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ENTREVISTA AO PROFESSOR LUÍS ANTUNES

 

 

 1ºEstágio em Portugal de Nobuyoshi Tamura Sensei, 1982, dojo dos
Bombeiros Voluntários do Estoril. Pode-se ver, na fila de cima, da direita
para a esquerda: Francisco Garção - 2º, Gerard Obellianne - 5º(aluno de
Tamura Sensei em França), Mestre Tamura - 6º, Artur Lopes - 11º, Luís
Salgado - 12º, Luís Antunes - 13º, Paulo Silva 21º
Fila de baixo, da direita para a esquerda: Eduardo Luís - 2º, M. Barck (na
altura, Director Técnico da Federação Marroquina de Aikido) - 3º, Francisco
Leotte Tavares - 10º, Pedro Leite - 12º.

 

 

1- Pode-nos dizer o seu nome, idade e graduação?

Luís Antunes- O meu nome é Luís Antunes, 47 anos, 6ºdan Aikikai, através da Federação Portuguesa de Aikido.

2- Quando começou a praticar Aikido?

LA- Em 1 de Agosto de 1970.

3- Onde iniciou a sua prática?

LA- Comecei num estágio em França, com Hirokazu Kobayashi.

4- Foi a primeira vez que teve contacto com o Aikido?

LA- Sim, foi. Mais tarde, tive também contacto com Misao Honda, enviado para Portugal pelo Mestre Kobayashi para divulgação da modalidade.

5- Portanto, quando começou a praticar efectivamente Aikido, foi em Portugal com o Sr. Honda?

LA- Não. A primeira vez que pratiquei foi com o Mestre Hirokazu Kobayashi no estágio em França, Castel-Jaloux.; depois estive com ele novamente em Novembro ou Dezembro do mesmo ano. Na altura era praticante de Karate.

  Quando vi o Mestre Kobayashi pela primeira vez ia fazer um estágio de Karate, mas não cheguei a fazê-lo, fiz antes o de Aikido, pois surpreendeu-me a velocidade com que o Mestre Hirokazu Kobayashi se deslocava em suwariwaza. Fiquei maravilhado.

6- Quem eram as outras pessoas que treinavam nessa época e que ainda estejam em actividade?

LA- Se a memória não me falha, o Prof. Leopoldo Ferreira, o José Araújo, isto relativamente às pessoas que pertenciam ao grupo que teve contacto com Misao Honda da primeira vez que cá veio. Infelizmente, o Sr. Honda esteve cá uns escassos meses e foi-se embora, deixando-nos um tanto ou quanto a treinar sozinhos e desamparados. O que nos valia eram os estágios que íamos fazendo durante o ano, quando o Mestre Kobayashi vinha do Japão a França.

7- O Mestre Kobayashi não estava radicado na Europa, então?

LA- Não, não estava. O Mestre Kobayashi poucas vezes veio cá fazer estágios, pouquíssimas vezes. Entre 1970 e 1974/75, ele deveria ter vindo no máximo umas cinco vezes.

8- Quando vinha fazer uma espécie de circuito?

LA- Sim, sim. Fazia muito Ibiza, Castel-Jaloux, todo o sul de França, entre outros países. Aproveitávamos este circuito dele para nos deslocarmos aos locais mais próximos onde ele ia.

9- Quem estabelecia os contactos para ele vir cá?

LA- Os iniciais foram feitos pelo saudoso Dr. Correia Pereira, o muito ilustre fundador da Academia Portuguesa de Budo e mais tarde União Portuguesa de Budo,

que formava um grupo de pessoas de boa vontade. E era através dele, que custeava tudo até onde fosse possível para a implantação de mais uma modalidade em Portugal. Em boa verdade se deve dizer e deixar os agradecimentos à União Portuguesa de Budo, nas pessoas dos seus fundadores, sem menosprezar os actuais dirigentes. De facto, aquela foi uma época difícil, não esquecer que estamos a falar da década de cinquenta. Esse grupo incluía também o Dr. Pires Martins, o Coronel (creio!) Sebastião Durão e, acima de todos, o Dr. Correia Pereira, que foi o mais activo e empenhado, e também aquele que vivia mais intensamente qualquer modalidade de combate.

10- Qual era o panorama do Aikido nessa época? Já existiam vários grupos formados?

LA- Eu nunca me preocupei com os grupos de Aikido, sempre tive presente as palavras do Fundador do Aikido, em que o Aikido é uno.

11- Mas já havia grupos mais ligados a um ou a outro mestre?

LA- Francamente, não sei bem. A primeira vez que eu vi Aikido aqui em Portugal foi com um senhor chamado Daniel Laurent que estava cá de passagem, de férias, e que mostrou o que era o Aikido, na Academia Portuguesa de Budo. Não era uma pessoa com uma graduação elevada, 2ºkyu, contudo, deu para ver o que era o Aikido, que era uma modalidade muito diferente, com princípios absolutamente opostos aos que habitualmente preconizávamos nas artes marciais que imperavam na altura, como o Karate.

12- Não tinha então grande noção de que já houvessem grupos formados, independentes?

LA- Sim, nessa altura não tinha mesmo. Mais tarde apareceu o Honda, enviado pelo Mestre Kobayashi, a seguir o George Stobbaerts, mais ou menos em simultâneo, não sei bem quem chegou primeiro. Também nunca me apoquentei, porque realmente o que me interessava era fazer um Aikido o mais próximo possível do Fundador, que era o do Aikikai. Como o Sr. Honda era Aikikai, foi só por isso que pratiquei com ele, sob a orientação do Mestre Kobayashi.

13- Chegou a fazer avaliações com o Sr. Honda? Como era na altura o sistema de graduações?

LA- Bom, na altura, o sistema de graduações, se bem me lembro, era composto por nove kyus e para tudo se fazia exame, o que não correspondia às graduações da Aikikai. A partir daí eu seguia as graduações feitas e dadas pelo Mestre Kobayashi. Constata-se que quanto mais graduações há, mais exames têm que se fazer, mais as instituições cobram para as fazerem e, portanto, as cargas horárias não correspondiam minimamente às exigidas pelo Aikikai. Para mim tudo quanto saísse da escola do Fundador não tinha a minha melhor aceitação. Como não teve.

14- Já tinha então a noção de que havia uma grande organização a nível mundial, de Aikido?

LA- Sim, sempre tive, porque tive a sorte de a conhecer através de um 8ºdan, embora fosse um miúdo de 14/15 anos na altura, tive sempre essa noção.

