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OS ESTÁDIOS DE EVOLUÇÃO DO KATA: SHU HA RI

 

SHU

 

 

            É um antigo termo para designar a aprendizagem do kata. "Le premier théoricien du kata étant Zeami (1363-1443) dans le théâtre NÔ" [1].

            A aprendizagem de um kata implica, numa primeira fase um simples exercício de observação. E a partir dessa observação gestual, o praticante reprodu-la e assimila-a. É a assimilação da forma exterior do kata.

            Esta etapa tem o nome de SHU. Esta palavra tem a sua origem em mamaru, que significa proteger, observar uma regra[2]. Na fase SHU pretende-se proteger a forma para a conservar. É a etapa onde se assimila fisicamente as bases fundamentais da arte. É a parte em que se estuda e memoriza a gestualidade da forma. A reprodução do modelo limita-se a uma reprodução física. É o estudo elementar, aquilo a que se designa por ushin[3], mas que exprime a primeira preocupação do praticante, aquela de reproduzir o que ele vê em primeiro tempo. Ainda é a mente que faz as técnicas. O discípulo observa a arte do mestre, reproduzindo-a. Procura a reprodução que convém à sua própria constituição física. É o estudo pela imitação, decalcada do modelo exterior.

            Resulta da representação mental ou imagem do movimento. O budoka tem uma representação mental do kata que vai executar. Quanto mais nítida essa representação mais possibilidades de a execução ser perfeita. Esta representação faz-se com os dados provenientes das memórias visual, táctil, auditiva, labiríntica e cinestésica. Consiste numa programação antecipada do acto motor.

            É o córtex cerebral a base anatómica desta função. A imagem do movimento é transmitida aos centros nervosos adequados – a região temporo-frontal. Em seguida dá-se a impulsão motora voluntária com a transmissão da imagem pelos neurónios piramidais corticais até aos músculos, que realizarão as contracções musculares necessárias. Após a execução é feita a regulação motora, onde ocorre uma tentativa permanente de adaptar o kata à representação mental inicial.

            Esta primeira fase da aprendizagem kata é a fase cognitiva. A compreensão do objectivo proposto e as componentes da tarefa motora constituem as principais preocupações do budoka. Este terá que analisar a tarefa, decidir o que fazer, o que não fazer, quando fazer, seleccionar as informações mais relevantes. É o estado "de l'élève qui a tout à apprendre" [4]

            Característico desta fase é a quantidade enorme de erros que são cometidos no desempenho. Para além disso o praticante tem dificuldade em perceber o que está mal e em discernir o que corrigir afim de melhorar o desempenho. A ajuda do professor é indispensável devendo fornecer-lhe a informação mais relevante para o desempenho da tarefa. O feedback, ou seja a informação de retorno suplementar é importante nesta fase.

            O budoka sente o seu progresso e o domínio cada vez maior da técnica, tal como lhe foi demonstrada e tal como a imita. Visto de outra maneira, é também a fase em que o ego se exalta pelos evidentes progressos.

            Este é o estádio mais comum de compreensão do kata, mesmo para muitos budokas com uma graduação elevada.

 

HA

 

 

            HA significa destruição[5]. É o princípio da interiorização do estudo por uma destruição do modelo imitado. É uma busca do que está para lá do modelo. É uma etapa muito rica do kata. Embora consista na destruição do kata. É a etapa do estudo profundo de um kata, junto de um mestre habilitado a ensiná-lo, procurando a descoberta de todos os seus segredos. Exteriormente poderá não haver diferença visível da execução técnica, mas o trabalho mental é intenso, implica uma desconexão entre o movimento e a mente. É a fase do estudo e da compreensão da utilidade de cada gesto. Estes têm a sua significação cognitiva e são sentidos fisicamente. Há hesitação no progresso do estudo. Pois a sensação física da execução de uma técnica perfeita e eficaz deve ser acompanhada de uma necessária compreensão intelectual. Sente-se o que se faz, mas sabe-se porque se faz e pode explicar-se a razão do que se faz. Este estado é de "création intérieure, stade ultime sur le plan technique" [6].

