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PRÓLOGO Sob a
influência e incentivo de Nuno Figueiras, e baseando-me nas longas
conversas e trocas de ideias após os treinos no Dojo Murakami da Caparica,
passarei a publicar (sem compromisso J) semanalmente algumas dissertações
e divagações sobre o Karate-do Shotokai, tanto na sua vertente física como
metafísica. Conto com as críticas construtivas e opiniões de todos, e
especialmente com as vossas correcções e conselhos para este recente cinto
branco. Inicia-se assim um registo do caminho proporcionado por esta
fabulosa arte marcial: O Karate-do Shotokai.
28/11/04
"O teu ataque é para a parede, tudo o que está no caminho sofre as
consequências"
Nuno Figueiras
Imaginemos um quarto escuro. Queremos chegar ao outro lado do
quarto, mas não sabemos o que vamos encontrar no caminho. Segundo a
sensação adquirida no shotokai, o karateka deverá atravessar tudo no seu
caminho, inclusive a própria escuridão, sem qualquer tipo de receio.
"Fura a folha de papel com um tsuki"
Nuno Figueiras
Para o karateka, todo e qualquer obstáculo que cruze a linha de
ataque deve ser encarado como uma folha de papel. Devemos ter consciência
da possível existência de obstáculos sem os temer. Devemos desobstruir e
ocupar o espaço que nos separa do objectivo final.
03/01/05
Acertar um relógio de parede a dois metros e meio de altura sem o
conseguir, pode ser mais fatídico que 15 minutos a treinar Mae-geri. Se
não for pela frustração é pela dor nos ombros.
Treinar uma arte marcial é como escrever um longo texto com tinta
permanente. Se fecharmos o livro logo após escrever a primeira frase, a
tinta borra estragando uma folha e tornando-se imperceptíveis as palavras.
Se no entanto escrevermos todo o texto de uma vez, quando chegarmos ao
final sentiremos certamente a necessidade de o reler e corrigir as suas
imperfeições. Só depois de muitas leituras nos sentiremos bem com o que
escrevemos. Mas ainda assim a obra está inacabada. Podemos optar por
fechar o livro e estagnar no nosso entendimento, ou mostrar o que
escrevemos ao mundo, recebendo criticas e correcções, não só de escritores
mais experientes que nós próprios mas também daqueles que agora começaram
a aprender e seguem o nosso texto como um manual. Então faremos dessas
críticas e correcções aquilo que melhor entendermos.
05/01/05
Na escuridão surgem diversas questões. E algumas respostas. O escuro
é o ambiente ideal para ganhar certas sensações essenciais na prática do
Shotokai. Ao contrário do que somos levados a fazer inicialmente, devemos
concentrar os nossos sentidos para a criação de um sexto sentido que
reside na consciência sobre todos os corpos inertes à nossa volta,
baseando-nos apenas na actividade dos corpos não inertes e na sua
consequente libertação de energia.
O treino a solo obriga-nos a sentir o ambiente que nos envolve. Se
não o fizermos acabamos por socar a parede com as suas obvias
consequências, e ainda que o objectivo seja furar todos os obstáculos, uma
parede não deixa de ser uma parede. Neste caso, os corpos libertadores de
energia resumem-se ao mestre (a sua voz e os seus passos) e ao nosso
próprio corpo: O som dos nossos passos e da nossa respiração que mudam
quando nos aproximamos de outro corpo.
Em Ippon-Kumite as coisas mudam um pouco. Devemos tentar regularizar
a nossa respiração mesmo antes do ataque e da defesa. Devemos focar a
nossa atenção no oponente, sentir a sua respiração. Foi a primeira vez que
treinei na escuridão e após a escrita deste texto sou obrigado a confessar
que espero que haja algo mais na arte de "sentir o oponente" que apenas
escutar o seu barulho e a sua respiração, uma vez que qualquer destas
técnicas se revelam demasiado ineficazes face à velocidade de um ataque.
Mas de uma coisa tenho absoluta certeza: Temos de nos conseguir
sentir a nós mesmos antes de conseguir sentir seja o que for.
01/02/2005
Ontem o Nuno ostentava aquele sorriso sádico de quem se prepara para
sacrificar os seus alunos. Ostentava-o com um orgulho que só ele poderia
sentir perante a malvadez do seu plano. "Vamos fazer um simulacro de
exame" dizia ele. Nunca imaginei o exame tão puxado. Na primeira parte do
exame, após as cinco primeiras técnicas, o Mae-geri já se assemelhava a um
qualquer movimento de um indivíduo com problemas nos grandes glúteos.
Mas dou comigo a pensar, se não fossemos informados de que era um
simulacro de exame ficaríamos tão cansados? Afinal, nos treinos ditos
normais (que nunca o são) damos voltas e voltas ao dojo repetindo técnicas
até que estas
saiam minimamente bem. Será que a palavra "exame" drena energia do nosso
corpo, ou oxigénio do ar que respiramos? Em cinto branco acredito que esta
problemática seja pouco significativa, mas em graduações superiores (com
respectivos exames e respectivas dificuldades), manter a presença de
espírito e não deixar que a mente nos canse deve ser um trunfo de grande
importância. É melhor começar a trabalhar nesse aspecto, pelo sim e pelo
não.
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