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Mestre
Tomita e Prof. Carlos Portas, Março de 2002, Universidade de Aveiro
1- Pode dizer-nos o seu nome, idade e graduação?
Carlos Portas- O meu nome é Carlos Portas,
nasci em 1956 e tenho a graduação de 5ºdan, dada pelo Mestre Takeji
Tomita. Até ao 4ºdan, as minhas graduações são da Aikikai.
2- Pode falar-nos do seu percurso nas Artes Marciais?
CP- Comecei a praticar Karate em 1972, em Aveiro,
com um grupo de pessoas. Vinham cá alguns professores de Coimbra,
como o José Manuel, o Ramos e outros. Mais tarde, apareceu o Mestre
Vilaça Pinto. A partir daí, e até eu ir para a Suécia, em 1982,
pratiquei sempre Karate. Tenho a graduação de 2ºdan.
3- O que o levou a praticar Aikido?
CP- Em 1978, aproximadamente, fui com o Mestre
Vilaça Pinto fazer uma demonstração ao Budokan de Cascais, do
Mestre Stobbaerts. Nessa ocasião ia haver também uma demonstração
de Aikido. Aí, ouvi uma história muito engraçada e também gostei
muito de ver a demonstração de Aikido. A demonstração foi feita
pelo Mestre Stobbaerts e pelos seus alunos e achei a mensagem
muito interessante. Daí para a frente, fui-me informando sobre
a modalidade e como lia tudo o que aparecia sobre Artes Marciais
e, inclusivamente, comungava com as ideias de Yoga, Zen e essas
coisas, o Aikido pareceu-me mais na linha desse tipo de pensamento.
Só quando estava a viver em Estocolmo é que comecei realmente
a praticar. Nos meus tempos livres dava aulas de Karate no Clube
de Karate Shotokan de Estocolmo. Isto foi em Setembro ou Outubro
de 1982. Não saber a língua não foi um obstáculo, pois os responsáveis
pelo Clube diziam que no Karate o corpo falava. Porém, em 1982/83,
começaram a acontecer mais frequentemente actos de violência nas
ruas e as grandes manchetes nos jornais não dignificavam a arte
que eu praticava e respeitava. Toda esta situação começou a desgastar-me
e desagradava-me que pudesse estar a ensinar uma coisa que não
estava a ser bem vista pela sociedade. Portanto, fiquei muito
triste, apesar de já ter uma escola com uns 25 ou 30 miúdos, dos
10 aos 15 anos.
Em 1985, vi no jornal o anúncio de uma demonstração de Aikido
por um mestre japonês, em Estocolmo, e fui ver. Achei que tinha
caído num poço de luz e logo ali perguntei ao Mestre se me aceitava
como aluno. Ele disse que ia ver. Quis falar então comigo, estranhou
o facto de eu ter feito aquela pergunta, uma vez que em circunstâncias
normais as pessoas inscrevem-se para as aulas. Aquela era uma
demonstração de início de actividade, do ano lectivo, com a ideia
de divulgar o Aikido e fazer com que um maior número de pessoas
pudesse estar em contacto com a arte. Mas comigo não foi assim.
Falei então com ele e contei-lhe os meus antecedentes. Disse-lhe
que trabalhava na Embaixada de Portugal, em Estocolmo, que era
cinto negro e que dava aulas de Karate. Ele ficou um bocado apreensivo,
mas depois lá disse que talvez eu fosse boa pessoa.
4- Quer dizer, se não lhe tivesse feito essa pergunta
e tivesse simplesmente inscrito no dojo, não teria havido essa
hesitação.
CP- Exactamente. Ele não aceitou isso prontamente,
ficou com um pé atrás, a pensar o que é que eu quereria. Apareci
logo no dia seguinte, com o cinto branco e comecei a praticar
normalmente, como qualquer outra pessoa. Tinha as minhas dificuldades,
provocadas pelo Karate, como tensão no corpo e todas essas coisas.
Mas continuei a dar aulas de Karate durante dois meses, porque
tinha feito essa promessa e assim que ela foi solucionada abandonei
o Karate para sempre. Um conselho que o Mestre me deu foi que
para aprender Aikido me deveria concentrar só em Aikido. Depois
de estar satisfeito, então podia-se concentrar noutra arte. O
que ele estava a dizer é que só se deve ter uma namorada, senão
uma pode saber da outra e zangam-se e acabamos por perder as duas
(Risos). Portanto, concentrei-me. Além disso, sentia-me satisfeito
e realizado, no decorrer da prática em si, com o meu desenvolvimento.