15- O Mestre Kobayashi tinha sido enviado pelo Aikikai?

LA- Ele era responsável pelo Aikikai de Osaka e fazia muitos, muitos, estágios pela Europa e portanto com o conhecimento e supervisionamento do Aikikai de Tóquio.

16- Já havia outros mestres a ensinar Aikido na Europa pelo Aikikai?

LA- Sim. Havia vários mestres japoneses.

17- Como era, nesse caso, a relação entre eles e o Mestre Kobayashi?

Tamura Sensei, Estoril, 1982, executando Swariwaza Kokyu-Ho com
Luís Antunes

 

LA- O Mestre Kobayashi sempre obedeceu. E lembro-me que quando era aluno dele, que fui até 1979/80, já era o Mestre Tamura o Delegado Europeu do Aikikai. Contudo, antes dele foi Tadashi Abe. E lembro-me perfeitamente que apesar da graduação do Mestre Kobayashi ser superior à de Tadashi Abe, julgo que fosse 6ºdan, ele seguia as directrizes emanadas pelo Delegado Europeu do Aikikai de Tóquio.

  Depois, mais tarde, na década de sessenta, veio o Mestre Tamura, com o cargo de Delegado Europeu, emanado do Hombu Dojo, e que se mantém até hoje.

18- A C.D.A.M. era o organismo que tentava controlar as artes marciais em Portugal. Como era exercido esse controlo?

LA- Essa pergunta devia fazer ao Comandante José Fiadeiro, que foi o ilustre presidente da C.D.A.M. Ele seria peça preponderante para entrevistar, porque melhor que ninguém pode explicar como pretendia controlar. A sua pergunta foi muito bem colocada, porque referiu como ele pretendia controlar.

19- Como sentiam os praticantes esse controlo?

LA- Só falo por mim. Deus Nosso Senhor deu-me uma cabeça, penso com ela, não penso com a cabeça de ninguém, seja de quem for, sigo a minha consciência, faço o melhor que posso.

 

Tamura Sensei, Estoril, 1982, executando Swariwaza Kokyu-Ho com
Luís Antunes

 

20- Mas o sentimento desconfortável desta tentativa de controlo era generalizada?

LA- Para mim não se torna incómodo, porque nada fiz de mal, nunca se tornou incómodo, tenho muito boas relações com ele, ainda hoje, o vejo com alguma frequência na Confederação do Desporto de Portugal. Ele era uma pessoa interessada no desporto, mudou para a canoagem, pelo que sei. Toda a gente conhece o Comandante Fiadeiro.

21- Chegou a criar-se, dentro da C.D.A.M, um Conselho Técnico de Aikido. Quais eram os seus objectivos?

LA- Faço minhas as palavras anteriores, será bom perguntar às pessoas que participaram nisso, que tinham os cargos, porque eu não fiz parte desse Conselho, embora o Comandante Fiadeiro me tivesse convidado, mas quando a maioria pertence a um só lado, acho que não estão reunidos os princípios democráticos e de liberdade de expressão para tal integração. E como servir de fantoche nunca foi o meu lema, declinei o convite.

22- Sentia que havia uma tentativa de juntar as pessoas?

LA- Em meu ver, deveria haver um, dois ou três representantes, aqueles que fossem, de cada grupo e na devida proporcionalidade atendendo ao número de atletas de cada grupo.

23- A forma como esse Conselho foi eleito, não estava, à partida, correcta?

LA- Sim, sim. Não sei bem como foi, não me preocupo muito com isso. O que interessa é fazer o melhor que sei, procurar uma prática perfeccionista, o mais próximo possível do saudoso Fundador Morihei Ueshiba, que foi o que fiz durante toda a minha vida.

24- A C.D.A.M. organizou uma série de treinos, chegou a participar neles?

LA- Sim. Entrei em um ou dois, no máximo. Num gesto de boa vontade, acreditando que poderia haver uma unificação do Aikido; quando me apercebi que não era assim, que não era esse o objecto, nem o fundamento de tais encontros, entendi em boa consciência nunca mais participar.

25- Acha que o que podia estar na base destas divergências entre os vários grupos seriam questões técnicas, ou já haveriam concepções em termos da arte bem distintas?

Tamura Sensei, Estoril, 1982, executando Swariwaza Kokyu-Ho com
Luís Antunes

 

LA- Nunca me debrucei sobre isso. A minha ideia é que, como já disse há pouco, o Aikido deve ser Uno. O’Sensei Morihei Ueshiba disse que o Aikido não tinha estilos, tem métodos e interpretações de trabalho. Tem trabalhos diferentes. Portanto, um shihonage feito por mim será certamente um shihonage feito por outro instrutor, professor ou mestre, dependendo do nível, da fisionomia e do espírito que ele tem na sua execução. Eu tenho a minha maneira de interpretar que é pessoal, tal como o Pedro Escudeiro terá a sua. Portanto, tudo depende da cabeça de cada um, da mentalidade de cada um. Eu sempre fiz o meu trabalho conforme o aprendi. Uma coisa é certa, eu sempre trabalhei com japoneses, dos quais saliento dois, Hirokazu Kobayashi e Mestre Tamura; o primeiro deu-me a conhecer o Aikido, o segundo ensina-me o “Caminho”.

26- Acha esse dado importante?

LA- Acho, acho. Porque se segue uma metodologia com continuidade e são pessoas acima de qualquer suspeita. Melhor do que eles certamente não encontramos, porque partilharam de perto as metamorfoses que ao longo dos anos O’Sensei foi introduzindo no Aikido. Desde o Aiki Taijutsu até ao superlativo da modalidade, do Do, do Caminho, da elevação da arte marcial. Porque o Aikido de O’Sensei é mesmo no superlativo. Aqueles que mais perto estiveram com ele, como o Mestre Tamura, Mestre Kobayashi, Mestre Saito, e tantos outros, merecem realmente um lugar de respeito de todos nós, praticantes, que estamos a absorver sempre técnica em terceira ou quarta mão. A fonte que estiver mais próxima de “O Sensei” é sempre a fonte mais pura. Daí eu não querer mudar nunca de professores. Aliás, mudei do Mestre Kobayashi para o Mestre Tamura a conselho do próprio Mestre Kobayashi, porque não podia vir aqui a Portugal. Deu-se o 25 de Abril, os dojos eram escassos e as visitas a Portugal ficavam cada vez mais caras, a crise económica instalara-se; em vez dos grupos se unificarem e tirarem todos partido disso, desuniam-se e cada qual chamava-o para o seu lado e isso levou a que o Mestre Kobayashi não quisesse aceitar os convites para vir a Portugal.

