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Seppuku e Quico

 

O Quico era aquele amigo que nos acolhia com carinho e simpatia, dia após dia, chegando-se a nós por detrás da rede com um presentinho, como quem diz:

- Olá meu Amigo! Como estás? Gosto muito de ti, sabes?

Ele, que detectava a nossa chegada ao dojo, com tal antecipação que, por vezes, ainda mal tínhamos posto o pé fora do carro e já escutávamos o seu chamamento.

Claro que nem todos nós estávamos preparados para compreender a sua linguagem. Muitos de nós cresceram longe dos animais e não sabíamos interpretar a sua voz cheia de ansiedade, a chamar, a apelar ao nosso coração:

- Amigos, soltem-me! Eu estou farto de 'tar aqui preso. Quero passear um 'cadinho pelo quintal, purgar-me com umas ervitas, fazer uns chichis e... Ok, eu confesso! Quero chatear um bocado aquele malvado daquele gato vadio!!!

Mas, de facto já poucos o ouviam. Esses, muitos dentre nós, cujos ouvidos sempre foram (ou se tornaram) surdos para a linguagem dos animais, esses passavam simplesmente ao lado do canil escutando apenas um som indistinto, mais ou menos assim:

- Uau! Uau-uau! Uaaauuuu!...

E nem sequer paravam para uma festinha, ou uma palavra, ou um olhar que fosse.

Nem sei bem quando foi que me tornei um desses.

Sei que aprendi de pequeno a distinguir claramente um uivo de fome, dum latido de satisfação. O latimir de quem sente a caça por perto (mesmo que a caça seja apenas um gato) e que é tão distinto do lamento melancólico e triste de quem vê subir a lua, com o focinho metido nas grades do canil.

Não admira que o soubesse. O meu pai criava e ensinava, e por raras vezes até acarinhava, cães de caça. Não os perdigueiros de raça pura que se levam para os concursos de vaidades. Não. Ele pegava em arraçados, mestiços, cruzados, e então, pacientemente, com muito treino e muita dedicação, fazia deles caçadores exímios, animais de elite, fortes para resistirem a um dia inteiro ao sol do Alentejo e rijos para ignorarem cortes da silvas. Cães daqueles que os finórios desprezavam como "bichos rafeiros", mas que os caçadores de verdade sabiam estimar e reconhecer como camaradas de caça.

Nesse tempo lembro-me de ter tido um cão como o Quico. Era tão parecido na raça, na cor no feitio e na alegria que até dá para pensar se a reencarnação também se aplica aos cães. Ele, tal como o Quico, era esperto como uma raposa, vivo como um tição, enérgico como se fossem molas de aço os músculos e tendões. O meu primeiro Quico - chamemos-lhe assim - também era brincalhão, amigo e companheiro de grandes caminhadas a dois, de Costas do Cão até à Rocha (essa falésia apelidada hoje, pomposamente, de "arriba fóssil") de onde víamos juntos o pôr-do-sol no mar da Costa, deitados de peito no chão, com a cabeça sobre as mãos.

Ah!... Que pena que eu tenho que o tempo me tenha roubado o tempo de amar o Quico, como amei outrora esse cão.

Ele teria sido bem mais feliz! E eu, certamente que teria sido mais feliz também. Porque quando se esquece a capacidade de encontrar felicidade em coisas simples e belas como ver o por do sol do alto da rocha ao lado do nosso cão, quando esquecemos isso, certamente que esquecemos o sabor puro da felicidade.

Quando foi que me tornei um desses? Um daqueles que eu desprezava em pequeno, por viverem no meio de prédios cinzentos. Um dos tais de quem eu escarnecia por acharem azedas... as azedas. Os mariquinhas de quem eu troçava por chorarem das picadas das urtigas e que pensavam que os cães não pensam, não choram, não sentem, não amam.

Se nesse tempo eu soubesse que um dia eu viria a tornar-me um daqueles que passam pelo seu cão que chora, ignorando os seus latidos aflitos pedindo - "Solta-me! Quero brincar contigo! Sou teu Amigo!! - se eu soubesse que ia tornar-me um desses, será que ainda desejaria crescer, ser um Homem?

É mais Homem o homem surdo, ou o miúdo que escuta?

Afinal foi o seu silêncio que eu acabei por escutar. Estranhei a sua tristeza. Ele que não era pessoa de tristezas agora já não vinha trazer-me simpaticamente um ossito, saltando sobre as pernas de trás e dizendo - Olá Amigo! Queres um presente? Soltas-me? - Não, agora ficava para ali deitado com um olhar meio tristonho...

Notei que sobrava muita comida no prato. Pensei se não estaria deprimido por ter ficado longos meses ali no canil, desde que a Iris - a gatinha vesga com que ele tanto gostava de embirrar - tinha resolvido engravidar de um malandreco das redondezas.

