nunca tinha ouvido falar dele, sabia lá quem
era! E foi assim que conheci o Mestre Stobbaerts. O dojo era muito
bonito, tinha sido todo feito pelo Mestre Stobbaerts e pelos alunos
dele. Ele tem uma noção de estética muito desenvolvida, aliás, o
Aikido que ele faz é muito nesse sentido, da estética. Ele viu-me ali
a olhar para a fotografia e então eu apresentei-me e disse que vinha da
parte do Dr. Pires Martins, "Ah, o Dr. Pires Martins, sim
senhor."
34-
O Mestre Stobbaerts falava português?
LF-
Não, só francês, mas como eu também falava francês foi fácil.
Convidou-me logo para começar a praticar Aikido no Budokan, que era às
quartas-feiras e sábados. Mas às quartas-feiras eu não podia, porque
estava na Academia de Budo, mas aos sábados tudo bem, o treino
começava às 19.00h. Aí conheci o Jorge Martins, que já faleceu, o
Basílio e o Rogério (Augusto Carvalho Ferreira Andrade-ed), que eram
os mais antigos praticantes de Aikido.
35-
E o Jean-Marc Duclos?
LF-
O Jean-Marc ainda não estava lá, estava em Marrocos, só veio mais
tarde trazido pelo Mestre Stobbaerts. Ele foi como um pai para o
Jean-Marc, sem dúvida nenhuma. Foi só nessa altura que nos conhecemos,
no final de 1972 ou já em 1973, não me recordo bem. Começámos a
fazer Judo e Aikido. Aquilo era uma festa! (Risos) Então, pedi ao
Mestre Stobbaerts que já que ali estávamos a fazer o treino de
sábado, porque não fazer um treino no domingo de manhã? E assim foi,
enquanto o Budokan de Cascais existiu, naquele edifício, esse treino
continuou a existir, ao domingo de manhã, por insistência minha junto
ao Mestre Stobbaerts. Andávamos a noite toda na farra, em Cascais, até
às tantas, e depois íamos dormir lá ao dojo. Uns dormiam no tapete,
outros no chão, outros sei lá onde, era assim ... Parecíamos sei lá
o quê! (Risos) Portanto, durante anos, os meus fins-de-semana eram
passados em Cascais a praticar Aikido. Pratiquei com o Mestre Stobbaerts
talvez uns três ou quatro anos.
36-
Sentia diferença entre aquilo que tinha aprendido com o Honda e o que
aprendia com o Mestre Stobbaerts?
LF-
Sim, muita. O Honda fazia um Aikido directo, como o do Mestre Hirokazu
Kobayashi.
37-
Pode descrever um pouco melhor o que sentia de cada uma das formas de
executar o Aikido?
LF-
O Aikido do Honda era muito baseado nos movimentos positivos, omote, e
mesmo nos negativos, ura, ele aproveitava a força que o parceiro
trazia, fazia a esquiva e projectava logo. O Mestre Stobbaerts, ao
contrário, para fazer a mesma técnica, dava voltas e mais voltas,
rodava, rodava e só depois é que projectava. Era um Aikido diferente,
mas eu adaptei-me na mesma.
38-
Mas não se questionava, em termos de eficácia, ainda para mais sendo
um praticante de Judo e Karate?
LF-
Claro, mas não tinha outra hipótese senão fazê-lo, tinha mesmo que
fazer aquilo. (Risos) Não tinha mais ninguém que me ensinasse Aikido.
Mais tarde, o Mestre Kobayashi veio a Portugal fazer estágios e acabei
por me relacionar muito mais com ele do que com o Mestre Stobbaerts.
39-
Foi a União Portuguesa de Budo que organizou esses estágios?
LF- Sim, foi.
40-
Quem é que contactou o Mestre Kobayashi para vir a Portugal?
LF-
Como tinha um aluno dele cá, o Honda, talvez viesse por isso. Na
primeira vez que ele cá veio, em Maio de 1972, ensinou na Academia de
Budo durante uma semana, gratuitamente. Não se pagou nada por esse
estágio. Foi ele mesmo que custeou a estadia em Portugal. Foi um
investimento que fez. Creio que posso afirmar com toda a certeza que a
digressão que ele fez por toda a Europa começou em Portugal. Esse
estágio, que durou uma semana, começava às 22.00h, quando terminavam
as aulas na Academia de Budo e durava cerca de uma hora e meia. Tenho
fotografias dele.

Leopoldo
Ferreira e Sra. Emiko Inue (acompanhante de H. Kobayashi), 1973,
numa cerimónia no Museu de Cascais, por ocasião do primeiro estágio
internacional de Aikido.
41-
Durante o dia alguém acompanhava o Mestre Kobayashi?
LF-
Andava o Honda com o Mestre e o Dr. Pires Martins, um pouco também. O
Dr. Pires Martins acabava por não estar muito com ele porque a hora
normal de ele se levantar era às quatro ou cinco. Da tarde! (Risos) Foi
sempre a vida que ele fez, sempre, desde que se tornou adulto e teve
meios próprios de subsistência. É uma personagem muito
característica, sui generis, se não existisse teria que ser inventado.
(Risos) Por isso, o Honda é que acabava por acompanhar o Mestre
Kobayashi.