5- Chegou a viver no dojo?
CP- No dojo não vivi, porque não precisava,
tinha um apartamento ao lado, a uns 300 metros. Mudei-me de propósito
para perto do dojo. Aliás, também me convinha porque também era
mais perto da Embaixada, onde trabalhava.

Mestre
Tomita, Março de 2002, Universidade de Aveiro
6- Como era a prática nessa altura?
CP- Treinava só à tarde. O Mestre não me deixava
treinar todas as vezes que eu queria. Aparecia muito cedo, mas
ele dizia que aquela aula não era para mim. Vestia-me e ficava
à espera. Só passado algum tempo e porque fazia os estágios que
havia, me deixou praticar mais. Mesmo assim não me deixava treinar
quando eu queria, só quando ele queria. Depois houve uma altura
em que praticava com ele às 7.00h da manhã. Íamos correr para
o bosque e depois fazíamos armas.
O Mestre tinha um grupo de alunos, que eram os cintos negros da
altura, constituído pelos alunos mais antigos dele que formavam
um grupo um bocado difícil. Criaram-me dificuldades que tive de
ultrapassar. Inclusivamente, chorei porque não era aceite, devido
à minha forma de estar por influência do Karate. Todos me queriam
testar, mas eu também não permiti que isso acontecesse. As pessoas
tinham uma certa inveja. Os suecos são invejosos e então faziam-me
a vida negra, inclusivamente chegaram a solicitar ao Mestre a
minha expulsão do dojo, porque não pertencia ao "grupo".
O Mestre chegou-me a sugerir isso também, que me fosse embora,
para bem do dojo e da organização. Mas uma noite de lágrimas resolveu
a situação e no outro dia estava lá, de pé firme. Viesse o que
viesse, era aquilo que queria fazer. Portanto, ignorei.
7- Com o tempo, as coisas melhoraram?
CP- Sim, foram melhorando. As pessoas também
se foram apercebendo da minha intenção e então chegou um belo
dia em que eles me aceitaram no grupo. A minha maneira de proceder
com o Mestre também ajudou. Por exemplo, quando o Mestre saía
para o estrangeiro quem o ia levar às 5h ou 6h manhã ao avião
e o ia buscar era eu. Quem estava com ele na casa de campo a tratar
da relva, quem limpava e ajudava a reparar as casa de banho, a
fazer isto e aquilo, também era eu. Como tínhamos um relacionamento
extra prática muito chegado, as pessoas apercebiam-se disso e
talvez reagissem de forma a reivindicar as suas coisas. Por outro
lado, eles não percebiam porque é que, na prática, o Mestre era
tão duro comigo. Nem eu (Risos). Era uma contradição muito grande.
As coisas não foram tão simples quanto isso, mas de qualquer forma
foi tudo muito salutar. Foi uma aprendizagem muito boa, não foi
planeada, mas parece que eu estava ali na hora certa, com as pessoas
certas e acompanhei um processo do princípio ao fim. Hoje em dia
não sei se continuo a fazer as coisas como deve ser, mas tenho
sempre essa intenção.
Sempre tive o sonho de ter um Mestre. Acho que qualquer pessoa
deve ter um, assim como tem um pai e uma mãe. Então eu andava
sempre à procura e ao fim de uns anos encontrei. Sentia-me como
uma peça de um puzzle que, por fim, encaixa perfeitamente. Sentia
que estava ali um poço de iluminação, não como uma coisa transcendental,
mas como algo que me dava muito bem estar. O dojo de Estocolmo
é magnífico, calmo, sente-se uma atmosfera de paz, sossego, sem
ruídos, sem nada que possa perturbar e isso ajudou-me muito.
Dado o meu gosto pelas Artes Marciais, sempre sonhei em ter um
dojo, não sei se todos pensam nisso, mas eu sim. Nunca sonhei
coisas como ter uma arma, uma espada, mas um dojo sim.
8- A proximidade, para além do treino, com o Mestre
Tomita contribuiu decisivamente para a sua progressão no Aikido?
CP- Sim, acho que contribuiu para a minha aprendizagem,
se não fosse assim não teria a mesma sabedoria.
9- O Mestre Tomita foi aluno de O'Sensei e depois
de Saito Sensei. Pode-nos falar um pouco do percurso do Mestre?
