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O tic-tac das décadas estava a tornar-se impossível de suportar. Com um pensamento brusco, desliguei o relógio e interroguei-me, pela milésima vez: - Poderei eu ainda salvá-la?

Mas a verdade é que a experiência era pouca e, lá no fundo, embora não quisesse admiti-lo, eu sabia que tinha cometido algures um pequeno erro de montagem, o erro que me impedia de conseguir a RCC - Reacção de Consciência em Cadeia - na minha biosfera de estimação.

E lá me punha eu novamente a rever, mentalmente, todo o processo de instalação.

- Ora bem, as sementes foram-me oferecidas por ocasião do meu 10º aniversário, ainda não há quatro milhões de anos. Semeei-as logo de seguida para que os ácidos orgânicos não perdessem vitalidade e acondicionei o terceiro planetário com uma boa Biosfera. Senão vejamos: as proporções relativas de gases iniciais... sim, estavam correctas e a prova é que se formou bastante água e as primeiras germinações produziram o oxigénio na quantidade prevista; os mecanismos de regulação de temperatura foram instalados conforme as instruções e têm funcionado bem; no que respeita aos sistemas de segurança as cinturas magnéticas de protecção e a camada de ozono são sistemas testados e fiáveis... Vejamos, vejamos...

 

Dessa vez o esforço de concentração foi tal que, inadvertidamente, comecei a emitir em alta frequência bastante acima da intensidade regulamentar. Por isso não admira que, passados poucos séculos, fôsse interpelado por *, uma vizinha próxima, conhecida por ser bastante solícita mas um pouco impaciente para com os mais novos:

- Bolas, que barulheira, o que é que se passa?

- Oh! As minhas desculpas Dona *, não me dei conta, estava de tal modo preocupado com a minha biosfera que...

- Ora, ora, meu caro º, não se preocupe eu já passei pelo mesmo, é a sua primeira biosfera, não é?

 - Bem... sim... minha senhora, e espero que não seja a última.

 - Ora, ora deixemo-nos de fatalismos, conte-me lá o que é que se passa...

 - Bem, os meus sensores indicam a possibilidade de uma pequena RCC-Inversa e...

 - O quê, como disse ? Será que entendi bem!?.. Você disse uma pequena RCC inversa ? Meu caro º você já tem idade para saber que as RCC's inversas nunca são pequenas. Uma reacção inversa é uma catástrofe de consequências imprevisíveis, podendo ir desde a destruição de uma biosfera inteira, até à contaminação de outras próximas.

 

Senti-me vexado. Pensaria ele que eu era analfabeto, ou quê? Claro que conhecia muito bem a temática das RCC's, aliás tinha recebido mesmo uma menção honrosa aquando da apresentação do meu trabalho de fim de curso sobre Cultura de Vida Orgânica em Regime de Estufa Planetária.

- Sim, minha senhora, efectivamente eu domino bastante bem uma boa parte dessa teoria...

- Teoria, teoria!... Vocês os sóis são todos iguais. - resmungou ela - O que seria de vós se nós não existíssemos. Teoria ! Hum !... Diga-me lá para que é que essa tralha toda serve ? Eu tenho a meu cargo mais de uma dúzia de Biosferas, todas elas sadias e repletas de vida orgânica num estado de equilíbrio exemplar. E quanto à teoria, ora, eu pura e simplesmente já nem ligo!

Que estrela irritante, meu Deus! Ainda há três décadas atrás me quisera impingir banalidades teóricas e agora já insinuava que a teoria não prestava para nada. O que me apetecia era mandá-la pescar cometas. Mas lá me recompus e lancei-lhe o desafio.

- Mas então foi o destino que a colocou no meu comprimento de onda, Dona *. Com a sua larga experiência e conhecimento prático, é certamente a pessoa ideal para me ajudar, isto, se eu não lhe estiver a roubar o seu precioso tempo, claro.

Apesar da distância pude ver que a matrona inchava de vaidade, por isso não tardou a aceitar o repto, ainda que se fizesse rogada:

- Não sei, não sei, tudo depende da sua capacidade de me descrever com exactidão o processo de montagem e, claro está, do estado de degradação actual da biosfera.

- Ah, nesse aspecto, tanto quanto me parece, não há ainda problemas demasiado graves...

- Quem avalia da gravidade sou eu, depois, se não se importa. Agora, descreva-me ri-go-ro-sa-men-te o processo de instalação e não omita nada por favor.

