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No
Budō o reigisaho[1] tem uma
importância fundamental. Para o praticante ocidental, com tradições
culturais diferentes das orientais, as exigências da saudação nas
artes marciais japonesas, como o Judō, o Aikidō, o Karaté-Dō,
entre outras, são comportamentos que lhe são estranhos e que por vezes
adquirem um carácter tão só de obrigatoriedade. Todavia,
"qualquer arte marcial
pressupõe a existência de uma severa disciplina na sua execução
e aprendizagem; uma arte oriental não se pode conceber sem
etiqueta. Diz-se que a arte marcial japonesa começa e termina pela
delicadeza e respeito mútuo, indispensáveis à elevação da
personalidade."[2]
Podem
encontrar-se duas atitudes básicas nos praticantes perante a
saudação. Uma consiste na execução da saudação como se de uma mera
obrigação se tratasse; a outra na execução da saudação de modo
rígido e formal sem que seja acompanhada da consciência profunda do
sentido do ritual, sem a consciência de que o dōjō é «le
Temple privilégié où se célèbre une sorte de liturgie.» [6]
A
compreensão da importância do cerimonial é fundamental. A saudação
é uma introdução à aula que permitirá ao praticante afastar a mente
das preocupações e stress quotidianos, permitindo-lhe a concentração
que a prática das artes marciais exige.
Por
outro lado as artes marciais tradicionais desenvolvem, através da sua
prática a agressividade de cada indivíduo (não confundir com
violência). A saudação evita a degeneração de comportamentos
agressivos, impedindo a falta de respeito pelo parceiro de treino.
Em
todas as artes marciais tradicionais, podemos encontrar o reigisaho,
concretizado de modo diferente de arte para arte, mas mantendo, quase
sempre, o mesmo espírito e função.
No
Ocidente, a aceitação ou rejeição do ritual da saudação,
correlaciona-se com a atitude, mais ou menos tradicional que os
praticantes têm para com o Budō. Nas escolas tradicionais, havendo
um processo mais profundo de aceitação da cultura oriental, a forma de
estar destes adeptos, dentro e fora do dōjō, na prática
marcial e na vida, traduz, em regra uma maior compreensão da etiqueta
tradicional.
Tradicionalmente,
no Budō a etiqueta deve ser uma constante da vida. Os gestos devem
ser belos, precisos, lentos, mesmo os mais quotidianos, como sentar, ou
levantar, caminhar, ou dar algo a alguém. Pois "chaque geste
devait être executé de maniére à ce qu'il permette, dans la fraction
de seconde qui suit une attaque-surprise, de recourir à la riposte
efficace.»[7]
É
entendido, tradicionalmente, que a forma de saudar, só por si, revela o
nível de compreensão da arte.
A
função psicológica da prática marcial é influênciada pela
saudação. A forma de o fazer poderá dar-nos indicações sobre a
personalidade de um praticante, se ele é tímido, agressivo, reservado,
etc..
A
saudação interfere não só com as funções psicológicas, mas
também com as funções fisiológicas.
A
saudação, considerada num plano prático, é uma tomada de
consciência do corpo e do controlo respiratório através de um
movimento bem simples. E isto é tão verdade, que a estabilidade e
segurança de um mestre, na saudação, são evidentes. De tal modo que
o contrário também é verdadeiro. O valor marcial de um indivíduo
revela-se na saudação. Não é credível que alguém que não consiga
manter-se sentado de modo estável para saudar, consiga executar com
eficiência um outro movimento. Como ensina o saudoso Jazarin, os
verdadeiro Mestres saúdam
"profundamente, casi de
forma majestuosa, porque toda su experiência, su conocimiento, su
humildad están presentes en esse saludo."[8]
O
controlo respiratório pode ser exemplificado com o ritsu rei, ou tachi
rei, isto é, saudação em pé, com os pés em musubi dachi:
Os
calcanhares devem estar unidos, a frente dos pés afastados cerca de
45.º, pernas direitas, coluna vertebral erecta, ombros naturalmente
colocados na sua posição anatómica, mãos abertas e dedos
esticados, colocadas lateralmente nas coxas. No instante anterior ao
da saudação inspira-se. Quando o tronco faz uma certa flexão em
frente, expira-se. No momento em que o tronco retorna à vertical
inspira-se novamente, podendo a expiração seguinte servir para a
execução imediata de uma técnica, seja de ataque ou de defesa. A
descrição respiratória é válida para o zarei, a saudação feita
a partir da posição de sentado – seiza.
Num
dōjō podem encontrar-se vários tipos de saudação.
A
prática marcial começa com uma saudação interna, a saudação a
si mesmo, dirigida ao íntimo de cada um, com a qual se pretende
alcançar o Mestre Interno [9].
