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A Frutuosa Génese Cooperativa

 

A Frutuosa Génese Cooperativa

(No Karate, como na Vida, a Evolução baseada na Competição Fechada entre Especialistas fez Abrandar a Evolução)

 

O presente artigo baseia-se numa palestra escrita por José Patrão para o dia 25 de Abril de 2005 – data em que se comemorou o 10º Aniversário do Centro de Artes Orientais – à qual se seguiu um interessante debate entre os presentes – membros do CAO e convidados – o qual igualmente se transcreve.

 

1 -  INTRODUÇÃO

 

Carl Woese – a autoridade mundial absoluta em taxonomia microbiana – fez vir a público, recentemente, numa revista da especialidade, que a evolução Darwiniana, ou seja a evolução das espécies com base na competição pela sobrevivência, é essencialmente lenta:

The basic biochemical machinery of life evolved during the few hundred million years that preceded the Darwinian era and changed very little in the following two billion years of microbial evolution. Darwinian evolution is slow because individual species, once established, evolve very little.

 [A maquinaria bioquímica básica da vida evoluiu durante os poucos milhões de anos que precederam a época Darwiniana e mudou muito pouco nos dois biliões de anos de evolução microbiana. A evolução Darwiniana é lenta porque as espécies individuais, uma vez estabilizadas, evoluem muito pouco.]

Começamos a compreender agora que as famílias, as espécies, os géneros, das mais diversas formas de vida – plantas, invertebrados, peixes e anfíbios, répteis, pássaros e mamíferos – todos esses pilares ordenadamente erigidos por gerações de biólogos brilhantes e que sustentam a História da Vida no Planeta Terra, assentam afinal num terreno movediço e indiferenciado...

Ao longo de 150 anos, o mundo foi-se rendendo às evidências da teoria de Darwin, deixando, pouco a pouco, de fazer fé nas teorias creacionistas para abraçar a ideia de que a competição pela sobrevivência fora, desde sempre, o motor da evolução da vida no planeta Terra. E afinal, sabemo-lo agora, estávamos apenas 90 a 95% correctos... O que não seria mau de todo se não tivéssemos compreendido que foi exactamente nesses 5% de tempo inicial de cooperação que se evoluiu muitíssimo mais do que nos 95% restantes.

 Mas – perguntar-me-ão – o que é que tudo isto tem a ver com Budo?... (Para além da coincidência de Darwin ter publicado a sua obra fundamental sensivelmente na mesma época – 1850/1860 – em que se vê dealbar, no Japão, o princípio do fim da Classe dos Samurais.)

Ainda antes de responder directamente à questão, proponho-vos um passeio pelos corredores de um velho edifício edificado no coração de Lisboa, ao lado do maravilhoso Jardim Botânico da cidade, que é hoje o Museu Nacional de História Natural, o mesmo que há poucos anos albergou a mundialmente famosa exposição de dinossauros que fez as delícias e o terror de muitos dos nossos pequenos...

 

2 -  COMPETIÇÃO E COOPERAÇÃO NO MEIO ACADÉMICO

 Foi contemplando timidamente os altíssimos tectos dos corredores desse edifício que um dia o Marquês de Pombal resolvera apelidar de Colégio dos Nobres, que este “camponês que estudou demais” deu os seus primeiros passos num caminho de cinco anos, cinco longos e esforçados anos, de uma licenciatura em Engenharia Civil.

E sabem que mais? Ironias do destino, foi “por mero engano” que esses passos ali foram dados já que, em boa verdade, não era por essa porta que eu deveria ter entrado, mas sim por uma outra na Rua Rovisco Pais...

É que no final do liceu a minha família deu-me, à laia de “viagem de finalista”, a oportunidade de visitar, com o meu primo Paulo, o enorme ramo da nossa família que descende do nosso Tio Gomes, um aventureiro de sucesso que um dia deixou a família para embarcar com o filho mais velho em busca do longínquo Brasil.

