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Não Consigo

 

 

Ensinaram-me os meus mestres[1], provavelmente porque os Mestres deles assim lhes tinham ensinado, que em Budo não se diz: “não consigo”.

E esta pequena frase, a tal que o nos proíbem até de pensar quanto mais de dizer, fui aprendendo a vê-la num duplo contexto:

Primeiro: que não se deve dizer “Desculpe mas não consigo!”, ou algo do género: “Não sou capaz! Jamais conseguirei fazer esse exercício”. Cedo aprendi quanto isso é errado. Há que tentar, tentar sempre e ao máximo. Assim procedendo, até pode ser que acabemos por chegar ao cume que antes parecia inacessível (ainda que o mais importante não seja a ultrapassagem do desafio mas sim o percurso para lá chegar).

Quem já treinou uma arte do Budo, mesmo que não seja muito experiente, já conhecerá certamente a importância de não usar a frase neste primeiro contexto. Lembro-me bem quando o meu Mestre me pediu que fizesse mae-geri passando com o pé por cima do braço dele, poisado sobre o meu joelho. Ao princípio o obstáculo parecia-me impossível de ultrapassar, mas calei-me e tentei. Na verdade ao fim de alguns meses já conseguia passar a barreira, mas logo depois ele passou a colocar o braço à altura do meu peito e, como já se adivinha, a fasquia não ficou por aí.

Porém, muitos daqueles que se habituam a não fazer uso da frase proibida neste primeiro contexto acabam por cair no erro de a usar num outro, dizendo: “você sabe que eu me esforço e que treino muito, até há quem diga que treino bem mas, com aquele parceiro ali... eu não consigo!”

Em determinada altura tive como alunos dois irmãos (cuja identidade eu não vou aqui revelar pelo respeito que ambos me merecem) que, em dado passo do seu percurso me vieram manifestar, cada um deles em separado, a seguinte preocupação em relação a um colega de treino, por sinal muito mais forte do que qualquer deles: “eu não consigo treinar com aquele indivíduo!”.

A ambos respondi o mesmo: “desculpe que lhe diga mas, se isso acontece o problema não é só desse aluno, é seu também”. Inicialmente creio que nenhum deles compreendeu totalmente o que eu queria dizer, insistiram que esse aluno não era um bom karateca e que eu haveria de perceber isso quando outros se queixassem do mesmo ou simplesmente desistissem de treinar por causa dele.

Um dos irmãos, fosse por essa razão apenas ou por qualquer outra, acabou de facto por se afastar. O outro porém, resolveu fazer um esforço interior e acabou por se conseguir harmonizar com o tal “colega difícil”. Hoje treinam muitas vezes juntos e respeitam‑se mutuamente.

É que neste segundo contexto quando um praticante diz para si mesmo, ou para os outros, a tal “frase proibida”, ele acaba por estar dizendo: “eu consigo treinar com todos menos com aquele adversário”.

Claro que esse praticante está a cometer um grande erro. Ele está a separar-se do seu principal adversário em vez de se aproximar dele. Procedendo desse modo jamais será capaz de se “tornar um” com ele seja em combate, seja na vida real. Inevitavelmente para se convencer de que o problema não é seu, encontrará no outro toda uma série de defeitos do tipo: “ataca torto”, ou “não é sincero”, ou “é traiçoeiro”...

Continuando a pensar desse modo, repetindo para si mesmo essa frase, mais e mais vezes, ele está, sem o saber, a derrotar-se à partida perante um adversário que não consegue enfrentar. Dito de outra forma, aquele adversário que ele rejeita está a derrotá-lo sem mesmo precisar de combater! E um adversário que nos derrota sem sequer precisar de combater não será um bom adversário?

Muitos são os karatecas que desistem porque não conseguem evitar dizer para si próprios “eu não consigo” quando um obstáculo difícil lhes é colocado. Mas a maioria consegue ultrapassar esta fase porque se trata apenas de fazer um apelo à competição, ainda que se trate de uma competição interior.

Pelo contrário o desafio de deixar de dizer para si próprio “eu com esta pessoa não consigo treinar” esse acaba por ser geralmente um repto tremendamente difícil de ultrapassar.

É que o praticante que alberga esse sentimento negativo perante um colega irá invocar para si próprio ou para o seu professor, razões das mais variadas que poderão ter a ver com justiça, honra, confiança, direitos individuais, etc. Quanto mais inteligente for mais e melhores justificações encontrará.

Não obstante, em última análise, o praticante terá de erradicar do seu espírito esse sentimento de divisão entre ele e o outro porque quem recusa treinar com um adversário porque não gosta dele ou dos seus métodos não está a praticar Do. Poderá continuar a vestir com empenho o seu gi mas, de facto, saiu do caminho que o leva ao entendimento do seu semelhante e enveredou por um atalho que aponta para o egoísmo e para o isolamento.

O seu professor, os seus companheiros devem ajudá-lo a ultrapassar esse bloqueio, usando de muito tacto, pois que os bloqueios físicos são muito mais fáceis de eliminar que os bloqueios mentais. Muitos destes só os abandonamos na nossa última viagem.

Mas, deixem-me dizer-lhes com franqueza:

- Vale a pena o esforço, vale a pena tentar.

É que às vezes quando de tanto esperar já desesperamos, a transmutação manifesta-se sem que saibamos quando aconteceu.

Um belo dia sucedeu-me que, não um, mas quatro ou cinco dos meus alunos, assumiram querer praticar com colegas que antes tinham o rótulo de inimigos. Nesse dia eu senti claramente que os perdera como discípulos para os ganhar como mestres e companheiros e, confesso, tive até a tentação de os deixar chamar-me “Mestre”... Mas claro que no meio de uma lágrima de alegria só pude rir-me da minha enorme pretensão.

Bem melhor seria que passassem a tratar-me por tu.

José Patrão, 2001-11-18


[1] Refiro-me não ao meu único Mestre – Tetsuji Murakami – mas aos meus mestres mais próximos, todos aqueles que contribuíram directamente para a minha evolução no dojo.

 


© Copyright, José Patrão, 2001 - 2003

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