CP- Eu não sei muita coisa porque não tive
muita curiosidade. O que sei foram coisas que se passaram na minha
presença, mas nunca tive muita curiosidade em saber, nem tinha
vontade de coscuvilhar no passado ou presente das pessoas. Não
quer dizer que isso seja bom, mas é por essa razão que eu não
poderei dar uma resposta como talvez as pessoas gostariam que
desse. Aliás, é sempre muito complicado fazer perguntas a japoneses,
ou porque não tinha nada que fazer a pergunta, ou porque devia
ter feito a pergunta. Ou de manhã é uma coisa e à tarde já não
é e no dia seguinte volta outra vez a ser. Por isso também toda
a curiosidade se desvaneceu.
10- Certo, mas com certeza haverá coisas que sabe!
CP- Aquilo que sei, sem ter feito qualquer
pergunta, é principalmente o que se passou enquanto eu lá estive.
O que ouvi dizer foi de pessoas que tinham a curiosidade e perguntavam
e, por isso, também me estou a inibir de contar, porque posso
estar a cometer erros, a omitir ou a acrescentar. Tenho alguma
relutância em fazê-lo, até porque quando um japonês fala mal inglês
e se exprime em sueco é um bocado complicado compreender. O que
eu sei é que o Mestre Tomita já tinha acabado o curso dele, não
sei se de engenharia, se de economia. Como praticava Aikido no
Hombu Dojo, no Aikikai, conheceu numa dessas práticas o Mestre
Saito e quando o viu sentiu que ali estava o seu mestre e seguiu-o.
Assim que acabou o curso foi para Iwama, ele era o moço de recados
do Mestre Saito. Como não tinha dinheiro para poder pagar a estadia
em Iwama, então, ele estava lá no dojo, ajudava o Mestre Saito.
Fazia por exemplo componentes eléctricos que o Mestre Saito vendia
numa fábrica. Com esse dinheiro pagava as suas despesas. A esposa
do Mestre Saito, porque este trabalhava nos Caminhos de Ferro,
era quem cuidava de O'Sensei e, por sua vez, também do jovem Tomita,
que tratava como um filho. Planeou até casá-lo com uma das suas
filhas, o que acabou por não acontecer. A vida em Iwama para o
Mestre Tomita não era fácil, como se pode calcular, por vezes
o Mestre Saito zangava-se com ele e não havia outro remédio senão
pedir a protecção da mulher do Mestre.
Entretanto, ocorre a morte de O'Sensei, em Abril, tendo ele sido
graduado ainda por este em 4ºdan. Quando nem O'Sensei, nem o Mestre
Saito estavam presentes, era ele quem dava as aulas no dojo de
Iwama. Haviam muito poucas pessoas que iam a Iwama praticar, mesmo
muito poucas. Iam lá apenas nas alturas em que O'Sensei realizava
aquelas demonstrações em que aparece muita gente, mas são alturas
pontuais. O que sei é que não havia nenhuma azáfama diária. O
facto de Iwama ficar muito distante, no interior, também dificultava
a acessibilidade. Depois da morte de O'Sensei, o Mestre Tomita
ainda ficou por ali mais algum tempo, mas através de uns amigos,
do Aikikai, que tinham uns contactos para virem para a Europa
ensinar Aikido, acaba por vir parar à Suécia. Partiu do Japão
em Agosto de 1969.
As coisas não aconteceram como ele pensava que ia ser, não correram
lá muito bem, ainda por cima devido à língua. É fácil imaginar
um japonês, saindo de uma aldeia, a ensinar Aikido nos anos 70,
num país como a Suécia. É até compreensível que as coisas não
tenham sido fáceis. Primeiro foi para Gotemburgo e começou a dar
aulas de Aikido, através de uns contactos. Pessoas como o Ulf
(Evenas-ed) e o Bjorn saberão mais pormenores, porque acompanharam
o Mestre Tomita nessa fase. Sobretudo o Ulf.
O Mestre arranjou depois um trabalho que foi dando para se ir
sustentando. Voltou para Estocolmo e abriu um dojo, que mais tarde
fechou, abrindo mais tarde um noutro local, que voltou a fechar,
até que abriu este que ainda existe e por ali ficou, até hoje,
passados 30 anos.

Mestre
Saito e Prof. Carlos Portas, Aikido Summercamp, Dinamarca, 1992
11- Foi desse grupo de alunos dos países escandinavos
que surgiu o grupo que se veio a designar Iwama Ryu. Pode-me dizer
algo sobre isso?
CP- Exactamente. Alguns desses alunos já deveriam
ter treinado com um mestre anterior ao Mestre Tomita, que estava
na Suécia, que teve um problema de saúde tendo ficado mentalmente
afectado. Segundo a minha ideia, tanto a escola de Gotemburgo,
como a de Malmo e até a de Copenhaga, tiveram todas origem no
Mestre Tomita. Se formos consultar uma listagem das pessoas que
o Mestre Tomita graduou pode verificar-se que todas essas pessoas
fazem parte desse grupo, porque ele só gradua as pessoas que praticam
com ele.
