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Centro de Artes Orientais www.cao.pt


 

AUTO-DEFESA PARA... JORNALISTAS

 

AS PERGUNTAS

(Alexandra)

Olá,


Sou estudante do terceiro ano de jornalismo da puc-campinas e estou fazendo um trabalho sobre violência contra a mulher.

Gostaria da ajuda de vcs para que eu possa entender melhor a defesa pessoal.


Obrigada pela atenção

 

1 - O que é a defesa pessoal (breve historico)

2 - Qual o tempo de duração, e quanto custa um curso em
média?
3 - Existe a necessidade de atualização? A mulher já sai
do curso totalmente preparada?
4 - A defesa pessoal está ligada diretamente a alguma arte
marcial ou luta?
5 - O número de mulheres praticantes aumentou? (Em
quanto, há quanto tempo?)

6 - Qual o maior medo das mulheres que procuram? (estupro, violência urbana, assalto..)

7 - Explique como é possível o uso de armas
alternativas, , canetas, cartões...

 

E AS RESPOSTAS

(José Patrão)

 

A sociedade moderna, com a sua quase ilimitada presteza em destruir vidas humanas para fins políticos e económicos,

pode-se defender melhor da elementar questão humana de seu direito a proceder assim

pela admissão de que a destrutividade e a crueldade não são engendradas pelo nosso sistema social, mas qualidades inatas no homem.

(...) os caçadores primitivos são relativamente destituídos de agressividade comparados aos seus irmãos civilizados.

(...) as pinturas das cavernas associadas à vida dos caçadores pré-históricos não exibem lutas entre os homens.

(...) Embora o acto de duelar, de lutar com espadas e a arte de atirar com arco se tenham desenvolvido

a partir da necessidade de matar o inimigo na defesa ou no ataque,

a sua função original tem sido quase completamente esquecida, e passaram a ser expressão de arte.

Essa arte é praticada, por exemplo, na luta de espadas do Zen-Budismo (...)

Identicamente, entre as tribos primitivas vemos frequentemente lutas que parecem ser uma ampla exibição de perícia

e só em pequena escala demonstração de agressão e de destrutividade.

Erich Fromm, Anatomia da Destrutividade Humana

Cara Alexandra:


Muito obrigado pela sua consulta.


Embora seja certo que, indirectamente, muitas das artes que estudamos e divulgamos podem ser (e não raramente são mesmo) utilizadas como meios de defesa pessoal, como por exemplo: o Karate, o Judo, o Aikido e o Kung Fu, devo dizer-lhe que a filosofia de nosso Centro não tem a ver directamente com o tema "Defesa Pessoal", mas sim com outra forma de entender as artes marciais.

Na verdade a nossa forma de entender as artes marciais tem muito a ver com o desenvolvimento pessoal do praticante na sua totalidade/integridade, abrangendo, nomeadamente, os aspectos: físico, mental, social e mesmo espiritual.

O objectivo principal de nossa prática não é, pois, a defesa pessoal entendida na sua forma mais superficial, mas sim outra forma mais profunda de "defesa pessoal" como poderá aperceber-se ao ler o artigo de Mestre Humberto Heyden publicado na Revista Surya Online - "Karate-do como Defensa" - clicando sobre este link: http://www.cao.pt/surya/hh_0_1s.htm.

Respondendo agora às suas perguntas, muito objectivas e directas acerca de defesa pessoal para mulheres, a minha opinião pessoal como praticante de Karate-do há cerca de 30 anos e professor da mesma arte há 24 anos, é que ensinar a uma mulher alguns "truques" de defesa pessoal durante algumas semanas ou meses, pode ser muito perigoso para ela própria. De facto, isso poderá dar-lhe uma falsa noção de segurança a qual, numa situação de confronto real, pode conduzir a resultados opostos aos que a levaram a procurar a defesa pessoal.

É certo que certas forças (por exemplo as polícias de intervenção) aprendem seriamente tais técnicas, normalmente com mestres de artes marciais bem habilitados para o efeito. A diferença, e isso é muito importante, é que essas pessoas estão "autorizadas" oficialmente pela sociedade a fazê-lo, em situações extremas e, o que é não é menos importante, essas pessoas "sentem-se" autorizadas para o fazer.

Pelo contrário uma pessoa que aprenda superficialmente auto-defesa com falsos mestres de artes marciais que pedem fortunas por cada aula (infelizmente essa é a regra e não a excepção) será induzida a utilizar essas técnicas de modo indiscriminado numa situação crítica, ou supostamente crítica. Isso poderá conduzir a resultados desastrosos quer no atacante quer, por retaliação deste, na pessoa atacada.

Quanto às capacidades de auto-defesa que uma mulher pode adquirir ao estudar seriamente uma arte marcial durante muitos anos, com um bom mestre, posso dizer-lhe que é tremenda. Mas não tanto através dos "truques técnicos" que aprendeu.

O que de mais importante se aprende, na minha opinião, tem a ver com a capacidade de antecipar e consequentemente evitar situações de perigo. Uma mulher pode aprender a "sentir" o perigo nos gestos, no modo de caminhar, ou no simples olhar de uma pessoa que se aproxima.

Ela pode também habituar-se a evitar situações de perigo potencial, como uma rua mal iluminada, ou um bar mal frequentado, simplesmente porque se habituou a ver a vida como uma "luta" e não como "um mar de rosas".

Finalmente numa situação de contacto directo (pega, imobilização, ou intimidação com o uso de uma arma), essa mulher estará mais habituada a reagir com sangue frio, neutralizando uma situação potencialmente perigosa e colocando o adversário numa posição de desvantagem.

A minha mulher, que nunca praticou defesa pessoal através do Karate, já evitou por duas ou três vezes situações potencialmente muito perigosas mantendo essa presença de espírito e sangue frio e usando como única técnica simplesmente palavras. A minha mulher é psicóloga.

 

Para terminar digo-lhe, muito sinceramente, que na generalidade dos casos um bom spray lacrimogéneo utilizado por uma senhora de 60 ou 70 anos, poderá ser muito mais eficaz numa situação de defesa pessoal contra um assalto, ou tentativa de estupro, do que uma série de técnicas aprendidas superficialmente numa escola de defesa pessoal por uma mulher, mesmo que esta seja ainda uma jovem.

(Além disso o spray será incomparavelmente mais barato.)

O problema não está na "arma", ou "truque" que se usa para a auto-defesa - seja ele um spray, uma técnica de karate, um grito, ou simplesmente palavras - a dificuldade está no treino da atitude de sangue-frio e presença de espírito para enfrentar uma situação de perigo real ou potencial.

Assim, se uma mulher não nasceu com esse "sexto-sentido", ou se não teve possibilidade de o aprender numa favela, receio que tenha de contar com largos anos de prática antes de se poder considerar habilitada a considerar-se alguém realmente capaz de se auto-defender.


Peço-lhe desculpa se a desiludi nas respostas mas esta é, sinceramente, a minha opinião pessoal.

Sendo este um tema que muito me interessa gostaria bastante de acompanhar a evolução da sua investigação e, se possível, os resultados, do seu trabalho.

Com os melhores cumprimentos

José Patrão

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