Os 18 anos de barba rala que eu já tinha e que o meu primo ambicionava, transformaram os planos de semana e meia de visita, em mês e meio de uma estadia inesquecível, com espaços naturais (e aventuras nocturnas não tão sadias) de tal escala e dimensão que transbordariam claramente o âmbito desta pequena palestra.

Certo é que, em determinada altura, recebi um telefonema aflito da minha mãe a informar-me que as inscrições para o Instituto Superior Técnico – na altura a escola de Engenharia, por excelência, no Sul do País – já tinham fechado!

Feitas as malas à pressa dei comigo, alguns dias e muitos milhares de quilómetros depois, à frente a um guichet da velhinha Faculdade de Ciências onde se acotovelavam dezenas de jovens de pele ainda mais bronzeada que a minha, mas com um semblante definitivamente muito mais tristonho do que o meu. Por debaixo de uns óculos grossos pendurados na pontinha do nariz, soou estridente uma vozinha já muito farta de aturar retardatários:

- Donde vem você, Angola, Moçambique?...

- Bem, eu... Eu venho do Brasil... Mas sou português!

- Claro, português, pois... É o que vocês todos dizem, mas de que ex-colónia?

- Bom eu nasci aqui mesmo e...

- Pronto, já percebi, nasceu aqui e depois foi para lá. Portanto você é que é mesmo “retornado”, os outros não gostam desse nome porque se sentem “refugiados”.

- Hummm, pois... – apercebi-me que, se contrariasse as ideias calcadas debaixo daquela testa já muito enrugada por anos de guichatice, acabaria por perder um ano de estudos – por isso apesar de nascido e criado em Almada lá aceitei, contrariado, o tal carimbo de “retornado” no papel, de modo a poder dar início aos meus estudos universitários na velhinha “Catedral das Ciências”, perto do Jardim do Príncipe Real.

Mas o que para esta conversa importa foi o ambiente maravilhoso de cooperação em que aquelas dezenas de jovens se moviam. Dinheiro não havia. Fosse porque se tinha perdido todo lá longe (como era o caso deles) fosse porque nunca fora muito (como era o meu caso). Por isso muito mais longas eram as horas passadas no calor carregado de ozono das salas self-service apinhadas de fotocopiadoras de um edifício próximo, que no frio enregelante dos anfiteatros.

E enquanto os meus ouvidos escutavam a última dos Pink Floid a passar na rádio que ali tinha isso posta para abafar o schlak-schlak da fotocopiadora, os olhos iam vendo passar, folha a folha, os livros que um professor, ou algum aluno mais abastado me tinha emprestado.

Direitos de autor? Qual o quê?... Outros valores mais altos se alevantavam, solidariedade, coleguismo, vontade sã de ajudar um colega mais pobre. Pelo olhar azul e maquinal das cansadas fotocopiadoras iam passando não apenas as sebentas oficiais vendidas na associação de estudantes da faculdade, depois de terem sido pacientemente elaboradas por alunos virtuosos de anos anteriores, mas também os apontamentos metódicos e cuidadosos dos actuais alunos que se sentiam mais motivados para uma determinada disciplina. Se uma certa estudante – futura Química – não perdia nem um eco sequer das frases aceleradas do sorumbático catedrático do Anfiteatro 3, logo os seus “divinos apontamentos” haveriam de circular por colegas menos dotados nessa área.

E enquanto os digníssimos e altivos corredores do antigo “Colégio Real dos Nobres” suspiravam de saudade por já não ver lombadas de couro com títulos de prata e ouro, as encadernações amadoras de argolas, feitas por mão mal jeitosa de estudante, iam soltando folhas cheias de sonhos e ambições de vir a ser de futuros, físicos, matemáticos, biólogos, geólogos, engenheiros...

Nesses primeiros dois anos de curso todos compartilhávamos um grande número de disciplinas fundamentais – matemática, física, química. Porém quando um professor colocava a fasquia de um teste de Física Geral, colocava-a como desafio difícil de transpor mesmo para aqueles que, no liceu, nunca tinham tido menos de 18 nessa disciplina.