27- Quando e como surgiu a ligação ao Mestre Tamura?

 

Tamura Sensei, Estoril, 1982, executando Swariwaza Kokyu-Ho com
Luís Antunes

LA- Fui apresentado pelo Mestre Kobayashi ao Mestre Tamura através de uma carta de recomendação. Mas eu não podia ser aceite como aluno directo dele quando o Mestre Kobayashi me propôs, devido a não pertencer à Federação Europeia de Aikido, que já existia nessa altura. O seu Director Técnico era o Mestre Tamura. Portanto, teve de haver um dojo que se filiasse à Federação Europeia, pois esta era uma instituição de pessoas colectivas. No fim de realizar todo o processo é que eu pude passar a ser aluno do Mestre Tamura, tendo recebido uma carta, que tenho todo o prazer em mostrar, admitindo-me como aluno directo dele. O dojo foi o Grupo Nacional de Estatística, e o processo iniciou-se em 1980.

28- Pode-nos falar um pouco do Mestre Tamura, como homem?

LA- Do Mestre Tamura só tenho a dizer bem, não tenho qualquer queixa, é uma pessoa que quando vem a Portugal, ou a qualquer parte do mundo é para bem do Aikido e faz estágios graciosos, se houver dinheiro paga-se, se não houver não se paga. Sempre dormiu em minha casa, nunca quis ir para hotéis, e numa fase atribulada da minha vida, em que eu nem tinha cama para dormir, disse-me: - Luís, não há problema, um homem do Budo dorme no chão. Assim foi, dormiu no chão; antes de se ir embora deixou-me o frigorífico cheio de alimentos.

  É um Mestre acima de tudo, as revistas chamam-lhe o Mestre do Coração, é uma pessoa que tenta sempre apaziguar as vozes mais exaltadas que por vezes se levantam contra coisas, grupos, e demais adversidades que se lhes deparam.

  É uma pessoa que promove a contenção e que reflecte nisso o bom espírito do Aikido e a vontade de O’Sensei. Existe uma coisa que é de primordial importância, o desejo dele é fazer cumprir o desejo de O’Sensei, que o Aikido seja uma família grande, uma família verdadeira com um sentimento grande e que possamos praticar sem ferir susceptibilidades e não estar a ver quem é o melhor.

  O desejo de O’Sensei é que o Aikido resplandecesse no mundo como o sol. Estas são as palavras de O’Sensei, são as palavras que o Mestre Tamura sempre referiu, ao longo de mais de vinte anos como meu professor. Portanto, é dentro deste quadro que eu pretendo sempre fazer Aikido. Faço o melhor que sei, dou aquilo que recebo dele a quem quiser. O Mestre Tamura é assim. Não interessa fazer um nikyo ou um shihonage para atirar o outro ao chão, a minha ideia não é projectá-lo ao chão, é evidente que ele irá ao chão na consequência da minha técnica. Essa é a parte que eu preconizo, sem aleijar o adversário, o ataque no Aikido deve ter reconciliação pacífica na resposta.

29- Sentiu diferenças técnicas entre o Mestre Kobayashi e o Mestre Tamura?

Tamura Sensei, Estoril, 1982, executando Swariwaza Kokyu-Ho com
Luís Antunes

LA- O Mestre Kobayashi era uma pessoa muito mais possante do que o Mestre Tamura, do ponto de vista físico, mas do ponto de vista de vista da transmissão técnica o Mestre Tamura é sem dúvida nenhuma superior, dá mais explicações; outro factor importante é a semântica. H. Kobayashi só falava japonês, o que diminui muito a capacidade de transmitir.

  Os princípios são os mesmos, ken, jo, tanto, tudo estava lá, no Mestre Tamura, só que a fisionomia dos dois, um por ser extremamente magro, o outro por ser uma pessoa possante e cheia de vigor, levava-os a terem execuções absolutamente diferentes. Contudo, todos os princípios estavam contemplados.

30- Quando se pode dizer então que o Aikikai, como organização em Portugal, surgiu? Foi com os dojo que se inscreveu na Federação Europeia de Aikido?

LA- Não. Veja-se que quando o Aikido entra em Portugal é Aikikai, através da Academia de Budo.

31- Mas a primeira escola só de Aikido Aikikai, quando surgiu?

LA- Específica de Aikido foi em 1980, com o Grupo Desportivo do Instituto Nacional de Estatística. Aí sim, era só Aikido e tínhamos vínculo à Aikikai. Este era o dojo autorizado, através de um certificado endossado, para ensinar o Aikido segundo as regras e princípios do saudoso Fundador Morihei Ueshiba.

Estágio de Tamura Sensei, Outubro de 2001, Estádio Universitário.
Prof. Luís Antunes e Bruno de Jesus. Pode-se ver à esquerda, Tamura Sensei e
Prof. Artur Lopes.

 

32- Mais tarde criou-se a Associação Desportiva Aikikai de Portugal?

LA- Atenção que o grupo Nacional de Estatística era um associado da União Portuguesa de Budo. Esta tinha uma organização em que as pessoas eram as mesmas da Academia de Budo e as modalidades estavam divididas por secções, a do Karate, do Judo, do Aikido, etc.

  Em 1982/3 entendemos fundar uma associação específica para o Aikido. Digamos que o Aikido não podia mais andar arrolado ao Judo ou a outras artes marciais, queria ter o seu próprio estatuto de arte marcial, embora praticado sempre no plano desportivo.

  Eu digo - sempre no plano desportivo - porque O’Sensei dizia que o Aikido, da maneira que se praticava, quer em demonstrações, quer no dojo, permitia que o atacante se levantasse e tornasse a atacar. Isto não é marcial, portanto, há que ver qual é a definição de desporto e dizer que é uma arte marcial aplicada sob o plano desportivo, porque não causa ferimentos, nem qualquer dano físico aos oponentes.

33- Quem liderou o grupo que criou essa Associação? Foi o Professor?

LA- Não era o Luís Antunes, eu sempre tive um papel de técnico. Quem liderou esse processo foi o Dr. José Manuel Guimarães de Magalhães, que era então o Presidente desse tal Grupo Desportivo do Instituto Nacional de Estatística, “GDINE”.

34- Quando é formada a Associação?