12- Tem alguma ideia de como surgiu a formação
desse grupo de Aikido, Iwama Ryu? CP- O uso desse nome aconteceu mais tarde.
Primeiro começou por se chamar Iwama Style. O Mestre Saito ofereceu-me
uma daquelas toalhas azuis a dizer Iwama Style. A minha já está
quase branca, porque já a tenho há 12 anos e com tantas lavagens
vai-se desgastando (Risos). O Mestre Saito não chamava esse nome.
Lembro-me de ele uma vez dizer assim: "Oh, Iwama Style, very
good, very strong", com aquela voz bem grossa que ele tem
(Risos).
Alguns alunos do Mestre Tomita já tinham os seus próprios dojo,
que eram autónomos e, de vez em quando, chamavam o Mestre Tomita
que os ia visitar. Mas quando faziam exames para se graduarem
estavam integrados no sistema da organização da responsabilidade
do Mestre Tomita. Nessa altura, as graduações que o Mestre Tomita
atribuía não passavam pelo Mestre Saito, mas iam directamente
pelo Aikikai.

Mestre
Tomita e prof. Carlos Portas, Dinamarca, 1992
13- O Mestre Tomita tinha criado uma organização?
CP- Sim. A Takemusu Aiki Europe Tomita Academy.
No início até se chamava Takemusu Aiki Scandinavia, só mais tarde
passou para Europe, para abranger todos esses países.
14- Essa organização não estava sob alçada do Aikikai.
Era autónoma?
CP- Sim, era autónoma. Esses professores, os
mais antigos já eram 4ºdan, estavam numa fase em que já só treinavam
de tempos a tempos com o Mestre Tomita. Apesar deste ser uma pessoa
moderna e nova é, ao mesmo tempo, muito tradicionalista, e quem
não lhe prestasse o mínimo de respeito também não podia esperar
certas outras coisas. Como eles treinavam quando queriam graduações,
e o Mestre não concordava, eles estavam descontentes. Entretanto,
começaram a levantar-se uns burburinhos, entre alguns alunos do
Mestre Tomita. O Mestre Saito sabia dessas coisas certamente,
porque ele e o Mestre Tomita falavam quase todos os dias, por
telefone. Ou telefonava um ou o outro e eu ouvia-os quase todos
os dias a falar. O que eles diziam eu não sei, porque não percebo
japonês (Risos). Portanto, tinham um bom contacto e inclusivamente
no ano anterior o Mestre Saito tinha estado em Estocolmo durante
umas duas semanas, em casa do Mestre Tomita, com a família toda
e uns vizinhos que visitaram a cidade e uma parte da Europa. Essa
altura comemorava os 20 anos de permanência do Mestre Tomita na
Europa, portanto, foi em 1989. Aliás, esta foi a altura em que
passei mais tempo com o Mestre Saito, pois fizemos algumas viagens
e passeios juntos. É claro que a conversa nunca era muita porque
o Mestre Saito adormecia sempre nas viagens, por isso, só quando
estávamos mesmo a comer e a beber é que se conversava e tinha
que haver tradução.
Mais tarde, em 1991, quando o Mestre Saito foi à Dinamarca, esses
instrutores todos, como o Ulf, o Bjorn e outros, fizeram uma reunião
com o Mestre Saito, e eu também estive presente, para ver como
é que se poderia fazer. Nessa altura, havia uma certa ambiguidade
na forma de se pôr a máquina burocrática a funcionar. O Mestre
Saito ainda não tinha a coisa bem estruturada, o Mestre Tomita
também não a tinha da forma mais conveniente para poder executar
as ideias do Mestre Saito, etc. Daí que, nesse momento, o Mestre
Saito e o Mestre Tomita conversaram e o primeiro disse para o
Mestre Tomita seguir o seu caminho, disse-lhe que ele era independente,
estava livre de qualquer compromisso com ele. E foi o que o Mestre
Tomita fez a partir daí. Nunca se zangou com ele, nem se passou
nada, disse-lhe só que ele estava livre.
Foi quando o Mestre Tomita formou a Takemusu Aiki Tomita Academy
e foi quando se criou também a Iwama Ryu, composta pelos alunos
do Mestre Tomita que se separaram. Foi portanto a partir de 1991
que se começaram a criar as organizações de Iwama Ryu, que passaram
a estar ligadas directamente ao Mestre Saito.
