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Cara
Alexandra:
Muito obrigado pela sua consulta.
Embora seja certo que, indirectamente, muitas das artes que estudamos e
divulgamos podem ser (e não raramente são mesmo) utilizadas como meios
de defesa pessoal, como por exemplo: o Karate, o Judo, o Aikido e o Kung
Fu, devo dizer-lhe que a filosofia de nosso Centro não tem a ver
directamente com o tema "Defesa Pessoal", mas sim com outra
forma de entender as artes marciais.
Na
verdade a nossa forma de entender as artes marciais tem muito a ver com
o desenvolvimento pessoal do praticante na sua totalidade/integridade,
abrangendo, nomeadamente, os aspectos: físico, mental, social e mesmo
espiritual.
O
objectivo principal de nossa prática não é, pois, a defesa pessoal
entendida na sua forma mais superficial, mas sim outra forma mais
profunda de "defesa pessoal" como poderá aperceber-se ao ler
o artigo de Mestre Humberto Heyden publicado na Revista Surya Online -
"Karate-do como Defensa" - clicando sobre este link: http://www.cao.pt/surya/hh_0_1s.htm.
Respondendo
agora às suas perguntas, muito objectivas e directas acerca de defesa
pessoal para mulheres, a minha opinião pessoal como praticante de
Karate-do há cerca de 30 anos e professor da mesma arte há 24 anos, é
que ensinar a uma mulher alguns "truques" de defesa pessoal
durante algumas semanas ou meses, pode ser muito perigoso para ela
própria. De facto, isso poderá dar-lhe uma falsa noção de segurança
a qual, numa situação de confronto real, pode conduzir a resultados
opostos aos que a levaram a procurar a defesa pessoal.
É
certo que certas forças (por exemplo as polícias de intervenção)
aprendem seriamente tais técnicas, normalmente com mestres de artes
marciais bem habilitados para o efeito. A diferença, e isso é muito
importante, é que essas pessoas estão "autorizadas"
oficialmente pela sociedade a fazê-lo, em situações extremas e, o que
é não é menos importante, essas pessoas "sentem-se"
autorizadas para o fazer.
Pelo
contrário uma pessoa que aprenda superficialmente auto-defesa com
falsos mestres de artes marciais que pedem fortunas por cada aula
(infelizmente essa é a regra e não a excepção) será induzida a
utilizar essas técnicas de modo indiscriminado numa situação
crítica, ou supostamente crítica. Isso poderá conduzir a resultados
desastrosos quer no atacante quer, por retaliação deste, na pessoa
atacada.
Quanto
às capacidades de auto-defesa que uma mulher pode adquirir ao estudar
seriamente uma arte marcial durante muitos anos, com um bom mestre,
posso dizer-lhe que é tremenda. Mas não tanto através dos
"truques técnicos" que aprendeu.
O
que de mais importante se aprende, na minha opinião, tem a ver com a
capacidade de antecipar e consequentemente evitar situações de perigo.
Uma mulher pode aprender a "sentir" o perigo nos gestos, no
modo de caminhar, ou no simples olhar de uma pessoa que se aproxima.
Ela
pode também habituar-se a evitar situações de perigo potencial, como
uma rua mal iluminada, ou um bar mal frequentado, simplesmente porque se
habituou a ver a vida como uma "luta" e não como "um mar
de rosas".
Finalmente
numa situação de contacto directo (pega, imobilização, ou
intimidação com o uso de uma arma), essa mulher estará mais habituada
a reagir com sangue frio, neutralizando uma situação potencialmente
perigosa e colocando o adversário numa posição de desvantagem.
A
minha mulher, que nunca praticou defesa pessoal através do Karate, já
evitou por duas ou três vezes situações potencialmente muito
perigosas mantendo essa presença de espírito e sangue frio e usando
como única técnica simplesmente palavras. A minha mulher é
psicóloga.
Para
terminar digo-lhe, muito sinceramente, que na generalidade dos casos um
bom spray lacrimogéneo utilizado por uma senhora de 60 ou 70
anos, poderá ser muito mais eficaz numa situação de defesa pessoal
contra um assalto, ou tentativa de estupro, do que uma série de
técnicas aprendidas superficialmente numa escola de defesa pessoal por
uma mulher, mesmo que esta seja ainda uma jovem.
(Além
disso o spray será incomparavelmente mais barato.)
O
problema não está na "arma", ou "truque" que se
usa para a auto-defesa - seja ele um spray, uma técnica de karate, um
grito, ou simplesmente palavras - a dificuldade está no treino da
atitude de sangue-frio e presença de espírito para enfrentar uma
situação de perigo real ou potencial.
Assim,
se uma mulher não nasceu com esse "sexto-sentido", ou se não
teve possibilidade de o aprender numa favela, receio que tenha de contar
com largos anos de prática antes de se poder considerar habilitada a
considerar-se alguém realmente capaz de se auto-defender.
Peço-lhe desculpa se a desiludi nas respostas mas esta é,
sinceramente, a minha opinião pessoal.
Sendo
este um tema que muito me interessa gostaria bastante de acompanhar a
evolução da sua investigação e, se possível, os resultados, do seu
trabalho.
Com
os melhores cumprimentos
José
Patrão |