Up ] [ A Sede ] José Cardoso Pires ] Yxenocamidono (versão port.) ] Yxenocamidono (engl. version) ] E se eu for a pedra?! ] História de embalar... antes de adormecer ] Emoções ] Amazónicos ]

Centro de Artes Orientais www.cao.pt


 

A SEDE

 

(...) Por falar no Furriel "Fotocine" veio-me à lembrança um episódio, um pouco dramático, passado com este indivíduo quando da sua permanência na companhia.

Estávamos em plena intervenção a nível de companhia (mais ou menos 55 homens) nas margens do rio Luatize, afluente do Lugenda. Já lá iam 4 dias e já tínhamos tido contacto com o IN, (anteriormente já contei que tinha atravessado o rio debaixo de fogo tendo sido capturada a primeira arma da companhia).

Estávamos todos cansados, a ração de combate só dava para mais um dia e para regressar ao quartel era necessário andarmos mais outros 4 dias (mais ou menos 130 km). Assim houve a necessidade de sermos reabastecidos por meio de helicópteros. Montámos o sistema de protecção adequado e aguardámos o reabastecimento depois de darmos a nossa localização via rádio. Quando o helicóptero que trouxe as rações de combate aterrou quem vimos sair? O tal furriel, indivíduo muito gordo pesando uns bons 120 Kg, com duas máquinas fotográficas, uma pistola à cintura, dois cantis (friso bem dois cantis) e a sua mochila tendo como incumbência fazer uma reportagem fotográfica da nossa intervenção (algumas das peças fotográficas que possuo foram tiradas por ele). Após a distribuição das rações de combate iniciámos o regresso ao quartel, tendo no entanto o cuidado de encher os cantis pois a zona que íamos atravessar era muito escassa em água e a época das chuvas já tinha passado.

Normalmente um soldado transportava um só cantil de 1 litro de água procurando não a desperdiçar. O calor no entanto apertava, a caminhada era dura, o suor escorria, e o tal furriel, esse, não conseguia resistir e toca a beber a pouca água que transportava. De tal modo bebeu que passadas umas 4 horas de caminhada tinha esgotado completamente os dois cantis de água. A noite ainda ia longe e tínhamos pela frente mais umas duas horas de caminhada até a aragem nocturna reduzir o calor sufocante. Ribeiros atravessámos muitos, mas todos eles estavam secos e nem escavando conseguíamos obter água, salobra ou não. Pois vi um homem chorar, implorar, tentar comprar a água que necessitava e vi os soldados dizerem que não. A muito custo, os graduados lá lhe facultaram uma tampa de água de vez em quando para ele não desidratar até a noite chegar. Mas tudo acabou bem pois no dia seguinte atravessámos um ribeiro que, embora com a água estagnada, mitigou a sede do nosso furriel.

 

José Morgado 7/1/99

 

Texto/Text: © Copyright, José Morgado, 1999

 

Back to Main page

shotokai@netcabo.pt

 

Up ] A Sede ] José Cardoso Pires ] Yxenocamidono (versão port.) ] Yxenocamidono (engl. version) ] E se eu for a pedra?! ] História de embalar... antes de adormecer ] Emoções ] Amazónicos ]


WebDesign: José Patrão (Geral); Nuno Barradas & Manuela de Castro (Mon website).  Logo: Jorge Costa. Permanent Team: Nuno Figueiras Santos, José Morgado, Raul Pereira, João Geada.

©Copyright: Centro de Artes Orientais, 1997 - 2011