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Eu
gostaria de prosseguir a via do Karate,
tal
como a vida,
na
graça da verdade inerente
ao
calmo ondular dos pinheiros.
Shoto
Cap.
1 - O Funeral
Fora
homem de bom nome, o estrangeiro. O funeral deveria ser grande e reunir
gente dos mais diversos estratos sociais.
A
morte não surpreendera o seu espírito de velho ilhéu do Sul,
habituado aos rituais de passagem e diálogo com o
outro lado. Há muito que a esperava. Espantara-se sim que o mesmo
destino que quisera ceifar a vida de tantos jovens tivesse logrado
prolongar-lhe a vida por tantos anos.
-
Porquê ? - perguntava-se depois da guerra, da terrível Guerra - porque
terei de passar o resto dos meus dias a assistir ao crescer incessante
desta multidão que, à força de querer polir a arte agreste da minha
terra, mais não faz do que delapidá-la, alegremente ?
Mas
era essa, sem dúvida, a sina que o acompanhava desde o berço.
Nascera
em 1868, no primeiro ano da era Meiji – o turbulento período de
transição do Japão samurai para o Japão moderno. Crescera vendo
dealbar o iluminismo japonês, ouvindo um povo inteiro jurar fidelidade
ao novo imperador e ao seu desejo de abertura à civilização
ocidental. Assistira, jovem, ao exalçar da onda transformada então em
anexação e imperialismo – China, Coreia, Rússia... Partira para
Honshu já homem maduro, aproveitando uma segunda vaga de curiosidade
perante o novo e o estrangeiro trazida pelos militares regressados das
campanhas imperiais. E assistira com mágoa ao desencadear da derradeira
vaga de espírito nacionalista que haveria de conduzir à ruína da
nação em 1945.
Tominakoshi,
o defunto, tivera sem dúvida uma vida longa... tão longa. Mas mais do
que um longo caminho, a sua vida fora um desígnio, cuidadosamente
percorrido.
Infelizmente,
agora, tudo parecia indicar, que o precioso legado de paz, verdade e
coragem que deixara, não seria suficiente para inundar de amor todos os
membros da sua família.
Na
aproximação forçada que a organização do funeral do pai lhes
impunha não se enfrentavam apenas duas personalidades díspares. Aquele
conflito surdo resumia o dualismo de todo um povo obrigado a escolher
entre a tradição respeitosa de aprender, refinar e apurar, e o desejo
incontido de queimar as velhas escrituras, rasgar fronteiras, recuperar
para as pequenas ilhas o seu papel de centro de um mundo novo.
Kai
graduara-se em Waseda – a universidade da erudição, em arte e
política. Kan em Takushoku – a escola superior do expansionismo e do
sucesso comercial.
No
dilema entre o ser de Kai, e o fazer
de Kan, o conselho familiar decidira pela tradição – as cerimónias
fúnebres seriam organizadas por Kai.
Mas
Kan não se podia conformar com a decisão. Quem se julgava Kai para se
arrogar herdeiro dos últimos desejos de seu pai. Kan sabia-se muito
mais popular, sentia-se autorizado pelo anelo de todos aqueles que,
embora massacrados pela guerra, ansiavam mostrar ao mundo as
potencialidades da nação japonesa. A arte de seu pai merecia ser
divulgada e oferecida a todo o mundo e Kan, que tanto trabalhara para
esse fim nos últimos anos, sentia-se a pessoa certa para o fazer.
-
Malditos! Negam-me o privilégio de
organizar o funeral de meu pai!? Malditos sejam! Recusar-me-ei a estar
ao lado de tal gente na cerimónia. Eu e todos os meus alunos.
E
foi assim que o funeral de Tominakoshi, o mestre-poeta que a si próprio
se chamava Shoto, o estrangeiro que queria ser aceite como
conterrâneo, o funeral que deveria ser grandioso e reunir gente de
todos as castas e estratos, acabou por se cingir às cerimónias
solenes, sobrando-lhe em altivez o que lhe faltava de sal do povo.
Esse povo que vestia o gi
branco do Judo mas que queria ser tão popular como o Kendo e, se
possível, mais respeitado que o próprio Sumo. Esse povo que usava
técnicas chinesas com nomes de Okinawa traduzidas para japonês. O povo
que descera o Fuji para escalar o Olimpo. Que pretendia ensinar um novo
desporto aos inventores do desporto. Esse povo cumpriu, obedientemenete,
a vontade de Kan e, com o coração destroçado, obrigou-se a faltar ao
funeral.
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Cap.
