Up ] AIKIDO EM PORTUGAL ] [ ANTÓNIO PIANO ] LUÍS ANTUNES ] CARLOS PORTAS ] LEOPOLDO FERREIRA ] JEAN MARC DUCLOS ] MANUEL GALRINHO ] TRISTÃO DA CUNHA ] GEORGES STOBBAERTS ] JOSÉ ARAÚJO ] AGOSTINHO VAZ ] HUMBERTO AFONSO ] SEBASTIÃO DURÃO ] DANIEL LAURENT ] PERSPECTIVA DO PROFESSOR ] O  VERDADEIRO AIKIDÔ? ] LE VRAI AIKIDÔ? ]

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ENTREVISTA AO PROFESSOR ANTÓNIO PIANO

 

1- Pode-nos dizer o seu nome e idade?

AP- O meu nome é António Carlos Piano e tenho 45 anos de idade.

2- Pode-nos descrever o seu percurso em termos de graduações e de que organizações?

AP- Basicamente segui sempre o ensino do Mestre Stobbaerts. Tenho agora o 5ºdan. Comecei a praticar Aikido em 1974. Na altura esta era a única escola que havia e chamava-se Budokan de Portugal. Tenho seguido essa escola até agora. Actualmente chama-se Ten Chi Internacional, que é o nome do dojo na Várzea de Sintra.

3- Já praticou outras artes marciais?

AP- Já pratiquei Kendo, vários anos, fiz um pouco de Karate, só um ano, e Jujutsu.

4- O que o levou a praticar Aikido?

AP- Comecei a praticar quando tinha 18 anos. Gostei sempre de desporto. No fundo comecei a treinar por uma coincidência, pois na altura treinava boxe e tive uma dupla luxação do acrómio, o que me obrigou a parar. Entretanto, vi uma fotografia do dojo do Budokan, de Cascais, uma fotografia de Aikido, com pessoas a treinar na natureza e achei muito bonito. Tinha uma mistura de força e beleza, que me atraiu. Mais tarde, quando ia a passear em Cascais vi o dojo e pensei para mim: ”Vou experimentar.” Gostei de tal maneira ...!

5- Foi paixão à primeira vista. Então foi só em Portugal que começou a praticar Aikido?

AP- Sim, foi. Eu cheguei do Brasil em 1971, e só comecei a praticar em 1974.

6- Quem eram as pessoas que treinavam no dojo nessa altura, mais relevantes?

AP- Nessa altura o Aikido estava mesmo a arrancar. Lembro-me dos mais graduados, o meu Mestre claro, o Leopoldo Ferreira, que era cinto castanho, o Francisco Garção e Silva, que era cinto verde. Haviam já uns cintos negros. Contudo, veio o 25 de Abril e havia muita confusão, muitas pessoas saiam e muitas entravam.

7- Nessa época o Mestre Stobbaerts já estava radicado em Portugal?

AP- Sim, sim. Foi nessa fase que se formou um grupo bastante grande, muito coeso, que foi o grupo com o qual eu sempre treinei. Éramos cerca de vinte pessoas e treinávamos quase todos os dias. Era mesmo um grupo muito unido, treinávamos no Carnaval, Natal, Ano Novo, etc. Lembro-me de treinar antes do Ano Novo e depois também. Muitas vezes o dojo estava fechado e pedíamos a chave para irmos para lá.

8- Tem ideia de haverem já outros grupos de Aikido que não estavam ligados ao Mestre Stobbaerts?

AP- Que eu saiba esse era o único. Nos primeiros anos. Creio que depois veio o Sr.Honda, mas não me lembro quando.

9- Quando começou a sentir que havia fragmentação?

AP- Na nossa escola houve uma fragmentação normal, a partir de 1979. Algumas pessoas, desse grupo em que eu estava inserido, começaram a casar, ou mudaram de profissão, outros foram-se embora.

10- Ouvi dizer que a destreza do Professor com o jo era grande.

AP- Dizem que sim.

11- Como acha que surgiu essa fama?

AP- Foi uma brincadeira do Mestre Stobbaerts. (Risos)

12- Pode-nos falar um pouco do seu mestre?

AP- Segundo o meu ponto de vista, considero que o percurso do Mestre Stobbaerts, em Portugal, tem duas fases. A primeira, é a do dojo de Cascais. Era um dojo muito bom, muito forte, praticava-se muito a sério. Não era só o Aikido, mas também outras artes, como o Karate, Kendo, Jujutsu, Yoga, Zen. Eu fiz mais de vinte anos de Zen.

  Depois, o Mestre Stobbaerts decidiu que esse caminho não satisfazia a evolução dele e da escola que se ligava a ele. O Aikido que fazíamos no princípio era um bocadinho mais directo do que é agora. Por isso, um dia, decidiu fazer um dojo na natureza, em Sintra, que é o actual dojo Ten Chi. Isso foi em 1979.

13- Segundo o que consta foi feito pelos próprios alunos.

AP- Sim, foi. Nós íamos lá ajudar. No princípio havia muita gente (Risos). Depois, com o passar do anos foi diminuindo, mas houve um grupinho que se manteve. Foi a partir daí que o Mestre Stobbaerts se virou mais para as artes, como o teatro e a dança. Chegou a participar em várias peças do Filipe La Féria, e no Teatro de Cascais. Entretanto, criou uma arte nova, dele, o Ten Chi Tessen.