Vejam agora o que viam os meus olhos e o aperto no coração que eu sentia quando olhava para aquela fasquia. Sentia-me uma espécie de saltador em comprimento a quem tivessem pedido para transpor uma fasquia de salto à vara, tendo, para isso, que pedir emprestada não só a vara, mas sobretudo a habilidade e a destreza do exímio colega do lado.

A exigência dos exames de cada disciplina era, pois, nivelada por cima. E essa exigência era de tal ordem que, quando nós como bons estudantes dos anos pós-revolução nos armámos em espertos exigindo aos professores exames com consulta e sem limite de tempo, poderíamos lá esperar que um exame iniciado às 9h da manhã se prolongasse pela manhã fora, pela tarde, tardinha e que às 10 da noite ainda estivesse resolvido a pouco mais de meio?

Num tal ambiente de exigência só nos restava uma solução: cooperar!

E fazíamo-lo com amizade e alegria.

Formaram-se grupos de trabalho e não apenas para estudar. Havia escalas de serviço para tirar fotocópias e para fazer encadernações. Dessa forma sobrava muito mais tempo para estudar e trocar opiniões.

Naquela Faculdade não éramos só nós que conhecíamos o nome e o feitio de cada professor. O número de alunos não era assim tão grande que não nos permitisse conhecer os primeiros nomes de cada um dos nossos colegas. E os professores assistentes, por vezes ainda mais atentos e dedicados do que os catedráticos, também conheciam de cor não só o apelido mas as principais ignorâncias de cada um dos seus alunos.

E sabem que mais? Não aprendemos muito apenas sobre matemática para Engenheiros, tivemos de aprender muitíssimo também sobre mineralogia, velhos teoremas e novíssimas teorias sobre matemática, física quântica e relatividade.

E certamente não terá sido por acaso que não houve um único dentre nós que, quando deu consigo perdido entre os enormes blocos de betão do Instituto Superior de Técnico, tivesse gostado do ambiente de competição feroz que ali encontrou.

Não posso dizer que tenha aprendido menos nos 3 anos de IST que nos 2 anos que passei na antiga Escola Politécnica, mas posso garantir-vos que foi um aprendizado muito mais difícil e muito mais pobre, porque ali não se cooperava, competia-se!

Ali os nossos colegas mais ricos, os tais que chegavam de táxi ao Instituto mesmo que morassem a 500m dali, na Avenida de Roma, escondiam de nós os apontamentos e aqueles livros grossos e caros que nos contemplavam do lado de dentro das montras das livrarias das avenidas à volta. E, a julgar pelo olhar que eles nos deitavam do alto dos seus ombros, não devíamos passar de ratos de casa de fotocópias.

 

3 -  Paralelos com o Karate

A meu ver os estilos de Karate tal como as "espécies biológicas autónomas", os tais que aparentemente permitiram uma especialização evolutiva muito rica, acabaram por levar muito mais à estagnação do que à progressão da Arte…

Tanto quanto posso observar são as iniciativas inter-estilos que a têm feito frutificar e nesse domínio os trabalhos de Kenji Tokitsu e Patrick McCarthy são paradigmáticos.

De facto, premonitoriamente, era essa segmentação do Karate em linhas e correntes que Mestre Gichin Funakoshi queria evitar, até porque nunca fora esse o modo de aprender e de ensinar Karate na sua terra natal. Em Okinawa um Mestre, em determinado momento da evolução do seu aluno, mandava-o estudar com outro Mestre contemporâneo que, pelas suas características físicas e/ou de personalidade, encarasse o estudo da Arte de forma diferente. Foi isso mesmo que se passou com o jovem Funakoshi que beneficiou dos ensinamentos de Mestre como Itosu, Azato, Matsumura, só para citar os mais famosos. Não ele nunca aceitar a fragmentação do Karate em estilos e, quando os viu surgir, fez tudo o que podia para os abolir! Citemos apenas três exemplos:

- Nunca aceitou chamar "Ryu" (estilo, corrente) à sua forma de prática;

- Mandou o seu filho mais virtuoso - Gigo - aprender todas os Katas de Okinawa com Kenwa Mabuni, e outros grandes Mestres, etc.