Mas não! Não podia ser só tristeza. Ele não era cão para se deixar abater por uma coisa dessas. Era algo mais grave. Nunca tinha estado doente em toda a sua vida. Nem um constipação, nem uma febre, nada. E, agora que pensava nisso, já era uma vida longa a dele desde que ali chegara, há sete ou oito anos atrás, cachorrinho de colo e encanto do João - o meu filho do meio - que logo o quis baptizar de Quico.

Mal o viu a veterinária suspeitou logo do mal: - "Hum! Ele foi sempre saudável e de repente sem causa aparente começou a enfraquecer e a definhar?" - e lá o foi auscultando, apalpando no abdómen, no pescoço, espreitando-lhe as gengivas, sentindo-lhe o hálito. - "Se achar bem vamos fazer-lhe umas análises ao sangue. Segure-o bem que a picada dói um pouco". 

- Não vai ser preciso - pensei eu, e não foi mesmo. O Quico estremeceu apenas um pouco com a picada na veia, mas nem um ai saiu da sua boca.

A análise não tardou:

- É o que eu temia. Leishmaniose! Se reagir bem ao tratamento podemos aliviar-lhe os sintomas, mas, infelizmente, ainda não há cura para esta doença.

- Quer dizer que...

- Sim, nestes casos, e dado o estado das análises dele, o mais provável é que não recupere. Ele é seu?

- Bem, sim, isto é, não propriamente! - respondi eu, um pouco envergonhado por saber que se fosse realmente meu, tê-lo-ia estimado muito mais - é da minha mãe.

- Ah, então talvez deva falar com ela e perguntar-lhe se quer tratá-lo. É que o tratamento pode ser um bocado caro e não há garantias. A alternativa... Bem a alternativa é avançar para a eutanásia. 

A veterinária era, sem dúvida, uma pessoa com sensibilidade e com gosto pela profissão. Mesmo que o Quico fosse, para ela, mais uma daquelas centenas de casos anuais sem salvação, notei a forma como pronunciara a palavra "eutanásia" - quase como um sussurro.

- Eu quero fazer tudo o que for possível para o salvar - retorqui eu.

- Pois... Mas sinceramente, não lhe posso dar quaisquer garantias.

A minha mãe concordou comigo, que se fizesse tudo o possível - "Afinal, Zé, ele é assim como... uma pessoa de família, não achas?"

E assim se fez.

Foram duas semanas de internamento num hospital próprio para animais. Uma luta inglória contra uma doença que o foi inexoravelmente destruindo. Dia após dia eu visitava-o e ao receber os resultados das análises notava que as palavras da médica iam ficando cada vez mais entrecortadas por silêncios.

- Pois... Ele está com os rins e o fígado muito afectados. Temos de o manter a soro e... talvez seja de fazer cortisona... - Passados uns dias -  Sabe, o Quico cegou. Não sabemos se será reversível." - e na manhã do dia seguinte - "Observei-lhe os olhos - está com descolamento duplo de retina. O sistema nervoso também está afectado, já não retém as urinas."

Telefonei à minha mãe e ela concordou que não havia mais nada a fazer. Meti as mãos pelas grades do canil para o acariciar, mas a doutora disse-me que o poderia tirar cá para fora. Ajoelhei-me ao lado dele.

- Ele é um animal especial. Nunca lhe ouvi um lamento em todos estes dias! - disse-me a enfermeira em jeito de consolação.  

Não precisei de pedir a ela e à doutora que se retirassem. Elas compreendiam que nós precisávamos de ficar sós.

Falei longamente com o Quico. Disse-lhe que ele tinha sido muito melhor cão para mim do que eu fora dono para ele. Pedi-lhe desculpa por todas as vezes que passara ao lado do seu canil, e muitas foram ao longo dos anos, em que por pressa ou por insensibilidade não lhe fizera uma festinha nas costas. Pedi-lhe desculpa por não o ter soltado mais vezes e lamentei-me por nunca termos ido passear juntos até à falésia.

Ele percebeu que seria a nossa última conversa. Pela primeira vez ao longo de muitas semanas abanou o rabo, virou para mim aquele seu focinho traquinas e, embora os seus olhos estivessem fixos e as pupilas dilatadas, senti que me dizia qualquer coisa de muito bonito. 

O Amor, quando é grande, não precisa de passar pelas palavras, nem tão pouco pelo olhar, entorna-se de coração para coração.

E foi assim que nos despedimos. 

E foi então, ali, rodeado por animais que gemiam e choravam cada um na sua própria linguagem, que eu percebi que ele era, e tinha sido sempre, o meu cão, mesmo que eu não tivesse sabido ser sempre o seu dono.

E se ele soubesse fazer seppuku, eu ter-lhe-ia oferecido de bom grado o meu tanto. E seria para mim uma honra que me tivesse escolhido para lhe aliviar o seu sofrimento com a minha katana.

Por um momento breve e fugaz, eu senti que deixara de ser um "homem desses" e que voltara a ser o miúdo de Costas do Cão.

Obrigado Quico!

José Patrão,

 


© Copyright, José Patrão, 2004

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