14- O Professor também é praticante dessa arte?

AP- Também pratico, embora agora esteja a praticar pouco. Acho que estas são as duas fases do Mestre Stobbaerts. Uma primeira mais Budo, desde 1974 até 1979/80 e depois a segunda, em que quis dar outra ênfase ao Aikido, tornando-o mais circular, cultural e espiritual.

15- Foi acompanhado pelos alunos?

AP- Nem todos(Risos). Poucos saíram, mas foram alguns.

16- E continuaram a praticar? O que foi que lhes aconteceu?

AP- Eu acho que abandonaram. Mas alguns voltaram mais tarde. É aquela fase da juventude. Mais tarde, quando voltaram, se calhar chegaram à conclusão que afinal não era assim tão mau. (Risos)

17- Actualmente o Mestre Stobbaerts continua a dedicar-se a essas actividades mais culturais?

AP- Sim, continua. Eu acho que o Aikido está a entrar numa terceira fase. Penso que o Mestre está a tentar integrar as duas fases anteriores, a mais Budo, com a mais cultural. Anda à procura de acertar os movimentos, tentar integrar as duas facetas.

18- Só que agora com alunos com mais de vinte anos de treino.

AP- E não só. Nestes últimos anos há muita gente nova e interessante que está a começar. De há uns anos para cá temos treinado mais com armas. O Mestre Stobbaerts tem dois alunos belgas, que eu penso serem vedetas europeias. Um deles é mesmo profissional de Aikido, e percorre quase toda a Europa. Conhece quase todos os mestres japoneses: o Mestre Tamura, o Mestre Saito, aquele francês?!

19- Christian Tissier?

AP- Sim. Passam o ano todo a fazer estágios, são muito fortes, muito evoluídos tecnicamente. Eles treinam esse lado mais Budo. Têm um Aikido muito firme, mas seguem a nossa escola também.

20- De onde vem aquilo que chama a formação mais Budo deles?

AP- Eles treinavam em Bruxelas, mas vinham cá desde novos. Conheço-os há muitos anos, desde os 12, e sempre gostaram do Mestre Stobbaerts.  

21- Certo, mas de quem aprenderam essa maior firmeza já que não foi do Mestre Stobbaerts?

AP- Foi do mestre deles, não sei, acho que a mãe de um deles é que ensinava. Portanto, eles chegaram aos 16, 17 anos de idade e começaram a viajar pela Europa.

22- Apesar do Professor não ser actualmente profissional de Aikido, dedica-se quase exclusivamente a esta actividade?

AP- Nos últimos anos não, mas dediquei-me. Já houve uma altura em que era a actividade principal.

23- Em que altura fez essa opção?

AP- Em 1979/80 decidi dedicar-me ao Aikido e larguei a carreira que estava a seguir, consultoria. Fiz a opção.

24- O que esteve por trás dessa opção? Foi a necessidade de treinar mais?

AP- Não era bem treinar. Na altura já ensinava, ajudava o Mestre Stobbaerts a dar aulas. Depois lancei o Aikido em Coimbra, em 1982. A seguir comecei a ajudar um amigo meu, e aluno do Mestre, que foi para o Algarve.

25- Começou a viajar para cima e para baixo.

AP- Agora, questões familiares levaram-me a abandonar o Aikido. Neste momento não dá realmente para conciliar. Infelizmente.

26- Qual considera ser a principal atracção do Aikido? Que tipo de pessoas procuram e se fixam numa arte como esta?

AP- É muito difícil responder. Cada pessoa tem uma motivação própria, mas acho que é a procura de uma certa beleza na vida. Não sei.

27- São pessoas já com alguma maturidade na vida?

AP- Não necessariamente. Dei aulas durante vinte anos nos Salesianos do Estoril e tive sempre classes com cerca de cinquenta crianças, todos novos, e o que eu notava era que entre os sete e os doze adoravam o Aikido, a partir dos doze já não gostam.

28- Queriam era jogar futebol.

AP- É mais Karate. Quando são muito novos talvez tenham uma noção do Aiki, é uma noção muito profunda e as crianças estão muito abertas a isso. Têm uma apreciação do que é bonito e gostam. Depois talvez a sociedade lhes imponha que eles têm que ser de uma certa maneira ou de outra, e que é preciso fazer desta ou daquela forma.

29- E o Karate adequa-se mais a essas exigências?

AP- Tem mais determinação. O problema do Aikido é que é um pouco indefinido. Como os movimentos do Aikido são essencialmente circulares, na minha opinião a sua apreensão é mais difícil, porque é fora do comum. Em termos de artes marciais acho que é bastante mais evoluído que o Karate ou o Kendo. Apesar dessas artes levarem ao mesmo ponto. Só que o Aikido como surgiu mais tarde é óbvio que teve mais pesquisa no movimento. Mais do que o Aikijujutsu.

30- Quer com isso dizer que o Aikido é uma arte mais espiritual, que atinge em maior profundidade o interior da pessoa?