- Criou a Japan Karate Association (Nihon Karate-do Kyokai) com a intenção de unificar todo o Karate

Mestre Egami mantendo a ideia de recusar chamar Ryu à sua forma de prática de Karate-do, fê-lo evoluir abrindo-o às outras artes do Budo nomeadamente à arte sublime e genial da sua época – o Aikido de Mestre Ueshiba (ele próprio uma síntese aparentemente impossível entre uma via espiritual (Omotokyo de Onisaburo Deguchi) e uma via marcial de eficácia mortal (Daito-ryu Aikijujitsu de Sokaku Takeda).

 

4 - Conclusão

Na sua génese o Karate, tal como a vida em geral, beneficiou de uma frutuosa colaboração.

A segmentação em estilos acabou por abrandar essa evolução.

Quanto à linha actual do Karate Desportivo, embora permita e promova, aparentemente a competição e o contacto entre estilos e entre praticantes, poucas evoluções de fundo tem vindo a gerar; antes pelo contrário, a necessidade de especialização numa ou duas técnicas, tem levado a um progressivo empobrecimento do Karate Desportivo face à riqueza do Karate tradicional.

Parte da solução (para praticantes de um nível elevado) pode passar, a meu ver, por:

- recuperar muito do espírito cooperativo de Okinawa, permitindo e promovendo o contacto entre estilos, linhas e correntes;

- permitir que o Karate (como fez Mestre Shigeru Egami nos anos 60 e mais recentemente Kenji Tokitsu e Patrick McCarthy, por exemplo) absorva os princípios essenciais do Budo Japonês e de outras correntes quer do Wu-Chu chinês, quer do próprio Yoga e de Artes Marciais contemporâneas e associadas a essa disciplina;

Não gostaria que me interpretassem mal. Tomando o paralelo da música, não advogo que um principiante siga cedo a via dos “sete instrumentos” para aprender melhor. Não! No Karate como na música primeiro há que dominar bem um instrumento através de um período mais ou menos longo que se medirá em anos de prática diligente e continuada (nunca em meses saltitando de arte em arte).

Mas depois há que aprofundar as raízes e promover o crescimento e o desenvolvimento da Arte numa perspectiva cooperativa e sintética, como contraponto às correntes fraccionária e competitiva (no sentido reducionista do termo).

 

Imagem final:

Muitos de nós éramos como lagartinhas que nasceram penduradas numa folha que era todo o nosso mundo. Muitas de nós depois, seguindo ao longo dos ramos, descobrimos afinal que vivíamos numa grande árvore. Poucas se atreverão a descer pelo tronco, acabando por chegar ao solo. Antes que o tempo nos consuma o pouco tempo de vida deste estádio, raras serão capazes de caminhar com as nossas minúsculas patas em busca de outra árvore. E dessas quantas poderão intuir, antes da metamorfose noutra forma de vida, a enorme dimensão da floresta?

José Patrão 


 

5 -  Debate

José Patrão: A afirmação de Carl Woese – “A competição abranda a evolução e a cooperação acelera-a” – soa algo dissonante no mundo de hoje, onde as instituições competem ferozmente entre si por quotas de mercado medidas em pontos percentuais:

Assistimos actualmente a uma luta feroz entre os canais de televisão por alguns minutos de share, vemos diariamente o tipo de programas que estão dispostos a passar para captar audiências - big-brothers, quintas de celebridades, etc.

Quando, depois de uns dias de férias, abrimos as nossas caixas de correio - quer as físicas, quer as virtuais - elas ficam cheias até cima de publicidade que revela uma concorrência feroz entre grandes superfícies comerciais que nos atafulham de informação.

Mas paremos um pouco para pensar e perguntemo-nos:

A profusão de canais que vamos espiando com o comando de infra-vermelhos, num zapping mais ou menos entediado, fez aumentar realmente a qualidade intrínseca dos programas televisivos? Se assim é porque repetimos uns aos outros que a qualidade dos nossos quatro canais está cada vez mais baixa?