2 - Um Nome Maldito
Face
a tão reprovável acto Kan sabia-se banido pela família mas, o que de
todo não imaginava é que, em breve, lhe seria interditado o uso do
próprio nome:
-
Quem se julgam eles para me negar o uso do nome da minha família!?
Shoto-kan é o meu nome e ainda que não possa ser escrito pela mão dos
eruditos será usado pela boca do povo. Em todo o Japão e em todo o
mundo! Hoje mesmo prometo, solenemente, que em poucos anos Shoto-kan
será o mais famoso dos nomes da nossa família. Shoto-kai será
ignorado e olvidado por todos os meus dcescendentes. Maldito seja!
Kan
não era homem de oferecer promessas aos Kami. Mas ao povo, a esse sim,
ao povo oferecia o seu trabalho. Com as mãos nuas amassou o barro,
modelou-o, cozeu-o no fogo, aperfeiçoou as formas de modo nunca antes
visto. Adoptou as mais modernas ciências ocidentais - anatomia, a
pedagogia e todas as demais - estudou-as com avidez e utilizou-as com
entusiasmo. Claro que a divulgação e comercialização do produto não
foram esquecidas - cuidou das cores, do aspecto final e do preço justo.
Mas de todos os ingredientes desse bálsamo revigorante para o espírito
de milhares de jovens do pós-guerra sedentos de desafios, dois se
destacavam: a exigência de qualidade e a adopção de um carácter
desportivo. A procura da qualidade de execução, através de uma
exigência nos limites do insuportável, apelava à memória colectiva
do espírito de refinamento samurai. O desporto, por outro lado, era o
rótulo que agradava às poderosíssimas e omnipresentes forças de
ocupação. E que tremendas forças deveriam ser essas, capazes de
destronar a herança directa dos deuses que todo aquele povo, há tão
poucos anos, estava tão certo de ter.
Escassos
dois meses passados sobre o funeral de seu pai, Kan ousava desafiar a
sua memória organizando, no maior recinto coberto de Tóquio, um
campeonato tão grandioso e participado que o entusiasmo da multidão
cedo transbordaria das páginas dos jornais e revistas japonesas para os
mais recônditos dojo's do Japão.
Em
breve a maldição da família Shoto contra Kan haveria de virar-se
contra si própria: familiares mais ou menos afastados de Shoto decidiam
agora organizar eles próprios as suas próprias disputas desportivas,
algumas das quais pretendiam mesmo rivalizar, senão em sucesso, pelo
menos em dureza e espectáculo com as organizadíssimas e cada ano mais
populares competições desportivas de Kan.
À
medida que a fama de Kan se tornava internacional surgiam os convites
para estágios no estrangeiro, publicações de livros, manuais da arte
e filmes, tudo na língua dominante - o inglês - claro está. Os
ocidentais, ingleses e americanos sobretudo, gostavam da forma como Kan
aceitava renunciar às tradições culturais da sua arte (demasiado
conotadas com a cultura guerreira dos derrotados) transmutando-a, sem
complexos, numa actividade desportiva como o basquetebol -
compreensível, lógica e racional, facilmente digerível pelo grande
público.
Para
Kai nada disso interessava. Fama, notoriedade, um elevado número de
discípulos, desprezava tudo isso.
A sua voz contrária, defendendo a natureza tradicional da Arte,
tornava-se agora inaudível no bruá da multidão e, afinal, talvez
fosse melhor assim... Se as suas teses fossem ouvidas, certamente seriam
ridicularizadas e irremediavelmente destruídas por uma corrente de
opinião, pós-guerra, que não estava de modo algum preparada para
aceitar, por exemplo, que o mesmo espírito de antecipação que os
japoneses tinham empregue com tanta eficácia destrutiva em Pearl
Harbour tivesse alguma coisa a ver com aquela actividade física que
eles desejavam ardentemente possuir e consumir. O público reclamava
campeonatos e competições, provas de agilidade e destreza,
espectáculos cada vez melhores, maiores, nada mais...
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Cap.
3 - O Universitário
Longe
de tudo isto estava o mais novo dos irmãos Shoto. Também ele formado
em Waseda e por isso conhecido como "o universitário" cedo se
revelara senhor de um bom espírito de liderança e de um grande talento
para a Arte do pai. A família encorajara-o a tentar a sorte nos Estados
Unidos da América e ele, que inicialmente ambicionara abraçar uma
carreira profissional bem diferente, acabaria por se tornar num dos mais
famosos Mestres da Arte de Shoto fora do Japão.
