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Dojo Novo, Vida Nova

(Carta Aberta a um Futuro Instrutor)

Caro amigo:

Agrada-me muito verificar que a sua vida profissional está a adquirir uma nova importância.

É natural que nos envolvamos em projectos de importância crescente à medida que os anos passam.

 

Mas eu sinto que o mais importante, é o facto de você desejar conciliar o karate com a sua vida profissional.

Não é uma tarefa fácil de conseguir. Muitos de meus companheiros de outrora, e alguns deles eram karatecas acima da média, falharam o seu progresso na arte não por dificuldades técnicas mas apenas porque suas ocupações passaram a impedi-los de treinar. Há que referir que esta atitude foi acompanhada, frequentemente, por uma falta da capacidade para conciliar a a vida familiar, com a actividade profissional e outras.

Eu estou certo que não é esse o seu caso porque pretende tomar a decisão correcta - continuar a treinar, sempre, mesmo sozinho, e tentar abrir o mais cedo possível o seu próprio Dojo.

Mestre Tetsuji Murakami demonstrando uma técnica dupla.

A respeito disso talvez eu possa transmitir-lhe um pouco da minha própria experiência.

Quando fui interpelado pessoalmente pelo Mestre Murakami para começar a dar aulas num Dojo, eu disse "que sim" afigurando-se-me como fácil tal tarefa. Eu era então um cinturão negro recente, com seis anos de treino (duro), e com dois anos e meio de experiência como assistente no dojo onde treinava. Um ano mais tarde, porém, eu ainda continuava tentando encontrar o lugar ideal para começar a leccionar.

 

O Mestre deixara de me dirigir a palavra, e nos estágios passara a ignorar positivamente a minha presença.

Pouco depois notei que o Mestre deixara de me dirigir a palavra e que, nos estágios, passara a ignorar positivamente a minha presença, passando por mim sem me corrigir. Quando jantávamos em conjunto e eu tentava conversar com ele, resmungava qualquer frase ininteligível ou, pior ainda, comentava com um dos meus professores: "Ele não é um bom Karateca". Como pode imaginar a sua atitude magoava-me muito e não conseguia perceber o que se estava passando. Ele também não me dava a mínima pista.

Ao fim de alguns meses acabei por perceber que ele me estava dizendo, duma forma muito dura, que eu tinha faltado à minha palavra.

Tendo aprendido a lição decidi-me a falar com um instrutor experiente perguntando-lhe se haveria algum clube, na área de Lisboa, necessitando de instrutor. Respondeu-me que havia, de facto, um ou dois clubes pequenos necessitando de um cinto negro que os orientasse mas... devido à sua pequena dimensão ou à localização menos favorável ninguém parecia interessado em dar aulas lá. Aconselhou-me então a começar leccionar no dojo mais pequeno da nossa Associação - Olivais - onde um pequeno grupo de cinco ou seis karatecas treinava numa sala de 5x5m. Apesar da logística desfavorável - o lugar não tinha qualquer ventilação, de modo que após uma hora e meia de treino parecíamos ter saído de uma sauna - o espírito de combate era muito forte e eu guardo memórias muito agradáveis do período de seis anos no qual dei lições a esse grupo de bons Karatecas.

De facto, assim que a minha atitude mudou - abandonando a ideia de abrir o meu próprio Dojo e passando a perguntar quem estava necessitando da minha ajuda - tudo mudou para melhor e pude recuperar a confiança e a simpatia do meu mestre.

Assim, o conselho mais útil que eu posso dar é o seguinte: procure o seu próximo, pergunte se há alguém que necessite da sua ajuda. Seja qual fôr o lugar do mundo onde nos encontremos sempre haverá pessoas que procuram treino físico, disciplina, aperfeiçoamento mental e orientação ética para as suas vidas.

 

Assim que a minha atitude mudou - abandonando a ideia de abrir o meu próprio Dojo e passando a perguntar quem estava necessitando da minha ajuda - tudo mudou para melhor.

Normalmente, nas classes mais baixas da sociedade estas necessidades são mais urgentes, e os filósofos budistas ou cristãos ensinam-nos a ajudar prioritariamente estas pessoas. Mas você deve ter muito cuidado se escolher dar classes somente a pessoas muito pobres vivendo num qualquer bairro de lata. Esse será um caminho muito duro principalmente para a um instrutor inexperiente, uma vez desde que aquelas pessoas estão mais predispostas para a violência por influência do meio em que nasceram e cresceram.