Não tive outro remédio senão desbobinar todos aqueles fastidiosos procedimentos. Finalmente, quando comecei a descrever a última etapa, o chamado processo de rega de consciência, ela interrompeu-me bruscamente e questionou:

- Espere lá, pare aí! Qual foi a taxa de rega que utilizou ?... - repeti o valor, um pouco alarmado - Quanto?... - replicou ela, e agora estava visivelmente alarmada - Mas isso é metade do necessário! Não me diga que estava com receio de que algum dos bichinhos atingisse um grau de consciência superior ao seu ? Hum! Não seria o primeiro a ter dessas paranóias.

 - Não, não é nada disso, é que eu decidi fazer a rega em duas fases...

 - Você fez o quê seu infeliz!?

Senti o meu núcleo tremer, ela tinha dado com a nuance, e pelo tom tudo indicava que a minha iniciativa tinha degenerado num erro bastante grave. Talvez fôsse melhor explicar o raciocínio completo:

- Para começar, Dona *, eu fiz uma rega geral de consciência, mas reduzi a concentração para metade. Depois esperei que os seres mais evoluídos dessem sinais de evolução e fiz uma segunda rega complementar, mais localizada, concentrada especificamente nos seres mais evoluídos. Deste modo, eu esperava obter graus de consciência mais elevados do que o normal. Era uma experiência que se poderia revelar de extrema utilidade para a cultura de planetários e...

 - É sempre o mesmo, julgam que são os mais espertos do cosmos. A Tradição, o Conhecimento Pré-catastrófico, tudo isso é esquecido. Pensam que um planetário é um balão de ensaio para experiências irresponsáveis. Sabe o que lhe digo, no seu próximo eclipse com o planetário vou investigar o que se passa e só espero que os meus receios não se confirmem. Porque senão... não sei não, não sei... não quero imaginar o que poderá acontecer.

As décadas que decorreram até ao eclipse total seguinte foram as mais longas da minha vida. Finalmente o fenómeno aconteceu e fiquei suspenso nas palavras dela:

- Ora vejamos, vejamos... Vamos lá a ver os espectros de consciência que a minha memória conseguiu registar. Onde estão os mais evoluídos... Ah sim, são aqueles ali no oceano. Não é nesses que reside o problema, são cordiais e pacíficos... Vejamos... Ah sim, lá está. Oh!... mas isto está péssimo. Estes estão incompletos, atrofiados. Como é que você não se deu conta disto ?

- Eu... eu estava concentrado apenas nos oceanos, nos mais evoluídos e...

- Sim, sim esses conseguiram atingir um nível razoável, mas os outros os terrestres, que horror ! Há deformações terríveis, veja !...

 

Agora eu via claramente. Como é que ela num ápice tinha descortinado o que eu ao longo de milénios ignorara ? As deformações de consciência daqueles pequenos seres eram medonhas e tendiam a piorar de década para década. Não entendiam mais do que 3 dimensões de espaço e, quando muito apenas uma de tempo, interligadas de forma inconsistente. A dimensão do Eu raramente ultrapassava o mero suporte físico. O sentimento de irmandade era de tal modo restrito que, geralmente, sentiam-se apenas irmãos quando eram filhos dos mesmos pais biológicos, nada de sentimentos de comunhão com seres de outras tribos e muito menos com seres de outras espécies. A arte restringia-se apenas ao apelo sensorial e emotivo e a capacidade de amar situava-se apenas um pouco acima do instinto reprodutor, mas sempre muito próxima do nível sexual. As poucas excepções positivas situavam-se sempre fora do percentil 99, pelo que eram rapidamente aniquiladas ou isoladas pela maioria, mantendo-se a isostase de consciência da espécie num equilíbrio tremendamente instável.

- Compreende agora donde provêm os sinais da RCC-Inversa ?

- Sim... sim. Devido à acentuada atrofia de consciência, mesmo os mais evoluídos dominam apenas parcialmente as leis físicas e estão a tentar produzir energia a qualquer preço. Por enquanto ainda só começaram a escravizar outras formas de vida, mas tudo indica que em breve poderão induzir reacções nucleares em cadeia com elementos pesados.

