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1 - Pequeno prefácio
biográfico
Em primeiro lugar gostaria de fazer uma
pequena introdução a esta mensagem, especialmente para aqueles de vós que
nada sabem (ou pouco sabem) sobre Murakami Sensei e seus discípulos, como
eu.
O meu Mestre, para além da sua lendária capacidade técnica, era um
extraordinário ser humano, tão duro e exigente como generoso e digno.
Por exemplo, durante os muitos anos em que privei com ele, nunca ouvi uma
palavra sua crítica a outros Mestres de Shotokai na Europa, nomeadamente
Harada Sensei e Hiruma Sensei.
Além disso, sobretudo após a sua morte, muitas coisas incorrectas foram
ditas sobre ele e, para falar verdade, quando leio algumas frases em livros
escritos por quem nunca o conheceu pessoalmente, não posso acreditar que
personalidades
tão proeminentes possam proferir afirmações do tipo: “Murakami nunca
ensinou karate e era um mero professor de educação física”.
Essa é a razão principal pela qual decidi passar uma boa parte dos dois últimos
anos da minha vida a fazer viagens e entrevistas a muitos dos seus mais
antigos alunos na Europa. O resultado deste trabalho será, com a ajuda de
Deus, publicado em breve e espero que possa trazer para o público das Artes
Marciais uma mais correcta imagem sobre tão notável e personalidade.
Infelizmente, sobre a sua vida e obra não posso oferecer muito mais, de
momento, do que umas poucas palavras numa pequena biografia que poderão
consultar em http://www.cao.pt/hist_bio_ka_murakami.htm
Caso queiram ver uma mini-biografia minha cliquem em http://www.cao.pt/hist_bio_ka_asp.htm#Patrao
e , no mesmo endereço, encontrarão também mini-biografias de muitos
outros seguidores portugueses de Murakami Sensei. Mas para o
essencial desta mensagem penso ser suficiente dizer que, em 1981, eu fui
nomeado por Murakami Sensei como o seu mais novo Senpai, quando tinha
somente 22 anos de idade e desde então continuei a dedicar toda a minha
vida como karateca ao meu Mestre até à sua morte em 1987 e mesmo depois.
Dito isto gostaria agora de trazer até vós
alguns dos sentimentos que ouvi do meu Mestre em relação à competição
em Shotokai e também partilhar convosco a minha opinião pessoal sobre essa
matéria.
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2 - Pensamentos de
Murakami Sensei sobre Competição
Durante os anos que tive a oportunidade de
privar com Murakami Sensei ele sempre expressou um forte sentimento contra a
competição desportiva em Karate, pois sentia que isso nada tinha a ver com
o espírito de Budo. Disse-nos inúmeras vezes que a competição traz mais
males que benefícios a um karateca que queira seguir o Karate-do na
direcção que Funakoshi Sensei e
Egami Sensei nos indicaram.
Penso que ele estava numa excelente posição
para proferir este tipo de afirmações, pois foi o primeiro Mestre Japonês
a ensinar Karate de uma forma continuada na Europa. Durante uma década, a
partir do distante ano de 1957, ensinou o que as pessoas agora chamam (incorrectamente,
como decerto saberão porque Funakoshi Sensei nunca aceitou a ideia de
"estilos" no karate) “Shotokan-ryu” e, durante esse período, foi o professor
encarregue de
treinar as selecções de várias federações de Karate em França,
Inglaterra e Itália.
Depois de 1968, quando decidiu seguir a linha
de Egami Sensei, nunca encorajou os seus alunos a participarem nesse tipo de
eventos e geralmente recusava treiná-los para participarem em competições
desportivas.
Nas raras vezes que aceitou, penso que o fez
no sentido que me atrevo a classificar como o sentimento de um pai que
concede permissão ao seu filho mais novo para ir a um bar provar algumas
cervejas, sabendo que nada de bom virá disso, excepto provavelmente, a
experiência dos malefícios do álcool. (As pessoas que conheço que defendem que a
competição em Karate é uma coisa
maravilhosa decerto não me perdoarão por esta analogia, mas isto é
exactamente o que senti das palavras do meu Mestre quando falava sobre as pessoas que
lhe pediam permissão para participarem em competições desportivas de
Karate).