15- Quando é que o professor regressou a Portugal?
CP- Regressei em Janeiro ou Fevereiro de 1993.
16- O seu regresso deveu-se ao Aikido?
CP- Houve três razões. Uma foi que o Mestre
Tomita, depois de me ter dado a graduação de 3ºdan, disse-me para
me ir embora, porque eu não era o tipo de pessoa que estivesse
bem na Suécia, devido ao meu temperamento, entre outras coisas.
Por outro lado, eu tinha aqui em Portugal um assunto, com um amigo,
que me comprometia - um projecto hoteleiro e, a terceira razão,
foi que a Embaixadora portuguesa na Suécia, com quem eu trabalhava,
tinha acabado o seu mandato e tinha sido destacada para o Japão.
Estas três razões aconteceram ao mesmo tempo. Simplesmente deixei
as coisas correrem naturalmente e acabei por vir.
O que penso hoje é que nunca deveria ter vindo para Aveiro, porque
aqui sou muito conhecido. A minha terra natal é Coimbra. As pessoas
reagem sempre de uma forma diferente. Se se é conhecido têm uma
certa maneira de estar, se não, têm outra. O facto de me conhecerem
não foi muito positivo, até porque nenhum dos meus amigos veio
treinar Aikido.
Não sei se foi pela fama, boa ou má, de ter sido instrutor de
Karate, mas sempre que apresentava o Aikido, o Karate estava presente.
Eu não gostava muito que fizessem a ligação. Foi difícil implantar
o Aikido, tive que lutar contra muitas coisas, principalmente
internas.
17- Sentiu alguma diferença nos hábitos culturais
em Portugal, quando tentou implantar o Aikido com todas as suas
regras?
CP- Há certas coisas contra as quais não vale
a pena remar contra a maré, por isso, tive de desistir de implementar
algumas coisas, como a limpeza do dojo. Mas pode ser que venha
mais tarde a aplicar isso. Na sociedade de hoje ou fazemos as
coisas como elas já são ou é um bocado complicado. O que podemos
fazer é, depois de estarmos integrados nessa sociedade, introduzir
as nossas ideias. Não deixamos os nossos valores para trás, esse
tipo de atitude desgosta-me muito.
Da maneira como as pessoas comunicam, eu não precisava de estar
a dizer hoje têm de limpar o pó, ou devem fazer isto ou aquilo.
Eu acho que não precisava de estar a dizer isso depois de o ter
dito, anteriormente, várias vezes. A própria pessoa deve ter esse
discernimento. Se o não tem, alguma coisa está mal. Acho que isso
é fruto da sociedade. A melhor maneira de mostrar às pessoas é
fazer; dizer é a mesma coisa que entrar por um lado e sair pelo
outro. É uma questão de como as pessoas se formam. Como não andam
aqui aos murros e aos pontapés na cara e a rasgar os joelhos,
pensam que é uma coisa levezinha, tipo Yoga, e então a sua atitude
é - "Limpa tu!" E se depois formos mais duros, não resulta,
isto é muito complicado. A pessoa também pensa, então eu pago
e ainda tenho que andar a limpar?! Por outro lado, eu também não
me importo muito com estas pessoas, porque quando elas têm esta
atitude não vão muito longe, o seu interesse a pouco e pouco esvai-se
e vão-se embora.
Aquelas pessoas que na realidade têm iniciativa e reacção fazem
estas coisas por respeito a si próprio, pelo dojo, por mim e pela
própria organização. Quem não tem esse tipo de personalidade acaba
por se sentir mal e muda-se. Se o trabalho da organização, fosse
feito de forma a todos terem benefício e prazer, era óptimo. Aí
já se obrigavam uns aos outros.
Antigamente também se fazia isso porque os praticantes não pagavam
ao mestre, porque não tinham dinheiro e assim prestavam esses
serviços. Há indivíduos que dizem ao mestre que não têm dinheiro
e este diz-lhes que nesse caso têm de ir trabalhar se quiserem
treinar, eles vão-se então embora, mas voltam ao fim de algum
tempo, porque querem mesmo treinar. Outros, que se põe com desculpas
e vão pedindo uns descontozinhos, estão cá algum tempo, mas acabam
por se ir embora.
É claro que no início, às vezes, ficava magoado com as pessoas.
Mas acho que agora já não me posso prender dessa maneira. Como
costumo dizer, o Aikido é de todos, mas não é para todos. Devia
ser, mas infelizmente não é assim. É de todos porque é global,
mas não é para todos por uma questão de princípios. A própria
forma de estar das pessoas serve de peneira.