42-
Que outros estágios se fizeram depois?
LF-
Outro estágio, por exemplo, com o Mestre Kobayashi, foi em Agosto de
1973. Houve um estágio também no Budokan, organizado pelo Mestre
Kobayashi.

Leopoldo
Ferreira, 1973
43-
Mas o Mestre Stobbaerts também participou dele?
LF-
Treinar?! Não, isso não. Mesmo na saudação, não se sentou ao lado
dos alunos, mas num dos topos, ou seja, os alunos ficaram de um lado, o
Mestre Kobayashi de frente para eles e o Mestre Stobbaerts de lado para
ambos. Eu nunca vi o Mestre Stobbaerts a dar uma queda, nunca vi. Não
é estar a denegrir a imagem do Mestre, porque o respeito muito, mas eu
nunca o vi a cair, nem nunca vi o Mestre a sofrer uma técnica. Nunca.
Fui aluno dele, vi-o a exemplificar muitas vezes, mas nunca o vi a cair.
E sempre que vi o Mestre Stobbaerts a exemplificar uma técnica foi para
o lado direito ...
44-
Para um só lado?!
LF-
Sim, sempre para o mesmo lado, direito.
45-
Mas que idade já teria nessa altura?
LF-
Ainda era relativamente novo, deveria ter uns trinta e tal anos.
46-
Havia alguma relação entre os Mestres Kobayashi e Stobbaerts?
LF-
Eles já se conheciam. O Mestre Stobbaerts já esteve no Japão e
conheceu várias pessoas lá. Ele é sem dúvida nenhuma um estudioso
das Artes Marciais japonesas. Tem é uma maneira de ver o Aikido com a
qual eu não me identifico, não digo que o Aikido dele não presta,
nunca disse isso, para mim é que não serve. Eu gosto de um Aikido com
movimentos mais directos. Respeito muito o Mestre Stobbaerts porque me
aceitou numa altura em que fiquei sem mestre e foi sempre correcto e
cordial comigo. Tive alguns desentendimentos com ele, houve até alturas
em que fui um bocado ríspido com ele, se fosse hoje não o fazia, mas
naquela altura ... era puto, tinha sangue na guelra, ... De qualquer
maneira tenho a máxima consideração por ele, não há dúvida
nenhuma. Apesar de não me identificar com a técnica dele, tenho-lhe
respeito.

Leopoldo
Ferreira e Mestre Stobbaerts, Kagami Biraki, 1974
47-
A sua relação com o Mestre Kobayashi alguma vez se tornou mais
pessoal?
LF-
Não, nunca se tornou pessoal, por várias razões, por exemplo, quando
ele veio em 1973 já tinha cerca de 45 anos e eu uns vinte e poucos, por
isso, também era difícil desenvolver uma relação com ele.
48-
Por outro lado, Misao Honda também era quem o acompanhava.
LF-
Isso foi só na primeira vez em que ele cá esteve, nos outros estágios
já o Honda não estava cá. Portanto, os estágios que o Mestre
Kobayashi fez cá foram em 1972, na Academia de Budo, 1973, creio, no
Budokan de Portugal, em Cascais, depois foi no Ginásio Clube
Português, onde o Jean-Marc Duclos dava aulas, em 1975, parece-me, em
1976 o estágio foi no INEF ... Foi aqui que eu recebi o diploma de
cinto negro da parte do Mestre Kobayashi. Não cheguei a fazer exame.
49-
Não fez exame?!
LF-
O Mestre Kobayashi entendeu dar-me o cinto negro, por isso, não fiz
exame. Isto foi em 1976.
50-
E assim tornou-se a pessoa mais graduada do grupo de Aikido da Academia
de Budo.
LF-
Sim, era eu que dava as aulas na Academia de Budo. Depois continuei
ligado ao Mestre Stobbaerts e ia fazendo os meus treinos e estágios com
o Mestre Kobayashi, durante anos. Ia às vezes a França, Castel Jaloux,
gostava muito daquilo e tenho óptimas recordações dessas viagens.
51-
Organizavam-se para ir a esses estágios no estrangeiro com o Mestre
Kobayashi?
LF-
Sim, exacto. Uma vez levei alguns alunos meus, o João Luís e outro que
já não me recordo do nome, que também levou o irmão, que não era
praticante de Aikido. Foram também alguns alunos do Mestre Stobbaerts,
como o Jean-Marc e o Francisco Garção, o (qual o primeiro nome?)
Colino, que também era meu aluno, o (qual o primeiro nome?) Lourenço,
bem, sei que éramos nove no total e íamos em dois carros, cinco num MG
e quatro num Fiat 600. E lá fomos nós para França. Aquilo foi uma
viagem de aventura. Fizemos o estágio, mas dois dos que foram, como
não praticavam Aikido, resolveram ir até Paris passear, enquanto nós
ficámos em Latece a praticar com o Mestre Kobayashi. Um deles lá em
Paris comprou uma pistola, uma 6.75, com o número riscado, encontrou
para lá um tipo qualquer e comprou-lhe a pistola.