- Exactamente, vejo que caiu em si e comprendeu o terrível erro que cometeu. Na imbecilidade em que estagnaram, receio bem que esses seres estejam para sempre impedidos de compreender e dominar mesmo os mecanismos mais simples da nossa fisiologia, como a fusão nuclear. Quem nos garante que mentes deformadas como aquelas não venham a utilizar um mecanismo intermédio - a fissão nuclear por exemplo - para produção de energia ou mesmo para fins de destruição ?

- Isso seria terrível, nunca houve notícia de uma RCC-Inversa de tal ordem...

- Também nunca houve notícia de que alguém tivesse a ousadia de efectuar regas parciais de consciência num sistema relativamente isolado como o seu. Esse tipo de experiências só podem ser feitas em planetários-laboratório, controlados, por dezenas de estrelas cujo final do ciclo vital se aproxima. Nesses ambientes controlados a experiência e o diálogo dos anciãos permitem debelar rapidamente as consequências de eventuais erros.

- Eu... eu não fazia ideia de que isto pudesse assumir tal gravidade.

 - Meu caro º, acredito piamente que tenha agido de boa-fé mas o que é necessário agora é remediar o problema...

 - Talvez induzindo uma rega de consciência a meia-taxa, dirigida especificamente aos habitats dos seres-problema!?...

 - Vejamos, vejamos. Nada de reacções precipitadas. Tanto quanto eu pude ver esses seres estão em rápida disseminação por todo o planetário, não me parece que seja possível uma rega localizada. Só se me afiguram duas soluções: a esterilização pura e simples do planetário...

 - Oh, não !... É uma biosfera líndíssima, certamente uma das mais belas do Universo e... é o meu primeiro planetário.

- Sossegue, esse é o derradeiro recurso uma hipótese brutal que iremos a todo o custo evitar. Mas, não se iluda, terá sempre que considerá-la. Se o Conselho tivesse conhecimento oficial do aparecimento de uma RCC-Inversa você pode ter a certeza que lhe seria retirada de imediato a autorização para cultivar os restantes planetários. E, na sua situação particular, você sabe bem o que isso implicaria ?...

 - Sim, na altura em que esgotar completamente o meu hidrogénio, dada a grande distância ao sistema estelar mais próximo, provavelmente não poderei contar com outra ajuda senão a da vida orgânica dos meus planetários, afim de evitar a minha extinção precoce. Eu sei... eu sei. Mas creio que se referiu a duas hipóteses...

 - Pois. A segunda é uma intervenção cirúrgica localizada.

 - Não se refere certamente a uma cirurgia para eliminação directa dos seres-problema ?

 - Meu pequeno º, é óbvio que você me conhece muito mal. A destruição de milhões de seres, mesmo que se trate de uma espécie horrivelmente mutilada, como é o caso desta, é um acto de tremenda violência, que repugna a qualquer ser equilibrado neste universo e muito mais a uma estrela da minha magnitude. Não é obviamente a isso que eu me refiro. Quando falo em intervenção cirúrgica quero significar o envio para o planetário de pequenos seres de aparência idêntica aos seres-problema mas carregados de um nível superior de consciência.

 - Ah, sim, pois. Lembro-me de ter estudado o processo: trata-se de uma fertilização por micro-osmose, vulgarmente designada por rega gota-a-gota. Os seres são fertilizados, um por um, por micro-emissários de consciência e se tudo correr bem induzem a fertilização de outros seres até que se atinja uma massa crítica de iluminados. A partir dessa altura os processos normais de selecção do planetário encarregam-se da auto-correcção. Vários autores recomendam esse método elegante e subtil para a correcção de pequenos desvios de consciência. Mas, acha que será eficaz no caso de uma tão grande perturbação ?

 - Não sei, não sei. Compete-lhe a si decidir, mas terá de ser rápido. Receio bem que dentro em breve já só lhe reste a outra hipótese - a esterilização pura e simples através da remoção da camada de ozono do planetário.

 - Não, tudo menos isso! Eu já decidi: vamos tentar a cirurgia correctiva por micro-osmose.

 - Tchiii, os nomes arrevezados que vocês agora inventam para designar coisas tão simples. Que nome esquisito é que você encontrou lá nos livros para os portadores de consciência ?

 - Micro-emissários de...

Mas o notório desinteresse de * pelo meu palavreado livresco fez com que se adiantasse à resposta:

- Bahh! Eu chamo-lhes, simplesmente, musas.

 

José Patrão

 

 

Texto/Text: © Copyright, José Patrão, 1994 - 2003; Imagens/Images: © Copyright, Marta Cordeiro, 1997 - 2003

 

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