18- Fale-me um pouco da Takemusu Aiki Portugal,
os seus objectivos, actividades, etc.
CP- Primeiro começou por ser Aikido Dojo Aveiro
- Carlos Portas, depois formou-se, em 1995, um grupo de pessoas
com a ideia de transformar isto numa entidade social interessada
em desenvolver a modalidade em Aveiro e, assim, formou-se a Associação
de Aikido de Aveiro. Mais tarde, em 1996, houve uma alteração,
de forma a abranger outras regiões a nível nacional e surgiu a
Takemusu Aiki Portugal. Desta forma também se uniformizou o nome,
relativamente à Takemusu Aiki Europe Tomita Academy e a todas
as outras Takemusu existentes noutros países, como Inglaterra,
França, Itália, etc. Inclusivamente, nessa altura, também haviam
contactos com a Federação Portuguesa de Aikido.
Actualmente, a Takemusu Aiki continua na mesma, mas formou-se
uma outra empresa, que se chama de Oficina de Artes e coisas do
Oriente, em que está englobada a oficina de Aikido, presidida
por mim, tendo o apoio pedagógico da Dra. Gabriela Faria e com
o apoio médico do Dr. Frederico Cerveira, ficando a parte técnica
entregue a mim, embora supervisionada pelo Mestre Tomita. As outras
oficinas, por exemplo de Origami, Ikebana, Jogo do Gô, Shodo,
Shiatsu e outras disciplinas tradicionais japonesas constituem
o aspecto cultural.
19- Este é o primeiro dojo de Aikido que visito,
em que não existe nenhuma fotografia ou símbolos relacionados
com O'Sensei. Há algum motivo para isso?
CP- Já teve esses símbolos e, embora não estejam
no dojo, estão na minha sala pessoal. Para mim, num dojo, que
é a sala onde pratico a Via, onde aprendo a concentrar-me, onde
o meu espírito requer paz, tudo o que possa ter lá dentro passível
de me perturbar não se adapta bem. Daí a razão de eu tirar essas
coisas. Até pode ter lá uma ou outra coisa, para dar uma atmosfera
ou o espírito necessário, mas não em termos de imagens, porque
eu não faço Aikido para venerar espiritualmente seja quem for.
Tenho todo o respeito, gratidão e devoção àquilo que foi criado,
desenvolvido, mas também acho, por outro lado, que foi esse o
seu papel. Isto é tudo um ciclo, nós pegamos em coisas feitas
anteriormente por outros e tornamo-las em sucesso e depois vêm
outros que pegam nisso e as continuam. É uma consequência natural
das coisas. Mas tenho a fotografia de O'Sensei no meu gabinete.
20- Costumam realizar demonstrações?
CP- Não. Fez-se apenas uma ou duas. Não estou
de acordo que o Aikido seja feito para demonstrações, não faz
parte do meu espírito esse tipo de show, embora possa concordar
que deva existir, porque é uma maneira de divulgar e de dar conhecimento
às pessoas que isso existe. Por outro lado, como não me sinto
capaz de a fazer bem... Apresentar só o produto final só mesmo
O'Sensei ou os grandes mestres e como não sou nem uma coisa nem
outra, tenho muito medo de ser mal interpretado, pois estou a
fornecer um produto final que pode levar a uma interpretação errada.
Acho também que são as pessoas que têm de procurar o conhecimento.
Mas se as demonstrações forem bem feitas, com nível pedagógico,
carácter informativo e disciplina, para demonstrar como é o processo
de aprendizagem, concordo que possam ser feitas.
Normalmente, as demonstrações que faço são no princípio de cada
época, convido as pessoas que querem conhecer e explico-lhes aquilo
que faço, em relação ao processo, aos estados de evolução, mas
mostrar o produto final é que não é possível.
21- O que pensa dos combates do género "Vale
Tudo"? Acha que a realidade que levou ao desenvolvimento
das Artes Marciais foi algo do género, tendo as preocupações espirituais
vindo posteriormente?
CP- Não acredito que as pessoas lutassem daquela
maneira. Apesar destes combates serem um vale tudo, há regras.
Começa por estarem dentro do ringue, como os animais.
22- Mas a situação num ringue pode comparar-se
perfeitamente a um qualquer local fechado, ...
