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Tradução
de uma Mensagem
enviada por José Patrão em
http://groups.yahoo.com/group/shotokai/
1 - Relacionamento entre Grupos
Shotokai
Sobre o mau relacionamento entre os grupos
Shotokai Europeus, nomeadamente entre os da Murakami-kai, ouso citar Mark
Twain: “As notícias acerca da minha morte são um pouco exageradas!"
Penso que muitas pessoas fora da Murakami-kai
poderão desconhecer o excelente relacionamento entre a Associação
Shotokai de Portugal (ASP) e a Scuola Shotokai Italia
(SSI), a Mushinkai (Sr. Luis de
Carvalho), ou a IKDS
(Sr. Vecchiet), só para citar algumas.
No que se refere à Murakami-kai Portugal
muitos pessoas desconhecerão certamente que, desde a morte de Murakami
Sensei em 1987, a ASP
manteve a sua coesão e espírito de união. Ninguém deixou esta
Associação e trabalhámos conjuntamente tanto em termos Técnicos quer
Administrativos, como um grupo. Em vez de um Líder Técnico temos um grupo
chamado “Kodansha” composto por mais de 20 pessoas, cada um tendo mais
de 25 anos de prática e é este corpo
colectivo quem decide, de uma forma democrática, as linhas de orientação
de toda a associação para um período de três anos. Os fundadores da Murakami-kai
em Portugal, há 34 anos, ainda estão dentro deste grupo dando os seus
conselhos aos membros mais jovens. O nosso Mestre continua a ser Murakami
Sensei. O cargo de Coordenador
Técnico - ocupado por mim neste momento - foi ocupado por outra pessoa no
passado e será ocupado por outra no futuro.
Com estas palavras não pretendo dizer, de
forma alguma, que sejamos melhores que os outros. Antes pelo contrário:
todas as vezes que visitei outras organizações Murakami-kai na Europa e
pratiquei com os seus líderes admirei os seus superiores conhecimentos
técnicos e organizativos.
No que respeita a “relações
intercontinentais” entre grupos Shotokai, posso assegurar-vos que a ASP e
o Shotokai Karate Budo, por exemplo, partilham exactamente a mesma filosofia
e espírito de prática, embora nunca tenhamos tido o mesmo mestre e
tenhamos praticado em conjunto somente por algumas horas. E se é certo que
a ASP tem uma relação directa (sem intermediação de um Mestre Japonês)
com a Nihon Karate-do Shotokai também é certo que mantemos talvez uma
ainda melhor compreensão (em termos de trabalho dentro do dojo) com pessoas
que foram discípulos directos de Egami Sensei.
Deixem-me dizer agora que concordo com o Sr.
Schneider de que o relacionamento entre os grupos Murakami-kai franceses
não é um bom exemplo para seguir (aliás, o relacionamento entre os grupos
de Shotokai Japoneses também não é perfeito). Mas eu tenho a
recalcitrante mania de seguir bons exemplos. Por isso, prefiro não
classificar toda a floresta como doente só por olhar para uma ou duas
espécies incompatíveis de árvores.
Reparem só no número anual de visitas do
"shotokai.com"
comparadas com o mesmo número de visitas de qualquer outra organização de
Karate desportivo do mundo. Estou consciente de que o número de visitas de
uma página Web pode não
ser necessariamente um indicador de qualidade. Mas estou convencido que
neste caso, os praticantes de karate e de budo no
mundo inteiro olham para o www.shotokai.com como um excelente site de guia e
referência em termos de Budo, Karate-do e Shotokai.
2 - Importância e Papel das
Organizações de Shotokai
Podem classificar-me como um inabalável
optimista, mas tenho a convicção pessoal que as organizações de Shotokai
assumem uma importância crescente no panorama mundial do Karate-do.
Mesmo que as pessoas tendam a abraçar a
competição (no Karate, ou nas suas carreiras profissionais) durante um
período específico da sua vida, geralmente, com o passar do tempo, tendem
a olhar para os outros de uma forma mais interdependente. Há medida que as
pessoas ficam mais maturas, tendem a olhar para as artes de Budo não
competitivas de uma maneira diferente, apreciando mais a reflexão e o
crescimento interno do que vencer os outros.
Neste processo as pessoas podem também olhar
para os seus filhos e aperceberem-se que eles têm suficientes competições
nas suas vidas, quer na escola quer no ginásio, e podem decidir inscrever
os seus filhos e filhas numa classe de Karate-do Shotokai. Por exemplo, em
Almada - a minha cidade natal - há mais crianças a praticar Shotokai
(cerca de 200 crianças) do que em qualquer outro estilo competitivo de
Artes Marciais. E se não temos mais dojos abertos isso deve-se ao facto de
acreditarmos numa boa preparação dos instrutores e simplesmente não
termos pessoal suficiente para as necessidades.
Actualmente a competição desportiva tem o
seu local seguro nas nossas vidas (e as audiências televisivas certamente
mostram isso) mas as Artes não competitivas do Budo, como o Shotokai,
também encontraram o seu próprio público.
Estou convicto que um número crescente de
pessoas no mundo (ao menos, nos países em que o fluxo de informação não
é limitado ou censurado) têm tendência a abraçar a filosofia não
violenta que está inerente à nossa prática.
Com isto não pretendo dizer que as
organizações de Shotokai não necessitem de desenvolvimento. Mas como
poderemos desenvolvê-las?
