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1ºEstágio
em Portugal de Nobuyoshi Tamura Sensei, 1982, dojo dos
Bombeiros Voluntários do Estoril. Pode-se ver, na fila de cima, da
direita
para a esquerda: Francisco Garção - 2º, Gerard Obellianne - 5º(aluno
de
Tamura Sensei em França), Mestre Tamura - 6º, Artur Lopes - 11º,
Luís
Salgado - 12º, Luís Antunes - 13º, Paulo Silva 21º
Fila de baixo, da direita para a esquerda: Eduardo Luís - 2º, M. Barck
(na
altura, Director Técnico da Federação Marroquina de Aikido) - 3º,
Francisco
Leotte Tavares - 10º, Pedro Leite - 12º.
1- Pode-nos dizer o seu nome, idade e graduação?
Luís Antunes- O meu nome é
Luís Antunes, 47 anos, 6ºdan Aikikai, através da Federação
Portuguesa de Aikido.
2- Quando começou a praticar Aikido?
LA- Em 1 de Agosto de 1970.
3- Onde iniciou a sua prática?
LA- Comecei num estágio em
França, com Hirokazu Kobayashi.
4- Foi a primeira vez que teve
contacto com o Aikido?
LA- Sim, foi. Mais tarde,
tive também contacto com Misao Honda, enviado para Portugal pelo Mestre
Kobayashi para divulgação da modalidade.
5- Portanto, quando começou a
praticar efectivamente Aikido, foi em Portugal com o Sr. Honda?
LA- Não. A primeira vez que
pratiquei foi com o Mestre Hirokazu Kobayashi no estágio em França,
Castel-Jaloux.; depois estive com ele novamente em Novembro ou Dezembro
do mesmo ano. Na altura era praticante de Karate.
Quando vi o Mestre Kobayashi pela primeira vez ia fazer um
estágio de Karate, mas não cheguei a fazê-lo, fiz antes o de Aikido,
pois surpreendeu-me a velocidade com que o Mestre Hirokazu Kobayashi se
deslocava em suwariwaza. Fiquei maravilhado.
6- Quem eram as outras pessoas
que treinavam nessa época e que ainda estejam em actividade?
LA- Se a memória não me
falha, o Prof. Leopoldo Ferreira, o José Araújo, isto relativamente
às pessoas que pertenciam ao grupo que teve contacto com Misao Honda da
primeira vez que cá veio. Infelizmente, o Sr. Honda esteve cá uns
escassos meses e foi-se embora, deixando-nos um tanto ou quanto a
treinar sozinhos e desamparados. O que nos valia eram os estágios que
íamos fazendo durante o ano, quando o Mestre Kobayashi vinha do Japão
a França.
7- O Mestre Kobayashi não
estava radicado na Europa, então?
LA- Não, não estava. O
Mestre Kobayashi poucas vezes veio cá fazer estágios, pouquíssimas
vezes. Entre 1970 e 1974/75, ele deveria ter vindo no máximo umas cinco
vezes.
8- Quando vinha fazer uma
espécie de circuito?
LA- Sim, sim. Fazia muito
Ibiza, Castel-Jaloux, todo o sul de França, entre outros países.
Aproveitávamos este circuito dele para nos deslocarmos aos locais mais
próximos onde ele ia.
9- Quem estabelecia os contactos
para ele vir cá?
LA- Os iniciais foram feitos
pelo saudoso Dr. Correia Pereira, o muito ilustre fundador da Academia
Portuguesa de Budo e mais tarde União Portuguesa de Budo,
que
formava um grupo de pessoas de boa vontade. E era através dele, que
custeava tudo até onde fosse possível para a implantação de mais uma
modalidade em Portugal. Em boa verdade se deve dizer e deixar os
agradecimentos à União Portuguesa de Budo, nas pessoas dos seus
fundadores, sem menosprezar os actuais dirigentes. De facto, aquela foi
uma época difícil, não esquecer que estamos a falar da década de
cinquenta. Esse grupo incluía também o Dr. Pires Martins, o Coronel
(creio!) Sebastião Durão e, acima de todos, o Dr. Correia Pereira, que
foi o mais activo e empenhado, e também aquele que vivia mais
intensamente qualquer modalidade de combate.
10- Qual era o panorama do
Aikido nessa época? Já existiam vários grupos formados?
LA- Eu nunca me preocupei com
os grupos de Aikido, sempre tive presente as palavras do Fundador do
Aikido, em que o Aikido é uno.
11- Mas já havia grupos mais
ligados a um ou a outro mestre?
LA- Francamente, não sei
bem. A primeira vez que eu vi Aikido aqui em Portugal foi com um senhor
chamado Daniel Laurent que estava cá de passagem, de férias, e que
mostrou o que era o Aikido, na Academia Portuguesa de Budo. Não era uma
pessoa com uma graduação elevada, 2ºkyu, contudo, deu para ver o que
era o Aikido, que era uma modalidade muito diferente, com princípios
absolutamente opostos aos que habitualmente preconizávamos nas artes
marciais que imperavam na altura, como o Karate.
12- Não tinha então grande
noção de que já houvessem grupos formados, independentes?
LA- Sim, nessa altura não
tinha mesmo. Mais tarde apareceu o Honda, enviado pelo Mestre Kobayashi,
a seguir o George Stobbaerts, mais ou menos em simultâneo, não sei bem
quem chegou primeiro. Também nunca me apoquentei, porque realmente o
que me interessava era fazer um Aikido o mais próximo possível do
Fundador, que era o do Aikikai. Como o Sr. Honda era Aikikai, foi só
por isso que pratiquei com ele, sob a orientação do Mestre Kobayashi.
13- Chegou a fazer avaliações
com o Sr. Honda? Como era na altura o sistema de graduações?
LA- Bom, na altura, o sistema
de graduações, se bem me lembro, era composto por nove kyus e para
tudo se fazia exame, o que não correspondia às graduações da Aikikai.
A partir daí eu seguia as graduações feitas e dadas pelo Mestre
Kobayashi. Constata-se que quanto mais graduações há, mais exames
têm que se fazer, mais as instituições cobram para as fazerem e,
portanto, as cargas horárias não correspondiam minimamente às
exigidas pelo Aikikai. Para mim tudo quanto saísse da escola do
Fundador não tinha a minha melhor aceitação. Como não teve.
14- Já tinha então a noção
de que havia uma grande organização a nível mundial, de Aikido?
LA- Sim, sempre tive, porque
tive a sorte de a conhecer através de um 8ºdan, embora fosse um miúdo
de 14/15 anos na altura, tive sempre essa noção.
15- O Mestre Kobayashi tinha
sido enviado pelo Aikikai?
