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Muitas
são as interpretações feitas acerca dos efeitos do treino de Kata
para o desenvolvimento do praticante de Karate.
Para
alguns não passam de movimentos realizados com o objectivo de ganhar
taças, para outros uma obsessão por saber o maior número deles de
modo a mostrar o seu valor como karatecas e ainda há aqueles que não
percebem muito bem qual a sua finalidade para o treino.
Espero
que este artigo possa clarificar certos aspectos da prática dos Kata
que, para muitos de nós, permanecem num certo obscurantismo, tanto
devido ao desconhecimento desses aspectos por quem os ensina ou ainda a
tentativa de criação de uma aura da mistério em torno deles.
Considero
o Kata como uma representação de movimentos baseados em formas de
combater e que também visam o desenvolvimento dessas formas. Qualquer
pessoa com o mínimo de habilidade mental e conhecimento técnico
conseguiria construir um Kata, só que com a diferença, em relação
aos tradicionais, de provavelmente não cristalizar as formas de lutar
que outrora se mostraram eficientes, nem tão pouco ter a componente
medicinal muitas vezes evocada na construção dos mesmos pelos antigos
mestres (o Sanchin tradicionalmente tem uma componente medicinal
através do tipo de respirações e dinâmica corporal que utiliza).
Há
quem defenda que o Kata tem um propósito simples, não se baseando em
teorias complicadas ou propósitos transcendentes, sendo simplesmente
uma coesão de movimentos que os seus criadores utilizavam não só para
relembrar lições importantes mas também para criar conceitos
holísticos. Baseando-nos nesta hipótese, o Kata, quando aprendido por
si só, não tem utilidade em termos de defesa pessoal, sendo sim
utilizado como o culminar de lições importantes já aprendidas. Assim,
a tríade do Karate - Kihon, Kata e Kumite - não são conceitos
fechados, mas sim, situações práticas contíguas e comunicantes que,
opino eu, devem ter uma continuidade lógica durante o treino tendo
sempre como propósito a defesa pessoal.

Ilustração
1 - Kenwa Mabuni
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Desenvolvendo
a força interior através da prática de Kata.
Para
a sua correcta execução devemos seguir as seguintes regras:
1.
Eliminar as distracções externas e concentrar-se apenas na sua
intenção;
2.
Coordenar a respiração e sincroniza-la com a actividade
muscular. Quando se esticar o braço, expirar até parar, mas
conservar sempre 50% do ar. Deve-se ter a atenção de nunca
expirar todo o ar num só momento. Quando se inspira, o nosso
corpo torna-se leve. Quando expiramos, o nosso corpo fica
enraizado.
3.
Ouvir a respiração e ficar atento a todas as partes do nosso
corpo.
4.
Deve haver uma contracção muscular constante mas flexível nos
seguintes grupos musculares: deltóide, trapézio, grande
dorsal, dentados e peitorais.
5.
Para promover uma respiração diafragmática perfeita, a
espinha deve estar paralela ao estômago.
6.
As técnicas são executadas para a frente e para trás de modo
aos cotovelos tocarem na cintura.
Ao
compreender as normas físicas e metafísicas do duro e do suave
(ganrou em Mandarim e Goju em Japonês) temos de aprender que é
o balanço equitativo entre os dois que permite triunfar o maior
adversário de todos, nós próprios.
A
dureza representa a força material do corpo humano e a
agressividade de cada um. A suavidade representa a tranquilidade
do nosso carácter e a elasticidade em ceder perante uma
adversidade. Juntos, são atributos que se revelam através de
uma análise contínua e um compromisso genuíno.
Cada
um deve opor a força à flexibilidade e vice-versa. Todo o
movimento do corpo, incluindo a esquiva e as manobras evasivas,
deve ser executadas com uma respiração correcta. O corpo deve
ser flexível como um galho de salgueiro sujeito a uma ventania;
ele cede com a força do vento, mas quando esta termina, o galho
espontaneamente volta à sua posição inicial. Quando se inala
e o corpo se estica, ele parece uma onda gigante sem qualquer
resistência. No entanto, quando uma posição estável é
necessária e o ar é expelido dos pulmões enquanto se contrai
os músculos, ficamos estáticos, como uma montanha.
In
"Bubishi", Patrick McCarthy, 1995 |

Ilustração 2
- Choki Motobu
| O
Kata é um método ritualizado através do qual os segredos da
defesa pessoal são transmitidos de geração em geração. Cada
Kata representa uma miríade de cenários possíveis de defesa
pessoal - enganando-se pois aqueles que separam as técnicas de
Kata No Bunkai (aplicação do Kata) das técnicas de defesa
pessoal como se fosse algo de diferente - mas é mais do que uma
simples combinação de técnicas. Assim, cada Kata é uma
tradição única com princípios, estratégias e aplicações
distintas. A aplicação das formas são concebidas para o uso
em situações de defesa pessoal de vida ou morte e assim podem
ser usadas para controlar, magoar, mutilar ou mesmo matar
alguém quando necessário.