Mas o ponto que eu gostaria de realçar é o
seguinte: em contraste com as
suas sessões de treino que eram na realidade muito, muito duras, a sua
atitude em relação à competição era firme, mas nunca rígida ou
intolerante.
Ao contrário do que muitas pessoas que não o
conheceram pessoalmente possam dizer, Murakami Sensei tinha uma mente muito
flexível. Talvez possam entender melhor a sua posição perante
este tema com outro exemplo:
Em 1979, quando decidiu comemorar o décimo aniversário da introdução do
Shotokai em Portugal, uma competição de kata foi organizada e Mestre
Murakami aceitou com prazer participar como um membro do júri de
avaliação. Devo dizer, contudo, que neste caso todos participaram com um
espírito de amizade e companheirismo e posso assegurar-vos que, passado um
ano, ninguém se importava com quem tinha ganho (excepto provavelmente, os
vencedores).
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3 - Pensamentos
pessoais sobre institucionalização e competição em Karate
Deixem-me agora
compartilhar convosco alguns pensamentos pessoais sobre
institucionalização e competição em Karate.
Comecemos com a institucionalização.
3.1 -
Institucionalização profissional - antes um activista, agora um Engenheiro
Eu era ainda um adolescente quando aderi à
defesa de causas como a ecologia e a bio-agricultura. Lembro-me de ser um
activista lutando por essas causas num suave “estilo Greenpeace”.
Estávamos nos anos setenta e nesses dias as
nossas queixas soavam ingénuas e idealísticas às autoridades públicas.
Durante muitos anos as coisas não mudaram. Depois, pouco a pouco,
especialmente na última década, uma transformação profunda
de mentalidades ocorreu em Portugal: as pessoas começaram a aperceber-se
das consequências nefastas de atitudes incorrectas perante o meio ambiente.
Agora, na minha profissão de engenheiro,
tenho oportunidade de realizar projectos para os municípios, no domínio do
tratamento de águas residuais - o nome técnico é “ETAR's de macrófitas”
- que ajudam as pessoas a tornar o ambiente mais limpo e belo (as plantas
que tratam as águas residuais também crescem profusamente enquanto se
alimentam dos nutrientes
delas).
O mesmo se passa com a agricultura biológica. Há vinte anos atrás, quando
fui co-fundador da primeira cooperativa do país, sentia-me como se estivesse
a bradar no deserto - a procura de produtos biológicos no mercado era
insignificante.
Mas agora as coisas mudaram. Todos podem
encontrar produtos criados biologicamente em qualquer supermercado e os
benefícios que advêm do consumo desses produtos, quer em relação no que
se refere aos aspectos ambientais quer no campo da
nutrição humana são reconhecidos pela ciência e pelo público em geral.
E, talvez ainda mais importante, aumentou o
controlo em relação à qualidade e ao cuidado com meio ambiente. As
pessoas que prejudicam o meio ambiente ou que reclamam ter produzido
produtos biológicos, quando de facto os compraram no supermercado para
depois os rotular de "biológicos" são reconhecidos como
prevaricadores e poderão ser punidos pelas autoridades competentes.
Nos meus tempos de militância pela
agricultura biológica, a institucionalização não era necessária pois
todos no meio eram ingénuos e honestos. Porém, quando o "negócio
bio" se tornou rentável muitas pessoas se envolveram e medidas de
controlo revelaram-se necessárias.
As pessoas em geral, e especialmente as
pessoas das artes marciais, têm tendência de criticar a
institucionalização, muitos devido à burocracia. Têm razão, a
burocracia é uma coisa terrível. É o lado negro da institucionalização.
Mas, para ser franco, como engenheiro sou mais útil à sociedade do que
como activista ecológico. As minhas convicções mantiveram-se intactas, e
agora a sociedade permite-me pô-las em prática.
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3.2
Institucionalização em Karate - 2 anos como burocrata
Façamos agora um paralelismo com o Karate.