LA- Ele era responsável pelo
Aikikai de Osaka e fazia muitos, muitos, estágios pela Europa e
portanto com o conhecimento e supervisionamento do Aikikai de Tóquio.
16- Já havia outros mestres a
ensinar Aikido na Europa pelo Aikikai?
LA- Sim. Havia vários
mestres japoneses.
17- Como era, nesse caso, a
relação entre eles e o Mestre Kobayashi?

Tamura
Sensei, Estoril, 1982, executando Swariwaza Kokyu-Ho com
Luís Antunes
LA- O Mestre Kobayashi sempre obedeceu. E lembro-me que quando era
aluno dele, que fui até 1979/80, já era o Mestre Tamura o Delegado
Europeu do Aikikai. Contudo, antes dele foi Tadashi Abe. E lembro-me
perfeitamente que apesar da graduação do Mestre Kobayashi ser superior
à de Tadashi Abe, julgo que fosse 6ºdan, ele seguia as directrizes
emanadas pelo Delegado Europeu do Aikikai de Tóquio.
Depois, mais tarde, na década de sessenta, veio o Mestre Tamura,
com o cargo de Delegado Europeu, emanado do Hombu Dojo, e que se mantém
até hoje.
18- A C.D.A.M. era o organismo
que tentava controlar as artes marciais em Portugal. Como era exercido
esse controlo?
LA- Essa pergunta devia fazer
ao Comandante José Fiadeiro, que foi o ilustre presidente da C.D.A.M.
Ele seria peça preponderante para entrevistar, porque melhor que
ninguém pode explicar como pretendia controlar. A sua pergunta foi
muito bem colocada, porque referiu como ele pretendia controlar.
19- Como sentiam os praticantes
esse controlo?
LA- Só falo por mim. Deus
Nosso Senhor deu-me uma cabeça, penso com ela, não penso com a cabeça
de ninguém, seja de quem for, sigo a minha consciência, faço o melhor
que posso.

Tamura
Sensei, Estoril, 1982, executando Swariwaza Kokyu-Ho com
Luís Antunes
20- Mas o sentimento
desconfortável desta tentativa de controlo era generalizada?
LA- Para mim não se torna
incómodo, porque nada fiz de mal, nunca se tornou incómodo, tenho
muito boas relações com ele, ainda hoje, o vejo com alguma frequência
na Confederação do Desporto de Portugal. Ele era uma pessoa
interessada no desporto, mudou para a canoagem, pelo que sei. Toda a
gente conhece o Comandante Fiadeiro.
21- Chegou a criar-se, dentro da
C.D.A.M, um Conselho Técnico de Aikido. Quais eram os seus objectivos?
LA- Faço minhas as palavras
anteriores, será bom perguntar às pessoas que participaram nisso, que
tinham os cargos, porque eu não fiz parte desse Conselho, embora o
Comandante Fiadeiro me tivesse convidado, mas quando a maioria pertence
a um só lado, acho que não estão reunidos os princípios
democráticos e de liberdade de expressão para tal integração. E como
servir de fantoche nunca foi o meu lema, declinei o convite.
22- Sentia que havia uma
tentativa de juntar as pessoas?
LA- Em meu ver, deveria haver
um, dois ou três representantes, aqueles que fossem, de cada grupo e na
devida proporcionalidade atendendo ao número de atletas de cada grupo.
23- A forma como esse Conselho
foi eleito, não estava, à partida, correcta?
LA- Sim, sim. Não sei bem
como foi, não me preocupo muito com isso. O que interessa é fazer o
melhor que sei, procurar uma prática perfeccionista, o mais próximo
possível do saudoso Fundador Morihei Ueshiba, que foi o que fiz durante
toda a minha vida.
24- A C.D.A.M. organizou uma
série de treinos, chegou a participar neles?
LA- Sim. Entrei em um ou
dois, no máximo. Num gesto de boa vontade, acreditando que poderia
haver uma unificação do Aikido; quando me apercebi que não era assim,
que não era esse o objecto, nem o fundamento de tais encontros, entendi
em boa consciência nunca mais participar.
25- Acha que o que podia estar
na base destas divergências entre os vários grupos seriam questões
técnicas, ou já haveriam concepções em termos da arte bem distintas?

Tamura
Sensei, Estoril, 1982, executando Swariwaza Kokyu-Ho com
Luís Antunes
LA- Nunca me debrucei sobre
isso. A minha ideia é que, como já disse há pouco, o Aikido deve ser
Uno. O’Sensei Morihei Ueshiba disse que o Aikido não tinha estilos,
tem métodos e interpretações de trabalho. Tem trabalhos diferentes.
Portanto, um shihonage feito por mim será certamente um shihonage feito
por outro instrutor, professor ou mestre, dependendo do nível, da
fisionomia e do espírito que ele tem na sua execução. Eu tenho a
minha maneira de interpretar que é pessoal, tal como o Pedro Escudeiro
terá a sua. Portanto, tudo depende da cabeça de cada um, da
mentalidade de cada um. Eu sempre fiz o meu trabalho conforme o aprendi.
Uma coisa é certa, eu sempre trabalhei com japoneses, dos quais
saliento dois, Hirokazu Kobayashi e Mestre Tamura; o primeiro deu-me a
conhecer o Aikido, o segundo ensina-me o “Caminho”.
26- Acha esse dado importante?
LA- Acho, acho. Porque se
segue uma metodologia com continuidade e são pessoas acima de qualquer
suspeita. Melhor do que eles certamente não encontramos, porque
partilharam de perto as metamorfoses que ao longo dos anos O’Sensei
foi introduzindo no Aikido. Desde o Aiki Taijutsu até ao superlativo da
modalidade, do Do, do Caminho, da elevação da arte marcial. Porque o
Aikido de O’Sensei é mesmo no superlativo. Aqueles que mais perto
estiveram com ele, como o Mestre Tamura, Mestre Kobayashi, Mestre Saito,
e tantos outros, merecem realmente um lugar de respeito de todos nós,
praticantes, que estamos a absorver sempre técnica em terceira ou
quarta mão. A fonte que estiver mais próxima de “O Sensei” é
sempre a fonte mais pura. Daí eu não querer mudar nunca de
professores. Aliás, mudei do Mestre Kobayashi para o Mestre Tamura a
conselho do próprio Mestre Kobayashi, porque não podia vir aqui a
Portugal. Deu-se o 25 de Abril, os dojos eram escassos e as visitas a
Portugal ficavam cada vez mais caras, a crise económica instalara-se;
em vez dos grupos se unificarem e tirarem todos partido disso,
desuniam-se e cada qual chamava-o para o seu lado e isso levou a que o
Mestre Kobayashi não quisesse aceitar os convites para vir a Portugal.
