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A isto lhe disse o Padre: «Se visseis huma embarcação sahida do
porto e que de necessidade havia de chegar a outro, em que tempo se
podião mais alegrar os passageiros: quando estivessem, no meio do
golfão, sugeitos aos ventos, ondas e tempestades; ou quando já se vissem
perto do porto, e que começavão a entrar pela barra para nelle
descansarem dos naufragios e tormentas passadas?» A isto disse Ningit:
«Padre, muito bem vos entendo, bem sei que naturalmente a vista do porto
hé mais aceita e alegre, aos que nelle hão-de entrar; mas, como eu athé
agora não estou determinado nem me tenho resolvido na distinção dos
portos, não faço fundamento no, como ou aonde, hei-de desembarcar». |
P. Luís Frois, S.J.
Historia de Japam
Mais
um barco negro em Cagoshima. Nesses enormes barcos atracavam estranhos homens,
bárbaros do sul, nós tão habituados aos chins, começou vindo chegando esta
nova qualidade de gente ao Japão, que a princípio assustou a população,
tomando-os por monstros, devido aos seus olhos em órbita, narizes tão
tremendos e tanta pelugem nas suas faces. Mas logo de seguida, nos apercebemos
naturalmente que era gente de bem, apesar da sua rudeza, e nos tornámos
curiosos por conhecer que traziam eles do canto do mundo. Mais um barco negro,
ali aportado na baía de Cagoshima, não mais podendo aproximar-se por ser tão
maior que o nosso porto, baleia de pinho com grandes troncos espetados e entre
eles enormes panos e cordas esticadas no ar por onde homens habilmente se fazem
transportar.
Boa
noite, meus senhores, minhas senhoras, lindas flores, em nome desta qualquer
coisa que transporto lhes venho aqui contar em tom de canção, ou cantarolar,
que é como quem não sabe a letra mas não desiste da melodia improvisando da
ignorância o tra la la, pois isto vos digo meus senhores e senhoras e
florzinhas, que não liguem às palavras desta canção mas sim à melodia, que
é muito mais bonita. Se a meio me esquecer das palavras, não levem a mal se
continuar cantarolando, em nome da música, até que me recorde do resto. O
importante, e repito-me, é não perder o fio da cantiga.
Aquilo
que lhes vou contar nunca passará do limite dos olhos e dos ouvidos de um pobre
que ninguém lembrará. Aquilo que me preparo para contar é o passar dos anos
sepultados na minha barriga. Tudo o que digo e tudo o que sou foi o que me
entrou por todos os orificios da minha pele.Tenha percebido ou não alguma coisa
daquilo que rodeou a minha vida. Seja bom ou mau intérprete dos tempos que
corriam. Somente calculo que o primeiro descendente da deusa do sol nunca deve
ter visto um barco negro como este. Para além disto, só sei que a terra e o
céu existem. Já o inferno não estou certo. A terra é por onde me desloco de
um lado para outro, o céu é para onde olho por temor de um tufão ou antes de
adormecer no verão. Agora essa coisa infernalesca que contam os namban com os
olhos todos arregalados não sei que seja por nunca a ter visto, embora me
tremam os ossos ao ouvir das suas bocas.
Chegou
um homem a quem chamavam padre mestre Francisco, de vestes e gorro preto, tão
apertadas ao seu corpo, que não sei como se movia, era apesar disso, de largos
gestos, com seus braços finos e compridos que muito usava de os elevar para
cima, olhando os céus onde afirmava viver tão grande glória desse kami.
