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A
não-violência
não
consiste em abster-se de toda a espécie de combates reais
perante
a maldade.
Pelo
contrário,
vejo
na não-violência uma forma de luta
mais
enérgica e mais autêntica que a mera lei de Talião...
Mahatma
Gandhi
Introdução
O
nosso amigo Pedro Escudeiro da Associação de Aikido Aiki-Shuren Dojo
pediu-nos que respondêssemos a uma série de perguntas acerca do
significado do termo Shotokan e das diferenças entre os métodos
de ensino e prática do Karate-do preconizados por Funakoshi O-Sensei e
os métodos utilizados hoje pelas diversas escolas que se consideram
titulares da sigla Shoto.
Na
verdade é muito raro que alguém pertencente à Shotokai aceda
responder a esse tipo de perguntas. Porquê?...
Penso
que a razão desse silêncio se fique a dever não tanto ao
desconhecimento da verdade dos factos históricos e actuais - já que,
neste momento, eles estão bem estabelecidos e documentados - mas sim à
consciência das hostis reacções defensivas que a simples menção
desses factos provoca, sobretudo nos praticantes de Karate competitivo,
e aos acesos conflitos verbais que se seguem e que, não raramente,
induzem um maior afastamento entre os membros da família Shoto.
Funakoshi
Gichin O-Sensei[1]
foi o grande pioneiro da divulgação do Karate-do fora da sua ilha
Natal de Okinawa dedicando a integridade da sua vida à divulgação
dessa arte e imprimindo-lhe um tremendo impulso inicial. Os seus
seguidores constituíram, ao longo de quase todo o século vinte, a mais
vasta família a nível mundial, contando hoje com milhões de
praticantes, repartidos por centenas de milhar de dojo's. O-Sensei,
porém, sempre se recusou a apelidar de Ryu (escola, estilo) a arte que
ensinava. Ele pretendia que o Karate-do se assumisse como uma arte
única, em que as múltiplas técnicas e métodos pedagógicos fossem
entendidos sempre como riqueza e nunca como fonte de divisão.
Em
homenagem ao espírito unificador de Funakoshi O-Sensei desejável seria
que os seus sucessores mais directos soubessem dar – noblesse
oblige – um forte exemplo de coesão e espírito de grupo.
Todavia, nas quatro décadas que mediaram entre a sua morte e o dealbar
do século XXI, a hostilidade tem sido regra em vez de excepção.
E,
se excepção houve, então a Shotokai tem sido essa excepção.
Recusando o mediatismo e a adesão às modas passageiras (tais como a
competição como forma de motivação dos mais jovens, ou a inflação
dos dan’s como forma de promoção de ambições pessoais) a Shotokai
tem fugido de tal modo das luzes da ribalta que chega a pecar por
excesso de humildade.
Dito
de outra forma, mais simples e directa: os membros da Shotokai hesitam
em revelar a crueza simples e incómoda dos factos, para não provocar
hostilidade.
Se
me permitem uma analogia final, poderíamos compará-la à verdade sobre
o consumo excessivo de açúcar e dos seus malefícios sobre a saúde.
Apesar de se tratar de uma verdade bem estabelecida e documentada,
quantos de nós estamos predispostos a proclamá-la, ou mais ainda, a
praticar uma redução do consumo, quando a televisão, as rádios, as
revistas e os jornais nos convidam, explícita ou subliminarmente, a
fazê-lo?
Pelo
nosso lado optámos por responder com franqueza às perguntas colocadas,
adoptando tanto quanto possível a posição de um dos mais fervorosos
militantes da não-violência neste século, a qual serviu de lema a
este artigo. Afinal, o combate contra a “verdade” estabelecida,
quando esta é falsa, não é menos duro que o combate contra a maldade
institucionalizada.
Porque
se associa o termo Shotokan ao Karate, dito, competitivo?
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Shoto
era o pseudónimo que Funakoshi Gichin O-Sensei usava para assinar
os seus poemas.