LA- O Grupo Desportivo, enquanto clube, nunca poderia ascender a mais do que a terceira categoria da Federação Europeia de Aikido. Deu-se então o passo seguinte, organizamo-nos de uma forma mais estrutural e assim permitiu-nos, com a especificidade somente do Aikido, ter acesso à categoria dois da Federação Europeia de Aikido. Mais tarde, com a formação da Federação, passámos para a primeira categoria.

  Na Federação Europeia existem três escalões. Os clubes ficam na terceira categoria, as associações pertencem à segunda e as federações à terceira. Se houver uma qualquer federação, associação ou clube desse país, só poderá entrar para dentro da Federação Europeia de Aikido se pertencer à federação desse país já filiada.

35- A partir do momento em que se forma a Federação Portuguesa de Aikido, ela passou a ter dois papeis diferentes. Um, do ponto de vista técnico, com vínculo específico aos mestres ligados ao Hombu Dojo de Tóquio, Aikikai. E um segundo, mais abrangente, proveniente do Estatuto de Utilidade Pública, em que tenta aglomerar o maior número possível de associações e clubes portugueses, sem olhar ao critério técnico, apenas com um vínculo administrativo.

LA- Sim. A seguir à criação da Federação iniciou-se um outro processo, que culminou em 1993, com a ascensão da Federação Portuguesa de Aikido à categoria um da Federação Europeia de Aikido, com o reconhecimento do Governo em exclusividade, bem como do Comité Olímpico de Portugal e da Confederação do Desporto de Portugal.

36- Na altura em que esta Federação foi criada, já existia a Federação Portuguesa de Aikido e Disciplinas Associadas?

LA- Não, julgo que não. Se a memória não me falha ela foi fundada mais tarde, creio que por volta de 1995/96. Essa Federação não é uma Federação Desportiva, pois só é Federação Desportiva a que tiver a Utilidade Pública Desportiva, portanto, chama-se Federação como se poderia adoptar outra designação qualquer. Federação só existe uma, a que tem este estatuto a “UPD”. A outra é uma Associação que se chama Federação.

37- Qual é o estado actual da Federação? Quais são as suas iniciativas para desenvolver a arte em Portugal?

Tamura Sensei, Portugal, Out. 2001

LA- Como sabe, já não sou o Presidente da Federação e, por isso, não me quero estar a aprofundar muito em assuntos relativos à Federação, a entrevista que me faz é para comigo, não com a Federação. Mas enquanto fui Presidente assentava no apetrechamento e apoio técnico, através de acções denominadas apoios técnicos, de encontros técnicos, e depois de acções de formação, sendo estas últimas compostas por três níveis, Monitores, Instrutores e Professores de Aikido. Aprovado em reunião pelos ministros da Tutela do Desporto, da União Europeia, em 1992, os cursos, as cargas horárias, são realizados segundo os parâmetros comunitários. Só depois dos conteúdos dos cursos serem aprovados é que era “imposto” pela Tutela dar prossecução à formação dos agentes de ensino.

38- Costuma realizar demonstrações?

LA- Desde 1985 que não faço demonstrações.

39- Mas há alguma razão para isso?

LA- Não. Nada tenho contra elas.

40- Não é por motivos estratégicos que as não faz?

LA- Não. Aliás, rarissimamente a Federação faz uma demonstração. Só se for a pedido superior ou de algum associado.

41- A Associação Amizade Portugal Japão, tem uma iniciativa anual, de há uns anos a esta parte, de apresentar um Festival de Artes Marciais Japonesas. Não é um pouco anormal que logo a Federação reconhecida pelo Governo Português não esteja presente?

LA- Não há nada a dizer sobre isso. As demonstrações não devem constituir marketing. É um ponto de vista meramente pessoal. Por isso eu não as faço. Portanto, venham elas de onde vierem, de municípios, das colectividades, todos gostam de fazer demonstrações e os nossos associados têm liberdade para as fazerem, à luz dos estatutos, se assim quiserem.

42- Mas quando os líderes não as fazem ...

LA- Mas os instrutores de cada dojo têm autonomia para as fazerem, está nos regulamentos e todas as pessoas ligadas à parte técnica têm um dojo, como eu. Quanto a mim, não me lembro de fazer uma demonstração há 15 anos.

43- Não acha que seria melhor para divulgar a arte?

LA- Se hoje, 31 Outubro de 2000, se quisesse inscrever no Clube Atlético de Alvalade dir-lhe-iam que teria de entrar para uma lista de espera. E não faço demonstrações.

  Não acho que passe por aí a divulgação da arte, se um professor tem para ensinar, o seu dojo está sempre cheio, se é um mau professor terá que puxar pela imaginação para ter alunos.

44- A Federação Portuguesa de Aikido deixou de ter apenas ligação técnica com o Mestre Tamura, convidando para virem a Portugal vários outros mestres. Apesar disso o Mestre Tamura continua a ser o mestre de referência?

LA- O Mestre Tamura continua a ser a referência, sem dúvida. Continuo a ser aluno directo dele, continuo a fazer estágios com ele, de preferência os de alto nível. Em França. Da participação nestes estágios há um aperfeiçoamento técnico, e não há dúvida nenhuma que resulta na evolução. Como é evidente, quando chego a Portugal transmito aquilo que aprendo. São cerca de dez/doze dias de uma comunhão muito próxima com o Mestre, no mais rigoroso espírito Aiki e onde estão as melhores graduações da Europa.

45- Como é feita a rotatividade dos vários mestres pelos diversos países europeus? Há um organismo central que os vai distribuindo, ou são os próprios países que fazem os convites?

LA- Falo só pelo nosso país, e até eu me ter demitido de Presidente, foi sempre a Federação que fez o convite aos mestres que entendeu como mais convenientes.

46- Obviamente eles auferem honorários, existe algum critério que esteja generalizado?

LA- Não, julgo que não. Nós podemos pedir ao Aikikai, mas vai aumentar muito as despesas na medida em que, para se trazer alguém do Japão, tem que se pagar o avião a partir de Tóquio. Aquilo que nós fazemos, através dos acordos bilaterais de países que promovem o Aikido severo segundo o nosso mesmo esquema de trabalho, é aproveitar para partilhar o bilhete total de certo e determinado especialista.

47- Da parte da Federação Portuguesa de Aikido, quem são as referências técnicas, os professores principais?

LA- Nacionais?

48- Sim.

LA- É uma pergunta que eu não posso de forma nenhuma responder com exactidão, porque cada cabeça terá a sua referência.