AP- Sim, quer dizer, todas as artes marciais actuais devem ser praticadas com essa procura, caso contrário, não fazem parte do chamado Budo e serão Bujutsu. Onde eu acho que o Aikido difere das artes é que foi criado mais tarde. Portanto, já foi criado com a ideia da integridade física do outro praticante, enquanto o Karate não.

31- Está a dizer que o Aikido foi criado com a preocupação pela integridade física do adversário?

AP- Temos o exemplo do Kendo. O Kendo está muito ligado ao Zen. Eu pratico Kyudo há dois anos. O Kyudo no Japão é chamado o Zen de pé. Provavelmente é mais espiritual do que o Aikido, mas eu acho que isso depende do praticante.

  O Kyudo, por acaso, sempre teve duas escolas. Uma mais ligada à cerimónia, que é a que eu aprendo, por mero acaso, e uma outra mais ligada às artes marciais. Dizem que o Mestre Ueshiba era mais violento no começo da sua vida, mas temos que ver a época em que estava. De qualquer maneira a mensagem dele foi muito clara, luta pela paz e pela harmonia. A própria palavra Aiki é a harmonia da energia.

32- Partindo do princípio que o Aikido foi criado com a preocupação pela integridade física do adversário, gostaria de saber se essa preocupação está presente mesmo que seja em detrimento da eficácia técnica? Pode dar exemplos de alterações técnicas ou de técnicas que ilustrem o que está a afirmar?

AP- Como sabe, o Aikido evolui, tal como o Judo, a partir de  várias formas de Jujutsu. Se ficou mais eficaz ou não, creio que depende de cada praticante. Como exemplos posso citar o kotegaeshi, nikyo, kaiten nage, etc.

  Quando vemos um Aikido violento, tipo Steven Seagal, isso não é divulgar o Aikido. O serviço que está a prestar ao Aikido é péssimo, ele parte braços, pernas, pescoços, o que não tem nada a ver com o Aiki. O Aiki é integridade e harmonia.

33- Não considera que até é útil passar a imagem do Aikido poder ser uma arte violenta, mesmo não sendo o seu objectivo final, pois é olhado pelas outras artes marciais como algo pouco eficaz e prático?

AP- Gosto muito de um ditado ocidental que diz: “Quando o aluno está pronto, o mestre aparece.” Eu acho que o Aikido é assim. Quando a pessoa está pronta e o seu caminho passa pelo Aikido, ela vai para lá e vai gostar. Embora não seja o caminho universal. Eu gosto muito de Aikido, mas também gosto muito de Kyudo, de Zen, pratico Yoga,...

34- Pelo que o Professor disse, o Mestre Stobbaerts foi fazendo modificações no Aikido ao longo do tempo. Considera que a prática simultânea de várias artes diferentes introduz alterações, neste caso no Aikido, que lhe façam perder a genuinidade, ou seja, a sua identidade única e que a caracteriza?

AP- Pelo que eu sei do Aikido, o Mestre Ueshiba teve várias fases na sua vida. A forma actual deriva mais do Daito Ryu Aikijujutsu. Houve umas histórias muito controversas sobre isso, que a mim não me interessam. O principal no Aikido não é o lado técnico, mas sim a mensagem. A própria forma da técnica é uma luta, mas uma luta extremamente evoluída, a nível da evolução do ser humano enquanto espécie. Se formos ver as várias lutas que o ser humano praticou ao longo da civilização e o Aikido, a pessoa percebe para onde é que o Aikido está a apontar. É tudo uma questão cultural e pessoal, porque ou a pessoa vê isso ou não vê.

35- Estas transformações considera serem evoluções e não apenas alterações?

AP- São uma evolução. Eu acho extremamente negativo tornar o Aikido mais violento para agradar às pessoas. O que as pessoas gostam de ver nos jornais e na televisão é isso, eles procuram o lado negativo. Como as coisas boas raramente chamam a atenção, ...

36- Sente que tem os princípios do Fundador como base do seu treino?

AP- Sim. Eu não conheci o Fundador, mas pelo que vou lendo, como o livro “Budo”, sim.

37- E esses princípios tirou-os de onde, desses livros?

AP- E não só. Também do Mestre Stobbaerts. O Mestre Stobbaerts conheceu o Mestre Ueshiba, aliás, o Mestre Stobbaerts foi aluno directo, foi graduado pelo Mestre Ueshiba.

38- Em Tóquio, no Hombu Dojo?

AP- Sim.

39- Quanto tempo esteve o Mestre Stobbaerts a praticar no Hombu Dojo?

AP- Não sei, mas foi pouco tempo. Uma das vezes. Foi em 1969/70.

40- Já foi na fase terminal da vida de O’Sensei, que morreu em Abril de 1969.

AP- Foi, o Fundador já não dava aulas, estava doente. Na altura havia o Budo, que eu acho que está a voltar agora. O Budo era visto de uma maneira global, não é só o Aikido de um lado e o Karate do outro. O próprio Aikido estava ligado à arte do sabre.

41- É por isso que esta escola está muito conectada com o Iai Do? Digo isto porque já vi praticantes desta escola saírem de uma demonstração pública de Aikido para irem para a de Iai Do.

AP- Sim, mas  já esteve mais. Isso tem tido várias evoluções.

42- A prática dessa escola de sabre existe porque pensam que está relacionada com a escola de sabre do Aikido, o Aikiken?