Quando comecei a praticar Karate e Judo, as
autoridades não eram muito exigentes a respeito das credenciais dos
instrutores. Afinal, éramos apenas uns quantos loucos usando pijamas
brancos com uns cintos coloridos. Todos se conheciam pelo primeiro nome
portanto poderemos dizer que ocorria uma certa espécie de auto-controlo.
Foi então que chegaram os especialistas
esquisitos (geralmente usando roupas negras, para fazer contraste) e
começaram a ensinar artes marciais com nomes estranhos. Ganhavam muito
dinheiro em pouco tempo numa pequena cidade e depois
mudavam-se para outra.
Há medida que essas situações se tornaram
cada vez mais frequentes a institucionalização teve de surgir e depressa o
governo impôs que, para ensinar, os instrutores de karate deveriam fazer
cursos especiais para obter credenciais oficialmente reconhecidas.
Realizaram-se alguns cursos, as autoridades competentes congratularam-se com
o facto e a atenção dos dirigentes de karate voltou a focar-se na
competição desportiva e nos jogos de poder entre federações que
reclamavam para si o reconhecimento governamental.
Desde então mais de vinte anos se passaram e
em 1998 aceitei um convite para ser Director do Departamento de Formação
na Federação Portuguesa de Karate. A principal razão da minha decisão
era o objectivo de reactivar os aspectos educacionais do Karate que foram
esquecidos dentro dessa organização por vários anos.
O custo para a minha vida pessoal foi muito
alto. O meio era (e creio que ainda é) extremamente stressante. Perdi
centenas de horas de treino de dojo e familiares e, a minha saúde,
normalmente forte como ferro, deteriorou-se significativamente.
Esse foi o meu limite na incursão no mundo organizacional do karate no meu
país.
Mas quando olho para trás e vejo os
resultados desse esforço não me arrependo. Durante um período de 2 anos,
com a preciosa ajuda técnica do Abel Figueiredo e de outros formadores,
ajudei centenas de karatecas a saberem mais sobre disciplinas úteis na sua
prática diária como instrutores (ou treinadores) e a terem um certificado
que lhes permite ensinar, legalmente (olá Maria Camarão, talvez você seja
um desses :- ).
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3.3
Institucionalização em Karate - Boa ou Má?
O facto de possuir uma licenciatura em
engenharia passada por uma Universidade ou o grau de Instrutor (ou
Treinador) passado pelo Departamento de Formação de uma Federação não
destruiu a minha crença na Ecologia ou nos benefícios do
Karate-do.
Também penso que não ajudei menos o mundo do
karate como burocrata, do que como instrutor experiente de Shotokai.
Estava convencido, e ainda estou, que os
conhecimentos sobre a história do karate, anatomia, psicologia e os
aspectos pedagógicos da prática, primeiros socorros, recuperação de
lesões, etc. não ferem a capacidade pedagógica de um instrutor de
Karate-do.
Penso pois que a institucionalização em
Karate, por si só, não é boa nem má, tudo depende da nossa atitude.
Falemos agora sobre a competição desportiva
em Karate-do, começando com alguns bem conhecidos e documentados factos
históricos.
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3.4 Alguns
factos históricos
Em 1935 Kichinosuke Saigo, Shigeru Egami,
Genshin Hironishi e muitos outros discípulos directos de Funakoshi Sensei
criaram o Shotokai (um género de “Fundação Funakoshi”) para juntar
fundos para construir o Dojo Shotokan.
Em 1949 os mesmos antigos discípulos e muitos
outros seguidores mais recentes de Funakoshi Sensei criaram a Nihon Karate
Kyokai (internacionalmente conhecida como “Japan Karate Association - JKA”)
com o objectivo principal de reunir o Karate-do como um todo, e evitar a
fragmentação do Karate-do no Japão como uma consequência da
proliferação de
vários estilos de Karate.
O pessoal operacional directamente encarregue
da NKK (JKA) incluía nomes como Masatoshi Nakayama (instrutor-chefe),
Hidetaka Nishiyama (Conselheiro Pedagógico) e homens com reconhecidas
habilidades para a gestão como Kimio
Itoh que foi nomeado Director Administrativo.