27- Quando e como surgiu a
ligação ao Mestre Tamura?

Tamura
Sensei, Estoril, 1982, executando Swariwaza Kokyu-Ho com
Luís Antunes
LA- Fui apresentado pelo
Mestre Kobayashi ao Mestre Tamura através de uma carta de
recomendação. Mas eu não podia ser aceite como aluno directo dele
quando o Mestre Kobayashi me propôs, devido a não pertencer à
Federação Europeia de Aikido, que já existia nessa altura. O seu
Director Técnico era o Mestre Tamura. Portanto, teve de haver um dojo
que se filiasse à Federação Europeia, pois esta era uma instituição
de pessoas colectivas. No fim de realizar todo o processo é que eu pude
passar a ser aluno do Mestre Tamura, tendo recebido uma carta, que tenho
todo o prazer em mostrar, admitindo-me como aluno directo dele. O dojo
foi o Grupo Nacional de Estatística, e o processo iniciou-se em 1980.
28- Pode-nos falar um pouco do
Mestre Tamura, como homem?
LA- Do Mestre Tamura só
tenho a dizer bem, não tenho qualquer queixa, é uma pessoa que quando
vem a Portugal, ou a qualquer parte do mundo é para bem do Aikido e faz
estágios graciosos, se houver dinheiro paga-se, se não houver não se
paga. Sempre dormiu em minha casa, nunca quis ir para hotéis, e numa
fase atribulada da minha vida, em que eu nem tinha cama para dormir,
disse-me: - Luís, não há problema, um homem do Budo dorme no chão.
Assim foi, dormiu no chão; antes de se ir embora deixou-me o
frigorífico cheio de alimentos.
É um Mestre acima de tudo, as revistas chamam-lhe o Mestre do
Coração, é uma pessoa que tenta sempre apaziguar as vozes mais
exaltadas que por vezes se levantam contra coisas, grupos, e demais
adversidades que se lhes deparam.
É uma pessoa que promove a contenção e que reflecte nisso o
bom espírito do Aikido e a vontade de O’Sensei. Existe uma coisa que
é de primordial importância, o desejo dele é fazer cumprir o desejo
de O’Sensei, que o Aikido seja uma família grande, uma família
verdadeira com um sentimento grande e que possamos praticar sem ferir
susceptibilidades e não estar a ver quem é o melhor.
O desejo de O’Sensei é que o Aikido resplandecesse no mundo
como o sol. Estas são as palavras de O’Sensei, são as palavras que o
Mestre Tamura sempre referiu, ao longo de mais de vinte anos como meu
professor. Portanto, é dentro deste quadro que eu pretendo sempre fazer
Aikido. Faço o melhor que sei, dou aquilo que recebo dele a quem
quiser. O Mestre Tamura é assim. Não interessa fazer um nikyo
ou um shihonage para atirar o outro ao chão, a minha ideia não é
projectá-lo ao chão, é evidente que ele irá ao chão na
consequência da minha técnica. Essa é a parte que eu preconizo, sem
aleijar o adversário, o ataque no Aikido deve ter reconciliação
pacífica na resposta.
29- Sentiu diferenças técnicas
entre o Mestre Kobayashi e o Mestre Tamura?

Tamura
Sensei, Estoril, 1982, executando Swariwaza Kokyu-Ho com
Luís Antunes
LA- O Mestre Kobayashi era
uma pessoa muito mais possante do que o Mestre Tamura, do ponto de vista
físico, mas do ponto de vista de vista da transmissão técnica o
Mestre Tamura é sem dúvida nenhuma superior, dá mais explicações;
outro factor importante é a semântica. H. Kobayashi só falava
japonês, o que diminui muito a capacidade de transmitir.
Os princípios são os mesmos, ken, jo, tanto,
tudo estava lá, no Mestre Tamura, só que a fisionomia dos dois, um por
ser extremamente magro, o outro por ser uma pessoa possante e cheia de
vigor, levava-os a terem execuções absolutamente diferentes. Contudo,
todos os princípios estavam contemplados.
30- Quando se pode dizer então
que o Aikikai, como organização em Portugal, surgiu? Foi com os dojo
que se inscreveu na Federação Europeia de Aikido?
LA- Não. Veja-se que quando
o Aikido entra em Portugal é Aikikai, através da Academia de Budo.
31-
Mas a primeira escola só de Aikido Aikikai, quando surgiu?
LA- Específica de Aikido foi
em 1980, com o Grupo Desportivo do Instituto Nacional de Estatística.
Aí sim, era só Aikido e tínhamos vínculo à Aikikai. Este era o dojo
autorizado, através de um certificado endossado, para ensinar o Aikido
segundo as regras e princípios do saudoso Fundador Morihei Ueshiba.

Estágio
de Tamura Sensei, Outubro de 2001, Estádio Universitário.
Prof. Luís Antunes e Bruno de Jesus. Pode-se ver à esquerda, Tamura
Sensei e
Prof. Artur Lopes.
32-
Mais tarde criou-se a Associação Desportiva Aikikai de Portugal?
LA- Atenção que o grupo
Nacional de Estatística era um associado da União Portuguesa de Budo.
Esta tinha uma organização em que as pessoas eram as mesmas da
Academia de Budo e as modalidades estavam divididas por secções, a do
Karate, do Judo, do Aikido, etc.
Em 1982/3 entendemos fundar uma associação específica para o
Aikido. Digamos que o Aikido não podia mais andar arrolado ao Judo ou a
outras artes marciais, queria ter o seu próprio estatuto de arte
marcial, embora praticado sempre no plano desportivo.
Eu digo - sempre no plano desportivo - porque O’Sensei dizia
que o Aikido, da maneira que se praticava, quer em demonstrações, quer
no dojo, permitia que o atacante se levantasse e tornasse a atacar. Isto
não é marcial, portanto, há que ver qual é a definição de desporto
e dizer que é uma arte marcial aplicada sob o plano desportivo, porque
não causa ferimentos, nem qualquer dano físico aos oponentes.
33-
Quem liderou o grupo que criou essa Associação? Foi o Professor?
LA- Não era o Luís Antunes,
eu sempre tive um papel de técnico. Quem liderou esse processo foi o
Dr. José Manuel Guimarães de Magalhães, que era então o Presidente
desse tal Grupo Desportivo do Instituto Nacional de Estatística, “GDINE”.
34-
Quando é formada a Associação?
