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A História Triste de Kai e Kan

 

Índice:

Cap. 1 - O Funeral

Cap. 2 - Um Nome Maldito

Cap. 3 - O Universitário

Cap. 4 - Ventre Nu, Braços Caídos

Cap. 5 - Um Negro Manto

 

 

Eu gostaria de prosseguir a via do Karate,

tal como a vida,

na graça da verdade inerente

ao calmo ondular dos pinheiros.

Shoto

 

 

Cap. 1 - O Funeral

 

Fora homem de bom nome, o estrangeiro. O funeral deveria ser grande e reunir gente dos mais diversos estratos sociais.

A morte não surpreendera o seu espírito de velho ilhéu do Sul, habituado aos rituais de passagem e diálogo com o outro lado. Há muito que a esperava. Espantara-se sim que o mesmo destino que quisera ceifar a vida de tantos jovens tivesse logrado prolongar-lhe a vida por tantos anos.

-   Porquê ? - perguntava-se depois da guerra, da terrível Guerra - porque terei de passar o resto dos meus dias a assistir ao crescer incessante desta multidão que, à força de querer polir a arte agreste da minha terra, mais não faz do que delapidá-la, alegremente ?

Mas era essa, sem dúvida, a sina que o acompanhava desde o berço.

Nascera em 1868, no primeiro ano da era Meiji – o turbulento período de transição do Japão samurai para o Japão moderno. Crescera vendo dealbar o iluminismo japonês, ouvindo um povo inteiro jurar fidelidade ao novo imperador e ao seu desejo de abertura à civilização ocidental. Assistira, jovem, ao exalçar da onda transformada então em anexação e imperialismo – China, Coreia, Rússia... Partira para Honshu já homem maduro, aproveitando uma segunda vaga de curiosidade perante o novo e o estrangeiro trazida pelos militares regressados das campanhas imperiais. E assistira com mágoa ao desencadear da derradeira vaga de espírito nacionalista que haveria de conduzir à ruína da nação em 1945.

Tominakoshi, o defunto, tivera sem dúvida uma vida longa... tão longa. Mas mais do que um longo caminho, a sua vida fora um desígnio, cuidadosamente percorrido.

Infelizmente, agora, tudo parecia indicar, que o precioso legado de paz, verdade e coragem que deixara, não seria suficiente para inundar de amor todos os membros da sua família.

Na aproximação forçada que a organização do funeral do pai lhes impunha não se enfrentavam apenas duas personalidades díspares. Aquele conflito surdo resumia o dualismo de todo um povo obrigado a escolher entre a tradição respeitosa de aprender, refinar e apurar, e o desejo incontido de queimar as velhas escrituras, rasgar fronteiras, recuperar para as pequenas ilhas o seu papel de centro de um mundo novo.

Kai graduara-se em Waseda – a universidade da erudição, em arte e política. Kan em Takushoku – a escola superior do expansionismo e do sucesso comercial.

No dilema entre o ser de Kai, e o fazer de Kan, o conselho familiar decidira pela tradição – as cerimónias fúnebres seriam organizadas por Kai.

Mas Kan não se podia conformar com a decisão. Quem se julgava Kai para se arrogar herdeiro dos últimos desejos de seu pai. Kan sabia-se muito mais popular, sentia-se autorizado pelo anelo de todos aqueles que, embora massacrados pela guerra, ansiavam mostrar ao mundo as potencialidades da nação japonesa. A arte de seu pai merecia ser divulgada e oferecida a todo o mundo e Kan, que tanto trabalhara para esse fim nos últimos anos, sentia-se a pessoa certa para o fazer.

-    Malditos! Negam-me o privilégio de organizar o funeral de meu pai!? Malditos sejam! Recusar-me-ei a estar ao lado de tal gente na cerimónia. Eu e todos os meus alunos.

E foi assim que o funeral de Tominakoshi, o mestre-poeta que a si próprio se chamava Shoto, o estrangeiro que queria ser aceite como conterrâneo, o funeral que deveria ser grandioso e reunir gente de todos as castas e estratos, acabou por se cingir às cerimónias solenes, sobrando-lhe em altivez o que lhe faltava de sal do povo. Esse povo que vestia o gi  branco do Judo mas que queria ser tão popular como o Kendo e, se possível, mais respeitado que o próprio Sumo. Esse povo que usava técnicas chinesas com nomes de Okinawa traduzidas para japonês. O povo que descera o Fuji para escalar o Olimpo. Que pretendia ensinar um novo desporto aos inventores do desporto. Esse povo cumpriu, obedientemenete, a vontade de Kan e, com o coração destroçado, obrigou-se a faltar ao funeral.