No caminho de regresso, como era hábito, íamos a fazer disparates, a
metermo-nos com toda a gente, etc. O meu aluno, que ia a conduzir o
carro em que eu ia, fez então uma ultrapassagem perigosa, que passou a
rasar entre uma camioneta e o carro que vinha em sentido contrário. A
camioneta começou a apitar e ele, não contente ainda com a asneira que
tinha feito, com a festa, tirou o peito todo para fora e começou a
fazer gestos para o condutor da camioneta e a gozar. Claro que os tipos
da camioneta vieram atrás de nós. Numa aldeia qualquer, ao pé de San
Sebastian, no País Basco, ultrapassaram-nos com a camioneta e
bloquearam a estrada com ela. O meu aluno, que ia a conduzir, desata a
fugir e começa a recuar, fora de mão. Ia quase atropelando uns
indivíduos que estavam de mota, mesmo atrás de nós, que não viu.
Depois viu que não conseguíamos passar e fomos ter com os indivíduos
da camioneta, que eram uma série deles, para arranjar confusão, tirar
satisfações, mas depois vimos que eram muitos ... (Risos) e resolvemos
que o melhor era bater em retirada. (Risos) Então ele apontou o carro
à traseira da camioneta, eles estavam à frente a dizer, "Pára,
pára!", mas ele continuou direito a eles e tiveram que saltar da
frente, se não eram atropelados. Foi uma cena mesmo à gangster.
(Risos) E ficaram a gritar "Portugueses, portugueses, ..." em
tom reprovador. E por aí a fora.
Essa altura, em 1975, foi terrível para o País Basco, porque foram os
últimos anos do Franco e haviam atentados constantemente à Guarda
Civil espanhola. Naquela manhã tinha havido um atentado ali perto e a
Guarda Civil estava lá em força. No meio daquele burburinho todo,
mandavam parar todos os carros, mas a nós mandaram-nos seguir, logo a
nós que tínhamos armado aquela confusão toda, um pouco antes. Mas ao
nosso outro carro mandaram parar e revistaram tudo e há um dos guardas
que apanha a pistola, é claro que os prenderam logo e foram todos para
a cadeia. Nós seguimos e ficámos à espera deles mais à frente, mas
como eles nunca mais chegavam voltámos atrás e fomos perguntar aos
guardas se tinham visto o outro carro português., "Vimos, vimos e
o vosso onde está? Vamos lá então ao vosso carro." Eu comecei
logo a ver que tinha havido ali qualquer coisa. Assim que lhes
mostrámos o nosso carro, encostaram-nos logo à parede com as
metralhadoras apontadas e avisaram que quem se mexesse levava chumbo.
Ficámos algemados uns aos outros, de mãos no ar e eles só diziam:
"Quem se mexer leva chumbo!" Eu fiquei logo a tremer, o
Jean-Marc ficou de um lado e o Colino do outro, todos ali de braços no
ar. Isto em pleno País Basco, no meio de um turbilhão de
acontecimentos que para lá havia. Eles revistaram-nos o carro e nós,
depois, em conversa com os guardas, é que perguntámos porque era
aquilo, o que é que estava a acontecer e eles disseram-nos que o nosso
amigo tinha sido apanhado com uma pistola. Aí o Jean-Marc começou a
rir e o polícia, furioso, "Te ris, te ris!" e ia-lhe dando
pontapés. (Risos) Dali fomos escoltados para San Sebastian, onde fomos
interrogados e os que iam no outro carro foram presos. Nós ficámos
retidos em San Sebastian uns tempos. O que tinha a pistola foi julgado
no dia a seguir e ficou lá preso uma semana.
52-
Hoje é engraçado, mas na altura deve ter sido complicado.
LF-
Foi uma aventura endiabrada, mesmo de malucos. Mas foi ruim passar por
aquilo tudo, o dinheiro depois começou a faltar, não tínhamos o que
comer, porque tínhamos que o guardar para a gasolina, enfim ...
53-
Essa foi a última vez que esteve com o Mestre Kobayashi?
LF-
Não, foi a primeira que estive com ele em França. Depois voltei nos
anos seguintes.
54-
O Mestre Kobayashi não entendeu que lhe deveria dar um tipo de
assistência especial, uma vez que era o seu aluno mais graduado em
Portugal?
LF-
O Mestre Kobayashi era muito caro para trazer frequentemente a Portugal,
era caríssimo. Por isso, é que ele não veio mais vezes a Portugal,
pois tínhamos que o pagar a preço de ouro. A primeira vez que veio foi
um investimento dele, mas a partir daí veio só mais duas vezes. Ficava
mais económico ir a França fazer os estágios com ele.
55-
Mas os alunos pagavam os estágios?