Amante
das coisas simples e naturais, maravilhava-se, na sua juventude,
com o ondular dos pinheiros batidos pelo vento marítimo nas
vertentes dos montes onde se erguia o castelo de Shuri. Foi essa
imagem da sua ilha natal de Okinawa que lhe inspirou o pseudónimo
Shoto, o qual pode ser traduzido literalmente como "o
pinheiro e o mar” e mais poeticamente como o "ondular dos
pinheiros". |
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Vejamos
agora como surgiu, e porque foi apenso, o sufixo Kan.
Em
1935 os alunos mais antigos de Funakoshi O-Sensei criaram uma fundação
em honra do seu Mestre a qual tinha como primeiro objectivo reunir
fundos para a construção de um dojo.
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Em
1938 no dia em que, pela primeira vez depois das obras de
construção
estarem
completamente prontas, o Mestre franqueou o portão de entrada,
virou-se
para a direita para contemplar o belíssimo dojo e deparou-se
com
uma inscrição escrita em caracteres brancos numa placa colocada
sobre
o alpendre de entrada - Shotokan.
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| Essa
expressão pode ser traduzida de uma forma simples por “Casa
Shoto”, mas é provável que o sentir dos alunos na altura
exigisse uma tradução mais formal – “o Paço de Shoto”.
Na
sua localização original, o Shotokan situava-se no bairro de
Toshima, em Tóquio, um pouco a Norte da célebre Universidade de
Waseda. Tendo sido o primeiro dojo a ser erigido para a prática
do Karate no Japão e pertencendo ao homem que 16 anos antes, em
1922, introduzira a sua prática na ilha central do Japão,
compreende-se que se tenha tornado praticamente um local de culto
para todos os karateca’s dessa época e das gerações
seguintes. |
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Progressivamente,
e por mera associação de ideias, os mestres primeiro, depois os
alunos, passaram a ser conhecidos como os homens do Shotokan e o
comité originalmente criado em 1935 para a recolha de fundos para a
construção do dojo, que geriu depois a construção da obra, iniciada
em 1936 e que, em Julho de 1939, promoveu a sua inauguração formal
perante as mais altas individualidades da época, passou a ser conhecido
por Shotokai – expressão que pode ser traduzida
simplesmente por “Associação (de amigos) de Shoto” ou, de modo
mais formal, por “Fundação Funakoshi”[2].
Esta associação era composta pelos alunos mais antigos de Funakoshi
O-Sensei – com destaque para o seu terceiro filho Funakoshi Yoshitaka,
Saigo Kichinosuke, Obata Isao, Egami Shigeru e Hironishi Genshin.
No
decorrer da leitura das respostas às questões seguintes
compreender-se-á porque se passou a associar o termo Shotokan a
uma das formas de Karate competitivo e Shotokai à outra forma de
Karate que se aproxima muito mais da filosofia e prática do Budo.
De
onde partiu esta distinção? É posterior à morte de Funakoshi Sensei?
Vimos,
acima que, na origem, as palavras “Shotokan” e “Shotokai” eram
praticamente sinónimas, referindo-se uma ao local e outra à
organização. De facto, a distinção entre os termos Shotokai e
Shotokan aconteceu após a morte de Funakoshi O-Sensei.
Vejamos
então como começou a germinar em determinada altura no seio do
Karate-do de Funakoshi O-Sensei uma corrente competitiva e porque acabou
esta corrente por se autonomizar posteriormente, tornando-se muito
popular a nível mundial com a designação de Shotokan.
| No
dia 10 de Março de 1945, ocorreu o mais intenso bombardeamento de
Tóquio pelas tropas aliadas. O Shotokan e a residência de
Funakoshi O-Sensei foram completamente destruídos. Poucos meses
depois, em 24 de Novembro de 1945 realizava-se o funeral de
Yoshitaka Funakoshi Sensei: com apenas 39 anos de idade, que
acabaria por sucumbir não só à doença respiratória que há
muitos anos o perseguia mas, também, à tremenda dor que a
destruição da obra de seu pai lhe provocara.