LA- O Grupo Desportivo,
enquanto clube, nunca poderia ascender a mais do que a terceira
categoria da Federação Europeia de Aikido. Deu-se então o passo
seguinte, organizamo-nos de uma forma mais estrutural e assim
permitiu-nos, com a especificidade somente do Aikido, ter acesso à
categoria dois da Federação Europeia de Aikido. Mais tarde, com a
formação da Federação, passámos para a primeira categoria.
Na Federação Europeia existem três escalões. Os clubes ficam
na terceira categoria, as associações pertencem à segunda e as
federações à terceira. Se houver uma qualquer federação,
associação ou clube desse país, só poderá entrar para dentro da
Federação Europeia de Aikido se pertencer à federação desse país
já filiada.
35- A partir do momento em que
se forma a Federação Portuguesa de Aikido, ela passou a ter dois
papeis diferentes. Um, do ponto de vista técnico, com vínculo
específico aos mestres ligados ao Hombu Dojo de Tóquio, Aikikai. E um
segundo, mais abrangente, proveniente do Estatuto de Utilidade Pública,
em que tenta aglomerar o maior número possível de associações e
clubes portugueses, sem olhar ao critério técnico, apenas com um
vínculo administrativo.
LA- Sim. A seguir à
criação da Federação iniciou-se um outro processo, que culminou em
1993, com a ascensão da Federação Portuguesa de Aikido à categoria
um da Federação Europeia de Aikido, com o reconhecimento do Governo em
exclusividade, bem como do Comité Olímpico de Portugal e da
Confederação do Desporto de Portugal.
36- Na altura em que esta
Federação foi criada, já existia a Federação Portuguesa de Aikido e
Disciplinas Associadas?
LA- Não, julgo que não. Se
a memória não me falha ela foi fundada mais tarde, creio que por volta
de 1995/96. Essa Federação não é uma Federação Desportiva, pois
só é Federação Desportiva a que tiver a Utilidade Pública
Desportiva, portanto, chama-se Federação como se poderia adoptar outra
designação qualquer. Federação só existe uma, a que tem este
estatuto a “UPD”. A outra é uma Associação que se chama
Federação.
37- Qual é o estado actual da
Federação? Quais são as suas iniciativas para desenvolver a arte em
Portugal?

Tamura
Sensei, Portugal, Out. 2001
LA- Como sabe, já não sou o
Presidente da Federação e, por isso, não me quero estar a aprofundar
muito em assuntos relativos à Federação, a entrevista que me faz é
para comigo, não com a Federação. Mas enquanto fui Presidente
assentava no apetrechamento e apoio técnico, através de acções
denominadas apoios técnicos, de encontros técnicos, e depois de
acções de formação, sendo estas últimas compostas por três
níveis, Monitores, Instrutores e Professores de Aikido. Aprovado em
reunião pelos ministros da Tutela do Desporto, da União Europeia, em
1992, os cursos, as cargas horárias, são realizados segundo os
parâmetros comunitários. Só depois dos conteúdos dos cursos serem
aprovados é que era “imposto” pela Tutela dar prossecução à
formação dos agentes de ensino.
38- Costuma realizar
demonstrações?
LA- Desde 1985 que não faço
demonstrações.
39- Mas há alguma razão para
isso?
LA- Não. Nada tenho contra
elas.
40- Não é por motivos
estratégicos que as não faz?
LA- Não. Aliás,
rarissimamente a Federação faz uma demonstração. Só se for a pedido
superior ou de algum associado.
41- A Associação Amizade
Portugal Japão, tem uma iniciativa anual, de há uns anos a esta parte,
de apresentar um Festival de Artes Marciais Japonesas. Não é um pouco
anormal que logo a Federação reconhecida pelo Governo Português não
esteja presente?
LA- Não há nada a dizer
sobre isso. As demonstrações não devem constituir marketing. É um
ponto de vista meramente pessoal. Por isso eu não as faço. Portanto,
venham elas de onde vierem, de municípios, das colectividades, todos
gostam de fazer demonstrações e os nossos associados têm liberdade
para as fazerem, à luz dos estatutos, se assim quiserem.
42- Mas quando os líderes não
as fazem ...
LA- Mas os instrutores de
cada dojo têm autonomia para as fazerem, está nos regulamentos e todas
as pessoas ligadas à parte técnica têm um dojo, como eu. Quanto a
mim, não me lembro de fazer uma demonstração há 15 anos.
43- Não acha que seria melhor
para divulgar a arte?
LA- Se hoje, 31 Outubro de
2000, se quisesse inscrever no Clube Atlético de Alvalade dir-lhe-iam
que teria de entrar para uma lista de espera. E não faço
demonstrações.
Não acho que passe por aí a divulgação da arte, se um
professor tem para ensinar, o seu dojo está sempre cheio, se é um mau
professor terá que puxar pela imaginação para ter alunos.
44- A Federação Portuguesa de
Aikido deixou de ter apenas ligação técnica com o Mestre Tamura,
convidando para virem a Portugal vários outros mestres. Apesar disso o
Mestre Tamura continua a ser o mestre de referência?
LA- O Mestre Tamura continua
a ser a referência, sem dúvida. Continuo a ser aluno directo dele,
continuo a fazer estágios com ele, de preferência os de alto nível.
Em França. Da participação nestes estágios há um aperfeiçoamento
técnico, e não há dúvida nenhuma que resulta na evolução. Como é
evidente, quando chego a Portugal transmito aquilo que aprendo. São
cerca de dez/doze dias de uma comunhão muito próxima com o Mestre, no
mais rigoroso espírito Aiki e onde estão as melhores graduações da
Europa.
45- Como é feita a rotatividade
dos vários mestres pelos diversos países europeus? Há um organismo
central que os vai distribuindo, ou são os próprios países que fazem
os convites?
LA- Falo só pelo nosso
país, e até eu me ter demitido de Presidente, foi sempre a Federação
que fez o convite aos mestres que entendeu como mais convenientes.
46- Obviamente eles auferem
honorários, existe algum critério que esteja generalizado?
LA- Não, julgo que não.
Nós podemos pedir ao Aikikai, mas vai aumentar muito as despesas na
medida em que, para se trazer alguém do Japão, tem que se pagar o
avião a partir de Tóquio. Aquilo que nós fazemos, através dos
acordos bilaterais de países que promovem o Aikido severo segundo o
nosso mesmo esquema de trabalho, é aproveitar para partilhar o bilhete
total de certo e determinado especialista.
47- Da parte da Federação
Portuguesa de Aikido, quem são as referências técnicas, os
professores principais?
LA- Nacionais?
48- Sim.
LA- É uma pergunta que eu
não posso de forma nenhuma responder com exactidão, porque cada
cabeça terá a sua referência.
49- Mas há alguns professores
que se destacam nem que seja pelas suas graduações?