CP- O espaço a que eu me estou a referir não
é o físico, é mental. Para já, se uma pessoa lutava era porque
havia um sentimento próprio para o fazer. Mesmo sendo um simples
guerreiro, tinha outros valores, como a pátria, no fundo, combatia
sempre por outros valores. E isso fazia com que a estratégia e
a forma de lutar fossem diferentes. Logo, não considero que tenha
partido dali, não, de maneira nenhuma. Para já, se fosse um guerreiro,
ele protegia-se de outra forma, não se aproximavam um do outro
da maneira como o fazem, teriam as suas cautelas.
23- Considera que o Aikido, por não ter confronto,
é uma arte onde facilmente se pode perder a noção de marcialidade?
CP- Esse é um assunto muito delicado, porque
a marcialidade depende de muitas variáveis. A eficácia depende
de muita coisa, ...
24- O facto do Aikido ser uma arte com um grande
componente de misticismo, não pode levá-la para caminhos que lhe
façam perder o carácter marcial?
CP- Sim, sem dúvida, mas isso é outro assunto,
é uma alteração da própria essência, isso é um desgosto muito
grande de assistir. As pessoas têm uma noção muito diferente do
que é a realidade do Aikido.
Quando se diz que o Aikido é amor entre as pessoas, então no tempo
do "flower power", do "peace and love", Aikido
era andar para aí a fumar uns charros (Risos). Mas isso não tem
nada a ver.
Às vezes penso que sei qual é a mensagem aiki, outras vezes acho
que já não percebo, mas se me deixar ir por aquela que quero acreditar
mais, então, é uma mensagem que traz às pessoas uma forma de estar.
Por exemplo, como é que uma pessoa consegue harmonizar-se quando
está a receber um nikyo? É quase inconcebível. Pois é precisamente
nestas situações. Uma pessoa tem que ter o coração, a alma e o
espírito abertos, para poder aceitar uma atitude dessas e um desconforto
desta natureza. Só aí é que pode começar a nascer, mas com bom
senso, de uma forma razoável. Caso contrário tinha que andar por
aí na rua a experimentar, o que até seria bom para testar a eficácia,
mas não é o nosso espírito e levava-nos para outros lados.
Em relação à eficácia do Aikido, eu não penso muito nisso, porque
não tenho esse problema, pois não tenho dúvidas que ela existe.
Só tenho problemas quando me dou com pessoas que não percebem
a diferença, quando há ou não eficácia, ou que não se apercebem
que fazendo assim se estão a expor de tal forma que seria fácil
derrotá-los. Esse é que é o meu problema.
25- Pensa que a eficácia é importante, não só como
um fim em si, mas para uma pessoa se poder orientar e não perder
a raiz do Aikido? CP- Eu nunca consigo perceber que uma pessoa
que está dentro do dojo seja um adversário ou um inimigo. Para
mim, quem está dentro do dojo são as pessoas que me ajudam a entender
toda a mensagem aiki.

Prof.
Carlos Portas com o seu aluno André Cardote, Aveiro, 2001
26- Mas como se pode entender essa mensagem, de
gerir um conflito, se a pessoa que faz o papel de atacante não
o faz com sinceridade, simulando na verdade esse mesmo conflito?
Que necessidade há de harmonizar com algo que não oferece resistência?
CP- Nesse sentido está bem. Tudo tem que ter
uma linha, uma coluna vertebral, caso contrário, alguma coisa
está mal. Eu estou a partir do princípio que uma pessoa é sincera.
Às vezes, peca-se por não se dizer tudo. Aliás, se não partirmos
desse princípio também não entende, tem que haver uma sinceridade.
27- O Professor acha que no Aikido harmonia também
é o atacante harmonizar-se com quem aplica a técnica?
CP- Obviamente. Na minha maneira de ver, a
forma de ataque em que haja maior velocidade, já é uma fase mais
avançada, em que a pessoa tem que ter maior experiência. Na primeira
fase aprendemos a centralizar-nos e a sincronizar todos os movimentos
do corpo para sentirmos como fazer esse tipo de trabalho de uma
forma coordenada e em que os movimentos não se desintegrem do
seu centro, do hara. Em que todo o corpo seja um único, todo o
movimento seja um único. No processo que usamos nós tomamos sempre
a iniciativa, a pessoa dá para depois receber, não espera receber
para depois dar. A mesma coisa com uma criança, que antes de aprender
a correr, tem que aprender a andar.
28- Se o atacante não agarrar com força e da forma
correcta, com sinceridade portanto, que necessidade há de fazer
a técnica correctamente?