LF-
Tal como hoje, quem fazia o estágio pagava. Por ele cá vir pouco é
que não tinha alunos efectivos em Portugal, em França talvez tivesse
porque eles tinham poder económico para lhe pagar, mas cá não. Ele
não vinha a Portugal por meia dúzia de tostões, apenas. Houve
inclusivamente uma ocasião em que ele ficou a dormir no Centro de
Estágio, para desportistas, da Cruz Quebrada e parece que não gostou
muito. Mais tarde, enviou uma carta em que dizia que só vinha se fosse
para um hotel de cinco estrelas e outras exigências do género. E nós
achámos que se era assim, então o melhor era que não viesse. Por isso
digo que o meu relacionamento com ele nunca foi muito próximo ou
pessoal. No que diz respeito à aprendizagem da técnica, foi, mas
relativamente à parte pessoal, por vários motivos, nunca tive grande
proximidade. Eu gostava muito da técnica do Mestre Kobayashi, mas como
pessoa não me dizia muito. Ele era uma pessoa que gostava muito de
farra e excedia-se na bebida às vezes; era uma figura pouco simpática
também. Portanto, não era um indivíduo com quem me relacionasse
muito. Ia ter com ele para aprender técnica, o mais que pudesse, era
só isso. Não tive um relacionamento com o Mestre Kobayashi como muitas
vezes as pessoas entendem, de mestre para discípulo, aliás nunca tive
com ninguém, com nenhum professor.
Aquele relacionamento que muitas pessoas aceitam, querem e procuram, do
mestre quase Deus, eu nunca tive com ninguém, nem sequer nenhum aluno
comigo. Pelo menos eu não faço nada por isso, conscientemente, pelo
menos. As pessoas têm a sua cabeça, pensam por ela, não têm nada que
pensar de uma forma, só porque o outro pensa assim. Podemos ter um
relacionamento de amizade, acho muito bem, treinamos juntos, andamos
juntos, vamos para a farra juntos, mas essa do mestre é que sabe e que
só aquilo que o mestre diz é que é correcto e que pode chamar baka e
bater quando lhe apetece, eu não aceito. Não aceito esse
relacionamento inter-pessoas, nem aceito, nem procedo assim com os meus
alunos. Mas no aspecto técnico já aceito esse tipo de relacionamento,
em que o mestre ensina e o aluno aprende. O aluno não tem nada que
contrariar aquilo que o mestre diz nas aulas. Se o mestre está a
ensinar Aikido, o aluno, seja ele quem for, não tem nada que questionar
ou pôr em dúvida aquilo que o mestre está a ensinar, naquela aula. Se
acha que não está correcto, não vai lá mais. Agora, não tem nada
que estar a questionar aquilo que o mestre diz, isso eu não admito,
não o faço como aluno, nem o admito como professor.
56-
Quando é que deixou de fazer estágios com o Mestre Kobayashi?
LF-
Deixei de fazer estágios com ele a partir do momento em que ele deixou
de os fazer em Castel Jaloux. Como os outros locais não eram tão
acessíveis ... O último treino que fiz sob a orientação dele foi em
1988, parece-me. Esse estágio estava a ser dado por um aluno dele, que
era um barrigudo que não gostava de treinar e que andava para lá
armado em mestre. Eu não gostava nada dele e até se passou um
episódio bastante desagradável com ele, numa outra ocasião. Nesse
estágio, o Mestre Kobayashi, foi lá dar um treino, mas já não era a
mesma pessoa. Estava muito envelhecido. Eu lembro-me que deveriam ser
umas dez da manhã quando ele lá chegou e a parte branca dos olhos dele
não se via, era vermelha. Ele estava um bocado alterado. Contudo, o
kime e a técnica continuavam na mesma, só que não era o Kobayashi que
nós tínhamos conhecido uns anos antes. Lembro-me que estávamos a
fazer kotegaeshi e ele aplicou-mo de tal forma que, antes de eu chegar
ao chão, já estava controlado que nem um "chouriço", nem me
podia mexer. Ele fazia assim o kotegaeshi, antes de uma pessoa chegar ao
chão já ele a tinha controlada de barriga para baixo. Ainda hoje
recordo esse controlo. Esta é a maneira como eu gosto de fazer esta
técnica, controlar imediatamente. Foi esta a última vez que estive com
ele.
57-
Depois do Mestre Kobayashi, nunca encontrou outro mestre com que se
identificasse, como o Mestre Tamura, por exemplo, que passou a visitar o
nosso país?
LF-
Não, nunca mais encontrei ninguém. Fiz alguns estágios com o Mestre
Tamura, mas não me identifiquei com ele, não ia lá fazer praticamente
nada. Na minha opinião, e oiça que estou a dizer a minha opinião,
quem viu o Mestre Kobayashi a fazer Aikido é difícil depois ligar-se a
outro. Eu já vi muitos mestres, alguns em filmes, já fiz estágios com
muitos deles, mesmo não japoneses, mas aquilo que eu quero e pretendo
do Aikido só me foi dado por este mestre. Ele não se mexia
praticamente, era impressionante ver aquele homem, bater contra ele era
como bater contra uma parede. Ele fazia um movimento e nós até
levantávamos os pés do chão. A minha referência do Aikido chama-se
Hirokazu Kobayashi.
O Mestre Kobayashi também fazia um bocado de espectáculo e só ia
buscar aqueles uke que lhe proporcionavam isso. Mas ele aplicava mesmo
as técnicas, nada tinha a ver com outros mestres. Como eu pratico Judo,
com outros indivíduos que fazem Aikido só não escapo de certas
técnicas como o kotegaeshi, o ikyo ou o nikyo, se não quiser. Com ele,
eu simplesmente não saía, porque ele imobilizava mesmo e eu não me
mexia mais. E não demorava três horas a imobilizar, era ali e já
está, eu nem sabia o que estava a acontecer e já estava imobilizado
como um "chouriço", já não saía de lá. Isso diz-me muito.