Sustentava também que trazia uma verdade que nós outros deveramos de seguir
para sermos salvos dos terramotos. Foi um dos primeiros a ser tocado pela fé
deste bárbaro do sul o velho Yxenocamidono, que vivia num castelo a seis
léguas de Cagoshima. Mestre Francisco trazia lá dos confins a história de um
homem que afirmava ser o salvador do mundo e dizia que quem o não seguisse se
perdia, um homem, que podia para mim ser um Buda mas que chamaram de Crisuto, e
aos seus seguidores de crishutãos. Yxenocamidono contagiou a sua devoção aos
familiares e vizinhos. Por estes e outros trabalhos de fé mereceu este velho
mudar de nome, Agora chamas-te Miguel por graça de deus, disseram assim os
gestos um vertical outro horizontal do padre mestre. O nome Miguel significa
"Onde está deus", foi isso que foi explicado ao velho Yxenocamidono,
Teu nome é muito complicado e comprido, para além de ser gentio; serás
Miguel, porque desta terra obscurecida foste o primeiro a ver uma luzinha
rompendo e perguntaste "onde está deus". Assim recebeu o velho essa
luz e recomendou aos seus conhecidos que o passassem a chamar de
- Ó Miguel!
E na sua cabeça o que
ouvia não era o seu novo nome mas o significado, não ouvia chamar mas parecia
ouvir perguntar, quando ouvia, Ó Miguel, podia jurar que ouvia: Diz-me cá
Yxenocamidono onde está esse deus? E então ele respondia
- Está além,
venham comigo!
E levava uma enchente
de gente ao Padre Mestre Francisco, este deitando gestos ao seu papel, de
revelar a boa nova, de mostrar o caminho a essa questão: - Ó miguel!
- É por ali,
venham daí!
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Chegou
porém o dia em que o Mestre Francisco teve de partir, e o Miguel,
desolado chegou-se à sua beira e suplicou, Padrezinho, em não havendo
mezinhas nem remédios nesta terra, deixe cá alguma coisa sua, para curar
as enfermidades corporais, para dar alento, está a ver, um calor. Ao que
prontamente o padre respondeu tirando do intervalo de um e outro botão do
seu hábito, |
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Meu bom
Miguel, aqui te deixo esta pequena imagem de Nossa Senhora, pois crede que
qualquer pessoa cristã ou gentia que tome cinco açoites brandamente com estas
disciplinas, ficará livre de febres, se por ti meu filho for invocado os
santíssimos nomes de Jesus Maria. E assim dali em diante enfermos de diversas
partes foram concorrendo ao Miguel e, por divina virtude, através dele,
recebiam pois a saúde.
Passados
esses anos, como disse, o padre Francisco já em outras terras de Japão, muito
longe, já provavelmente esquecido do Yxenocamidono, pregando aos reis e
príncipes e às multidões que o ouviam, atirando os braços ao ar que deus é
misericordioso, que está nos céus, que quis baixar a sua mão clemente a este
lugar que por tão longo tempo se manteve escuro e quis revelar aos japões o
maravilhoso explendor da sua palavra...
...
o velho Miguel estava agora para morrer. Mas duas coisas nele não mudavam
nunca: a posição de sentado e a imagem da senhora ao pescoço. Alguém furtivo
se aproximou, com tom de averiguar em segredo se estava ainda vivo ou já era
morto, e sussurrando chamou,
- Ó Miguel...
Morto
não era, pois o velho agarrou-lhe o nariz com o polegar e o indicador,
fazendo-o varrer o chão com a cabeça numa meia lua, e a sua voz saiu da
barriga, da sepultura dos anos (oiçam!)
- Estou aqui!
E o
espião foi a correr de nariz a arder a gritar em súplica para quem o ouvisse:
- Encontrei
Deus, encontrei Deus!...
Ouviram
esta cantiga? Mas as palavras não interessam, é a melodia é a melodia. Eu por
mim nunca fui dado a esta fé, mas também nunca fui dado a outra, na verdade
não sou dado a grandes fés, vou caminhando, às vezes descalço outras vezes
de sandálias, mas gosto sempre de levar uma pedrinha na mão, como faço agora,
e por isso é que o meu punho está fechado.
Miguel
Castro Caldas
Escritor;
1º Dan de Karate-do Shotokai, Associação Shotokai de Portugal
(C)Copyright, Miguel Castro
Caldas, 1998


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