LA- A graduação não tem
muito a ver, porque se vê com frequência graduações que ficam aquém
de outras menores.
As graduações, dizia O’Sensei, são um mal necessário,
situam os conscientes para terem a noção do nível em que estão,
comparando-se com os demais que estão à roda deles.
50- Para além do Aikikai, a
Federação Portuguesa de Aikido não integra mais nenhuma escola?
LA- Dizer Aikikai significa
“casa de fazer aiki”, ligada ao Hombu Dojo. Portanto, há
várias no país. E o que eu digo é que a Federação Portuguesa de
Aikido foi criada de forma a que toda a gente coubesse. Esse é um facto
inegável, desde o primeiro instante em que foi criada. O regulamento
técnico é bem claro, todos os associados na condição de associação
têm autonomia própria, portanto, pode estar pura e simplesmente ligada
à Federação por um vínculo administrativo e não técnico. A nós
não nos interessa controlar ninguém. Essa é a unificação do Aikido,
do ponto de vista administrativo, para que a modalidade Aikido em vez de
contar com 1800 praticantes possa contar com 3600, a nível do Estado.
51- Acha que essa mensagem
passou para as outras escolas?
LA- Não sei, não sei. Não
faço ideia. O tempo se encarregará disso. Realmente julgo que é
importante que as pessoas façam as inscrições através da
Federação, embora tenham a sua interpretação muito própria de
Aikido.
52- Mas existe ou não alguma
escola integrada na Federação apenas pelo vínculo administrativo?
LA- Sim, existe.
53- A Federação está conotada
obviamente com a organização mundial Aikikai ...
LA- Aikikai, Federação
Europeia, Comité Olímpico, Confederação do Desporto de Portugal.
54- ...exacto...
LA- Através de estruturas
supra-federativas nacionais e internacionais. Quem quiser graduações
Aikikai paga-as directamente a esta no final da avaliação/exame.
55- Eu não estou a falar de
graduações, mas de movimento associativo em Portugal. Uma Federação
tem, à partida, como objectivo, a integração do maior número
possível de escolas, associações, independentemente do carácter
técnico de cada uma. E a minha pergunta é: há alguma escola não
pertencendo ao sistema técnico do Aikikai que se tenha integrado na
Federação? E se acha que estas outras escolas se revêem na
Federação?

Prof.
Luís Antunes e Pedro Escudeiro, Estágio de Tamura Sensei,
Out. 2001, Portugal
LA- Eu não sei, francamente
não sei. Os que têm vindo para dentro da Federação, que não vou
enumerar agora porque não sei de cabeça, todos se têm dado bem.
Entraram, fizeram cursos de formação graciosamente, a custo zero, têm
tapetes a custo zero, o que constitui uma fatia significativa do
orçamento da Federação, porque cada tapete é muito caro. A
Federação tem dado tudo isso, muito.
Os grupos e as associações de Aikido, de ideologias diferentes
ou que seguem outros professores, ao entrarem para a Federação, não
têm que deixar os seus professores ou os seus ensinamentos. Nada disso.
Cada um que siga os seus, porque então é inevitável a saída, mais
tarde ou mais cedo, porque sem dúvida o clima de liberdade e de
democracia para a plena assunção do desejo de O’Sensei, que é
realmente o Aikido resplandecer sobre a terra como o sol, como o
próprio dizia, não pode existir. As únicas imposições que nós
vamos fazer são as da lei, e isso quer estejam dentro ou fora da
Federação também têm que as cumprir. Vou dar um mero exemplo - o
seguro desportivo. Para o ter é necessário ter uma inscrição na
Federação, porque é indissociável, o seguro desportivo faz-se no
preciso momento da anuidade na Federação. Quando a pessoa se federa. E
a anuidade é indissociável também do seguro desportivo, mas para que
isto tenha valor é necessário que haja um exame médico de robustez
física, de um médico ou da Federação, ou do Centro de Medicina
Desportiva, dizendo que o senhor x, y ou z está apto à prática da
modalidade, tem robustez física. Muitas vezes os centros de prática
fazem os seguros e não pedem os exames médicos, ora, isso é um dever
que eles têm. Este é um mero exemplo que estou a dar.
São ilegalidades que com frequência acontecem e que, ao longo
destes anos, custou muito a habituar os clubes a pedirem e a não
deixarem praticar pessoas sem seguro desportivo ou exame médico. Mas
isto é lei. Desde 13 de Janeiro de 1990 que existe lei base do sistema
desportivo.
56- Acha que a Federação tem
um papel de prevenção, sensibilizando, relativamente a este
desconhecimento da lei?
LA- A Federação adverte,
envia uma circular a todos os dojo, e estes é que devem guardar os
seguros lá, a responsabilidade, se os pedem ou não, é deles.
Essa circular chama a atenção para um eventual acidente, e
aproveito para dizer que desde que temos a Utilidade Pública Desportiva
não tivemos uma única participação ao seguro, o que mostra a
qualidade dos agentes de ensino.
57- Antigamente registavam-se
mais acidentes?
LA- Não sei, nunca tive
nenhum.
58- Os clubes estarão mais
cuidadosos?
LA- Realmente, com a
proliferação de clubes com fins lucrativos, tendo todo o interesse em
ter associados, pessoas que paguem as mensalidades para o custeamento
das despesas e para obter lucro, têm que ter cuidado. Porém, inúmeras
vezes descuidam a parte legal e não tendo a Federação um papel de
polícia, tem um papel de advertência e de dar sempre a saber o que se
passa, a nível de cada dojo. Agora, outra das coisas que me parece de
grande importância é o papel do agente de ensino. Ora, todo o agente
de ensino do Decreto Lei 350 e 351/1991, de 19.09, se a memória não me
falha, tem direitos e deveres. Tendo deveres, terá de os cumprir, quer
seja da Federação Portuguesa de Aikido, quer seja de outra qualquer
associação ou federação. É obrigatório que os cumpra.
Há pessoas que são mais permissivas do que outras e não fazem
cumprir a lei, e essas pessoas nunca se sentirão bem dentro da
Federação, pois têm que cumprir uma parte administrativa. Ora isso, e
para responder à sua pergunta que não é por vezes a divergência
técnica que separa as escolas, mas a obrigação legal vertida na lei,
que é impeditiva das pessoas virem para a Federação. Ninguém impõe
nada a ninguém. É bom que se saiba isto, só tem quem quer.
Por essa razão temos a imagem que temos. Quando há
obrigatoriedade, o chicote paira sobre as costas de uma pessoa, e estas
fogem.
59- Acha que esta situação
pode ter contornos parecidos com a C.D.A.M.?