Desde
1934 [3]
que Yoshitaka Funakoshi Sensei vinha desenvolvendo, um trabalho
verdadeiramente excepcional no domínio do desenvolvimento da arte
que o seu pai lhe ensinara. O jovem Gigo [4],
consciente de que a tuberculose não lhe permitiria uma vida
longa, empenhara-se de alma e coração no desenvolvimento da arte
que aprendera de seu pai: |
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- No
Kihon (fundamentos ou técnica de base) não só transformou todas
as posições originais, baixando o centro de gravidade e aumentando
a fluidez e a amplitude, como introduziu novas posições de base[5],
adoptando ainda pontapés desconhecidos (ou esquecidos) do
Okinawa-te[6];
- Nos
Kata’s (formas de base) efectuou, encorajado por seu pai, visitas
a vários Mestres de Okinawa recolhendo variantes de Katas
conhecidos[7]
e outros virtualmente desconhecidos.
- Finalmente,
na área do Kumite (combate) introduziu métodos novos de combate,
que logo captaram o entusiasmo dos praticantes mais jovens, com
destaque para o jiyu-ippon kumite e o jiyu-kumite[8].
Mais
ou menos espontaneamente surgiram os chamados “kokangeiko”[9],
treinos de intercâmbio universitário que começavam como sessões de
jiyu-kumite nos ginásios de karate das universidades e que, muito
frequentemente acabavam no hospital local.
O-Sensei
e os seus mais directos seguidores – designados pelos estudantes por
“old-boys” e conotados com o grupo Shotokai – criticavam e
desencorajavam liminarmente estas manifestações, dado que os acidentes
que provocavam, nisso todos estavam de acordo, em nada contribuíam para
dignificar a imagem pública do Karate-do.
Tal
estado de coisas levou O-Sensei Funakoshi a proibir, a partir de 1940, a
prática de jiyu-kumite por verificar que, em parte devido ao fervor
nacionalista e também pelo desejo de competição, essa prática
induzia a um espírito de violência contrário à essência do Budo.
Todavia,
os anos do pós-guerra vieram reacender no coração dos jovens
universitários o espírito dos kokangeiko. A coragem demonstrada em
toda a sua curta vida por waka-sensei[10]
e a sua dramática morte[11],
tinham-no tornado um modelo carismático que preenchia o “vazio de
alma” de uma hoste de jovens japoneses que, no final dos seus cursos
procuravam desesperadamente uma saída do desemprego e da falta de
alternativas do pós-guerra.
Por
outro lado, as forças de ocupação americanas começavam a
aperceber-se das vantagens pacificadoras de uma simbiose com os seus
ex-inimigos e começaram a organizar demonstrações e cursos de
Karate-do, Judo e Aikido para a força-aérea americana[12].
Dessa cooperação, que teve o seu apogeu entre 1948 e 1953, nasceria
não só um genuíno interesse nas artes marciais japonesas por parte
dos militares americanos, mas também uma grande curiosidade e
admiração pelas metodologias pedagógicas e teorias de treino
desportivo ocidentais por parte de alguns karateca’s japoneses.
Nakayama
Masatoshi Sensei[13]
foi um dos karateca’s que melhor corporizou o espírito da época.
Descendente de uma família de samurais, formara-se pela universidade de
Takushoku[14],
onde aprendera modernas técnicas de negócios e gestão comercial e
completara os seus estudos na China.
Quando
Funakoshi O-Sensei e os homens da Shotokai decidiram fundar em Maio de
1949 a “Nihon Karate Kyokai”(NKK)[15],
chamando uma vez mais o prestigiado Saigo Kichinosuke para a
presidência da organização, numa derradeira tentativa para reunir o
Karate sob a égide de uma única entidade, Nakayama Sensei foi um dos
homens escolhidos para a organização operacional da Associação,
juntamente com Kimio Itoh Sensei e Nishiyama Hidetaka Sensei.
As
perspectivas próprias de desenvolvimento do Karate por parte destes
líderes levaram-nos a investigar a possibilidade de abrir a prática do
Karate ao grande público, como um produto de grande consumo. Em 1955 a
NKK decidiu abrir o primeiro dojo com uma perspectiva claramente “comercial”[16]
numa sala do edifício do Centro de Cinema de Kataoka, em Tóquio. Em
Agosto de 1956 completara um conjunto de regras de competição
destinadas a permitir a competição desportiva de Karate, sem por em
causa a integridade física dos competidores.