O
seu carácter fiel e meticuloso fizera com que, ano após ano, se
dedicasse a traduzir para inglês a principal obra escrita por seu pai e
esse livro, que acabaria por se tornar a bíblia de todos os estudiosos
da Arte, trazendo em definitivo o seu nome para o quadro de honra da
Arte.
Sem
ofender qualquer dos irmãos, "o universitário", embora não
se excusasse a organizar provas desportivas, tão ao gosto dos
americanos, não escondia a sua preferência pela postura e pelos ideais
defendidos por Kai. Ele era aliás dos poucos que se mantinha ao
corrente da missão a que Kai de corpo e alma se devotara, desde o
momento em que se vira dotado com a pesada herança do desenvolvimento
da Arte de seu pai.
A
longa separação entre os dois irmãos não fizera diminuir a profunda
admiração que ambos sentiam um pelo outro.
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Cap.
4 - Ventre Nu, Braços Caídos
Quando
lhe diziam que Kai, agora, baixava de forma desconcertante os braços
frente aos adversários, ele era dos poucos que sabia interpretar
correctamente essa atitude:
-
Desenganem-se! Os braços caídos ao longo do corpo, sem esboçarem
guardas nem protecções, não significam desalento, mas sim coragem.
Ele
era dos poucos que sabiam que Kai decidira oferecer arrojadamente o seu
ventre aos ataques de punho de todos os que ousassem derrubá-lo. E eram
muitos os que inutilmente tentavam. Testando dessa forma brutal a real
eficácia dos ataques, acabou por concluir aquilo que já suspeitava –
todos, sem excepção, eram absolutamente ineficazes.
Um
dia, porém, algo de surpreendente aconteceu. Travou conhecimento com um
dos mais jovens estudantes de Waseda, que decidira abandonar, alguns
anos atrás, o método clássico da Arte por divergências com um
superior retirara-se para as montanhas, tornando-se eremita e caçador,
acabando por tornar-se seguidor de uma seita religiosa que, antes da
grande guerra, tinha sido popular no Japão. A sua postura física
absolutamente descontraída e a desconcertante forma de atacar – suave
e solta – ocultavam uma tremenda eficácia de ataque. Pela primeira
vez Kai sentira um ataque realmente eficaz. A eficácia sentia-se não
"por fora" mas "por dentro", não imediatamente a
seguir ao ataque, mas por vezes várias horas, ou mesmo dias, depois...
Kai
queria saber mais!
A
essência do que procurava estava presente naquela forma de atacar, bem
o sabia. E soube fazer o que muito poucos conseguem: passou de Mestre a
discípulo, reaprendeu a humildade, ousou renascer. Kai era
um solo cultivado e fértil, onde as várias sementes das antigas Artes
podiam enraizar. Os que estavam perto dele assistiam, sem saber,
à realização do sonho mais profundo do pai Tominakoshi: transformar a
Arte de Okinawa num membro de pleno direito do Budo japonês!
Dar-lhe-iam os Kami a honra e a oportunidade de concretizar tal
sonho?...
Por
um breve momento tudo parecia conjugar-se no bom sentido. Embora a
saúde não o ajudasse, a atitude receptiva e inovadora de Kai atraía
jovens praticantes de outras Artes do Budo que decidiam experimentar no
seu corpo os ensinamentos de Kai. O resultado do trabalho desse grupo
foi excepcional, uma síntese maravilhosa de artes antigas conjugando-se
num espírito de abertura à inovação e investigação. Verdadeiros
Mestres das artes mais conservadoras, como o Kyudo, quando observavam a
prática rendiam-se à evidência:
-
Nos movimentos contínuos e fluidos daquele Keiko não consegui
encontrar uma abertura para o ataque.
Assim,
no final da década de sessenta, na altura em que os jovens estudantes
franceses acendiam um rastilho de revolta contra os valores
estabelecidos, os jovens discípulos de Kai ousavam também afrontar
valores instituídos pela hierarquia militarista de antes da Guerra.
Reinventavam a naturalidade de movimentos a liberdade dos gestos. Nos
seus corpos a energia voltava a fluir.
Se
a conservadora cultura japonesa não estava ainda totalmente preparada
para aceitar esse tipo de proposta, outro tanto não se passava na
Europa e em certas partes da América. Os valores holísticos e
universalistas que Kai defendia eram os mesmos que o Ocidente agora
procurava; a filosofia que professava, aquela que durante milénios
tinha sido a raiz do tronco visível da Arte, era agora tema de
investigação de muitos estudiosos ocidentais.
Muitos
dos devotados discípulos do método de seu irmão - Kan -
acabavam por reconhecer também o carácter genuíno do novo
método. Na Europa, em poucos anos, os seguidores de Kai contavam-se já
por dezenas de milhar e ambicionavam conhecer directamente o Mestre que
se tornara para eles um símbolo.