AP- Eu acho que todas as artes estão ligadas. Acho muito importante que um praticante de Aikido pratique Kendo. Faz-lhe falta. No Kendo chama-se “espírito de decisão e acção imediata.” O Aikido tem um movimento sempre muito circular e o Kendo é um movimento muito directo. É preciso conciliar os dois, as duas artes.

43- Não considera ser extremamente fácil introduzir erros nas interpretações dos ensinamentos do Fundador?

AP- O que eu vejo no Aikido é o seguinte: o Mestre Ueshiba quando demonstrava técnicas elas não tinham nomes. Mostrava os princípios, Ikyo, Nikyo, que são princípios, que os alunos mais antigos catalogavam para ajudar as pessoas a praticar. As pessoas para terem um guia deram um nome às coisas. Esses nomes em vez de estarem a ajudar as pessoas a compreender o Aikido, estão a afastar. Começam a treinar as técnicas e esquecem o Ki. Quem é que tem Ki?

  O Ki é algo concreto, que eu já experimentei. Não só com o Mestre Stobbaerts mas também com o Mestre Kobayashi, entre outros mestres, até europeus. Tinham muito Ki mesmo. Como é que uma pessoa lá chega só a treinar técnica? Não chega. Garanto que não chega. Tem que ter um mestre a ensinar. Por isso é que é importante que as pessoas escolham um mestre e sigam, independentemente se é o Ueshiba ou outro. O que eu acho que é importante manter em relação ao Mestre Ueshiba é esta mensagem de paz e harmonia, que foi o que sempre me atraiu no Aikido.

44- Hoje sabe-se que o contacto que os conhecidos alunos directos do Fundador tiveram com este foi breve, assim como com a arte que ensinava, refiro-me tanto aos alunos que estão espalhados pelo mundo, como os que permaneceram no Japão. Por essa exposição pouco extensa a sua aprendizagem de Aikido permaneceu pouco profunda e estes alunos tiveram a necessidade de desenvolver o seu próprio estilo, sendo este o motivo real para tantos estilos de Aikido diferentes. Tem algum comentário?

AP- Não sei, não os conheço. Só podemos falar de alguém se o conhecermos pessoalmente. Eu acho que o Aikido tem essa mensagem do Aiki. O Aiki quer dizer a união das forças. Uma vez que a pessoa experimente nela essa união das forças faz o que quiser.

45- É Aikido independentemente da técnica?

AP- A técnica não é importante. O que não quer dizer que não hajam escolas, como a vossa, que seguem formas muito definidas, que era a maneira como o Mestre Ueshiba sempre treinou. O próprio Ueshiba disse: ”Vocês agora têm que desenvolver o Aikido.” Isso está escrito.

46- Pode dar-se muitas interpretações a essa afirmação.

AP- Pois pode, por isso é que ...

47- Imagine que hoje, passados vinte e tal anos de treino de Aikido, concluía que afinal aquilo que tinha andado a praticar até agora não era a arte ensinada e praticada pelo Fundador. Voltava para trás à procura da raiz?

AP- Qual é a raiz do Aikido?

48- É estudar o mais próximo possível do próprio Fundador.

AP- Para mim a raiz do Aikido é o Hara.

49- Então já é uma interpretação sua?

AP- Não, não é uma interpretação. O Hara é a base de todas as artes marciais, qualquer que seja. Uma pessoa sem o Hara, o Ponto Único, não faz Aikido. Esse é o ponto básico de qualquer arte marcial. A partir daí é tudo muito simples, quem não tem Hara não pratica artes marciais.

50- Qualquer pessoa pode usar o nome Aikido desde que sinta que está a seguir as palavras do Fundador, quando nem se tem bem a certeza do que ele quereria dizer?

AP- Só lhe vou dizer uma coisa. O Mestre Ueshiba deu autorização ao Mestre Stobbaerts para divulgar o Aikido no Continente Africano, não foi só em Marrocos. Nos anos sessenta, o Mestre Stobbaerts era representante do Mestre Ueshiba, portanto ele sabe o que está a dizer.

51- Pois, mas compreende ...

AP- Portanto, a partir daí ...

52- Mas imagine ...

AP- Não há dúvida nenhuma, quer dizer, o que é o Aikido? O Aikido deriva de várias artes. E essas artes vêm de onde? A pesquisa actual a nível das artes marciais apontam o sul da Índia, o Kalary Payat. Eu tenho fotografias de técnicas desta arte em que estão a fazer shihonage. Há 1000 ou 2000 anos antes de cristo. De onde é que vem o Aikido?

53- O Aikido é uma criação pessoal de uma pessoa chamada Morihei Ueshiba, que para tal se baseou nas várias artes que foi aprendendo, muito ou pouco.

AP- Não, não. Eu fui a Itália, que era o sonho da minha vida, e vi uma escultura grega, que era uma mistura entre homem e cavalo, um semideus, e estava a fazer soto kaiten nage. Então, de onde veio o Aikido? Penso que o Aikido vem na etimologia da palavra - “É o Caminho da União com o Ki.” Tudo pode ser Aikido.

54- Portanto, é um conceito genérico e não específico?