CP- É preciso saber se estamos a falar do processo
de aprendizagem ou da aplicação. Se uma pessoa agarra com força
e a outra não tem um estado de espírito em que consiga perceber
que tem de fazer a técnica numa determinada direcção, então é
porque também não está com capacidade de perceber, daí a forma
de agarrar com força poder ser prejudicial. Portanto, tudo depende
de como se faz o processo de ensinamento das coisas, não podemos
rotular as coisas de uma forma categórica. Por vezes há pessoas
em que é necessário agarrar com firmeza, porque são pessoas muito
molinhas, flexíveis e assim ficarão com maior firmeza. Outras
pessoas são o inverso, muito rígidas, aí convém quase nem agarrar,
só tocar, uma vez que já têm uma tendência a retrair, em vez de
expandir. É tudo muito relativo e acho que o Aikido cabe dentro
disso tudo. Portanto, depende.
Quando eu travo um aluno, agarrando com força, estou a fazê-lo
sentir se está bem equilibrado, para as ancas poderem usar a mais
valia da sua capacidade, para que toda a energia seja canalizada
para o fim que se pretende. Há um sentido pedagógico quando faço
isso. Eu concordo com uma aprendizagem que depende do momento,
este é que irá definir o que é ajustado, o que é necessário e
mais adequado a esse momento. É o momento que define a atitude
e não o contrário.
Posso comparar estes conceitos com os do Karate. Sempre que se
inicia alguma coisa, começa-se com um gedan barai, para a frente
ou para trás, e se for fazer isso na rua, como está habituado,
a primeira coisa que faz é um gedan barai, e às tantas já está
a levar uma chapada (Risos). É preciso muito cuidado e responsabilidade
com a maneira como falamos e incutimos as coisas nas pessoas.
Eu tenho cá um aluno que praticou Aikido noutra escola, em Coimbra,
e eu não consigo perceber como é que eles são capazes de executar
os movimentos completamente desfasados da realidade, não têm senso
nenhum. São movimentos, é certo, mas vividos num mundo muito próprio,
nada tem a ver com o produto final do Aikido. É um produto final
usado, passado por papel químico, mas que já nem copia nada, já
vem todo em branco (Risos). Custa-me ver isso porque considero
que a aprendizagem do Aikido ou se faz bem, ou não. Se se aprende
mal, tudo o que se aprendeu vira-se contra a nós, se se aprende
bem vira-se a nosso favor.
Estas coisas funcionam como os rádios, em que há um que emite
e outro que recebe, se não estiverem sintonizados, basta uma pequena
diferença e já há interferências, o som já não sai límpido. Fazer
Aikido é a mesma coisa, por isso é que é muito delicado falar
em Aikido. Só as pessoas que sabem mesmo é que deveriam falar.
29- É da opinião que já não é possível aprender
a arte original porque o Fundador já morreu e os poucos que aprenderam
alguma coisa já alteraram, devido às suas concepções pessoais
e personalidade? Ou seja, é como se todos sentissem que podem
fazer o que quiserem dentro da arte, pois foi esse o espírito
que o Fundador deixou.
CP- Esse é outro assunto complicado. Temos
que ser realistas. Tudo nasce e morre. Portanto, antes do Fundador
já houve outros fundadores que criaram outras coisas em que o
Fundador se baseou e simultaneamente houve até outras pessoas,
que nem foram conhecidas apenas porque não tiveram os mesmos meios,
talvez. O'Sensei teve o privilégio de ser um artista marcial espectacular.
Contudo, o trabalho que ele fez foi mais um trabalho de apresentação,
ou seja, está aí a bola, vejam lá o que é que agora fazem com
ela. Depois, foram as pessoas que se seguiram, como o Mestre Saito,
que fizeram as coisas, provavelmente, mais importantes, como a
estruturação do sistema pedagógico, a necessidade de todo um estudo,
um processo. Eu não gosto do processo do Aikikai, nem da apresentação
técnica, assim como de todas as escolas que conheço.
Não concordo que já não se possa aprender o Aikido original porque
o Fundador já não existe, não concordo. Agora, como houve vários
dos seus alunos daquela geração, como o Mestre Tohei e o Mestre
Saito, que desenvolveram um processo e têm um estilo completamente
diferente, também não concordo que se diga que por não fazerem
como ele fazia já não é Aikido.
30- Gostaria de dizer mais alguma coisa?
CP- Eu gostava que todas as pessoas do mundo
fizessem Aikido, assim não tínhamos que lutar uns contra os outros.
O facto de alternarmos, no Aikido, a posição de uke e tori pode
tornar-nos mais redondinhos, mais polidos. Não é só ganhar, falamos,
mas deixamos falar, também.
31- Muito obrigado
Entrevista
realizada em 9 de Outubro de 2000
Pedro
Escudeiro |