Com ele, quer quisesse, quer não, caía e levantava os pés do chão,
tinha um ki impressionante, disso não há dúvida nenhuma. Era um
excelente praticante, vaidoso, gostava muito de se exibir, toda a
postura dele ... mas tinha razões para isso. Era bom, sem dúvida.
58-
O Mestre Kobayashi ensinava técnicas de armas?
LF-
Sim, jo e boken. Mas a maior parte das coisas que faço aprendi com o
Honda. A pedagogia de ensino do Mestre Kobayashi, mesmo em termos
técnicos, não seguia uma progressão das técnicas mais simples para
as mais complexas. Não tinha um programa de ensino, pelo menos eu não
me apercebi que ele existia (Risos). Ele chegava lá e ensinava a
técnica que lhe apetecia, que lhe vinha à cabeça. O Honda é que me
ensinou as técnicas de katana, movimentos básicos do Iai Do, assim
como o boken e o jo.
59-
Distinguia esses movimentos de katana dos de boken?
LF-
Sim, são movimentos diferentes. Há um movimento próprio da katana,
assim como do boken e do jo. São movimentos diferenciados, embora haja
um trabalho conjunto de defesa e contra-ataque de jo e o mesmo para o
boken. E há combate, nós fazemos combate com o jo e com o boken. Mas
integramos tudo no treino do Aikido.

Professor
Leopoldo Ferreira, 1995
60-
Leopoldo Ferreira é a figura principal da União Portuguesa de Budo,
nas três artes, Aikido, Karate e Judo. Como é que consegue conjugar
estas várias artes?
LF-
Na União, nós fazemos estágios e treinos regulares e cada arte é
praticada separadamente. A maior parte dos nossos alunos só fazem uma
arte. Só no estágio de Agosto, que fazemos sempre, é que praticamos
as três artes.
61-
Esse hábito ainda vem dos tempos do Mestre Tetsuji Murakami, do Karate
Shotokai, em que faziam sempre um estágio no verão?
LF-
É capaz. O Mestre Murakami fazia um estágio em Agosto de 17 dias.
Aquilo era o diabo! Nós entrávamos no dojo já a tremer, porque ele
batia-nos. (Risos) Tenho muito respeito por ele, mas aquela pedagogia,
... eu nunca entendi. (Risos) Dava-nos chapadas, volta e meia via-se uns
óculos a irem pelo ar, ou lá ia um a caminho da casa de banho a
sangrar do nariz ou a queixar-se das partes sensíveis. Era assim. E
depois as posições eram muito baixas, o Mestre Murakami era terrível,
fazia-nos sofrer mesmo. Ele que esteja lá a descansar no Céu, mas
fazia-nos sofrer. (Risos) Havia muito respeito, treinava-se mesmo, quem
se quisesse baldar, e eu às vezes baldava-me, aquelas posições baixas
custavam, ele punha-o logo a dar voltas ao dojo a fazer "pulos de
galo". Não era como nos treinos de Aikido, em que as pessoas
treinavam se quisessem, se não queriam não treinavam, não havia lá
ninguém a obrigar a treinar.
62-
Então, ainda hoje é tradição, este estágio de Agosto?
LF-
Costumamos fazer esse estágio de Agosto, que é o estágio de verão,
depois temos o estágio de primavera e o de inverno. E temos um estágio
de Budo, em que fazemos o conjunto das três Artes Marciais.
63-
Costumam divulgar esses estágios?
LF- Não, não temos muita disponibilidade para isso, mas se alguém
de outras escolas quiser vir é bem vindo.
64-
Pode-nos dizer como surgiu a C.D.A.M?
LF- A União Portuguesa de Budo representou o Budo, perante o Estado
português, até à altura da criação da C.D.A.M., que foi por volta
de 1970, muito pelo esforço do Comandante Fiadeiro (José Manuel
Monteiro-ed).
65-
Como é que ele surge ligado a esta entidade?
LF-
O Cte. Fiadeiro era praticante de Judo e começou a haver necessidade do
Estado controlar o Budo. Começaram a surgir filmes do Bruce Lee e
outros e o Estado começou a ter medo. Também chegaram notícias que em
Londres se faziam manifestações, contra a polícia, em que as pessoas
estavam armadas com bastões, matracas e que faziam Karate e o Marcelo
Caetano começou a ter medo: "Temos de controlar estes tipos,
senão, qualquer dia, temos aí uma série deles vestidos de kimono, na
Av. Da Liberdade, a dar pancada nos polícias, que são todos uns
barrigudos e não sabem nada. Eh pá, vamos mas é controlar isto!"
(Risos)
Quando a União Portuguesa de Budo foi fundada, o Engenheiro Sebastião
Durão, que foi um dos fundadores, foi falar com o Ministro do Interior,
que era o ministro das polícias, agora chama-se Ministro da
Administração Interna. Na altura penso que o ministro se chamava
Gonçalves Rapazote. Quando o Eng. Durão lhe falou em Budo ele
perguntou, "Budo?! O que é isso? Alguma religião?" E o Eng.
Durão explicou que era Arte Marcial, que vinha do Japão.