AP- Sim, é um conceito genérico. Quem o quiser estudar profundamente pode, eu não. O lado do Aikido que estudo é o lado do aiki, que é comum ao Yoga, Zen, Judo ou Karate. Quando é bem praticado, é comum a todas as artes marciais.

55- Nesse caso, nunca chegará um dia em que poderá concluir que o Aikido é apenas um sistema criado por uma certa e determinada pessoa e que para aprender este sistema é obrigatório estudar a origem. Dessa forma, qualquer coisa pode vir a ser chamada de Aikido.

AP- Isso depende dos gostos pessoais. Pessoalmente, a técnica em si não me motiva muito. A orientação que recebi logo quando comecei a praticar era a procura interior. Essa procura interior está no Zen. O Zen é a base de qualquer procura interior no Japão. O japonês é extremamente violento.

  O Zen, aliás, a cultura japonesa, vem da China, através da Coreia. E parece-me que é assim que temos de olhar para as artes marciais. Eu não gosto da forma das artes marciais chinesas, mas gosto da forma do Aikido, a forma que o Mestre Stobbaerts imprime. Mas respeito as outras.

  Em Junho deste ano estive em Inglaterra, pois pertencemos à Dai Nippon Butokukai, que é uma das organizações mais antigas do Japão. Fiz lá um estágio de Aikijujutsu, Aikido muito antigo, e também gostei. Estava lá um mestre que era 8ºdan. Vi lá também um mestre de Iai Do, com 70 anos, que parecia um deus. Quem olhava para ele parecia que estava a ver Aikido, movimentos circulares, potência. Todos ficámos emocionados. O outro mestre japonês, Hamada, que estava lá, fazia uma arte de defesa pessoal. Entre ele e o Mestre Stobbaerts é óbvio que eu continuava com o Mestre Stobbaerts, gosto mais do estilo dele, apesar do outro ser um grande mestre.

  Conheci o próprio Mestre Kobayashi que era um mestre sensacional, mas eu não gostava muito da técnica. Era uma técnica muito directa. Mas a nível daquilo que ele transmitia, do que eu aprendi, através do contacto que tive com ele, é uma referência para mim.

56- Disse-me há pouco que esta escola também tem um currículo de armas, de onde vêm as técnicas de armas que se utilizam no âmbito do Aikido?

AP- Do Aikido.

57- Mas qual a origem? Já que se sabe que só em Iwama é que o Fundador ensinava armas, e que o Mestre Saito foi a única pessoa a quem o Fundador permitiu que ensinasse o Aikiken e o Aikijo. Para além disso como foi este mestre que criou os suburi do ken e do jo, os kumijo, kentaijo, etc, e não tendo aprendido com ele, de onde vieram as técnicas de armas que se executam nesta escola?

AP- Vêm daí.

58- E considera ser possível compreender estas técnicas e o espírito sem estudar na origem, ainda para mais sendo tão específicas?

AP- Estamos a voltar à mesma questão. Por exemplo, o Iai Do. Há muitas escolas diferentes. Qual é a verdadeira?

59- No Aikido é fácil saber-se qual é porque as raízes ainda estão muito próximas.

AP- Se estudasse Kendo e fosse fazer um kamae do Aikido, o mestre do Kendo ia dizer que estava tudo mal. Por isso, é que não se pode dizer que uma coisa está mal ou bem. Só se pode dizer se se está a seguir a Via do Aiki ou não. A forma não é muito importante.

60- Na sua opinião a forma não é o primeiro nível de aprendizagem e não ensina o espírito correcto?

AP- É óbvio que há desvios de tal maneira que se torna idiota.

61- Então onde se põe esse limite?

AP- Existem movimentos básicos do jo e uma pessoa tem que os aprender.

62- Mas onde se põe o limite do que está bem ou é idiota?

AP- O Aikido é uma evolução de outras artes. O boken e o jo são modificações de muitas escolas que existem no Japão, destas armas. Têm um estilo pessoal, do Mestre Saito por exemplo, mas há milhares de pessoas no mundo que praticam isso. Japoneses até.

63- Mas o sistema do Aikido, de armas ou não, é muito específico.

AP- O Mestre Saito teve um grande mestre. Fez aquela colecção de livros, que tenho em casa, que considero serem muito bons, sensacionais. Toda a gente se guia por eles. Eu sigo o Mestre Stobbaerts e as suas formas, vocês seguem o Mestre Saito. Acho que cada um tem que encontrar o seu Caminho.

64- Isso eu compreendo. Mas toquei neste assunto, porque me parece claro que a base do currículo de armas utilizadas nas várias escolas de Aikido em Portugal, e não só, provêm do Mestre Saito, e não do Fundador ou de qualquer seu aluno e, provavelmente, nenhum destes professores tem a noção que estas técnicas foram desenvolvidas por este mestre. Inclusivamente, já vi vídeos de Jodo onde aparecem os suburi do jo e os nomes que o Mestre Saito criou. Como é possível que os praticantes pensem que sabem executar correctamente estas técnicas se os próprios alunos directos do Mestre Saito, apesar dos muitos anos de treino, estão constantemente a ser corrigidos?