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Cap. 2 - Um Nome Maldito

 

Face a tão reprovável acto Kan sabia-se banido pela família mas, o que de todo não imaginava é que, em breve, lhe seria interditado o uso do próprio nome:

- Quem se julgam eles para me negar o uso do nome da minha família!? Shoto-kan é o meu nome e ainda que não possa ser escrito pela mão dos eruditos será usado pela boca do povo. Em todo o Japão e em todo o mundo! Hoje mesmo prometo, solenemente, que em poucos anos Shoto-kan será o mais famoso dos nomes da nossa família. Shoto-kai será ignorado e olvidado por todos os meus dcescendentes. Maldito seja!

Kan não era homem de oferecer promessas aos Kami. Mas ao povo, a esse sim, ao povo oferecia o seu trabalho. Com as mãos nuas amassou o barro, modelou-o, cozeu-o no fogo, aperfeiçoou as formas de modo nunca antes visto. Adoptou as mais modernas ciências ocidentais -  anatomia, a pedagogia e todas as demais - estudou-as com avidez e utilizou-as com entusiasmo. Claro que a divulgação e comercialização do produto não foram esquecidas - cuidou das cores, do aspecto final e do preço justo. Mas de todos os ingredientes desse bálsamo revigorante para o espírito de milhares de jovens do pós-guerra sedentos de desafios, dois se destacavam: a exigência de qualidade e a adopção de um carácter desportivo. A procura da qualidade de execução, através de uma exigência nos limites do insuportável, apelava à memória colectiva do espírito de refinamento samurai. O desporto, por outro lado, era o rótulo que agradava às poderosíssimas e omnipresentes forças de ocupação. E que tremendas forças deveriam ser essas, capazes de destronar a herança directa dos deuses que todo aquele povo, há tão poucos anos, estava tão certo de ter.

Escassos dois meses passados sobre o funeral de seu pai, Kan ousava desafiar a sua memória organizando, no maior recinto coberto de Tóquio, um campeonato tão grandioso e participado que o entusiasmo da multidão cedo transbordaria das páginas dos jornais e revistas japonesas para os mais recônditos dojo's do Japão.

Em breve a maldição da família Shoto contra Kan haveria de virar-se contra si própria: familiares mais ou menos afastados de Shoto decidiam agora organizar eles próprios as suas próprias disputas desportivas, algumas das quais pretendiam mesmo rivalizar, senão em sucesso, pelo menos em dureza e espectáculo com as organizadíssimas e cada ano mais populares competições desportivas de Kan.

À medida que a fama de Kan se tornava internacional surgiam os convites para estágios no estrangeiro, publicações de livros, manuais da arte e filmes, tudo na língua dominante - o inglês - claro está. Os ocidentais, ingleses e americanos sobretudo, gostavam da forma como Kan aceitava renunciar às tradições culturais da sua arte (demasiado conotadas com a cultura guerreira dos derrotados) transmutando-a, sem complexos, numa actividade desportiva como o basquetebol - compreensível, lógica e racional, facilmente digerível pelo grande público.

 

Para Kai nada disso interessava. Fama, notoriedade, um elevado número de discípulos, desprezava tudo isso. A sua voz contrária, defendendo a natureza tradicional da Arte, tornava-se agora inaudível no bruá da multidão e, afinal, talvez fosse melhor assim... Se as suas teses fossem ouvidas, certamente seriam ridicularizadas e irremediavelmente destruídas por uma corrente de opinião, pós-guerra, que não estava de modo algum preparada para aceitar, por exemplo, que o mesmo espírito de antecipação que os japoneses tinham empregue com tanta eficácia destrutiva em Pearl Harbour tivesse alguma coisa a ver com aquela actividade física que eles desejavam ardentemente possuir e consumir. O público reclamava campeonatos e competições, provas de agilidade e destreza, espectáculos cada vez melhores, maiores, nada mais...

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Cap. 3 - O Universitário

 

Longe de tudo isto estava o mais novo dos irmãos Shoto. Também ele formado em Waseda e por isso conhecido como "o universitário" cedo se revelara senhor de um bom espírito de liderança e de um grande talento para a Arte do pai. A família encorajara-o a tentar a sorte nos Estados Unidos da América e ele, que inicialmente ambicionara abraçar uma carreira profissional bem diferente, acabaria por se tornar num dos mais famosos Mestres da Arte de Shoto fora do Japão.