LA- Eu não vou falar da
C.D.A.M.
60- Falo em termos de controlo
pelo Estado.
LA- É óbvio, por isso a
C.D.A.M. foi declarada inconstitucional e todas as artes marciais
passaram para a Tutela, Direcção Geral dos Desportos e depois foi
criado o Instituto do Desporto. Uma leitura atenta da lei dá-lhe a
resposta a isso.
61- A C.D.A.M. tentou reger, ou
dominar, de alguma forma os contornos das artes, quase que se poderia
fazer essa comparação em relação ao Aikido.
LA- É você que o diz.
62- Sim, sou eu que o digo.
LA- Pois é.
63- Não lhe parece possível a
comparação?
LA- Tudo depende da cabeça
de cada um. Eu não faço esse paralelismo.
64- Não sente que agora está
do lado contrário, numa posição que nos tempos da C.D.A.M. tanto
criticava?
LA- Os princípios da
democraticidade, da liberdade, têm que ser respeitados em qualquer
instituição. Eu se quiser ir treinar ao seu dojo, vou sem problema
algum. Os nossos atletas têm ido fazer estágios convosco, e nunca
tiveram qualquer problema, nem nunca lhes disse para não irem. E os
vossos estágios, as vossas acções, que são enviados para a
Federação, são divulgados por todos os nossos associados. Assim como
os de qualquer um. Está na cabeça das pessoas escolher se vão ou
não. Já tem acontecido estarem especialistas de uma outra associação
cá, mesmo em cima de um estágio nosso, de uma acção nossa. E as
pessoas optam.
65- Concorda que ainda hoje
subsistem rivalidades entre grupos de Aikido, seja por motivos
técnicos, espirituais ou interpessoais, a ponto de nos eventos que uns
organizam os outros não participarem, apenas por rivalidade.
LA- Se qualquer associação
quiser trazer um professor ou mestre, seu técnico, a pessoa com quem se
identificam, a Portugal, e pertencerem à Federação têm toda a
legitimidade de pedirem o apoio financeiro à Federação. E essa pessoa
vem ou será recebida com honras pela direcção da Federação, será
apresentada ao Sr. Presidente do Instituto Nacional do Desporto e ao Sr.
Director Geral de Estudos e Formação Desportiva, para que fique
registado o nome dele como uma pessoa credível e que vem com o
consentimento do Governo Português, passa a contar com mais uma pessoa
sempre bem vinda e o estágio será, em princípio, custeado pela
Federação e os alunos que não puderem pagar entrarão na mesma, pois
há muitos que não podem pagar. O Aikido tem que ser para todos, não
pode ser só para aqueles que podem pagar.
66- Acha que se um mestre fosse
convidado pela Federação, mesmo não pertencendo ao Aikikai, as
pessoas seriam mais facilmente mobilizáveis para um estágio, só pelo
facto de ser a Federação a convidar?
LA- Temos o exemplo do Mestre
Iwagaki, 7ºdan, belíssimo 7ºdan, não pertence ao Aikikai, não está
ligado a nada e no entanto visita alguns países europeus afectos à
Aikikai. Já fiz estágios com ele na Bélgica.
67- Mas o mesmo mestre vir
independentemente da Federação é um factor absolutamente determinante
para a mobilização dos praticantes, como se esta fosse a única a ter
legitimidade para dizer o que é bom e o que não é.
LA- Claro! Julgo que sim.
Julgo que é uma mais valia para qualquer praticante saber que qualquer
especialista vem por indicação da Federação, é garantia de
qualidade. No número de praticantes vê-se logo. Num estágio de uma
pessoa que não é convidada pela Federação vêem-se 50 ou 60
praticantes no tapete. E para juntar esse número é preciso muito
esforço, mesmo organizando com muito tempo de antecedência, fazendo
divulgação, com muita preparação. Se vem pela Federação facilmente
se ultrapassa a centena de praticantes.
68- Concorda que se o Mestre
Saito, Guardião do Santuário do Aiki, da casa e dojo de O’Sensei,
viesse a Portugal, sem ser por convite da Federação, esta tinha a
obrigação de motivar os praticantes para comparecerem ao estágio, e
explicar qual o papel único deste mestre de Aikido?
LA- A Federação não
explica, nem tem que explicar. Toda a gente conhece o Mestre Saito.
Aliás, num dos nossos boletins já falámos sobre o Mestre Saito, não
necessita de apresentação.
69- Eu quero transmitir a ideia
de que a Federação tem o poder, entre os seus praticantes, de os
condicionar consoante a informação que lhes disponibiliza.
LA- A Federação não tem
esse condicionamento. A Federação quando organiza as acções tem o
apoio indefectível da Tutela.
70- Mas isso nada tem a ver com
Aikido.
LA- Tem, tem. Não quer dizer
que a qualidade de Aikido seja maior ou menor, mas na mobilização das
pessoas os meios empregues numa determinada acção, tendo as estruturas
governamentais por trás e todas elas canalizadas através da
federação, tem muito mais impacto em todos os quadrantes de Aikido.
71- Pretendo apenas demonstrar
que passando uma determinada informação se pode ter uma enorme
influência, principalmente quando está em causa uma grande
organização. A Federação tem um papel pedagógico fundamental e, por
isso, tem que fazer um trabalho muito mais cuidadoso em relação ao que
emana, em nome da credibilidade.
LA- Sim é capaz de ser
fundamental.
72- Há pouco falou sobre o
Aikido como desporto, pode desenvolver um pouco mais? Este é um
conceito pessoal ou é um conceito preconizado pelo Mestre Tamura, e
outros mestres, ou pelo Aikikai?
LA- Não é um conceito
pessoal, nem é um conceito transmitido pelo Mestre Tamura. Aikido, para
mim, é aquele que foi criado de O’Sensei. A interpretação que ele
dá do Aikido é que este não é executado como uma arte marcial,
porque permite a continuidade do ataque do oponente, ou seja, o atacante
é projectado, levanta-se, torna a atacar. Ora, isto não é marcial; se
fosse, quando ele caísse pela primeira vez no chão estava morto,
partido ou imobilizado. Não poderia atacar uma segunda vez. Este é o
conceito de O’Sensei, portanto, o Aikido é praticado desta forma,
segundo O’Sensei.