49- Mas há alguns professores que se destacam nem que seja pelas suas graduações?

LA- A graduação não tem muito a ver, porque se vê com frequência graduações que ficam aquém de outras menores.

  As graduações, dizia O’Sensei, são um mal necessário, situam os conscientes para terem a noção do nível em que estão, comparando-se com os demais que estão à roda deles.

50- Para além do Aikikai, a Federação Portuguesa de Aikido não integra mais nenhuma escola?

LA- Dizer Aikikai significa “casa de fazer aiki”, ligada ao Hombu Dojo. Portanto, há várias no país. E o que eu digo é que a Federação Portuguesa de Aikido foi criada de forma a que toda a gente coubesse. Esse é um facto inegável, desde o primeiro instante em que foi criada. O regulamento técnico é bem claro, todos os associados na condição de associação têm autonomia própria, portanto, pode estar pura e simplesmente ligada à Federação por um vínculo administrativo e não técnico. A nós não nos interessa controlar ninguém. Essa é a unificação do Aikido, do ponto de vista administrativo, para que a modalidade Aikido em vez de contar com 1800 praticantes possa contar com 3600, a nível do Estado.

51- Acha que essa mensagem passou para as outras escolas?

LA- Não sei, não sei. Não faço ideia. O tempo se encarregará disso. Realmente julgo que é importante que as pessoas façam as inscrições através da Federação, embora tenham a sua interpretação muito própria de Aikido.

52- Mas existe ou não alguma escola integrada na Federação apenas pelo vínculo administrativo?

LA- Sim, existe.

53- A Federação está conotada obviamente com a organização mundial Aikikai ...

LA- Aikikai, Federação Europeia, Comité Olímpico, Confederação do Desporto de Portugal.

54- ...exacto...

LA- Através de estruturas supra-federativas nacionais e internacionais. Quem quiser graduações Aikikai paga-as directamente a esta no final da avaliação/exame.

55- Eu não estou a falar de graduações, mas de movimento associativo em Portugal. Uma Federação tem, à partida, como objectivo, a integração do maior número possível de escolas, associações, independentemente do carácter técnico de cada uma. E a minha pergunta é: há alguma escola não pertencendo ao sistema técnico do Aikikai que se tenha integrado na Federação? E se acha que estas outras escolas se revêem na Federação?

Prof. Luís Antunes e Pedro Escudeiro, Estágio de Tamura Sensei,
Out. 2001, Portugal

LA- Eu não sei, francamente não sei. Os que têm vindo para dentro da Federação, que não vou enumerar agora porque não sei de cabeça, todos se têm dado bem. Entraram, fizeram cursos de formação graciosamente, a custo zero, têm tapetes a custo zero, o que constitui uma fatia significativa do orçamento da Federação, porque cada tapete é muito caro. A Federação tem dado tudo isso, muito.

  Os grupos e as associações de Aikido, de ideologias diferentes ou que seguem outros professores, ao entrarem para a Federação, não têm que deixar os seus professores ou os seus ensinamentos. Nada disso. Cada um que siga os seus, porque então é inevitável a saída, mais tarde ou mais cedo, porque sem dúvida o clima de liberdade e de democracia para a plena assunção do desejo de O’Sensei, que é realmente o Aikido resplandecer sobre a terra como o sol, como o próprio dizia, não pode existir. As únicas imposições que nós vamos fazer são as da lei, e isso quer estejam dentro ou fora da Federação também têm que as cumprir. Vou dar um mero exemplo - o seguro desportivo. Para o ter é necessário ter uma inscrição na Federação, porque é indissociável, o seguro desportivo faz-se no preciso momento da anuidade na Federação. Quando a pessoa se federa. E a anuidade é indissociável também do seguro desportivo, mas para que isto tenha valor é necessário que haja um exame médico de robustez física, de um médico ou da Federação, ou do Centro de Medicina Desportiva, dizendo que o senhor x, y ou z está apto à prática da modalidade, tem robustez física. Muitas vezes os centros de prática fazem os seguros e não pedem os exames médicos, ora, isso é um dever que eles têm. Este é um mero exemplo que estou a dar.

  São ilegalidades que com frequência acontecem e que, ao longo destes anos, custou muito a habituar os clubes a pedirem e a não deixarem praticar pessoas sem seguro desportivo ou exame médico. Mas isto é lei. Desde 13 de Janeiro de 1990 que existe lei base do sistema desportivo.

56- Acha que a Federação tem um papel de prevenção, sensibilizando, relativamente a este desconhecimento da lei?

LA- A Federação adverte, envia uma circular a todos os dojo, e estes é que devem guardar os seguros lá, a responsabilidade, se os pedem ou não, é deles.

  Essa circular chama a atenção para um eventual acidente, e aproveito para dizer que desde que temos a Utilidade Pública Desportiva não tivemos uma única participação ao seguro, o que mostra a qualidade dos agentes de ensino.

57- Antigamente registavam-se mais acidentes?

LA- Não sei, nunca tive nenhum.

58- Os clubes estarão mais cuidadosos?

LA- Realmente, com a proliferação de clubes com fins lucrativos, tendo todo o interesse em ter associados, pessoas que paguem as mensalidades para o custeamento das despesas e para obter lucro, têm que ter cuidado. Porém, inúmeras vezes descuidam a parte legal e não tendo a Federação um papel de polícia, tem um papel de advertência e de dar sempre a saber o que se passa, a nível de cada dojo. Agora, outra das coisas que me parece de grande importância é o papel do agente de ensino. Ora, todo o agente de ensino do Decreto Lei 350 e 351/1991, de 19.09, se a memória não me falha, tem direitos e deveres. Tendo deveres, terá de os cumprir, quer seja da Federação Portuguesa de Aikido, quer seja de outra qualquer associação ou federação. É obrigatório que os cumpra.

  Há pessoas que são mais permissivas do que outras e não fazem cumprir a lei, e essas pessoas nunca se sentirão bem dentro da Federação, pois têm que cumprir uma parte administrativa. Ora isso, e para responder à sua pergunta que não é por vezes a divergência técnica que separa as escolas, mas a obrigação legal vertida na lei, que é impeditiva das pessoas virem para a Federação. Ninguém impõe nada a ninguém. É bom que se saiba isto, só tem quem quer.

  Por essa razão temos a imagem que temos. Quando há obrigatoriedade, o chicote paira sobre as costas de uma pessoa, e estas fogem.