"Marcial! Mas isso é perigoso, calma aí ..." (Risos) E
apareceu a C.D.A.M. dentro do Ministério do Interior. Depois do 25 de
Abril passou para o Estado Maior General das Forças Armadas, que era
ali em Belém, onde era o Ministério do Ultramar. Quando íamos às
reuniões da C.D.A.M. aí, tínhamos que nos identificar e tudo.
Portanto, a Comissão Directiva das Artes Marciais surge para controlar
os praticantes de Budo.
66-
Como era exercido esse controlo?
LF- Volta e meia o Cte. Fiadeiro ia vigiar, ia observar todas as
Artes Marciais, menos o Judo, que era considerado Desporto. Mas o Karate
e o Aikido, que eram as artes que existiam não escapavam. Tínhamos que
pagar cem escudos por ano, para praticar, e depois davam-nos um
papelinho verde. Estávamos devidamente controlados, mesmo a polícia
política, a P.I.D.E.- D.G.S., tinha os nossos dados. Não era
brincadeira. Entretanto dá-se o 25 de Abril e aquilo passa para a
Defesa Nacional, que tenta re-organizar tudo e quem é que eles vão
buscar? O Cte. Fiadeiro, novamente. Foi dos poucos órgãos que não foi
saneado. E lá continuou ele à frente da C.D.A.M. E continuou a
chatear. Só que depois do 25 de Abril o país era uma balda
generalizada e o pessoal começou a borrifar-se para ele.
Inclusivamente, até foi expulso do Judo Clube de Portugal, do qual era
sócio.
67-
O Cte. Fiadeiro fazia mesmo uma acção de fiscalização?
LF-
Fazia, ia lá ver, incomodava, ameaçava que ia fechar e chegou mesmo a
fazê-lo, numa certa ocasião, quando estava cá em Portugal um mestre
japonês a dar um estágio, creio que de Karate Wado-ryu. Mandou lá a
polícia fechar, mas o juiz, no outro dia, mandou abrir novamente. Como
não tinham autorização da C.D.A.M., porque não lhe ligavam nenhuma,
ele mandou a Guarda fechar aquilo. Eles foram ao juiz perguntar se
estavam ou não num país livre, podiam ou não praticar Desporto? -
"Não andamos aqui a matar ninguém." E o juiz voltou a abrir.
O Cte. Fiadeiro ficou extremamente aborrecido, por não ter conseguido o
queria.
68-
Qual era a relação dele com o Mestre Corrêa Pereira e o Dr. Pires
Martins?
LF-
Conheciam-se apenas. Aliás, eles nem gostavam muito dele porque ele
andava sempre a chatear toda a gente. Era um chato de primeira fila.
Andava sempre a controlar, mas depois acabava por não controlar nada.
Depois do 25 de Abril ainda organizou uns cursos, umas acções
formação, em que eu até participei, nalgumas.
69-
Qual era o objectivo dessas acções de formação?
LF- Formar Agentes de Ensino, de Artes Marciais, Aikido e Karate,
principalmente.
70-
Pode descrever como foram encontrados os elementos que formaram o
Conselho Técnico de Aikido dentro da C.D.A.M.?
LF-
Fazíamos uns treinos aos sábados de manhã de forma a escolhermos os
membros para o Conselho Técnico. Tudo isso era feito pelo Cte. Fiadeiro
e pela C.D.A.M. Nestes treinos apareciam as várias correntes de Aikido,
a do Mestre Stobbaerts, a do Honda, com os praticantes do Estoril e
assim e a corrente da União Portuguesa de Budo. Mas o ambiente era
péssimo, só faltava massacrar-nos uns aos outros. É como diz o
Jean-Marc e com razão, o ambiente estava de tal maneira que quase se
podia cortar.
71-
Já existiam profundas rivalidades?
LF-
Sim, existiam, era um ambiente mesmo muito mau. Eram treinos de três
horas e eram obrigatórios. Cada professor dava um treino, o primeiro
foi dado pelo Mestre Stobbaerts e depois deu o Jean-Marc, o Luís
Antunes, eu, o João Luís e por aí fora. A ideia era, juntando as
pessoas mais graduadas, recolher os membros para o Conselho Técnico
para depois formar os Agentes de Ensino. No último treino fizemos
então uma reunião para eleger o Presidente do Conselho e o próprio
Conselho. Nessa reunião eu fui o mais votado. Ao fim e ao cabo era quem
estava mais próximo das duas tendências e não guerreava com uns nem
com outros. Não andava aos beijinhos com eles, mas também não me
metia. Fui eleito para ser Presidente desse Conselho, mas demiti-me
logo. (Risos) Disse-lhes que não queria ser Presidente e como o
Jean-Marc tinha ficado em segundo lugar, achava que ele daria um bom
Presidente, além disso, ele era profissional de Aikido e eu não. Não
estava para aturar aquilo. (Risos) As pessoas saíram de lá, mas não
estavam muito contentes.
72-
Essa eleição dependia do número de praticantes presentes, de cada uma
das facções? Ou seja, quem tivesse levado mais alunos aumentava as
hipóteses de ganhar?