AP- Por exemplo, em finais dos anos oitenta veio ao Dojo Ten Chi uma delegação do Aikikai, num estágio de Verão. O Mestre pediu para separar as aulas e os mais graduados foram fazer um kata de jo. Quando eles o viram apontaram e disseram: “Ah, é de Osaka.” De onde era o Mestre Kobayashi. Agora se aprendeu do Mestre Saito ou não, não sei dizer.

65- Como vê a situação do Aikido a nível geral?

AP- O Aikikai está a passar uma fase difícil, e o Mestre Saito também. Há agora aí uma divisão no Aikido Internacional. Acho que esses grandes mestres se estão a tornar grandes vedetas e também a ganhar muito dinheiro, e essa situação está a criar grandes divisões.

66- O Mestre Saito não de certeza, pois continua um simples agricultor e não está ao serviço de nenhuma organização. Mas considera essas transformações normais?

AP- Sim, transformações normais. Por exemplo, o Mestre Yamada está a controlar a América toda. Um amigo meu esteve em Nova York, no dojo dele, e este funciona das 6 da manhã até às 22 horas da noite. Sem parar. Faz estágios, vai ao Rio de Janeiro, estágios com 500/700 pessoas. É tudo aos milhares. São pessoas extremamente ricas. Aliás, como todos esses mestres.

67- Esse é o regime do Aikikai Hombu Dojo.

AP- O que me interessa é esta noção do Aiki, que é muito importante, o resto não é importante. A defesa do Aiki é a defesa da vida e dos que estão à sua volta.

68- Como pode ter a certeza que esse conceito de Aiki não é apenas um conceito pessoal e não o Aiki a que O’Sensei se referia?

AP- O Aiki é o Aiki. Não é de O’Sensei. (Risos)

69- Mas quando o Fundador falava de Aiki sabe o que ele quereria dizer?

AP- De onde é que vem a palavra Ki, já agora? O conceito de Ki? Foi criado pelo Ueshiba?

70- Diga-me o Professor, mas se o Fundador falava nele seria por alguma razão específica, dentro das suas ideias.

AP- Vem do Yoga. Isto é, o Yoga sistematizou. Os Índios falam de Ki na Amazónia e os Apaches também.

71- Aiki já é uma palavra composta.

AP- Estou a falar do Ki, que é muito importante. O Ki está sempre ligado à respiração, ao seu controlo e a uma certa evolução no interior. Eu sempre fiz muito desporto e sempre com uma certa atitude. Jogava futebol, por exemplo: era o espírito de equipa que é Aiki, embora pouco evoluído.

  Depois há a determinação pessoal de conseguir algo. Isso são aspectos muito básicos. O grande mérito do Aikido, quando eu entrei, foi dizer-me que há mais coisas do que aquilo que podes perceber directamente. Quando alguém te vai atacar podes rodar. Foi isso que me cativou no Aikido. Foi a descoberta de novos rumos, novos horizontes. Isso para mim é que é o básico e o resto é uma questão de gosto.

  Antes de fazer Aikido pescava muito, pesca amadora com cana, mas haviam alguns amigos meus que passavam a vida deles a escolher equipamento e pescavam pouco. Até se esqueciam de pescar.

72- Está novamente a deixar bem claro que a técnica é secundária.

AP- Na Igreja os sacramentos serão a técnica para chegar à União com Cristo. Havia um padre que dizia que as pessoas confundiam os degraus, que são os sacramentos, com o fim.

73- Supondo que uma pessoa tem o domínio do Aiki e outra do Yoga, pode-se dizer que estas duas pessoas praticam a mesma arte? Ou, neste caso, apesar do resultado final ser igual, o método que os levou a esse resultado, que é diferente, distingue-se pela técnica apenas?

AP- É óbvio que não são a mesma arte, mas acho que conduzem, se bem praticadas, à mesma realização. Posso até indicar uma técnica básica, comum a várias artes marciais e ao Yoga. Trata-se da postura natural, Tadasana (a postura da montanha), no Yoga, e Shizentai, nas Artes Marciais.

74- Stanley Pranin através do seu trabalho, ao longo de mais de vinte anos de estudo, corrigiu alguns dados que estavam incorrectos sobre o Aikido e seu fundador. Um dos responsáveis por esta perpetuação de erros sobre a arte foi um livro de John Stevens, que parece ter sido o primeiro em que constava a história da arte em inglês. Sabendo-se que muitas das referências dos professores de Aikido em Portugal provêm deste livro, não o preocupa este facto, uma vez que a compreensão dos ensinamentos do Fundador pode ficar alterada?    

AP- Eu acho que as pessoas se estão a preocupar com coisas que não interessam. A mim não me interessa mesmo nada.

75- Mas é a história da arte?!

AP- A vida do Mestre Ueshiba não me interessa realmente nada. Respeito-o muito e abriu os olhos a muita gente. Transmitia uma mensagem de harmonia, paz e de uma certa espiritualidade. De resto, quero lá saber da vida dele, realmente a mim não me interessa. Já ouvi muitas histórias do lado que as pessoas ouvem pouco, que é o lado do Daito Ryu. Graças à Dai Nippon Butokukai, à qual pertencemos, tive acesso a muitos mestres que já praticam há 30/40 anos e que sabem muitas histórias que não vêm em livro nenhum. São histórias internas ligadas à tradição muito antiga do Japão. São histórias e raízes que ultrapassam o próprio Mestre Ueshiba. Ele teve um grande mérito em mostrar ao mundo uma arte muito bonita. Provou que sem violência uma pessoa consegue manter a sua integridade física e consegue transmitir o ideal de bem estar, alegria, que eu acho muito importante.