59- Acha que esta situação pode ter contornos parecidos com a C.D.A.M.?

LA- Eu não vou falar da C.D.A.M.

60- Falo em termos de controlo pelo Estado.

LA- É óbvio, por isso a C.D.A.M. foi declarada inconstitucional e todas as artes marciais passaram para a Tutela, Direcção Geral dos Desportos e depois foi criado o Instituto do Desporto. Uma leitura atenta da lei dá-lhe a resposta a isso.

61- A C.D.A.M. tentou reger, ou dominar, de alguma forma os contornos das artes, quase que se poderia fazer essa comparação em relação ao Aikido.

LA- É você que o diz.

62- Sim, sou eu que o digo.

LA- Pois é.

63- Não lhe parece possível a comparação?

LA- Tudo depende da cabeça de cada um. Eu não faço esse paralelismo.

64- Não sente que agora está do lado contrário, numa posição que nos tempos da C.D.A.M. tanto criticava?

LA- Os princípios da democraticidade, da liberdade, têm que ser respeitados em qualquer instituição. Eu se quiser ir treinar ao seu dojo, vou sem problema algum. Os nossos atletas têm ido fazer estágios convosco, e nunca tiveram qualquer problema, nem nunca lhes disse para não irem. E os vossos estágios, as vossas acções, que são enviados para a Federação, são divulgados por todos os nossos associados. Assim como os de qualquer um. Está na cabeça das pessoas escolher se vão ou não. Já tem acontecido estarem especialistas de uma outra associação cá, mesmo em cima de um estágio nosso, de uma acção nossa. E as pessoas optam.

65- Concorda que ainda hoje subsistem rivalidades entre grupos de Aikido, seja por motivos técnicos, espirituais ou interpessoais, a ponto de nos eventos que uns organizam os outros não participarem, apenas por rivalidade.

LA- Se qualquer associação quiser trazer um professor ou mestre, seu técnico, a pessoa com quem se identificam, a Portugal, e pertencerem à Federação têm toda a legitimidade de pedirem o apoio financeiro à Federação. E essa pessoa vem ou será recebida com honras pela direcção da Federação, será apresentada ao Sr. Presidente do Instituto Nacional do Desporto e ao Sr. Director Geral de Estudos e Formação Desportiva, para que fique registado o nome dele como uma pessoa credível e que vem com o consentimento do Governo Português, passa a contar com mais uma pessoa sempre bem vinda e o estágio será, em princípio, custeado pela Federação e os alunos que não puderem pagar entrarão na mesma, pois há muitos que não podem pagar. O Aikido tem que ser para todos, não pode ser só para aqueles que podem pagar.

66- Acha que se um mestre fosse convidado pela Federação, mesmo não pertencendo ao Aikikai, as pessoas seriam mais facilmente mobilizáveis para um estágio, só pelo facto de ser a Federação a convidar?

LA- Temos o exemplo do Mestre Iwagaki, 7ºdan, belíssimo 7ºdan, não pertence ao Aikikai, não está ligado a nada e no entanto visita alguns países europeus afectos à Aikikai. Já fiz estágios com ele na Bélgica.

67- Mas o mesmo mestre vir independentemente da Federação é um factor absolutamente determinante para a mobilização dos praticantes, como se esta fosse a única a ter legitimidade para dizer o que é bom e o que não é.

LA- Claro! Julgo que sim. Julgo que é uma mais valia para qualquer praticante saber que qualquer especialista vem por indicação da Federação, é garantia de qualidade. No número de praticantes vê-se logo. Num estágio de uma pessoa que não é convidada pela Federação vêem-se 50 ou 60 praticantes no tapete. E para juntar esse número é preciso muito esforço, mesmo organizando com muito tempo de antecedência, fazendo divulgação, com muita preparação. Se vem pela Federação facilmente se ultrapassa a centena de praticantes.

68- Concorda que se o Mestre Saito, Guardião do Santuário do Aiki, da casa e dojo de O’Sensei, viesse a Portugal, sem ser por convite da Federação, esta tinha a obrigação de motivar os praticantes para comparecerem ao estágio, e explicar qual o papel único deste mestre de Aikido?

LA- A Federação não explica, nem tem que explicar. Toda a gente conhece o Mestre Saito. Aliás, num dos nossos boletins já falámos sobre o Mestre Saito, não necessita de apresentação.

69- Eu quero transmitir a ideia de que a Federação tem o poder, entre os seus praticantes, de os condicionar consoante a informação que lhes disponibiliza.

LA- A Federação não tem esse condicionamento. A Federação quando organiza as acções tem o apoio indefectível da Tutela.

70- Mas isso nada tem a ver com Aikido.

LA- Tem, tem. Não quer dizer que a qualidade de Aikido seja maior ou menor, mas na mobilização das pessoas os meios empregues numa determinada acção, tendo as estruturas governamentais por trás e todas elas canalizadas através da federação, tem muito mais impacto em todos os quadrantes de Aikido.

71- Pretendo apenas demonstrar que passando uma determinada informação se pode ter uma enorme influência, principalmente quando está em causa uma grande organização. A Federação tem um papel pedagógico fundamental e, por isso, tem que fazer um trabalho muito mais cuidadoso em relação ao que emana, em nome da credibilidade.

LA- Sim é capaz de ser fundamental.

72- Há pouco falou sobre o Aikido como desporto, pode desenvolver um pouco mais? Este é um conceito pessoal ou é um conceito preconizado pelo Mestre Tamura, e outros mestres, ou pelo Aikikai?

LA- Não é um conceito pessoal, nem é um conceito transmitido pelo Mestre Tamura. Aikido, para mim, é aquele que foi criado de O’Sensei. A interpretação que ele dá do Aikido é que este não é executado como uma arte marcial, porque permite a continuidade do ataque do oponente, ou seja, o atacante é projectado, levanta-se, torna a atacar. Ora, isto não é marcial; se fosse, quando ele caísse pela primeira vez no chão estava morto, partido ou imobilizado. Não poderia atacar uma segunda vez. Este é o conceito de O’Sensei, portanto, o Aikido é praticado desta forma, segundo O’Sensei.