LF-
Exacto. O Jean-Marc até era dos que tinha mais alunos, mas nesse dia
nem foram todos os seus alunos, senão teriam votado nele, claro. Eu
levei dois ou três alunos, mas começaram a ver que aquilo era uma
grande barafunda.
O Conselho Técnico acabou por ter pouco tempo de existência, porque a
C.D.A.M. acabou logo a seguir, até porque não teve o nosso apoio. Eu
ia para lá brincar com aquilo. Eu, o Jean-Marc, o Manuel Cardoso, mais
um outro aluno do Stobbaerts íamos para as reuniões para a pândega.
Eu nunca fui muito para papeis e aquilo não me dizia nada.
73-
Além disso, a C.D.A.M. tinha uma conotação negativa, de órgão
fiscalizador.
LF-
Ainda por cima tinha. Entretanto, quando a C.D.A.M. acabou as Artes
Marciais passaram para o Ministério do Desporto ou da Educação, nem
sei bem.
74-
Estamos em que ano?
LF- Por volta de 1983 ou 1984.
75-
Quando é que o Cte. Fiadeiro sai de acção, relativamente às Artes
Marciais?
LF-
Assim que a C.D.A.M. acabou, nunca mais ouvi falar dele. Ele, como
pessoa, no trato, não era mau de todo, até se conseguia falar com ele,
só que tinha a mania que havia de mandar, tinha a mania que a cabeça
dele é que pensava bem e os outros eram todos estúpidos. As pessoas
não gostavam dele por isso.
A maior parte das pessoas nem compreendia porque é que as Artes
Marciais deviam ser tuteladas por um ministério ligado às Forças
Armadas, por exemplo, o grupo de Karate da Parede fazia o Karate como
Desporto, diziam que não era uma Arte Marcial, era Desporto de
Competição, para ganhar medalhas e taças. Por isso, deviam ser
tuteladas por um ministério que estivesse ligado ao Desporto. Essa era
a ideia deles. Mesmo hoje em dia, por exemplo, a Federação Portuguesa
de Aikido, do Luís Antunes, é uma federação desportiva, o Aikido é
como se fosse Desporto. Efectivamente eu não sei o que é que eles
praticam, mas encaram o Aikido como Desporto.
Hoje em dia, as Artes Marciais, não são tuteladas por ninguém, que eu
saiba. Qual é o ministério que controla as Artes Marciais?
76- É através dos seguros desportivos.
LF- São seguros desportivos, não são seguros marciais. Não existe
ninguém a controlar as Artes Marciais, que eu saiba, à face da lei. O
Aikido que o Luís Antunes pratica é um desporto, está lá escrito.
Já a associação dele se chamava assim, Associação Desportiva
Aikikai de Portugal.
Eu pratico Aikido, Karate e Judo, como Artes Marciais. Não é para
matar ninguém, nem fazer mal, mas pratico com o espírito de Arte
Marcial, de Budo. Marcial vem de guerra. Há um ditado em latim que diz:
"Se queres a paz, prepara a guerra". Portanto, eu pratico com
esse espírito e é o que imponho aos meus alunos na prática da Arte
Marcial. Não pretendo matar ninguém enquanto não me quiserem matar a
mim. Eu penso que o espírito da Arte Marcial é este. Não mato
ninguém, mas quando me quiserem matar, eu tenho de matar primeiro.
Repito, não incomodo nem mato ninguém, mas pratico com esse espírito.
Cada ataque que faço no Karate, ou cada movimento que executo no Aikido
ou no Judo, a sua finalidade é a eliminação imediata do adversário.
O que não quer dizer que quando se pratica se faça isso, senão já
não tinha alunos, já os tinha morto todos. (Risos) Mas é o espírito
da prática. Quando o outro está a ser controlado e bate com a mão no
chão, para dizer que lhe está a doer, acabou, é evidente que se
pára, não vamos ficar com o braço dele na mão, a fazer
experiências. Porém, o espírito é a eliminação imediata do
adversário. Isto é Budo, é Arte Marcial. Para quem pratica um
desporto o espírito não é este, é ganhar, uma medalha, ou um
combate, sem eliminar o adversário. O Desporto é um meio de
valorização física e intelectual, na qual, a componente marcial, de
guerra, não existe. Marcial vem de guerra, esta componente marcial não
existe no Desporto. Por isso eu pergunto, quem tutela as Artes Marciais
em Portugal? Ninguém.
77-
Acha importante que haja?
LF-
Eu penso que não. Quando o Estado se mete só aborrece, só chateia. Os
malfeitores que andam para aí a assaltar, a matar e a fazer mal às
pessoas não o fazem com conhecimentos baseados nas Artes Marciais. Nem
sequer os têm. O perigo não está em quem pratica Artes Marciais,
está em quem não pratica. Os indivíduos que praticam Artes Marciais
com o espírito de que falei há pouco, ficam a saber o que lhes pode
acontecer, também, a eles, por isso não vão fazer aos outros o que
não gostavam que lhes fizessem a eles. Se praticam Artes Marciais, ao
longo dos anos, acabam por desistir do espírito de fazer mal a outros,
ou então deixam de praticar. Por isso, não vejo qual é a necessidade
de haver tutela do Governo sobre as Artes Marciais; é mais uma verba
que o Estado tem de suportar, perfeitamente desnecessária.