Um
segundo mas igualmente importante aspecto do Kata é a sua
utilidade terapêutica. Os vários paradigmas de imitação dos
animais e os padrões respiratórios foram utilizados para
melhorar a circulação sanguínea e a eficiência
respiratória, estimular a energia ki, estender e fortalecer os
músculos, fortalecer os ossos e tendões e massajar os órgãos
internos.
Executar
um Kata desenvolve igualmente a coordenação, utiliza esforço
de torção e promove a rotação da anca. Assim, vai permitir o
incremento da biomecânica de cada um e um desempenho óptimo
utilizando energia limitada. Através da regulação da
respiração e sincronizando-a com a expansão e contracção da
actividade muscular vamos promover a oxigenação do sangue e a
aprendizagem de como criar, conter e libertar a energia ki. O ki
pode levar a um considerável efeito terapêutico para o corpo,
quer interna quer externamente.
O
mestre Wu Bin do Instituto de Investigação do Gongfu Chinês
descreve o Kata como de importância vital para a mobilização
e guia da circulação interna de oxigénio, para o
balanceamento da produção de hormonas e para a regulação do
sistema nervoso.
Quando
se executa um Kata correctamente cada um deve promover a sua
energia corporal e não se cansar excessivamente. Quando em
posturas baixas, as costas devem estar direitas, os ombros
baixos, queixo para fora, pélvis puxada para cima, os pés
firmemente implantados e o corpo flexível de modo a que os
canais de energia possam ser plenamente abertos e os
alinhamentos apropriados cultivados.
O
grupo de alinhamentos únicos que são cultivados pelos Kata
ortodoxos permite a abertura dos canais do corpo permitindo que
a energia flua espontaneamente. O ki consegue assim
"limpar" o sistema nervoso e regular a função dos
órgãos internos. Em resumo, a prática regular dos Kata vai
desenvolver um corpo saudável, reflexos rápidos e uma técnica
eficiente, ajudando a preparar uma resposta mais efectiva para
situações potencialmente perigosas.
In
"Bubishi", Patrick McCarthy, 1995 |
Outro
aspecto importante quando falamos em Kata é a sua origem histórica. Eu
próprio durante a minha prática nunca tive acesso a esta e ao
propósito do Kata que praticava, criando em mim um vazio pois a sua
finalidade era "decorá-lo" para obter êxito em exame. Ao
conhecermos a história de um Kata apercebemo-nos das circunstâncias em
que foi feito, da sua origem, do seu trajecto, dos protagonistas, etc. o
que permite dar sentido a sua execução e conhecer o seu propósito na
altura em que foi criado. Além disso a sua história constitui um
estímulo positivo, ao saber que foi praticado por mestres que estão
separados de nós centenas de anos e em circunstâncias muito
particulares.
Infelizmente
hoje em dia a prática de karate passa muito por um aprendizagem
incorrecta dos Kata, segundo a minha opinião, não se objectivando a
sua componente prática e os pormenores que o constituem. Acredito que
um Kata precisa de ser trabalhado, surgindo para nós como uma pedra em
bruto que precisa de ser limada. Isto quer pela prática da forma
(execução do Kata) quer pela sua aplicação prática (Kata No Bunkai).
O ciclo muito característico - memorização/exame - tem de ser
quebrado e é preciso conceber nos alunos e em nós próprios
instrutores um conceito global, vendo cada técnica do bunkai como uma
situação que representa uma parte de um suposto combate real que
precisa de ser assimilada (e não decorada) e compreendida de modo a
surgir espontaneamente numa situação real.
A
finalidade é também muito importante, quando praticamos um Kata. Por
exemplo no Naifanchin é preciso ter consciência que cada subida e
descida da perna na posição naifanchin-dachi pode representar o
quebrar ou o luxar da perna ou joelho do adversário. Este facto deve
estar na nossa mente ao executá-lo, pois acredito que assim poderemos
compreender o verdadeiro sentido para que foi construído, além de
aperfeiçoar biomecanicamente a execução de tal movimento, já que
passamos a ter consciência do objectivo daquele acto.
| Outro
exemplo é o Kata Sanchin, que representa, segundo o seu nome, o
combate entre o corpo, a mente e o espírito. Deste modo apesar da
sua forma não ser muito complicada, o uso da correcta
respiração, contracção muscular e movimento durante o
condicionamento executado por um companheiro torna-o uma prova
muito dura de superar fazendo pleno uso das três componentes
acima mencionadas, derivando daí o seu nome - o Kata das três
batalhas.