76- Como está a ver a regulamentação das Artes Marciais pelo Governo, em Portugal?

AP- Acho uma evolução normal.

77- E útil?

AP- Não creio que seja útil. Mas tem que se passar por aí. Creio que o Aikido português está com problemas a nível de praticantes. Hoje em dia qualquer pessoa dá aulas. Não há a mínima regulamentação. Não é só o Aikido. Sei de pessoas que dão aulas ao fim de seis meses ou um ano. Para mim é perfeitamente inconcebível. Só comecei a dar aulas sozinho ao fim de uns dez anos de treino e de estar a ajudar, durante cinco anos, o Mestre Stobbaerts a dar aulas.

  Há duas coisas diferentes, uma é a pessoa treinar para ela e a outra é ensinar. Quando se ensina tem que se esquecer de si próprio.

78- O Professor faz algum treino pessoal à parte, a nível do Aikido?

AP- Agora tenho muito pouco tempo, infelizmente. Faço estágios. Consegui nunca faltar a nenhum estágio. Os estágios são muito importantes, pelo convívio entre as várias escolas.

  Infelizmente, em Portugal, por motivos que agora não interessam, que não se prende com uma pessoa em especial, acho que o Mestre Stobbaerts não recebe o mérito que merece. O Mestre Stobbaerts é um mestre de craveira internacional e que agora está a ver reconhecido o seu mérito a nível internacional, não só na Europa, como na América também, assim como no Japão. E não é só na Dai Nippon Butokukai.

  Há coisas que agora não vou dizer, mas o Mestre Stobbaerts é detentor de vários diplomas, que eu já vi e que não são só de Aikido, mas também de outras artes. Creio que ele foi sempre suficientemente humilde para não dizer nada a ninguém. Nunca ninguém soube. Não vou dizer mais, porque não quero.

  Infelizmente aqui em Portugal não vão aos estágios do Mestre Stobbaerts. Nos anos setenta, vinham pessoas da Europa treinar com ele, do Aikikai, e até da vossa escola, dentro de um espírito de intercâmbio. Em Portugal nunca vi isso. Não sei porquê.  

79- Como acha que as outras escolas vêem a sua?

AP- Não sei qual é o problema que há aí.

80- Será que é um problema? O desinteresse pelos ensinamentos do Mestre Stobbaerts não poderá ser, simplesmente, como há pouco afirmava, que apesar de respeitar certos mestres não estava nada interessado no que eles ensinavam?

AP- Claro, pode também haver esse sentimento em relação ao Mestre Stobbaerts.

81- Mas parece-me que na sua opinião há algumas questões pessoais pelo meio.

AP- É capaz de haver um pouco. Acho que ele não é reconhecido como mestre, embora o seja. É preciso distinguir entre ser professor, um bom técnico e mestre. São coisas completamente diferentes. Os mestres, por vezes, são personagens muito contraditórias. Conheci um mestre, que morreu agora, belga, que se chamava Naessens. Foi uma pessoa que me fez um ikyo que não vou esquecer para o resto da minha vida, há uns dez anos atrás. Ele era um sexto dan do Mestre Ueshiba e tinha alguns problemas ligados à bebida. Um dia uns colegas meus, que andavam a passear pela Europa, foram visitá-lo, porque o Mestre Stobbaerts falava muito dele. Perguntei-lhes o que tinham achado dele e eles responderam que o mestre bebia demais e, por isso, não tinha interesse.

  No entanto, um dia, quando o Mestre Stobbaerts foi convidado para dar um estágio na Alemanha, eu fui com ele e passámos por Bruxelas. Depois de treinar e tomar um duche, fui cumprimentar esse mestre. Pus uma gravata, como o Mestre Stobbaerts tinha sugerido, para tratá-lo com todo o respeito. Quando ia para lhe apertar a mão, ele não deixou. Não disse nem boa noite, nem boa tarde. Disse apenas: “Vi o teu ikyo e não gostei nada.” (Risos) E continuou, “A mão que vai ao cotovelo tem que ser muito suave.” Fez-me assim (realizando o gesto) e fui projectado dois metros, a voar pelo ar. Não senti nada. Só uma espécie de Sopro. Isto para mim é o Aikido. Agora, o que ele faz da vida ou não faz, se bebe ou não, a mim não me interessa. O que eu sei é que a minha referência do ikyo está ali.

  São mestres e temos que os respeitar. Eles sabem quem os respeita ou não. E quando eles vêem alguém que os respeita eles ensinam. É o tal ditado: “Quando o aluno está pronto, o mestre aparece.”

 82- Parece-me que as questões pessoais não são apenas para com a sua escola. Quando o Mestre Saito, talvez a pessoa que mais tenha partilhado da intimidade do Fundador, veio a Portugal, participou do seu estágio?