A competição entre as grandes superfícies, que coloca à nossa disposição, a preços acessíveis a todos, milhares de produtos das mais remotas proveniências, fez aumentar realmente a qualidade dos produtos que consumimos? Se assim é porque é que as associações de defesa do consumidor nos alertam diariamente para os perigos desses mesmos produtos? Se a competição entre os produtores de alimentos os fez melhorar porque é que se morre cada vez mais de cancro e outras doenças degenerativas?

Jorge Costa: Os jovens primatas evoluem mais depressa que as nossas crianças.

As condicionantes da vida primitiva propiciaram esse tipo de evolução.

A competição desenfreada é má. E entre os estilos é má.

Mas acabar com os estilos agora seria mau também.

Hoje existem estilos e não seria possível eliminá-los.

É preciso aprofundar muito uma via, sempre com espírito aberto, e depois quando se atinge um determinado nível, então é essencial experimentar outras coisas.

Quem tiver medo, numa determinada altura, de por em causa os seus conhecimentos, medo de por em causa o trabalho de muitos anos, não evolui.

Há dois momentos diferentes de evolução.

Atenção, no entanto que com alunos que tem elevadas potencialidades deve ?? e fazer com que esse aluno se torne um exemplo para os outros.

Se alguém tem capacidades de voar não lhe podemos cortar as asas. Senão tornar-nos- emos “a escola dos coitadinhos”.

Não queremos criar campeões, mas também não podemos limitar-nos demasiado.

João Geada: Nos tempos primitivos em que havia espaço ilimitado havia muito mais evolução.

No Karate quando o número aumenta muito perde-se qualquer coisa.

Não há Artes Marciais (AM) perfeitas mas é importante que se saiba que a nossa AM tem defeitos, mas esses defeitos também são, de certa forma, algo com que temos que conviver.

Jorge Costa: A procura é inerente à Arte.

Henrique Brito: Todos nós com os nossos biliões de células estamos a trabalhar sempre em cooperação.

Olhando para o meu exemplo como ser é estranho que cooperemos interiormente e que depois estejamos sempre em competição com os outros.

As árvores crescem com um tronco que depois se ramifica.

Não nos devemos preocupar com o ritmo do crescimento próprio de cada árvore. Não nos podemos preocupar com o tipo de direcção de cada ramo. O tronco é igual.

Tememos que um determinado ramo se torne demasiado forte e dê cabo de um tronco.

José Morgado: Pode haver evolução no mau sentido. No passado caçadores como eu, caçavam os elefantes com pontas (dentes) maiores. Hoje, na Índia, só escaparam os elefantes com pontas (dentes) mais pequenos os outros desapareceram.

A evolução no Karate-do deve ser no sentido da eficácia, a meu ver.

Se não é eficaz porquê fazê-lo?

João Geada: A competição do tipo que hoje é conhecida aparentemente ajuda a desenvolver, mas na realidade empobrece. Põe o mundo inteiro a comer Mac Donald’s.

Nuno Figueiras Santos: A competição na ciência é útil e tem sido o motor da evolução.

Carlos Faustino: A bomba atómica foi possível através da competição ou da cooperação entre dezenas de cientistas?

Nas realidade o mais importante foi a cooperação e a troca de conhecimentos entre eles.

Os mais aptos precisam dos menos aptos para evoluir?

Procurar a eficácia do combate é bom, mas é melhor procurar a eficácia de ser humano.

E os valores pelos quais o ser humano se rege? Os tais que são globais.

A competição  tende a apagar esses valores. Deixa de haver cooperação entre os alunos.

José Morgado: Um aluno deve questionar sempre e pôr sempre em causa.

Só porque o Mestre Murakami dizia que era assim, não devemos repetir incessantemente.

Carlos Faustino: Não é possível fazer Arte sem uma boa base técnica.

José Morgado: Continuo a defender que para haver uma evolução deve ser baseada em eficácia.

Acho que estamos estagnados. Em oito anos de Karate só agora é que eu vejo alteração.