Ao
entrar no local de prática há uma primeira saudação exterior, aquela
que é feita ao dōjō, com a qual se demonstra respeito ao
lugar da prática.
Com
o início da aula todos os praticantes executam, ao mesmo tempo, uma saudação
à tradição passiva. Esta saudação feita em direcção ao kamiza,
«local dos deuses», onde simbolicamente a tradição passiva se
condensa, é o kamiza ni rei, ou shomen ni rei.
Representa o respeito pelos mestres que nos antecederam, pela cadeia de
transmissão do saber. Exprime o respeito pelas gerações anteriores,
que nos legaram a arte com sofrimento e por vezes com o custo da
própria vida. É não só uma humilde e sincera homenagem à tradição
passiva, mas também uma forma de inspiração no seu exemplo.
Segue-se
a saudação à tradição activa. O Mestre volta as costas ao
kamiza e é saudado – é o sensei ni rei. Traduz o
respeito devido ao mestre, como representante, através da actividade de
ensino e de aprendizagem do Budō, da tradição activa.
Se
estiverem perante a classe vários mestres há, neste momento, lugar ao yudansha
ni rei, a saudação entre os mestres.
Segue-se,
durante toda a prática, no início de cada exercício, de cada
técnica, de cada combate, a saudação ao companheiro, o otogai
ni rei. Representa o respeito profundo pela integridade física
e psicológica do outro. Significa que, através o nosso esforço e
empenho na prática, lhe vamos proporcionar a possibilidade de
progredir.
No
fim de cada aula repete-se o percurso acima referido, com pequenas
alterações na ordem das saudações.
Algumas
escolas tradicionais, ainda cultivam o sempai ni rei, saudação
entre os alunos mais adiantados e os mais novos – o Mestre já
não faz a saudação. Representa o respeito que é devido pelos mais
novos aos anciãos – sempai.
Durante
a saudação, o estado de alerta, zanshin, e de
antecipação deve ser permanente para evitar um ataque de surpresa.
Este estado tem a ver com a percepção paranormal desenvolvida pelas
artes marciais tradicionais, pelo maior ou menor potencial de ki
do praticante. Mas neste trabalho não desenvolveremos estes temas, pois
são questões que agora não nos ocuparão.
Deve
ter-se presente que as noções de sensei, sempai, ou
principiante são relativas. Como regra deve reter-se que um praticante
novo deve inclinar-se profundamente, ao que o sensei responderá com uma
ligeira inclinação. Assim numa aula um shodan pode ser sensei
e na aula seguinte, ministrada por um 5.º dan, em que todos os outros
alunos têm graduações entre 2.º e 4.º dan, não passa e um
principiante.
A
maneira de efectuar a saudação tem vários entendimentos: um marcial,
outro energético e outro simbólico.
Ilustremos
o que se afirma com saudação praticada em seiza. A
primeira mão a ser colocada no solo em frente do corpo é a mão
esquerda. No plano marcial, em caso de ataque do adversário, a mão
direita pode desembainhar uma arma ou executar um movimento defensivo,
se não houver armas. Se baixasse as duas mãos ao mesmo tempo isso não
aconteceria.
No
plano energético, a mão esquerda está associada à energia negativa (ura)
e a mão direita à energia positiva (omote). Aquela tem um efeito
destrutivo, esta tem um efeito construtivo.
O
descer da mão esquerda à terra é um gesto simbólico da recusa de
fazer mal, em relação àquele que é saudado. Em simultâneo, o
contacto da mão com o chão neutraliza a potencialidade energética
desta mão destruidora.
Com
a colocação das duas mãos no chão, estas formam um triângulo
equilátero.
No
plano marcial a finalidade é a de evitar um ferimento grave no nariz.
Em caso de ataque à cabeça por parte de um adversário, o nariz está
protegido e não será esmagado no chão.
A
nível energético permite a circulação de energia em circuito
fechado, possibilitando a concentração mental.
Este
gesto simboliza a reunião de três lados: o homem, o céu e a terra.
Também simboliza a junção entre tradição passiva e a
tradição activa, em que o Mestre desempenha um papel fundamental: é
ele que transmite o conhecimento que já anteriormente lhe tinha sido
transmitido. É um circuito de transmissão do conhecimento.
O
triângulo simboliza também a capacidade de defender, assim como
também a de atacar.
A
consciência do elevado valor energético e marcial da etiqueta e da
cortesia deve estar sempre presente naqueles que seguem o Budō.
- Vide p. 57, HABERSETZER, Roland, Le
guide Marabout du Karaté, col. bibliotheque marabout service,
éditions Gerárd & C.ª, 1969: Verviers (Belgique), pgs. 415.
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