O seu carácter fiel e meticuloso fizera com que, ano após ano, se dedicasse a traduzir para inglês a principal obra escrita por seu pai e esse livro, que acabaria por se tornar a bíblia de todos os estudiosos da Arte, trazendo em definitivo o seu nome para o quadro de honra da Arte.

Sem ofender qualquer dos irmãos, "o universitário", embora não se excusasse a organizar provas desportivas, tão ao gosto dos americanos, não escondia a sua preferência pela postura e pelos ideais defendidos por Kai. Ele era aliás dos poucos que se mantinha ao corrente da missão a que Kai de corpo e alma se devotara, desde o momento em que se vira dotado com a pesada herança do desenvolvimento da Arte de seu pai.

A longa separação entre os dois irmãos não fizera diminuir a profunda admiração que ambos sentiam um pelo outro.

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Cap. 4 - Ventre Nu, Braços Caídos

 

Quando lhe diziam que Kai, agora, baixava de forma desconcertante os braços frente aos adversários, ele era dos poucos que sabia interpretar correctamente essa atitude:

- Desenganem-se! Os braços caídos ao longo do corpo, sem esboçarem guardas nem protecções, não significam desalento, mas sim coragem.

Ele era dos poucos que sabiam que Kai decidira oferecer arrojadamente o seu ventre aos ataques de punho de todos os que ousassem derrubá-lo. E eram muitos os que inutilmente tentavam. Testando dessa forma brutal a real eficácia dos ataques, acabou por concluir aquilo que já suspeitava – todos, sem excepção, eram absolutamente ineficazes.

Um dia, porém, algo de surpreendente aconteceu. Travou conhecimento com um dos mais jovens estudantes de Waseda, que decidira abandonar, alguns anos atrás, o método clássico da Arte por divergências com um superior retirara-se para as montanhas, tornando-se eremita e caçador, acabando por tornar-se seguidor de uma seita religiosa que, antes da grande guerra, tinha sido popular no Japão. A sua postura física absolutamente descontraída e a desconcertante forma de atacar – suave e solta – ocultavam uma tremenda eficácia de ataque. Pela primeira vez Kai sentira um ataque realmente eficaz. A eficácia sentia-se não "por fora" mas "por dentro", não imediatamente a seguir ao ataque, mas por vezes várias horas, ou mesmo dias, depois...

Kai queria saber mais!

A essência do que procurava estava presente naquela forma de atacar, bem o sabia. E soube fazer o que muito poucos conseguem: passou de Mestre a discípulo, reaprendeu a humildade, ousou renascer. Kai era um solo cultivado e fértil, onde as várias sementes das antigas Artes podiam enraizar.  Os que estavam perto dele assistiam, sem saber, à realização do sonho mais profundo do pai Tominakoshi: transformar a Arte de Okinawa num membro de pleno direito do Budo japonês! Dar-lhe-iam os Kami a honra e a oportunidade de concretizar tal sonho?...

Por um breve momento tudo parecia conjugar-se no bom sentido. Embora a saúde não o ajudasse, a atitude receptiva e inovadora de Kai atraía jovens praticantes de outras Artes do Budo que decidiam experimentar no seu corpo os ensinamentos de Kai. O resultado do trabalho desse grupo foi excepcional, uma síntese maravilhosa de artes antigas conjugando-se num espírito de abertura à inovação e investigação. Verdadeiros Mestres das artes mais conservadoras, como o Kyudo, quando observavam a prática rendiam-se à evidência:

- Nos movimentos contínuos e fluidos daquele Keiko não consegui encontrar uma abertura para o ataque.

Assim, no final da década de sessenta, na altura em que os jovens estudantes franceses acendiam um rastilho de revolta contra os valores estabelecidos, os jovens discípulos de Kai ousavam também afrontar valores instituídos pela hierarquia militarista de antes da Guerra. Reinventavam a naturalidade de movimentos a liberdade dos gestos. Nos seus corpos a energia voltava a fluir.

Se a conservadora cultura japonesa não estava ainda totalmente preparada para aceitar esse tipo de proposta, outro tanto não se passava na Europa e em certas partes da América. Os valores holísticos e universalistas que Kai defendia eram os mesmos que o Ocidente agora procurava; a filosofia que professava, aquela que durante milénios tinha sido a raiz do tronco visível da Arte, era agora tema de investigação de muitos estudiosos ocidentais.

Muitos dos devotados discípulos do método de seu irmão - Kan -  acabavam por reconhecer também o carácter genuíno do novo método. Na Europa, em poucos anos, os seguidores de Kai contavam-se já por dezenas de milhar e ambicionavam conhecer directamente o Mestre que se tornara para eles um símbolo.