Posto
isto podemos verificar que bastaram dois pequenos conceitos (o
conhecimento do porquê da subida e descida do membro inferior no
primeiro Kata e do significado do segundo Kata) para alterar o
nosso conceito dos mesmos e construir a unidade lógica que
constitui cada Kata.
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Ilustração 3
- Kenwa Mabuni executando o Kata
Sanchin |
Ilustração 4
- Anko Itosu |
Itosu
em 1908 numa das suas dez instruções (ver site) refere: A
propósito dos Kata de karate é necessário treinar-se
repetindo-os o mais possível. Mas é absolutamente essencial
conhecer o significado e a aplicação de cada técnica. É
necessário saber que existem numerosos ensinamentos orais
complementares aos Kata para as técnicas de ataque, de defesa, de
desprendimento e de agarrar. |
Enquanto
ensinava os seus estudantes e explicava as diferenças básicas entre as
escolas de Itosu e Higaonna, Kenwa Mabuni prestava uma maior atenção
aos Kata. Ele acreditava que os Kata, que combinavam técnicas de ataque
e de defesa, eram a parte mais importante do Karate-Do, e que era
necessário entender o significado de cada movimento e executá-lo
correctamente. Kenwa Mabuni foi o primeiro a introduzir o conceito do
Bun-kai Kumite e do Hokei Kumite, que demonstram o propósito e mostram
o uso correcto de cada Kata. O resultado final do treino apropriado do
Kata e Kumite é a possibilidade de aplicar as técnicas de karate-do no
Kumite livre. A prática do Kata também ajuda a transmitir os
conhecimentos em si codificados para a geração seguinte.
De acordo com Kenwa Mabuni o estudante ignorando o Kata e praticando
apenas Kumite, nunca irá progredir no Karate-Do e nem irá entender o
seu significado.
Taiji
Kase - 9º Dan de Karate-Do Shotokan-Ryu - conta que os mestres seniores
diziam que Yoshitaka Funakoshi (filho do pai do Shotokan - Gichin
Funakoshi), quando fazia um Kata, levava a assistência a perceber uma
sensação especial e uma tremenda impressão de perigo iminente. Isso
levava-os a dizer que era assim que se devia fazer os Kata. Também
segundo Kase, os que observam a execução de um Kata devem sentir e
notar algo que provêm das vibrações da nossa força interior e
determinação. Se os que observam não sentem nada, o Kata não está a
ser bem realizado, é como uma "ginástica ou baile".
Ao
analisarmos os três parágrafos precedentes que dizem respeitos a
afirmações de figuras de inegável respeito e conhecimento no universo
do karate, podemos concluir que a prática de Kata deve ser constante e
séria, que é de extrema importância para a defesa-pessoal e que a
forma de executá-lo deve transmitir o poder de quem o faz.
Gostava
de dizer que dou grande importância à prática correcta do Kata e
faço uma análise deste processo como um meio para atingir um objectivo
(a eficiência em combate real, melhoramento da condição física,
etc.) e não um fim por si só.
Nunca admirei um mestre por saber muitos Kata, pois quantidade nunca
significou qualidade. Mais importante é a sua capacidade humana e
técnica, que faz com que ao entra-rem no Dojo a sua presença se sinta
de imediato e que quando praticamos com eles ou os vemos em acção
constatemos o seu enorme potencial.
| Considero
que cada um de nós deve procurar a verdade daquilo que pratica e
não cair naquilo que o grande mestre "Bushi" Matsumura
(1809-1901) relata como:
Arte
marcial do intelectual - "pensamos em diferentes formas de
treino sem as aprofundar. Conhecemos numerosas técnicas mas a
prática é como uma dança sendo incapazes de as aplicar em
combate. Não se é melhor que uma mulher" (com todo o
respeito pelas mulheres acrescento eu).
Arte marcial do pretensioso - "agitamo-nos bastante sem
nos treinarmos realmente, portanto, falamos muitas vezes das
nossas façanhas gloriosas, causamos tumultos, desordens e
ofendemos os outros. Segundo as circunstâncias arriscamo-nos à
auto-destruição ou à desonra da nossa família". |

Ilustração 5
- "Bushi" Matsumura |
Assim
ele acrescenta - São inúteis as artes marciais do intelectual e do
pretensioso - valorizando apenas a arte marcial do budo.
Por
vezes quando treino com outros colegas vejo o quanto a prática do Kata
é banalizada (e se calhar por vezes por mim também), não havendo nem
a emoção nem a seriedade necessária para a sua prática, acabando-se
por cair numa análise superficial em vez de profunda e completa.
Espero
com este texto dar voz (com toda a humildade) a uma maioria silenciosa
que pratica karate e que por vezes atravessa um abismo de
desconhecimento em relação a arte que pratica.

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