"Na minha infância vivi muito perto de uma área degradada e, apesar de ter feito por lá alguns amigos, o mínimo que eu posso dizer é que o carácter dessas pessoas pouco tem a ver com as características de pessoas pobres de alguma vila do interior do país. Se você se sentir interessado em abrir um Dojo para ajudar pessoas de baixos rendimentos considere a hipótese de ganhar, em primeiro lugar, a confiança de uma pessoa respeitada nesse meio - uma pessoa com força física mas sobretudo de bom caráter. Depois, com a ajuda dessa pessoa você pode poderá vir a ter algum sucesso lá. Mas convém que esteja pronto para perder todos os seus valores de uma assentada e não deixe de considerar-se em perigo permanente.

 

Outro caminho bem mais fácil será abrir um Dojo numa universidade. Essa foi a estratégia seguida por Gichin Funakoshi quando foi para as ilhas centrais do Japão, e sabemos os resultados que obteve. Mas esteja pronto para perder a maioria dos seus estudantes após um período de cinco anos ou mesmo menos. A experiência diz-me que a maioria de estudantes universitários tende a considerar o Karate como uma espécie de curso que termina com a obtenção do cinto negro e que simplesmente abandonam quando terminam a universidade.

De qualquer modo, esse estrato social aloja alguns dos carácteres mais elevados que podemos encontrar - afinal, os universitários tiveram que ultrapassar uma série de exames antes de alcançarem a plataforma da universidade. Têm normalmente algum tipo de disciplina mental, ainda que às vezes seja algo diferente do tipo de disciplina corpo-mente necessária para a prática do karate.

 

 

 

 

 

 

Um grupo de cintos-negros de Shotokai da zona de Almada, quase todos eles estudantes universitários.

Os meus melhores estudantes de karate oriundos da universidade são normalmente de dois tipos:

  • de origem camponesa e/ou

  • com princípios de educação que lhes proporcionaram uma ética de fundo.

Uma outra coisa importante a considerar é a comunicação. Mesmo que você seja uma pessoa aberta à comunicação com os outros há momentos em que tentamos impor os nossos pontos de vista sem cuidarmos de nos fazermos entender, previamente. E não me refiro somente ao tipo verbal de comunicação. A comunicação física e gestual é muitas vezes mais forte que as palavras, e no caso geral a explicação pelo exemplo tende a ser mais eficaz, especialmente se estivermos num lugar estranho.

Apesar de tudo, eu não me canso de repetir aos meus estudantes 1º Kyu e Shodan que o ensino é o método mais poderoso (e talvez um dos poucos) de progredir para além de um determinado nível.

Eu estou certo que você está prestes a iniciar uma das mais ricas experiências da sua vida.

Boa Sorte!

 

 

O seu Amigo

José Patrão

 

PS: Não pense por quanto tempo irá ensinar. Em cada aula aja sempre como se se tratasse do último dia da sua vida. Desse modo os seus alunos sentirão a força da sua sinceridade e, mesmo que deixem de praticar Karate... jamais o esquecerão. É esse o cerne da questão. JP

 

Não resisto contar-lhe uma história que eu inventei há alguns anos atrás para ajudar um dos meus estudantes na "casa dos vinte" a conciliar o karate e a sua vida diária:

  • O karate e a " vida fora do dojo " são como um par de esquis nos seus pés

  • Mantenha-os paralelos, nunca os deixe divergir
  • Deslize suavemente, sem usar a força, deixe a gravidade transportá-lo
  • Controle a direcção olhando ao longe, se olhar para os esquis certamente cairá
  • Não afrouxe a atenção, há sempre uma rocha afiada espreitando
  • Contorne os obstáculos passando com ambos os esquis pelo mesmo lado
  • Esqueça-se de controlar um esqui por um momento que seja e... conte com uma perna partida.

A propósito, nunca esquiei, mas pratico karate desde há cerca de 25 anos e... nada disso importa se eu me esquecer de cuidar da minha família na próxima semana.

JP

(C)Copyright, José Patrão, 1998

 

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