Contudo, não muito depois da criação da NKK
(JKA), os antigos seguidores de Funakoshi Sensei começaram a discordar com
a orientação que o pessoal operacional da NKK (JKA) estavam a dar à
organização, começando pelo facto que os instrutores da NKK (JKA)
começaram a receber honorários pela instrução de Karate, um facto que
não era comum nesses dias e poderia ser
considerado eticamente inaceitável.
Mas o ponto principal da discórdia veio do
facto de que o pessoal operacional da NKK (JKA), nomeadamente Nakayama e
Mishiyama cedo começaram a defender que o Karate deveria abraçar a
competição, tornando-se um desporto, com árbitros e regras bem definidas
que pudessem evitar lesões graves aos praticantes - um facto que se tornava
cada vez mais frequente durante combates “amigáveis” que
espontaneamente ocorriam entre clubes de karate universitário. Na lista de
argumentos a apoiar as suas opiniões, o kendo seria certamente um excelente
exemplo.
Entretanto, Funakoshi Sensei estava claramente
contra essa ideia e Egami, Hironishi, Obata e muitos outros antigos
seguidores de Funakoshi Sensei também sentiram que a competição
desportiva estava contra a essência do Karate-do. Como consequência esses
mestres começaram a distanciar-se da NKK (JKA).
Funakoshi Sensei, contudo, manteve o seu cargo
como fundador e Conselheiro Técnico simbólico da NKK (JKA) e tão forte
era a sua influência perante os dirigentes da NKK (JKA), que esta teve de
esperar pela morte do Mestre, ocorrida em 26 de Abril de 1957, para
organizar, em Junho do mesmo ano, o primeiro Campeonato de Karate-do do
Japão.
Estes eventos, e também a decisão da NKK (JKA)
de não comparecer ao funeral de Funakoshi Sensei (a família de Funakoshi
Sensei decidiu entregar a organização do funeral ao Shotokai) contribuiu
para criar uma profunda divisão entre a família Shoto, que se prolongou
até aos nossos dias.
Desde então o Shotokai, com Egami Sensei
assumindo o papel de líder carismático, continuou a desenvolver a prática
de Karate-do como um Budo, enfatizando os aspectos tradicionais da arte e
desenvolvendo um ideal de prática que é bem conhecido pelos praticantes de
Shotokai; por outro lado, os mestres da NKK (JKA) seguiram um longo e
turbulento trajecto que originou uma profusão de ramos de organizações de
karate desportivo sendo a World Karate Federation (WKF) e a International
Traditional Karate Federation (ITKF) possivelmente as mais conhecidas.
Egami, Hironishi e outros mestres de Shotokai
que mantiveram e desenvolveram o Karate-do depois da morte de Mestre
Funakoshi, em 1957, fizeram-no intencionalmente, com o objectivo de
preservar e desenvolver o Karate-do como um Budo, e não como um desporto.
Desde então o Shotokai afirmou-se por si próprio como uma alternativa
tradicional ao karate
desportivo.
Penso, pois, que estes factos históricos
demonstram claramente que a escolha de se fazer ou não competição
desportiva no SHotokai não é algo de superficial e pouco importante. Esse
conceito já estava presente antes do corte do cordão
umbilical. E pelo menos historicamente, ele faz parte do núcleo de valores
essenciais do Shotokai.
Sendo assim, usando termos técnicos que nos são familiares, penso que o
conceito de Budo em Shotokai é tão central e importante como o tanden o é
na nossa prática.
Mas deixemos então para trás a análise dos
factos históricos e voltemos, uma vez mais, aos paralelismos com
a agricultura biológica e com uma arte tradicional do Budo - o Kyudo - de
forma a tornar mais claro o nosso ponto de vista.
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3.5 -
Competição em Shotokai? - Porque não em Kyudo?
Assumamos por um momento que alguns
agricultores biológicos começam a usar ocasionalmente pesticidas químicos
para proteger as suas colheitas das pragas de forma a maximizarem a sua
produção.