            Em termos psicomotores esta segunda fase caracteriza-se pelo aumento da consistência e estabilidade do desempenho da tarefa motora. O número de erros tendem a diminuir. O que revela que o budoka se encontra neste nível. Este passa a ser capaz de determinar e corrigir os erros do seu desempenho. Os movimentos deixam de ser grosseiros e tornam-se mais harmoniosos e bruscos. Observa-se ainda a redução de sincinésias [7]. O processo de aprendizagem implica frequentemente o controlo de reflexos ou a sua inibição. É o processo de dissociação de sincinésias, ou seja, inibir um passado motor inato ou adquirido. É feito de modo voluntário pelo próprio. Há isolar a zona, tomando consciência da contracção exagerada ou inadequada e reduzir a tensão.

 

RI

 

 

             RI corresponde ao estado de mushin[8], o espírito sem limites e significa afastar-se, suprimir. Neste estádio ocorre a execução técnica no momento certo. A técnica flui sem reflexão prévia. Nesta fase o budoka esquece o kata porque se "exécute un acte conforme au kata, on est le kata, on fait le kata." [9]

            Nesta fase, nos aspectos psicomotores, a independência da prestação motora relativamente à necessidade de atenção consciente sobre a execução da tarefa caracteriza a terceira e última fase da aprendizagem - a fase autónoma.

            O sujeito domina e automatizou o movimento, então liberta-se para se centrar em outros aspectos relevantes, como seja a crescente capacidade de antecipar a resposta em função de determinado estímulo. A baixa frequência de erros é evidente e manifesta-se no elevado nível da resposta. Visto de outro modo é a fase em que "l'élève se sépare de son maître pour enseigner ses propres conceptions et devenir lui-même un maître" [10].

 

SHU HA RI e SHIN GHI TAI

 

 

            SHIN GHI TAI é o conjunto de espírito, carácter (shin); de técnica (ghi); e dos elementos corporais (tai), como a posição, o movimento, a energia física. Cada um destes elementos tem uma intensidade diferente em cada uma das etapas shu ha ri.

            No primeiro estádio SHU, são predominantes o ghi e o tai. Neste estádio a gestualidade, a imitação do gesto, a reprodução do modelo dado, é essencialmente técnico e físico. O espírito encontra-se em estado de ushin.

            Na etapa HA, o estudo continua a ocorrer através das sensações físicas, mas também a través de uma compreensão cognitiva cada vez mais intensa. São predominantes ainda o ghi e o tai. Pois continua o budoka em estado ushin.

            Na última etapa, RI, shin ghi tai, harmonizam-se e fundem-se. O budoka atinge o estado de mushin. É possível a reacção espontânea face a não importa que ataque, com eficácia absoluta do corpo e da técnica. Algo reagiu. Algo lutou e venceu. Algo que não a mente de vigília.

 


[1] Mazac, "L'évolution de sa propre progression par l'étude du kata", Bulletin Académie de Judo Michigami.
[2] Idem.
[3] Ushin - estado de pensamento presente.
[4] Habersetzer, Le guide Marabout du Karaté, pg. 379.
[5] Mazac, op. cit.

[6] Habersetzer, Karaté-DO Kata - Koshiki no Kata. Les formes anciennes, tomo 3, pg. 35.

[7] Sincinésias são contracções desadequadas em função do objectivo a concretizar. Podem identificar-se as seguintes sincinésias:

1 –Reflexos tónicos de equilibração.

2 – Coordenações primárias.

3 - Irradiação contralateral.

4 - Automatismos adquiridos por aprendi-
zagem

[8] Mushin ou munen - perfeita liberdade do estado mental. Não pensamento. Não mente.

[9] Mazac, "L'évolution de sa propre progression par l'étude du kata", Bulletin Académie de Judo Michigami.

 

[10] Habersetzer, Le guide Marabout du Karaté, pg. 379.
 

 


JOÃO CAMACHO

 

Yogachárya Docente formado pela Uni-Yoga - União Nacional de Yoga de Portugal

2º Dan de Judo - Presidente do Yudanshakai da Associação de Judo Tradicional de Portugal

© Copyright, João Camacho, 2000

 

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