Infelizmente,
por essa altura, já Kai estava incapacitado de demonstrar directamente
as técnicas sublimes que desenvolvera. Nas duas curtas viagens que fez
à Europa, a doença terrível que há muito o perseguia e que se
agravara nos últimos anos, impossibilitava-o até mesmo de caminhar,
quanto mais de demonstrar fisicamente a Arte. Restava-lhe agora ajudar
os seus jovens discípulos a desenvolver os seus próprios caminhos e
escrever... Há muito que lhe pediam que escrevesse um livro que
traduzisse a essência da Arte, muito para além dos aspectos técnicos.
Assim fez...
Esse
único livro, lançado em língua inglesa foi um enorme sucesso mundial
que rapidamente esgotou. Pelo mundo fora os mais devotados historiadores
e estudiosos da Arte debruçaram-se sobre essa obra e sobre as
evoluções geniais que Kai ousara propor, acabando por reconhecer o
passo gigantesco que decidira empreender. E esse passo fora um duplo
movimento recuando no passado, em busca das tradições esquecidas do
Budo, e um avanço corajosamente no futuro, lançando sementes que
germinariam em novas Artes do corpo e do movimento.
O
tempo de Kai chegara, finalmente. Mas a sua vida, há muito
perseguida por uma doença inexorável, estava a chegar ao fim. Não
viveria o suficiente para conhecer o impacto da sua obra em muitos
estudiosos da Arte.
O
inevitável acabaria por se consumar:
a chama ténue da sua vida foi-se esvaindo, devagarinho, até que,
perante o olhar de desespero de todos os alunos que ansiavam fosse ele
próprio a dizer ao mundo tudo o que tinha descoberto, suavemente se
apagou.
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Cap.
5 - Um
Negro Manto
Uma
das dores mais amargas perante a morte de Kai pertencia aquele que, com
muito honra, decidira prefaciar a obra única do seu irmão mais velho.
O “universitário" vira, nesse acto, a oportunidade de dizer ao
mundo quem era, por direito e de facto, o sucessor do velho
ilhéu do Sul e, com palavras
simples e firmes, revelou corajosamente essa realidade ao mundo:
-
O sucessor de Mestre Tominakoshi na ancestral Arte das mãos sem armas
é o Senhor Kai.
E
agora que contemplava a face sem vida do seu irmão essa frase ressoava
na sua mente com um eco de tragédia. É que o “universitário”
aprendera a conhecer as forças ocultas da mente humana, esse sentimento
imundo de não suportar um puro encanto, tapando-o com um negro manto e
enterrando-o num buraco sem fundo.
Quem
se afadigava agora a apagar
da história a genialidade da obra de Kai?
Seria
Kan, o irmão-inimigo?
Não!
Esse há muito reconhecera o erro de vender a alma aqueles que agora o
abandonavam como um livro usado.
Era triste o seu semblante, amargurado por ver que o entusiasmo da sua
bela ideia se esgotara afinal em tão poucos anos, qual fogo de palha.
Na pira da competição pelo pódio repousavam agora as cinzas dos belos
valores da Arte que o seu pai lhe ensinara.
Foram
tristes os últimos anos de Kan. Fora longe de mais num caminho que,
sabia-o agora, não teria tempo para trilhar de volta. Pior do que isso,
apesar de realizar o primeiro sonho de seu pai, de ter expandido a arte
pelo mundo inteiro, apesar de milhões o terem seguido, não sabia como
enfrentar o seu pai quando se encontrasse com ele...
Não!
Por uma dessas ironias que o destino laboriosamente tece, quem se
empenhava agora a apagar da história a genialidade da obra de Kai não
era Kan!
Quem
se afadigava a apagar as pegadas do trilho, a afastar de casa os
discípulos, enquanto pelo mundo fora os mais dedicados estudantes da
Arte se perdiam, se encontravam e se voltavam a perder nas maravilhosas
descobertas de Kai, quem inexplicavelmente destruía, todas as
propostas, todas as inovações, todas as pistas de investigação, quem
sistematicamente queimava todos os vestígios dessa maravilhosa obra
até que nada mais restasse do que uma recordação ténue do
brilho magnífico de outrora, eram aqueles que afinal, na sua própria
terra, se diziam ainda:
-
Os amigos de Shoto e de Kai.
E
todavia,
trazidas pelo vento do mar-sul, as sementes aladas do pinho bravo teimam
em cair sobre os túmulos tristes de Kai e de Kan.
José
Patrão, 2001-11-18 |