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Gostaria de compartilhar convosco a experiência da Associação Shotokai de
Portugal no ensino de Karate-do Shotokai a crianças abordando alguns aspectos do ensino do Karate-do
Shotokai para crianças em Almada.
(Por
agora irei somente focar-me nesta zona (poderá encontrar a distribuição
dos dojo da ASP em Portugal no seguinte endereço: http://www.cao.pt/shotokai/dojos.htm
) porque é a minha cidade e consequentemente conheço-a melhor do que
qualquer outra no país.)
Almada é uma cidade com uma população de 160 000 habitantes e temos
presentemente cerca de 180 crianças (dos 4 até aos 14 anos de idade) a
praticar Karate-do Shotokai em 7 dojo sob a orientação de um director
técnico (instrutor principal) 2 instrutores e 5 assistentes.
Os
anos de experiência destes instrutores são respectivamente: 26, 15 e 8
anos de ensino.

Quando Murakami Sensei era vivo e ensinava, as crianças com menos de 14
anos
representavam uma pequena percentagem dos praticantes, mas nos últimos anos
as coisas começaram a mudar e hoje mais de 50% dos nossos praticantes têm
menos de 14 anos de idade.
Ao longo dos anos tivemos de desenvolver uma espécie de prática
especial adaptada às crianças. Esse trabalho dura há mais de duas décadas.
Durante esse período de tempo fizemos muito trabalho de investigação e
participámos e organizámos acções de formação na Federação e
encontros
internos, assim como outras acções educativas, com a participação de
psicólogos, pedagogos e professores de educação física.
Presentemente estamos a seleccionar e condensar o material que vimos
recolhendo num “Manual para Instrutores de Crianças em Karate-do Shotokai”.
(Infelizmente para os leitores em inglês, todo este material está escrito
em
Português, mas como parte dele resultou de traduções de bibliografia
inglesa
e francesa, penso que será possível adaptá-lo a outras linguagens no
futuro,
se alguém se manifestar interessado).
Nas nossas classes de Shotokai para crianças , a variedade de experiências é
maximizada. A especialização é evitada. Usamos algumas técnicas de
outras
Artes Marciais, especialmente Judo (principalmente quedas, projecções e
pegas) e usamos, claro, muitos jogos, a maior parte deles, jogos
tradicionais portugueses (este país, talvez devido ao seu excelente clima,
tem uma grande riqueza de jogos de ar-livre).
Ao contrário do que
se possa pensar a parte comum entre a pedagogia para
adultos e para crianças é o Programa Técnico (!) para todas as idades,
dos 4
até aos 84. Então qual é o truque? Adaptação da exigência. A exigência
em
relação à perfeição técnica aumenta com a idade, especialmente dos 4 até aos 14,
sempre
levando em consideração que o desenvolvimento infantil é um assunto
pessoal
e não pode ser completamente standartizado por idades.
As graduações obtidas são universais. Isto quer dizer que um 4º kyu será
sempre um 4º kyu, independentemente da sua idade e terá de ser capaz de
executar todas as técnicas exigidas para a sua graduação.
No entanto, impomos uma idade mínima para as graduações mais elevadas: 14
anos para 2º kyu, 16 anos para 1º kyu e 18 anos para 1º dan (consideramos
que a maioridade é necessária para um praticante poder usar um cinto negro).
Então, podem-nos questionar como fazemos para encorajar uma criança a
praticar continuamente durante 10 anos (dos 4 aos 14 anos) só com 4
passagens de graduação (de 6º kyu até 2º kyu).Bem, a resposta é simples. Em primeiro lugar, não
reforçamos o desejo na obtenção de graduações, mas sim a prática por si só. Os exames são formais e
tentamos ser
justos (as crianças tendem a ser hiper-sensíveis em relação às injustiças)
mas não dramatizamos. Em segundo lugar, dividimos cada kyu em três graus
(alguns dojos representam esses graus com barras coloridas nos cintos das
crianças; outros não).
Assim, mesmo no caso de uma criança que
comece a praticar aos 4 anos de idade, teremos 12 graus a distribuir durante 10 um
período de anos. |
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Uma coisa lhes posso assegurar: o sistema funciona muito
bem! Nenhuma criança terminará um ano de aplicada prática sem ser
recompensada e claro, a recompensa será proporcional ao esforço e à
performance demonstrada.
Agora mais um ponto antes de acabar este pequeno relatório:
- Discordamos que as crianças, para terem um desenvolvimento equilibrado
durante a prática de Karate-do Shotokai, necessitem de competir de uma
forma
desportiva.
A nossa experiência demonstra que isso é outro mito. As crianças
necessitam
de brincar; e brincar significa ganhar e perder jogos.
Mas isso não tem nada a ver com a competição institucionalizada com
regras, árbitros, pódios e medalhas.
Sabemos do que estamos falando porque alguns de nós tentaram fazer esse
género de competições com crianças no passado. Alguns de nós pensaram (como
muitos certamente pensarão) que as crianças têm um impulso para competir
mais
forte que os adultos. Esses instrutores fizeram então experiências nesse campo: competições
de
kata, competições de kumite, etc.
Após anos de experiência, chegaram a uma conclusão que poderá ser
surpreendente para a maioria de vós:
- As crianças sofrem com esse tipo de competição e sofrem muito mais do
que
os adultos.
Competições com árbitros e medalhas, mesmo que organizadas de uma forma
menos formal, sempre trazem lágrimas ás suas faces. As crianças
simplesmente
não entendem porque somente uma ou duas delas sobem ao pedestal ou ganham a
medalha.
Nos jogos tradicionais há uma enorme quantidade de papéis a desempenhar,
que
cada criança terá uma oportunidade de ganhar algumas vezes, mesmo que
perca
a maior parte das vezes. Nas competições institucionalizadas, o contrário
acontece: só alguns é que ganham e eles são na maior parte das vezes os
mesmos, porque o jogo (kumite ou kata) é sempre o mesmo.
Então, também com as crianças, chegámos à conclusão que a competição
institucionalizada traz mais males que benefícios. Sendo assim, decidimos
pura e simplesmente acabar com ela.
E acreditem ou não, o número global de crianças aumentou e o número de
crianças e pais descontentes diminuiu!
Então e sobre o mito que a competição traz mais praticantes aos dojos?
Bem,
nós não pensamos assim.
Almada tem uma forte tradição em Artes Marciais, sendo possível
encontrar aqui Capoeira, Kung-fu, Judo, Taekwon-do, Aikido, etc.
No entanto, acreditam nisto? O Karate-do Shotokai, uma das poucas Artes
Marciais que não promove competição institucionalizada para crianças,
tem o
número mais elevado de jovens praticantes. Ainda mais que o judo! E
presentemente a procura é tanta que o factor limitativo é, como já poderão
adivinhar, nós próprios. Nenhum de nós é profissional, e por isso o
nosso
tempo para ensinar está completamente preenchido.
Estou certo que muitos outros instrutores terão diferentes experiências a
ensinar crianças. Alguns talvez apostem que a competição é essencial em idades
mais
jovens. Outros talvez não.
Gostaria muito de saber a opinião dessas pessoas sobre outras experiências neste campo.
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