AP- Não fui. Mas vou dizer sinceramente porque não fui, vou explicar. Li que havia uma espécie de curso, para a pessoa que fosse almoçar com o Mestre Saito, aprender a respeitar a tradição e eu achei que isso era um exagero. Por exemplo, acompanhei o mestre de Yoga, Satchidananda, que é considerado um santo na Índia. Todos os anos percorre a Europa. Pratica Yoga desde os 14 anos e já tem 70 anos. E não fiz nenhum curso para estar com ele. Acho isso exagerado.

  Agora estive em Inglaterra com grandes mestres e não era só de Aikido, mas também de outras artes. Tinham muito poder e não tive curso nenhum. Estive lá a comer com eles, sempre com respeito.

83- Mas faz alguma ideia porque era preciso esse curso?

AP- Não sei.

84- Chegou a falar com alguém da organização sobre esse assunto?

AP- Basta ter esse curso para mim ... pronto. É uma crítica. Estou a ser sincero. Assim como estou a ser sincero quando digo que o Mestre Saito fez um trabalho fabuloso. Agora é que eu sei o que é fazer um livro. Aquela colecção é excepcional.

85- Agora há uma nova colecção, mais completa.

AP- Nós como alunos temos de os respeitar, estou-me a colocar do lado do aluno, é óbvio que tem que se respeitar o Mestre Saito. Mas não vou a estágios que me obriguem a ter um curso para almoçar. Não vou. Já conheci muitos mestres ao nível dele. Por exemplo, o Mestre Kobayashi era um grande, grande, mestre, muito forte.

86- Coloca o Mestre Saito ao nível dos outros mestres apesar do papel único que este teve na vida do Fundador?

AP- Sim, claro, eu coloco-os todos iguais. Por exemplo, o Mestre Tohei, segundo parece, foi o mais graduado de todos. Porque é que ele saiu do Aikikai?

87- Eu referi o estágio do Mestre em Saito em Portugal, para que se apercebesse que a valorização que reclama para o Mestre Stobbaerts, passa-se o mesmo com uma das principais personalidades mundiais de Aikido, já que é a pessoa que ficou encarregada de tomar conta do dojo, da casa do Fundador e do Santuário do Aiki, construído pelo Fundador para ser o centro mundial do Aikido.

AP- Eu estava a falar só de Portugal.

88- O Mestre Saito nem sequer recebeu a visita do Mestre Stobbaerts, ou de qualquer elemento oficial do Aikikai em Portugal. O próprio Mestre Tamura chegou a participar, treinando como qualquer outro praticante, em estágios do Mestre Saito.

AP- Quando o Mestre Saito veio a Portugal o ambiente não estava muito bom entre as várias escolas e, se calhar, o Mestre Stobbaerts não foi convidado da maneira mais correcta. Se calhar, não sei.

  O Mestre Stobbaerts foi um pioneiro em Portugal. Eu sei que ele chegou a passar fome para lançar o Aikido cá. Pouca gente passou fome aqui. Tinha de pagar o aluguer do Budokan e não tinha dinheiro. Ajudou muitas pessoas que viviam aqui no dojo e que, mais tarde, se voltaram contra ele. Muita gente. Antes do 25 de Abril foi tudo muito descontrolado. Nunca lhe foi reconhecido em Portugal o papel de pioneiro, nunca. Mas a nossa escola continuou mesmo sem o reconhecimento das outras. Todas as pessoas sabiam onde nós estávamos, todos conheciam o Mestre Stobbaerts, na altura. O Mestre agora está um pouco isolado, mas o nosso trabalho continua.

  Quando o Sr. Honda esteve cá, e isso eu assisti, é a única história em que posso dizer isso, foi falar com o Mestre Stobbaerts pela primeira vez e vinha de calções de banho, de praia. O que é que o Mestre Stobbaerts fez, disse-lhe boa tarde e adeus, que voltasse para a praia. Esta não é maneira de falar com uma pessoa. Na altura ainda houve quem dissesse que o Sr. Honda tinha feito isso porque era uma pessoa “porreira”, mas não, foi uma grande falta de respeito. Se vem vestido como um puto, então, é tratado como um puto.

89- Não lhe parece que este curso de etiqueta seria para ensinar as pessoas a estarem com um mestre, como reclamou da parte do Sr. Honda?

AP- Já conheci muitos mestres e foi a primeira vez que vi isso. Mas pronto, é o caminho dele. Respeito, mas não quero fazer parte. Não podemos fazer tudo ao mesmo tempo e temos que fazer escolhas que têm a ver com a personalidade de cada um. Provavelmente, vocês acham que as exigências do Mestre Stobbaerts, em relação aos seus alunos, são totalmente descabidas. O que eu acho normal vocês podem achar anormal e vice-versa. Tudo o que tenho dito é a minha opinião.

90- Esse curso não era nenhuma exigência do Mestre Saito, nada tinha a ver com ele. Gostaria de dizer mais alguma coisa?

AP- Gostaria de dar os parabéns à vossa escola. Tenho visto as vossas demonstrações e estão a evoluir. Por isso, os meus parabéns públicos. Conheço o Tristão da Cunha há muitos anos e sei que houve uma evolução muito positiva.

91- Muito obrigado.

Entrevista realizada em 9 de Setembro de 2000

Pedro Escudeiro

(C)Copyright, Pedro Escudeiro, 2002

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