  Se formos aos livros do ensino secundário vemos que há várias definições diferentes sobre o que é o desporto e poucas delas estão correctas, surgem sempre dúvidas, porque se confunde qualquer coisa praticada sobre o plano desportivo com actividade física, o que não é a mesma coisa. Portanto, os ministros da tutela do desporto reuniram-se e definiram finalmente o que era desporto, o que vem na Carta Europeia do Desporto. Aconselho vivamente toda a gente a ler a carta do desporto, para verem a definição de desporto, e para verem que uma arte marcial pode ser praticada sob o plano desportivo, sem adulterar a sua essência. Diz que desporto é toda a actividade física, devidamente planeada, com o objectivo de propiciar a melhoria dos seus desempenhos, quer no aspecto físico, quer no mental e lúdico desde que praticado regularmente. Ou seja, devidamente planeado, com a obtenção de determinados objectivos.

  No Aikido não temos competição, portanto, é praticado dentro de uma prática perfeccionista que tem como objectivo a optimização da nossa técnica e de certo movimento, da nossa condição física, da coordenação do corpo e do espírito, que no fundo será um estudo aprofundado das capacidades físicas básicas do corpo humano.  Seja resistência, força, velocidade, flexibilidade e a coordenação destes quatro. Que, para mim, constitui uma quinta capacidade física básica do ser humano. O Aikido é só isto.

 

73- Se se quiser aprofundar o estudo sobre este conceito do Fundador, que fontes pode aconselhar?

LA- As fontes que eu utilizei são realmente aquilo que os grandes mestres diziam. O Mestre Tamura também diz isso. Só não ouve quem não quer.

  Não vamos mistificar o Aikido. Que é assim, que é religião, que é isto ou aquilo. Não. O Aikido, do ponto de vista científico, não é mais do que o estudo das capacidades físicas básicas do ser humano, conjugadas com os oponentes. Nada mais. Isto é o  Aikido. Não mistificando.

74- Acha importante não mistificar o Aikido?

LA- Acho muito importante, porque a mistificação do Aikido, as elevações espirituais, aquelas grandes tendências para irmos para o superlativo das coisas e para o desconhecido são a camuflagem para os maus técnicos e para um marketing desenfreado, desajustado e desonesto da modalidade. E é por isso que há grupos, grupinhos e grupitos.

75- A mistificação não foi precisamente o aspecto que levou o Aikido a ter a expansão mundial que teve, que faltava nas outras artes?

LA- Não acho. Até porque as outras artes também têm misticismo. Todas elas têm. Há até bem piores que o Aikido. Bem piores.

76- Gostaria de dizer mais alguma coisa?

LA- Gostaria de ver a unificação do Aikido em Portugal. Esse é o meu grande desejo. Fiz um trabalho coadjuvado por bons amigos e colegas. É uma Federação que está aberta a todos. Pago uma licença de ensino, cinco mil escudos, para ensinar no meu clube. Nada mais. O que eu digo é que união faz a força. Todos juntos, podemos ajudar a fortalecer o Aikido, o respeito pelo próximo passa por isso. Mas ninguém deverá bater no peito, somos os melhores, e adulterar seja aquilo que for dos princípios de O’Sensei, quer em graduações, quer em exames, quer em técnica, quer em misticismos. Nos mais variados aspectos.

77- Acha que os princípios de O’Sensei estão alterados?

LA- Estão adulterados. Se todos tivessem na ideia que o primeiro ideograma do Aikido é o Ai – harmonia, paz, união - O’Sensei talvez não pusesse isso, não denominasse esta arte de Aikido por mero acaso, mas porque realmente para ele a base de tudo era essa união. Que os homens, todos eles, com boa vontade, com a capacidade de gerar boa vontade se unissem, independentemente de ideologias, religiões, raças, etc. Mas quando pisassem o tapete tudo acabasse. Se não pisassem o tapete juntos, pelo menos que se unissem do ponto de vista organizativo. Todos teríamos a ganhar com isso. Porque quando batermos à porta do Estado em vez de dizermos somos 1700, diremos que somos 3400 ou 3600, o que seria muito diferente. As verbas da Tutela seriam o dobro, pois é por rácio o valor que nos é atribuído em cada ano.

  Como não temos competição, como tem o Judo, em que a verba para a competição e para a alta competição é diferente, devíamos estar suficientemente atentos para uma unificação do ponto de vista administrativo. Mesmo que cada qual fizesse o Aikido à sua maneira, pois ninguém se mete com eles. Unidos não seríamos um grupinho de 50 aqui, ali outro de 80, acolá outro de 1000. Todos juntos já somaríamos uns 2000.

78- Compensava a falta de competição pelo número de praticantes.

LA- Com certeza, mas as pessoas não vêem isso. As pessoas só perguntam o que é preciso, o que nos dão a nós. Houve uma associação que nos perguntou o que é que a Federação lhes dava, quando eu era presidente – “Peçam.” Pediram-me apoio, 150 tapetes, apoio para fazer estágios até com pessoas que não são da nossa Federação, e tudo isso lhes foi dito que lhes seria concedido e depois, curiosamente, disseram-nos que não podiam entrar, porque tinham um artigo nos estatutos em que seguiam os princípios do seu “Mestre senhor X”. Como esse “mestre” não deixou, eles não entraram. Isto é que é lamentável, um homem pôr o pé em cima de um cento de pessoas. É lamentável, ora aí está.

  Constata-se que existem grupos que estão dentro da nossa Federação há três/quatro meses, a quem têm sido dados tapetes, cursos de formação, graciosamente. Os outros nunca aparecem. Só vem quem quer.

79- Acha então que é por falta de conhecimento que as pessoas não integram a Federação?

LA- Claro. As pessoas são desconfiadas por natureza. Realmente há que ter uma estrutura sólida para termos acesso ao Estado. A estrutura foi criada ao longo destes anos todos, temos a UPD, somos membros fundadores da Confederação dos Desportos de Portugal, membros do Comité Olímpico de Portugal, membros da Federação Europeia de Aikido de categoria 1, da Aikikai Foundation. As estruturas são reconhecidas pelas estruturas supra-federativas do Governo Português. É isto que interessa, portanto, todas estas instituições têm regulamentos e leis que os obrigam realmente a pugnar por uma prática correcta, com qualidade.

80- Acha que o facto do Presidente da Federação ter sido o Luís Antunes tem impedido a unificação do Aikido através da Federação?