À
medida que os Dojo’s afectos à organização se expandiam junto do
grande público, o nome oficial da NKK ficava associado aos homens do
Shotokan.
As
personalidades que originalmente tinham criado o comité fundador do
Dojo Shotokan e que foram também os fundadores da NKK, cedo deixaram de
se rever nessa organização e começaram a tecer profundas críticas
internas, acerca do seu funcionamento e filosofia que consideravam
contrários aos do verdadeiro Budo.
Muitos
deles decidiram desde logo abandonar a NKK. Assim, num primeiro momento
em 1950, por iniciativa de Isao Obata, é fundada a “Liga Japonesa de
Karate Universitário” que recusa a perpectiva desportiva e comercial
do Karate. Posteriormente, em 1956, tendo como presidente o próprio
Funakoshi O-Sensei formaliza-se a organização que espiritualmente
existia desde há 30 anos, a “Nihon Karate-do Shotokai”.
A
26 de Abril de 1957 morre Funakoshi Gichin O-Sensei.
A
família decide que a organização do funeral ficará a cargo da Nihon
Karate-do Shotokai. A Nihon Karate Kyokai, por seu lado, uma vez que
não lhe foi atribuída a organização do funeral do mestre recusa-se a
participar nas cerimónias fúnebres.
Funakoshi
O-Sensei era um entusiasta da competição?
A
resposta formal e directa a esta pergunta foi já dada por dois homens
que embora partilhassem um sonho comum – o desenvolvimento da prática
do Karate a nível mundial – possuíam pontos de vista diferentes
quanto ao método a utilizar.
| Na
introdução à segunda edição do seu mais famoso livro “Karate-do
Kyohan”, em 13 de Outubro de 1956, Funakoshi Gichin O-Sensei
escreveu:
“(...)
Em resultado da desordem social que surgiu no final da Segunda
Guerra Mundial, o mundo do karate dispersou-se, tal como muitas
outras coisas. Aparte o declínio do nível técnico desses
tempos, não posso negar que houve momentos em que tomei
dolorosamente consciência do quase irreconhecível estado de
espírito a que se chegou, face aquele que existia nos tempos em
que eu introduzi pela primeira vez e comecei a ensinar karate.
Embora se possa argumentar que tais mudanças não são mais que o
resultado natural da expansão do Karate-do, não é óbvio que se
possa contemplar tal resultado com regozijo em vez de apreensão. |
 |
É,
pois, com um sentimento misto de alegria e remorso que eu tenho
observado e tentado providenciar uma melhor direcção para o curso do
mundo do karate, e sinto dificuldade em calcular qual será a
influência que eu ainda possa ter perante tamanha força de corrente.
(...)”
Numa
entrevista dada em 1982 Nakayama Masatoshi Sensei, que após a saída de
Saigo Kichinosuke Sensei da NKK assumiu a presidência daquela
organização até à sua morte, afirmou:
“(...)
Sabe, antes da morte de Mestre Funakoshi eu comecei a investigar no
sentido de desenvolver torneios, ou karate desportivo. Mas quando eu
pedi conselho a Funakoshi Sensei ele recusou-se a comentar. Ele estava
preocupado, sabe, que os torneios se tornassem demasiado populares e
que, então, os estudantes começassem a afastar-se dos princípios
básicos e que praticassem unicamente competição. (...)”
Será
que podemos associar o Karate Shotokai à denominação tradicional?
Nesse caso, onde se insere o chamado Karate Shotokan Tradicional?