78-
É curioso verificar que nos Estatutos da União Portuguesa de Budo,
criados em 1960, é extremamente clara a preocupação por praticar a
Arte Marcial como um Budo e não como um Desporto.
LF-
É verdade, era esse o espírito com que os primeiros que começaram a
ensinar Artes Marciais em Portugal praticavam, o Mestre Corrêa Pereira,
o Dr. Pires Martins, o Eng. Durão e muitos outros. Era a procura pela
eficiência. Eles não queriam saber se o movimento era bonito, mas sim
se era eficaz.
79-
E essa é que é a espiritualidade da Arte Marcial?
LF-
Sim, penso que sim.
80-
Como vê o conceito de Harmonia dentro do Aikido?
LF-
O Mestre Ueshiba dizia qualquer coisa como: "Ninguém me pode
atacar, porque eu estou em Harmonia com o Universo e quem me atacar
está a atacar-se a si próprio". Há muitas coisas que parecem
contraditórias mas, no fundo, não são. Se um indivíduo se conseguir
harmonizar com outro, porque este emana energia, ou o que se quiser
chamar, constantemente, tudo aquilo que o outro fizer, porque consegue
captar essa energia, sabe o que vai fazer e pode, à partida, impedi-lo
de a fazer. Ou seja, o indivíduo A tem capacidade de se harmonizar com
o B, mas o B não tem com o A. Quando o B tem intenção de fazer alguma
coisa, o A apercebe-se disso, antecipadamente, e das duas uma: ou deixa
que o ataque, por exemplo, se realize e o controla, ou impede que o
ataque nasça. O Índio no Brasil não passa por um caminho em que
esteja uma cobra à espera dele, isto é, que esteja lá à espera de
alguém que passe para o atacar. Ele não diz que a cobra está ali, mas
sente que não deve passar. Portanto, é o sentir o ataque. Não é
necessário uma pessoa ser atacada para fazer Artes Marciais, a melhor
luta é aquela que não se trava.
81-
Acha que no Aikido o "atacante" deve cooperar?
LF-
Eu sei que há praticantes de Aikido que defendem um pouco isso. Mas
não são todos. Um certo professor, que se afastou duma escola dessas,
ainda há pouco tempo se mostrou preocupado quanto a isso, disse-me que
nós, no Aikido, temo-nos esquecido um bocado da componente marcial da
arte.
Nos meus treinos, imponho um certo kime, uma certa energia quando
agarramos. Uma pessoa quando realiza um ataque é para bater, ou para
agarrar, não é para acertar ao lado, nem para o outro defender. Mas
há aqui uma situação um pouco diferente. Se eu souber o que o outro
vai fazer, só se eu deixar é que ele me faz a técnica. Se eu
resistir, não faz, é como no Judo ou no Karate. De qualquer forma, o
ataque, ou o agarrar, devem ser feitos com força e com um certo kime,
para obrigar também quem faz a técnica a desenvolver o kime. Não é
fazer um movimento e já o outro deu um salto mortal. Mas entendo o que
alguns dizem do atacante, no Aikido, ter de cooperar. Na escola do
Mestre Stobbaerts treinam dentro dessa perspectiva, todos aqueles
movimentos que fazem, cheios de voltinhas. Pronto, é a maneira deles
praticarem.
82-
Claro, tem a sua particularidade.
LF-
Mas não lhe chamem Arte Marcial. Se calhar nem chamam.
83-
Penso que chamam.
LF- Chamam-lhe Arte Marcial ou Arte em Movimento? Não sei. Há
muito tempo que não vejo o Mestre Stobbaerts. A perspectiva com que
pratico é de Arte Marcial, eliminação directa do adversário.
84-
Portanto, os princípios que sempre guiaram a União Portuguesa de Budo
continuam vivos?
LF-
Continuam, claro, e é isso que eu procuro transmitir. É treinar com
esse espírito e agir assim em ultima instância, não é andar na rua a
incomodar pessoas.
85-
Parece-me que o Mestre Murakami terá adoptado a frase célebre
"Praticar como se fosse realidade e estar na realidade como num
treino".
LF-
Concordo, embora nunca o tenha ouvido dizer isso, mas pelo tipo de
prática que ele tinha, penso que seria isso.
86-
Gostaria de dizer mais alguma coisa?
LF- Futuramente, e eu tenho pensado um pouco nisso ultimamente,
penso que vamos ter que nos organizar em Portugal. O Aikido do Luís
Antunes formou uma federação desportiva. Qual vai ser o fim daquilo?
Ninguém sabe. Penso que estes grupos que querem simplesmente praticar
Artes Marciais, dentro de um certo espírito, têm direito a existir, a
praticar e a não serem incomodados. Temos que nos organizar e terá que
ser numa base de pessoas sãs, porque nestas coisas aparecem pessoas que
se querem aproveitar e controlar os outros.
87- Muito obrigado.
Entrevista
realizada em 29 de Setembro de 2000
Gostaria de
agradecer ao Filipe Ares por ter ajudado a transcrever a entrevista, ao
Prof. José Araújo e ao Prof. Jean-Marc Duclos por terem cedido as
diversas fotografias.
Pedro
Escudeiro |