3 - Ensaio de Diagnóstico
Neste momento atrevo-me a tentar começar a
diagnosticar o mal das organizações de Shotokai (pelo menos das europeias)
e propor algumas acções terapêuticas. Outros mais qualificados do que eu,
irão certamente melhorar (ou simplesmente abandonar) esta primeira
aproximação.
Penso que no passado (desde os anos 70,
através dos 80 e continuando nos 90) os Grupos Shotokai Europeus foram
fortes, de uma forma independente, porque se baseavam no seguimento de
fortes líderes japoneses: Murakami Sensei, Harada Sensei e Hiruma Sensei
foram os principais.
Entretanto, com a morte de Murakami Sensei e
como os outros dois Mestres avançavam na idade, uma crise ocorreu.
O meu crer pessoal é que esta crise veio de
um *paradigma errado* que pode ser encontrado em todo o lado na Europa:
- Alguns Seniores Europeus que foram em tempos alunos directos desses
mestres (ou até alunos directos de Egami Sensei) querem ter uma posição
de liderança similar (se não equivalente) aos seus carismáticos Mestres.
Simplificando, penso que estas pessoas
disseram:
- O Mestre agora sou eu! Sigam-me!
Tentativas antigas para formar um grupo
Shotokai Europeu falharam não por causa de falta de excelente tecnicistas,
mas sim porque as pessoas continuavam a dizer:
- O Mestre agora sou eu! Sigam-me!
Algumas vezes estas atitudes foram camufladas
por um falso hino de grupo que soava a algo como isto:
- Nós somos os melhores! Sigam-nos!
Implícito nestas palavras está o sentimento
de que o Mestre morreu, ou já não é competente, e os meus colegas
são muito menos competentes do que eu. Então eu sou obrigado (!?) a
assumir a liderança.
Para ser franco, ouvi esta lengalenga durante
anos e o que é facto é que me sinto comovido por ela.
Se a antiga liderança de três facções
causou (directa ou indirectamente) a aparência de três seitas fanáticas
entre o Shotokai, penso que a atitude subsequente causará uma
fragmentação ainda pior. Em três ou quatro décadas poderá até causar a
morte do Shotokai (ou como muitos preferem dizer: a filosofia do Karate-do
como foi desenvolvida por Egami Sensei) pelo menos na Europa.
Tenho presente que iniciativas como a IKDS, a
Mushinkai e a AKSER têm como pano de fundo um bom espírito de cooperação
e de trabalho de equipa de nível internacional. Penso que esta será a
razão principal pela qual têm obtido um
certo grau de sucesso.
Mas cada uma dessas organizações ainda falha
na comunicação com as outras...
4 - Algumas propostas
terapêuticas
O que fazer então? Recusar a liderança?
Talvez o que se necessite seja exactamente o
contrário. Talvez necessitemos de respeitar a liderança de cada grupo e
ser tolerantes às diferenças.
Porque não olhar para as diferenças
técnicas entre os vários grupos de Shotokai da mesma forma que os
ecologistas olham para a biodiversidade?
Porque não tentar praticar esse tipo de
flexibilidade mental que Egami Sensei pregou e praticou? Olhem para Mestres
como Aoki, Miyamoto, Harada, Murakami, Hiruma. Todos eles beberam da mesma
fonte - Egami - mas todos se desenvolveram de uma maneira diferente. Será
isso mau?
Bem, se olharmos para o Shotokai como outro
estilo de Karate, outro “ryu”, que terá de ser uniformizado e
compilado, as diferenças soam terríveis.
Mas se olharmos para o Shotokai como uma
filosofia prática (firmemente alicerçada nas origens Okinawianas do Karate
e também do Budo), então não deveremos ter receio dos tipos de
experiências feitas por Hiroyuki Aoki (Shintaido) ou Yves Thélen (Aiki-karate-do)
só para citar, talvez, os mais extremistas.
Estou convicto que, com o decorrer do tempo as
diferenças entre o trigo e o joio tornar-se-ão aparentes. Algumas
experiências frutificarão, outras não.
As práticas agrícolas do último século
basearam-se na monocultura. O resultado foi quase catastrófico nalgumas
partes do mundo onde os desertos tomaram agora o lugar de florestas
milenares. Na minha opinião a “monocultura” criará o deserto no
Shotokai também.
Em termos práticos deixem-me dar uma imagem
para clarificar os antigos e novos paradigmas:
- Pirâmides e Vida.
As pirâmides são de facto uma realização
humana extraordinária. Durante milénios persistiram como belos símbolos
do passado. Mas olhemos de novo e perguntemo-nos se cada uma delas não é
também um símbolo de imutabilidade e de morte?...
Mas não será a vida na sua diversidade e
interdependência, uma realização ainda maior? Ela existia bem antes das
pirâmides e, se os humanos com o seu egoísmo não a destruírem por
completo, sobreviverá muito para além da ruína das pirâmides, absorvidas
pela areia do deserto. A vida evolui constantemente, adaptando-se
continuamente às mudanças no meio envolvente.
Deixemos então o Shotokai florescer como uma
entidade viva, não como uma pirâmide especada no deserto em memória de um
rei morto.
É por isso que aderi categoricamente ao
projecto de uma Base de Dados Informativa do Shotokai. É por isso que
proponho que nos reunamos em Portugal no próximo mês de Outubro.
Nós necessitamos urgentemente de acordar
acerca do que é o nosso imutável núcleo de valores. Mantendo este “tanden”
estável podemos então apreciar a variedade e diversidade, como forma de
estimular o progresso.
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