Para
que cada um possa tirar as suas próprias conclusões apontemos alguns
factos:
- a
Shotokai foi criada em 1935 pelos alunos mais antigos e prestigiados
de Funakoshi O-Sensei para a construção do Dojo Shotokan;
- em
1956, após a publicação das regras de competição pela NKK,
Gichin Funakoshi e esses mesmos alunos formalizam, notarialmente, a
Nihon Karate-do Shotokai, com vista à defesa dos valores essenciais
do Karate-do (Karate como Budo);
- quando
do funeral de Gichin Funakoshi O-Sensei, a família Funakoshi
atribuiu à Nihon Karate-do Shotokai a responsabilidade da
organização das cerimónias fúnebres;
- em
1998 tivemos a honra de participar, em Tóquio, nas cerimónias do
130º aniversário do nascimento de Gichin Funakoshi O-Sensei, as
quais coincidiram com as cerimónias do 60º aniversário do Dojo
Shotokan; essas cerimónias foram, obviamente, organizadas pela
Nihon Karate-do Shotokai;
- a
Nihon Karate-do Shotokai é a proprietária do Dojo Shotokan,
posteriormente reconstruído em Shibaura, Tóquio;
- a
utilização do nome “Shotokan” só pode ser oficialmente
concedida pela Nihon Karate-do Shotokai (embora a prática demonstre
que, pelo mundo fora, esse nome passou a ser usado
indiscriminadamente por uma série de associações e federações,
nacionais e internacionais);
Para
respondermos agora à segunda parte da pergunta: “onde se insere o
chamado Karate Shotokan Tradicional?” há que reflectir um pouco na
natureza da Nihon Karate-do Shotokai. Ao contrário do que muita gente
supõe, esta organização não é um estilo de karate, um “ryu”,
como o Wado-ryu ou o Shito-ryu. É, isso sim, uma organização que
defende o Karate-do como um todo, unificadamente, como um caminho de
vida, tal como o fundador dessa organização sempre defendeu. Essa
organização pretende que o Karate seja visto, unificadamente, como
qualquer uma das restantes artes do Budo.
Nesse
sentido, a forma de prática mais antiga, com ataques e defesas mais “curtas”
e posições mais “altas”, incidindo mais na prática dos Kata, na
tradição mais directa do Okinawa-te, é ainda praticada hoje por
alguns membros da Nihon Karate-do Shotokai, geralmente com idade mais
avançada. A forma mais “ampla” e uma maior variedade de pontapés e
tipos de Kumite é praticada hoje também por muitos membros. E a forma
“fluida” e “baixa” com uma componente elevada de “nage” e
“ukemi” (projecções e quedas) é também praticada no seio da
Nihon Karate-do Shotokai.
Algumas
associações que são membros da Nihon Karate-do Shotokai praticam,
ocasionalmente, algumas formas de competição. Mas a regra geral não
é essa. A grande maioria considera a competição como um método mais
prejudicial do que benéfico para a evolução do praticante de
Karate-do visto como um Budo.
Existem
actualmente vários estilos e múltiplas escolas de Iaido e Kyudo. Todas
elas são encaradas como Budo. E existe também a esgrima e o tiro ao
arco de competição e essas actividades não são consideradas Budo.
Quando
Nakayama Sensei começou a defender o Karate desportivo, porém, Mestre
Funakoshi não o expulsou, preferiu, como vimos acima, responder com um
silêncio revelador. Do mesmo modo, a Nihon Karate-do Shotokai não
expulsa as poucas pessoas que, dentro do Shotokai estão convencidas de
que a competição é um caminho válido.
Estamos
agora em condições de responder à segunda parte da pergunta:
-
A forma de prática do Karate
Shotokan dito “tradicional”, seja qual for o recuo no tempo a que
essa palavra se refere, é uma forma de prática bem acolhida no seio da
Nihon Karate-do Shotokai, desde que compreenda uma prática séria de
Karate-do, visto como uma das formas de Budo.
-
As restantes formas de
prática (ditas “tradicionais” ou não) que defendam uma forma de
prática com ênfase na competição desportiva e nos aspectos
comerciais do Karate são claramente recusadas no seio da Nihon
Karate-do Shotokai.
Logo
a seguir à morte de Funakoshi Sensei como se deu a fragmentação dos
seus alunos, entre os que desenvolveram a competição e os que
preservaram o treino como parece que Funakoshi Sensei o deixou? Quem
foram os responsáveis?