- Desde que usem esses produtos cautelosamente
e de acordo com as instruções dos fabricantes, nada de mal irá acontecer
aos consumidores, certo?
- Errado!
Posso assegurar-vos que muitas pessoas que
compram produtos biológicos estão bem cientes dos estudos científicos que
demonstram que a maioria dos pesticidas químicos, quando correctamente
aplicados, parecem ser inofensivos à saúde humana. Mesmo assim, eles
preferem consumir produtos cultivadas organicamente, e esse é um direito
que têm.
Será correcto então colocar uma etiqueta “bio”
num produto que é originado da agricultura convencional?
Penso que não. Penso que atitudes como essa
só possam ser consideradas como fraude. É por isso que as autoridades
governamentais, assim como as organizações de consumidores, analisam
continuamente os produtos que usam as etiquetas “Biológico”, alertando
os consumidores quando são detectadas fraudes.
Aproximemo-nos da nossa linha de raciocínio
para com as artes marciais com outro exemplo.
Suponhamos que tínhamos aprendido um pouco
sobre Kyudo num livro bom e especializado e decidiam praticar. Procurávamos
na Internet e descobríamos um dojo nas redondezas. Surpreendentemente, ao
entrar na sala de treino, em vez de praticantes vestindo hakama e usando os
tradicionais arcos assimétricos japoneses, descobríamos várias pessoas
vestindo fatos desportivos da Adidas e usando arcos de precisão,
semelhantes aos da disciplina Olímpica do Tiro com Arco.
- Desculpe-me! É este o dojo de Kyudo que está anunciado na Internet? -
perguntamos nós ao homem que parecia ser o responsável pela classe.
- Sim! Tiro com arco é tiro com arco, sabe? às segundas e quintas
praticamos Kyudo, o tradicional tiro com arco Japonês; às terças e
sextas, praticamos tiro com arco desportivo... às quartas misturamos tudo,
de modo que poderá usar um hakama enquanto utiliza um arco de tiro
olímpico se quiser; notará certamente o belo contraste... é realmente
divertido! - responde o responsável do ginásio, com um sorriso radioso.
- A sério?!
- Sim! Nós somos uma organização com uma mente muito aberta, sabe,
prestamos atenção aos vários tipos de público e oferecemos um variado
leque de opções...
Agora, apelo à vossa franqueza,
inscrever-se-iam neste dojo? Eu certamente não o faria.
O facto de ambas as disciplinas usarem um arco
e dispararem sobre um alvo não as torna similares. No seu passado
histórico possivelmente partilharam uma mesma origem - a caça ou a guerra
- mas agora são realmente disciplinas diferentes e sinceramente espero que
um desses famosos ginásios americanos não as misture, criando um novo
género de salada marcial, acompanhada por algum tipo de música esquisita.
Eu sei, eu sei. Sentem que a caricatura é
muito forte. Mas estou só a salientar o meu ponto de ponto de vista. Por
favor perdoem-me pelo excesso.
- Estamos então de acordo que um pouquinho de competição no Shotokai não
é assim tão mau, certo?
- Errado!
O tiro com arco olímpico é de facto muito
belo, mas abraça um conceito desportivo que é na sua essência diferente
do do Kyudo - uma disciplina do Budo, que também é muito bela. Misturando
as duas, corremos o risco de privar cada uma delas das suas características
essenciais.
Similarmente, hoje em dia, algumas disciplinas
usam o nome comum de “Karate-do”, ou ainda “Shoto” mas as
semelhanças acabam aqui, pois abraçam diferentes filosofias.
E sinceramente penso que oferecendo
competição desportiva ao público em geral e dando-lhe o nome de “Shotokai”
é, (talvez não intencionalmente) um erro equivalente a misturar
Kyudo com tiro com arco, equivalente ainda a colocar no mercado um
produto etiquetado como “bio” quando foi criado usando ("inofensivos")
pesticidas químicos.
Então porque não concordamos todos que a
competição desportiva não deveria fazer parte da prática do Shotokai e
... caso encerrado?