LA- Julgo que não. A razão da minha demissão é contrária àquilo que já ouvi dizer – que me tinha aborrecido com a Federação, etc. O que me custa profundamente é que a razão da minha demissão da qualidade de Presidente da Federação foi, tão só, o Sr. Presidente do Instituto Nacional de Desporto, Manuel Brito, não alterar o contrato. Disse-lhe que a verba por ele proposta, ano 2001, sem alterações, não chegava para o apetrechamento de equipamento, tapetes, e para os sócios. Assim não se poderia aumentar o número de atletas, porque todos os centros precisam de tapetes, é óbvio. Ele disse que este ano não havia verba, que teríamos de compreender. Respondi-lhe que não andava aqui desde hoje, e que ele estava ali só há meia dúzia de meses, por isso não acreditava em promessas da administração. Portanto, se a verba não fosse revista eu não assinava o contrato. Deixei-o falar e no fim da reunião disse-lhe, já que ele era tão irredutível, e como eu tinha sido eleito num programa a quatro anos, imposto por lei governamental para coincidir com o ciclo Olímpico, não me dando as verbas necessárias para a prossecução daquilo que me tinha proposto fazer perante os meus associados, não assinava o contrato e que a primeira coisa que eu iria fazer quando chegasse a casa, ainda antes de almoçar, era apresentar a minha carta de demissão ao Presidente da Mesa da Assembleia Geral. Assim fiz. Cheguei a casa e fiz a carta. Isto passou-se no dia 26 de Julho de 2000 no IND.

81- Tirou-lhe um peso de cima?

LA- Tirou, embora me apetecesse dizer algo mais; tive de me conter, até do ponto de vista emocional. Nada há de pior, para mim, que a Tutela não reconheça o papel fundamental que as federações em geral têm na sociedade civil. Ele é uma pessoa realmente difícil, o desporto para ele é visto por ratios. Não tem a sensibilidade que tinham os seus antecessores.

82- E em relação ao Luís Antunes, praticante de Aikido, vai ser melhor agora?

LA- Vai, não tenho preocupações. É assim, preocupo-me sempre com o Aikido, com a união, quanto mais gente melhor, os grupos falarem uns com os outros, diálogo, harmonia. No fundo, o Ai de Aikido, é o que me dá mais prazer ver.

  Contactamos “n” pessoas e não dão resposta,. Temos uns estatutos que são tirados da lei, não somos nós que a fazemos; quando dizemos que todos podem ter a sua autonomia onde mora o diálogo. Não é uma crítica, é um lamento. As pessoas não vêem porque não querem ver; mais, não dão a ver a muitos dos seus praticantes, instrutores e atletas, para que eles não conheçam a verdade. Isto é que dá pena.

83- Parece-me que andam todos preocupados com a verdade ...

LA- É mesmo. A verdade deve sempre começar na família. Todos nós ganhávamos estando coesos, juntos, numa organização forte para quando o ilustre Presidente do IND fosse fazer ratios, dissesse assim – o Aikido cresceu 20%. Isso é que é importante. Porque não somos nós uns contra os outros. Aqueles que se jogam uns contra os outros e se fecham no seu feudo com medo que alguém lho tire, há que pôr o lugar à disposição. Querem vir para cá, venham, filiem-se, tomem conta das Assembleias Gerais, pelos meios democráticos e legais, tomem conta da Federação, façam mais e melhor só que depois teriam os outros como oposição. Esses é que são os meios. Quem não está contente deve dizer – vamos lutar por aquilo que achamos que é certo e vamos fazer isto assim e assim. As coisas devem ser desta forma, pelos meios democráticos, respeitando os princípios da liberdade e da maioria. Não é cada qual ficar no seu cantinho, e aqui quem manda sou eu.

  Todos temos que enxergar um futuro melhor para a nossa modalidade, para o nosso Aikido, porque no fundo todos nós gostamos de Aikido, uns mais do que outros, e se as interpretações do Aikido tiverem de estar juntas, tanto melhor.

84- No fundo todos falam dessa harmonia e união, mas parece que não está a ser suficiente para a sua efectivação.

LA- Não está a ser suficiente, com grande pena minha. Muitas pessoas diziam que a Federação era do Luís Antunes, foi ele que a fez e, como podem verificar, o Luís Antunes demitiu-se do cargo de Presidente da Federação. Fi-lo porque não podia cumprir com os meus associados naquilo que me propus quando fui eleito, e que foi prometido pelo Governo Português.

85- Uma vez ouvi a seguinte afirmação, relativamente à CDAM: “Tudo aquilo em que o Governo se mete, estraga.” Acha que se aplica neste caso?

LA- Se fosse há dois anos atrás não podia dizer isso, mas hoje ...

86- O problema do Governo não passa pelos responsáveis estarem completamente desligados da especificidade das modalidades?

LA- Eles não só estão desligados como não se forçam por entendê-las. Vou dar um exemplo. A Federação fez um acordo bilateral com a Federação Belga de Aikido. Os belgas vieram a Portugal, ao abrigo desse acordo de cooperação entre os dois países, para um estágio que foi dirigido por mim. Vieram dois 6º dan, dois 5º dan, entre outros. Eram quatro pessoas a colaborarem no acordo bilateral. Agora, caber-nos-ia a nós ir à Bélgica a um estágio com o Mestre Iwagaki, ter um curso de alto nível, 5º e 6º dan. Ora o Governo Português entendeu alterar as regras do jogo.

  No acordo bilateral, as passagens de avião das pessoas que visitam o país homólogo são custeadas pelo governo de origem dessas pessoas. Mal pousam em Portugal as despesas estão a cargo do Governo Português, através da respectiva Federação. As despesas são apresentadas no Centro de Formação Desportiva e depois a Federação é reembolsada. Todos os anos tem sido assim. Mas o Governo Português, com a desculpa de não haver dinheiro, escreveu-nos uma carta para a Federação dizendo que só podia custear 70% das passagens dos nossos atletas. Ou seja, na altura em que somos nós que vamos ganhar em técnica e conhecimentos, numa iniciativa de elevado recorte técnico, eles, fora do prazo, não avisam o Governo Belga e escrevem-nos uma carta dando conta dessa alteração. Ou davam tudo ou não davam nada, porque o acordo foi assim feito.

  No fim disto eu disse não. Já sabiam que o Presidente era o Luís Antunes e eu não aceito coisas destas. Há que salientar que só nos enviaram um ofício depois do prazo ter passado, e dos belgas terem posto uma cruz nos atletas portugueses. É lamentável que o Governo tenha procedido assim ... Passei uma vergonha enorme.

87- Mas neste caso a ligação ao Governo é necessária.

LA- Ah sim, mas é preciso sensibilizá-los.

88- Muito obrigado.  

Entrevista realizada em 31 de Outubro de 2000

Pedro Escudeiro

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