Se formos aos livros do ensino secundário vemos que há várias
definições diferentes sobre o que é o desporto e poucas delas estão
correctas, surgem sempre dúvidas, porque se confunde qualquer coisa
praticada sobre o plano desportivo com actividade física, o que não é
a mesma coisa. Portanto, os ministros da tutela do desporto reuniram-se
e definiram finalmente o que era desporto, o que vem na Carta Europeia
do Desporto. Aconselho vivamente toda a gente a ler a carta do desporto,
para verem a definição de desporto, e para verem que uma arte marcial
pode ser praticada sob o plano desportivo, sem adulterar a sua
essência. Diz que desporto é toda a actividade física, devidamente
planeada, com o objectivo de propiciar a melhoria dos seus desempenhos,
quer no aspecto físico, quer no mental e lúdico desde que praticado
regularmente. Ou seja, devidamente planeado, com a obtenção de
determinados objectivos.
No Aikido não temos competição, portanto, é praticado dentro
de uma prática perfeccionista que tem como objectivo a optimização da
nossa técnica e de certo movimento, da nossa condição física, da
coordenação do corpo e do espírito, que no fundo será um estudo
aprofundado das capacidades físicas básicas do corpo humano.
Seja resistência, força, velocidade, flexibilidade e a
coordenação destes quatro. Que, para mim, constitui uma quinta
capacidade física básica do ser humano. O Aikido é só isto.
73- Se se quiser aprofundar o
estudo sobre este conceito do Fundador, que fontes pode aconselhar?
LA- As fontes que eu utilizei
são realmente aquilo que os grandes mestres diziam. O Mestre Tamura
também diz isso. Só não ouve quem não quer.
Não vamos mistificar o Aikido. Que é assim, que é religião,
que é isto ou aquilo. Não. O Aikido, do ponto de vista científico,
não é mais do que o estudo das capacidades físicas básicas do ser
humano, conjugadas com os oponentes. Nada mais. Isto é o
Aikido. Não mistificando.
74- Acha importante não
mistificar o Aikido?
LA- Acho muito importante,
porque a mistificação do Aikido, as elevações espirituais, aquelas
grandes tendências para irmos para o superlativo das coisas e para o
desconhecido são a camuflagem para os maus técnicos e para um
marketing desenfreado, desajustado e desonesto da modalidade. E é por
isso que há grupos, grupinhos e grupitos.
75- A mistificação não foi
precisamente o aspecto que levou o Aikido a ter a expansão mundial que
teve, que faltava nas outras artes?
LA- Não acho. Até porque as
outras artes também têm misticismo. Todas elas têm. Há até bem
piores que o Aikido. Bem piores.
76- Gostaria de dizer mais
alguma coisa?
LA- Gostaria de ver a
unificação do Aikido em Portugal. Esse é o meu grande desejo. Fiz um
trabalho coadjuvado por bons amigos e colegas. É uma Federação que
está aberta a todos. Pago uma licença de ensino, cinco mil escudos,
para ensinar no meu clube. Nada mais. O que eu digo é que união faz a
força. Todos juntos, podemos ajudar a fortalecer o Aikido, o respeito
pelo próximo passa por isso. Mas ninguém deverá bater no peito, somos
os melhores, e adulterar seja aquilo que for dos princípios de O’Sensei,
quer em graduações, quer em exames, quer em técnica, quer em
misticismos. Nos mais variados aspectos.
77- Acha que os princípios de O’Sensei
estão alterados?
LA- Estão adulterados. Se
todos tivessem na ideia que o primeiro ideograma do Aikido é o Ai –
harmonia, paz, união - O’Sensei talvez não pusesse isso, não
denominasse esta arte de Aikido por mero acaso, mas porque realmente
para ele a base de tudo era essa união. Que os homens, todos eles, com
boa vontade, com a capacidade de gerar boa vontade se unissem,
independentemente de ideologias, religiões, raças, etc. Mas quando
pisassem o tapete tudo acabasse. Se não pisassem o tapete juntos, pelo
menos que se unissem do ponto de vista organizativo. Todos teríamos a
ganhar com isso. Porque quando batermos à porta do Estado em vez de
dizermos somos 1700, diremos que somos 3400 ou 3600, o que seria muito
diferente. As verbas da Tutela seriam o dobro, pois é por rácio o
valor que nos é atribuído em cada ano.
Como não temos competição, como tem o Judo, em que a verba
para a competição e para a alta competição é diferente, devíamos
estar suficientemente atentos para uma unificação do ponto de vista
administrativo. Mesmo que cada qual fizesse o Aikido à sua maneira,
pois ninguém se mete com eles. Unidos não seríamos um grupinho de 50
aqui, ali outro de 80, acolá outro de 1000. Todos juntos já
somaríamos uns 2000.
78- Compensava a falta de
competição pelo número de praticantes.
LA- Com certeza, mas as
pessoas não vêem isso. As pessoas só perguntam o que é preciso, o
que nos dão a nós. Houve uma associação que nos perguntou o que é
que a Federação lhes dava, quando eu era presidente – “Peçam.”
Pediram-me apoio, 150 tapetes, apoio para fazer estágios até com
pessoas que não são da nossa Federação, e tudo isso lhes foi dito
que lhes seria concedido e depois, curiosamente, disseram-nos que não
podiam entrar, porque tinham um artigo nos estatutos em que seguiam os
princípios do seu “Mestre senhor X”. Como esse “mestre” não
deixou, eles não entraram. Isto é que é lamentável, um homem pôr o
pé em cima de um cento de pessoas. É lamentável, ora aí está.
Constata-se que existem grupos que estão dentro da nossa
Federação há três/quatro meses, a quem têm sido dados tapetes,
cursos de formação, graciosamente. Os outros nunca aparecem. Só vem
quem quer.
79- Acha então que é por falta
de conhecimento que as pessoas não integram a Federação?
LA- Claro. As pessoas são
desconfiadas por natureza. Realmente há que ter uma estrutura sólida
para termos acesso ao Estado. A estrutura foi criada ao longo destes
anos todos, temos a UPD, somos membros fundadores da Confederação dos
Desportos de Portugal, membros do Comité Olímpico de Portugal, membros
da Federação Europeia de Aikido de categoria 1, da Aikikai Foundation.
As estruturas são reconhecidas pelas estruturas supra-federativas do
Governo Português. É isto que interessa, portanto, todas estas
instituições têm regulamentos e leis que os obrigam realmente a
pugnar por uma prática correcta, com qualidade.
80- Acha que o facto do
Presidente da Federação ter sido o Luís Antunes tem impedido a
unificação do Aikido através da Federação?