Infelizmente, por essa altura, já Kai estava incapacitado de demonstrar directamente as técnicas sublimes que desenvolvera. Nas duas curtas viagens que fez à Europa, a doença terrível que há muito o perseguia e que se agravara nos últimos anos, impossibilitava-o até mesmo de caminhar, quanto mais de demonstrar fisicamente a Arte. Restava-lhe agora ajudar os seus jovens discípulos a desenvolver os seus próprios caminhos e escrever... Há muito que lhe pediam que escrevesse um livro que traduzisse a essência da Arte, muito para além dos aspectos técnicos. Assim fez...

Esse único livro, lançado em língua inglesa foi um enorme sucesso mundial que rapidamente esgotou. Pelo mundo fora os mais devotados historiadores e estudiosos da Arte debruçaram-se sobre essa obra e sobre as evoluções geniais que Kai ousara propor, acabando por reconhecer o passo gigantesco que decidira empreender. E esse passo fora um duplo movimento recuando no passado, em busca das tradições esquecidas do Budo, e um avanço corajosamente no futuro, lançando sementes que germinariam em novas Artes do corpo e do movimento.

O tempo de Kai chegara, finalmente. Mas a sua vida, há muito perseguida por uma doença inexorável, estava a chegar ao fim. Não viveria o suficiente para conhecer o impacto da sua obra em muitos estudiosos da Arte.

O inevitável acabaria por se consumar: a chama ténue da sua vida foi-se esvaindo, devagarinho, até que, perante o olhar de desespero de todos os alunos que ansiavam fosse ele próprio a dizer ao mundo tudo o que tinha descoberto, suavemente se apagou.

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Cap. 5 - Um Negro Manto

 

Uma das dores mais amargas perante a morte de Kai pertencia aquele que, com muito honra, decidira prefaciar a obra única do seu irmão mais velho. O “universitário" vira, nesse acto, a oportunidade de dizer ao mundo quem era, por direito e de facto, o sucessor do velho ilhéu do Sul e, com palavras simples e firmes, revelou corajosamente essa realidade ao mundo:

- O sucessor de Mestre Tominakoshi na ancestral Arte das mãos sem armas é o Senhor Kai.

E agora que contemplava a face sem vida do seu irmão essa frase ressoava na sua mente com um eco de tragédia. É que o “universitário” aprendera a conhecer as forças ocultas da mente humana, esse sentimento imundo de não suportar um puro encanto, tapando-o com um negro manto e enterrando-o num buraco sem fundo.

Quem se afadigava agora a apagar da história a genialidade da obra de Kai?

Seria Kan, o irmão-inimigo?

Não! Esse há muito reconhecera o erro de vender a alma aqueles que agora o abandonavam como um livro usado. Era triste o seu semblante, amargurado por ver que o entusiasmo da sua bela ideia se esgotara afinal em tão poucos anos, qual fogo de palha. Na pira da competição pelo pódio repousavam agora as cinzas dos belos valores da Arte que o seu pai lhe ensinara.

Foram tristes os últimos anos de Kan. Fora longe de mais num caminho que, sabia-o agora, não teria tempo para trilhar de volta. Pior do que isso, apesar de realizar o primeiro sonho de seu pai, de ter expandido a arte pelo mundo inteiro, apesar de milhões o terem seguido, não sabia como enfrentar o seu pai quando se encontrasse com ele...

Não! Por uma dessas ironias que o destino laboriosamente tece, quem se empenhava agora a apagar da história a genialidade da obra de Kai não era Kan!

Quem se afadigava a apagar as pegadas do trilho, a afastar de casa os discípulos, enquanto pelo mundo fora os mais dedicados estudantes da Arte se perdiam, se encontravam e se voltavam a perder nas maravilhosas descobertas de Kai, quem inexplicavelmente destruía, todas as propostas, todas as inovações, todas as pistas de investigação, quem sistematicamente queimava todos os vestígios dessa maravilhosa obra até que nada mais restasse do que uma recordação ténue do brilho magnífico de outrora, eram aqueles que afinal, na sua própria terra, se diziam ainda:

- Os amigos de Shoto e de Kai.

 

E todavia, trazidas pelo vento do mar-sul, as sementes aladas do pinho bravo teimam em cair sobre os túmulos tristes de Kai e de Kan.

 

José Patrão, 2001-11-18

 


(C)Copyright, José Patrão, 2001-2003

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