Penso que para responder a essa questão
teremos de regressar ao conceito de tanden.
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3.6 Encontrando
o Tanden
Hoje em dia as pessoas têm uma enorme
liberdade de escolha dentro do mundo do Karate.
- Cada um, homem ou mulher, pode seguir um caminho competitivo, que é
institucionalizado e bem estruturado por variadíssimas organizações
desportivas, com ou sem combates para KO,
- Cada pessoa pode seguir uma prática não
competitiva dentro do Shotokai e de outras organizações de Karate-do,
- Cada um de nós poderá mesmo seguir ambos
os caminhos, em diferentes períodos da vida, talvez começando com a
competição e mais tarde abraçando outros aspectos do Karate-do.
E isso leva-nos à questão principal:
Porque não oferecer então competição desportiva no Karate-do Shotokai
? Será que isso não permitiria evitar
que as pessoas saíssem para procurar competição lá fora?
- Sim, seria uma boa resposta às exigências do público em geral, e
alargaria a nossa oferta, certo?
- Errado!
Bem, há que reconhecer que estamos num
impasse.
Eu digo que é errado outros dizem que está
certo, essencialmente porque ainda não acordámos acerca do que são os
valores essenciais do Shotokai. Simplificando posso dizer que não concordamos
acerca do que é e onde está o nosso tanden.
A disciplina moderna das organizações diz:
- Há que manter o núcleo (os valores essenciais) e estimular o progresso!
Usando termos mais familiares à nossa
prática podemos dizer que:
- Mantém o tanden e sê criativo!
Sim, devemos actualizar e redefinir os valores
essenciais da nossa filosofia prática para que possamos aceitar a variedade
como uma riqueza que estimule o progresso, enquanto que mantemos o nosso
tanden estável quanto baste para assegurar a nossa identidade e
integridade.
Estou convencido que Egami Sensei e muitos
outros Mestres de Shotokai fizeram esse tipo de reflexão em 1957 logo após
a morte de Funakoshi Sensei.
A sua resposta foi clara:
- O conceito de competição desportiva abraçado pela NKK (JKA), afectou os
seus valores fundamentais. Então tiveram de recusar a caminhar ao lado
deles..
Estou convencido, mesmo, que esta atitude
está profundamente enraizada no própria génese da divulgação da arte do
“Te” de Okinawa para o público em geral por homens como Itosu,
que propôs em 1892 a introdução do Tode no sistema público de educação
de Okinawa, ou por Funakoshi, que introduziu na década de 1920 o Okinawa-te
nas universidades japonesas, destacando os aspectos educativos da arte e,
não os competitivos.
E estou profundamente convencido que o
conceito de Budo partilhado por muitas artes marciais antigas como o Kyudo,
ou o Iaido, e também pelas mais recentes como o Aikido de Morihei Ueshiba
não pode abarcar a competição desportiva.
- Subentende-se então que eu desejo ver a
competição desportiva erradicada do Shotokai como uma praga, certo?
- Errado!
Honestamente, hoje, com 45 anos de idade,
penso que a atitude primária de simplesmente proibir a competição
desportiva no Shotokai seria inconsequente e votada ao fracasso.
Julgo compreender agora mais claramente a
atitude mais tolerante de Mestre Murakami na década de 1970, um pouco
similar à atitude de outras personalidades contemporâneas que afirmam “aceitar”
a competição em vez de a proibirem.
A compreensão sobre as influências negativas
da competição desportiva numa arte do Budo como o Karate-do Shotokai,
deverá vir de dentro, do coração de cada um ou talvez do Tanden. A mente
não é suficiente, penso eu.
E, para além da reflexão pessoal de cada um,
há a discussão pública, o ouvir pontos de vista diferentes, o que talvez
constitua um bom método para treinar a humildade e a flexibilidade mental.
Essa atitude talvez possa trazer também luz ao nosso espírito.
É por isso que proponho que nos encontremos
em Portugal em Outubro de 2003.
Espero sinceramente que o Shotokai
International Meeting nos ajude a definir onde está o Tanden do Shotokai.
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