LA- Julgo que não. A razão
da minha demissão é contrária àquilo que já ouvi dizer – que me
tinha aborrecido com a Federação, etc. O que me custa profundamente é
que a razão da minha demissão da qualidade de Presidente da
Federação foi, tão só, o Sr. Presidente do Instituto Nacional de
Desporto, Manuel Brito, não alterar o contrato. Disse-lhe que a verba
por ele proposta, ano 2001, sem alterações, não chegava para o
apetrechamento de equipamento, tapetes, e para os sócios. Assim não se
poderia aumentar o número de atletas, porque todos os centros precisam
de tapetes, é óbvio. Ele disse que este ano não havia verba, que
teríamos de compreender. Respondi-lhe que não andava aqui desde hoje,
e que ele estava ali só há meia dúzia de meses, por isso não
acreditava em promessas da administração. Portanto, se a verba não
fosse revista eu não assinava o contrato. Deixei-o falar e no fim da
reunião disse-lhe, já que ele era tão irredutível, e como eu tinha
sido eleito num programa a quatro anos, imposto por lei governamental
para coincidir com o ciclo Olímpico, não me dando as verbas
necessárias para a prossecução daquilo que me tinha proposto fazer
perante os meus associados, não assinava o contrato e que a primeira
coisa que eu iria fazer quando chegasse a casa, ainda antes de almoçar,
era apresentar a minha carta de demissão ao Presidente da Mesa da
Assembleia Geral. Assim fiz. Cheguei a casa e fiz a carta. Isto
passou-se no dia 26 de Julho de 2000 no IND.
81- Tirou-lhe um peso de cima?
LA- Tirou, embora me
apetecesse dizer algo mais; tive de me conter, até do ponto de vista
emocional. Nada há de pior, para mim, que a Tutela não reconheça o
papel fundamental que as federações em geral têm na sociedade civil.
Ele é uma pessoa realmente difícil, o desporto para ele é visto por ratios.
Não tem a sensibilidade que tinham os seus antecessores.
82- E em relação ao Luís
Antunes, praticante de Aikido, vai ser melhor agora?
LA- Vai, não tenho
preocupações. É assim, preocupo-me sempre com o Aikido, com a união,
quanto mais gente melhor, os grupos falarem uns com os outros, diálogo,
harmonia. No fundo, o Ai de Aikido, é o que me dá mais prazer ver.
Contactamos “n” pessoas e não dão resposta,. Temos uns
estatutos que são tirados da lei, não somos nós que a fazemos; quando
dizemos que todos podem ter a sua autonomia onde mora o diálogo. Não
é uma crítica, é um lamento. As pessoas não vêem porque não querem
ver; mais, não dão a ver a muitos dos seus praticantes, instrutores e
atletas, para que eles não conheçam a verdade. Isto é que dá pena.
83- Parece-me que andam todos
preocupados com a verdade ...
LA- É mesmo. A verdade deve
sempre começar na família. Todos nós ganhávamos estando coesos,
juntos, numa organização forte para quando o ilustre Presidente do IND
fosse fazer ratios, dissesse assim – o Aikido cresceu 20%. Isso
é que é importante. Porque não somos nós uns contra os outros.
Aqueles que se jogam uns contra os outros e se fecham no seu feudo com
medo que alguém lho tire, há que pôr o lugar à disposição. Querem
vir para cá, venham, filiem-se, tomem conta das Assembleias Gerais,
pelos meios democráticos e legais, tomem conta da Federação, façam
mais e melhor só que depois teriam os outros como oposição. Esses é
que são os meios. Quem não está contente deve dizer – vamos lutar
por aquilo que achamos que é certo e vamos fazer isto assim e assim. As
coisas devem ser desta forma, pelos meios democráticos, respeitando os
princípios da liberdade e da maioria. Não é cada qual ficar no seu
cantinho, e aqui quem manda sou eu.
Todos temos que enxergar um futuro melhor para a nossa
modalidade, para o nosso Aikido, porque no fundo todos nós gostamos de
Aikido, uns mais do que outros, e se as interpretações do Aikido
tiverem de estar juntas, tanto melhor.
84- No fundo todos falam dessa
harmonia e união, mas parece que não está a ser suficiente para a sua
efectivação.
LA- Não está a ser
suficiente, com grande pena minha. Muitas pessoas diziam que a
Federação era do Luís Antunes, foi ele que a fez e, como podem
verificar, o Luís Antunes demitiu-se do cargo de Presidente da
Federação. Fi-lo porque não podia cumprir com os meus associados
naquilo que me propus quando fui eleito, e que foi prometido pelo
Governo Português.
85- Uma vez ouvi a seguinte
afirmação, relativamente à CDAM: “Tudo aquilo em que o Governo se
mete, estraga.” Acha que se aplica neste caso?
LA- Se fosse há dois anos
atrás não podia dizer isso, mas hoje ...
86- O problema do Governo não
passa pelos responsáveis estarem completamente desligados da
especificidade das modalidades?
LA- Eles não só estão
desligados como não se forçam por entendê-las. Vou dar um exemplo. A
Federação fez um acordo bilateral com a Federação Belga de Aikido.
Os belgas vieram a Portugal, ao abrigo desse acordo de cooperação
entre os dois países, para um estágio que foi dirigido por mim. Vieram
dois 6º dan, dois 5º dan, entre outros. Eram quatro pessoas a
colaborarem no acordo bilateral. Agora, caber-nos-ia a nós ir à
Bélgica a um estágio com o Mestre Iwagaki, ter um curso de alto
nível, 5º e 6º dan. Ora o Governo Português entendeu alterar as
regras do jogo.
No acordo bilateral, as passagens de avião das pessoas que
visitam o país homólogo são custeadas pelo governo de origem dessas
pessoas. Mal pousam em Portugal as despesas estão a cargo do Governo
Português, através da respectiva Federação. As despesas são
apresentadas no Centro de Formação Desportiva e depois a Federação
é reembolsada. Todos os anos tem sido assim. Mas o Governo Português,
com a desculpa de não haver dinheiro, escreveu-nos uma carta para a
Federação dizendo que só podia custear 70% das passagens dos nossos
atletas. Ou seja, na altura em que somos nós que vamos ganhar em
técnica e conhecimentos, numa iniciativa de elevado recorte técnico,
eles, fora do prazo, não avisam o Governo Belga e escrevem-nos uma
carta dando conta dessa alteração. Ou davam tudo ou não davam nada,
porque o acordo foi assim feito.
No fim disto eu disse não. Já sabiam que o Presidente era o
Luís Antunes e eu não aceito coisas destas. Há que salientar que só
nos enviaram um ofício depois do prazo ter passado, e dos belgas terem
posto uma cruz nos atletas portugueses. É lamentável que o Governo
tenha procedido assim ... Passei uma vergonha enorme.
87- Mas neste caso a ligação
ao Governo é necessária.
LA- Ah sim, mas é preciso
sensibilizá-los.
88- Muito obrigado.
Entrevista
realizada em 31 de Outubro de 2000
Pedro
Escudeiro |