Embora
já deva ter ficado claro acima, reforçamos aqui essa ideia, mais uma
vez:
-
após a morte de Funakoshi
O-Sensei a Nihon Karate Kyokai (Japan Karate Association) passou a
promover a competição; em Junho de 1957, escassos dois meses após o
funeral, essa organização realiza, no maior espaço coberto japonês
para a prática desportiva - o Ginásio Metropolitano de Tóquio - o
primeiro All Japan Karate-do Championship Tournament, trata-se da
primeira competição pública de Karate no Japão;
-
a Nihon Karate-do Shotokai
continuou a promover o “keiko” (treino/prática) conforme era desejo
de O-Sensei, ou seja como uma das disciplinas do Budo, não pondo
ênfase na competição, mas sim na cooperação e desenvolvimento
mútuo dos praticantes.
Onde
encaixa Egami Sensei nisto, ou seja, ele é responsável por
alterações na arte, mesmo que fosse em continuidade com as ideias de
Funakoshi O-Sensei?
Tsutomu
Ohshima[17],
no preâmbulo do Livro de Egami Sensei “Karate-do, Beyond Technique”,
escreve:
“O
sucessor de Mestre Gichin Funakoshi no mundo do Karate-do é o Senhor
Shigeru Egami. Sinto que nós, os da geração seguinte, somos muito
afortunados por ter este homem.”
Por
seu lado Kenji Tokitsu[18]
no seu livro “Histoire du Karate-do” escreve:
“(...)
as duas noções, budo e heiho, estão profundamente enraizadas na
cultura tradicional dos guerreiros japoneses; [porém] elas não fazem
parte da cultura de Okinawa, com uma formação sócio-cultural bastante
diferente da cultura Japonesa. Neste sentido podemos considerar que o
karate de Shigeru Egami é uma criação pela fusão do karate de
Okinawa e da concepção de prática [presente] nas artes marciais
japonesas. O karate introduzido de Okinawa nas ilhas centrais do Japão
no decurso dos anos 20, desenvolve-se progressivamente. É necessário
conceber que, no decurso da difusão do karate, este evoluiu no Japão
fundindo-se com estas duas ideias principais das artes marciais
tradicionais japonesas. O karate de S. Egami é um exemplo.”
E,
alguns parágrafos mais adiante:
“A
corrente Shotokai evita a competição do tipo J.K.A., respeitando a
ideia de G. Funakoshi segundo a qual, situando-se o combate de Karate
entre a vida e a morte, não podemos treinar seriamente senão através
das formas de combate convencionais, através das quais cada um se
esforça por ultrapassar os seus limites.”
De
facto o Karate de Shigeru Egami Sensei, o sucessor de Funakoshi O-Sensei
no mundo do Karate-do, introduz evoluções na arte indo, tal como
pretendia o seu Mestre Gichin Funakoshi, ao encontro do espírito e
prática do Budo.
Admitindo
que a vida é luta, duas perspectivas se podem colocar. Podemos pensar
nela como uma luta pelo pódio onde é preciso subir, custe o que
custar, vencendo para isso os nossos semelhantes, vistos como
competidores. Ou podemos vê-la como uma luta pela Vida que se pode
percorrer em harmonia e respeito pelos outros, parando o conflito (budo)
e sabendo usar a nossa força e a do nosso semelhante com benefícios
mútuos.
No
seu caminho de aproximação ao Budo, Egami Sensei foi profundamente
influenciado por Inoue Noriaki Sensei, sobrinho e discípulo de Ueshiba
Morihei O-Sensei, o fundador do Aikido. Mas esse assunto é demasiado
vasto e importante para ser tratado neste artigo. Se houver interesse
talvez possamos vir a abordá-lo num trabalho específico,
posteriormente.
José
Patrão
Bibliografia:
1958,
Funakoshi, Gichin: “Karate-do Kyohan”, Ward Lock
1979,
Tokitsu, Kenji: “Histoire du Karaté-do”, Éditions SEM
1979,
Rau, Heimo: “Gandhi”, Círculo de Leitores
1993,
Hassel, Randal: G., “Shotokan Karate, It’s History & Evolution”,
Focus
1997, Layton,
Clive: “Karate Master – The Life and Times of Mitsusuke Harada”,
Bushido Publications
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