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(...) Por falar no Furriel
"Fotocine" veio-me à lembrança um episódio, um pouco
dramático, passado com este indivíduo quando da sua permanência na
companhia.
Estávamos em plena
intervenção a nível de companhia (mais ou menos 55 homens) nas margens
do rio Luatize, afluente do Lugenda. Já lá iam 4 dias e já tínhamos
tido contacto com o IN, (anteriormente já contei que tinha atravessado o
rio debaixo de fogo tendo sido capturada a primeira arma da companhia).
Estávamos todos cansados, a
ração de combate só dava para mais um dia e para regressar ao quartel
era necessário andarmos mais outros 4 dias (mais ou menos 130 km). Assim
houve a necessidade de sermos reabastecidos por meio de helicópteros.
Montámos o sistema de protecção adequado e aguardámos o
reabastecimento depois de darmos a nossa localização via rádio. Quando
o helicóptero que trouxe as rações de combate aterrou quem vimos sair?
O tal furriel, indivíduo muito gordo pesando uns bons 120 Kg, com duas
máquinas fotográficas, uma pistola à cintura, dois cantis (friso bem
dois cantis) e a sua mochila tendo como incumbência fazer uma reportagem
fotográfica da nossa intervenção (algumas das peças fotográficas que
possuo foram tiradas por ele). Após a distribuição das rações de
combate iniciámos o regresso ao quartel, tendo no entanto o cuidado de
encher os cantis pois a zona que íamos atravessar era muito escassa em
água e a época das chuvas já tinha passado.
Normalmente um soldado
transportava um só cantil de 1 litro de água procurando não a
desperdiçar. O calor no entanto apertava, a caminhada era dura, o suor
escorria, e o tal furriel, esse, não conseguia resistir e toca a beber a
pouca água que transportava. De tal modo bebeu que passadas umas 4 horas
de caminhada tinha esgotado completamente os dois cantis de água. A noite
ainda ia longe e tínhamos pela frente mais umas duas horas de caminhada
até a aragem nocturna reduzir o calor sufocante. Ribeiros atravessámos
muitos, mas todos eles estavam secos e nem escavando conseguíamos obter
água, salobra ou não. Pois vi um homem chorar, implorar, tentar comprar
a água que necessitava e vi os soldados dizerem que não. A muito custo,
os graduados lá lhe facultaram uma tampa de água de vez em quando para
ele não desidratar até a noite chegar. Mas tudo acabou bem pois no dia
seguinte atravessámos um ribeiro que, embora com a água estagnada,
mitigou a sede do nosso furriel. |