Nuno Santos: Eu acho que há dos mais graduados um certo receio e também um excesso de humildade da parte dos mais velhos.

Firmino Ascensão: Acho que treinamos pouco. O tempo da Juventude em que tínhamos tempo para treinar já lá vai. Agora temos muitas solicitações.

Tem de haver questionamento ao mesmo tempo que reverência e humildade.

Os que querem mudar tudo muito depressa são os primeiros a sair.

Krug: Acho que estamos a ir devagar demais.

O próprio Mestre evoluía muito lentamente, mas evoluía.

A partir da morte do Mestre perdeu-se o ritmo da evolução.

Podemos continuar sempre com o mesmo trabalho mas isso será monótono e estéril.

Porque será que outras AM diferentes da nossa atraem muito mais jovens que a nossa?

Se o Mestre fosse vivo não teria modificado já um pouco as nossas técnicas?

Será essa a razão de nós não atrairmos alunos?

As outras artes de competição atraem mais. Não interessa só a opinião dos outros, mas também interessa!

Os mais aptos devem parar e pensar nisto um pouco.

Gostava de ver mais ânsia de procurar, de modificar.

Nuno Santos: Nós aqui neste Dojo, por exemplo, fazemos os Katas do lado contrário…

É preciso abrir os horizontes quebrar rotinas.

Krug: Nós somos muito bons em pontapés, o Firmino pelo menos era.

Mas não se vê hoje nos ginásios um saco para se treinar pontapés.

Devemos treinar a nossa eficácia.

Firmino Ascensão: Compreende a sua inquietação e partilha dela.

Nós somos muito conservadores e tradicionais.

Será que não devemos treinar algumas nuances para podermos evoluir?

A nossa Associação esteve muito dependente do Mestre Murakami mas agora estamos a chegar aos poucos à solução.

Quando há alunos que querem o poder e que tentam impor as suas soluções aos outros isso é mau.

Podemos evoluir mais rápido ou menos rápido, mas com os outros.

Agora estamos com uma base boa para darmos um salto mais rápido.

Talvez divulguemos pouco, mas todos os estilos de Karate têm hoje poucos alunos.

Temos agora o ambiente próprio para evoluirmos.

Henrique Brito: Mesmo o tempo todo que estivemos "parados" não foi inútil.

Jorge Costa: Esta conversa gira à volta da evolução.

O porquê da evolução era o que eu queria agora questionar.

Na natureza é a resposta aos estímulos exteriores.

Quanto mais referências tivermos, melhor responderemos às agressões do meio ambiente.

Quanto mais eficazes formos mais alunos teremos.

Cooperação é muito importante, mas tal como no caso da bomba atómica, foi a humanidade que fez os cientistas reunirem-se ali. 

Tem que haver incentivo, estímulo para isso.

Infelizmente os estímulos hoje vêm sobretudo através da competição.

Qual o estímulo que precisamos? Procura de eficácia!

O exemplo do Dr. Krug é uma forma de eficácia, ao contrário da maioria dos idosos.

Também temos de ser eficazes em combate.

Se não houver necessidade muito grande de se eficaz, qual é a razão de tanto esforço que exigimos aos alunos.

Por um lado é importante a eficácia como ser humano, mas na Arte Marcial, no sentido marcial não se deve menosprezar, também.

Temos de trabalhar mais isto, temos de formar pessoas que sejam capazes de se defender quando necessário.

Se eu não tiver confiança no que faço perde-se o contexto da AM.

 O problema é como transmitir isto nas aulas.

Temos de incutir confiança nos alunos. Dentro de certos limites as pessoas têm de ser capazes de se defender.

Senão as pessoas perguntam porque é que estamos a solfejar eternamente?

Faustino: O exemplo porque comecei foi com a teoria da Relatividade e a cooperação entre cientistas.

João Geada: Einstein vinha muitas vezes falar com um físico europeu com que ele discutia com ele setenta e duas horas seguidas e às vezes mais.

Henrique Brito: A Natureza ensina-nos o caminho, se soubermos observar.

 

José Patrão,

 


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