Artes marciais - as origens
Parte
I
Nota
prévia
Este trabalho foi inicialmente elaborado a pedido do, na época, Presidente
da Uni-Yôga - União Nacional de Yôga de Portugal. Tal pedido teve
como motivação o facto de numa revista portuguesa, existente na época,
a Bushidô, ter sido publicado um artigo sobre a origem das
artes marciais, algo incompleto e que ignorava a provável origem indiana
destas. Esse artigo era ilustrado com um mapa que continha as movimentações
das várias artes. Então para o curso de formação de instrutores de
Yôga, foi-nos solicitado que fizéssemos um trabalho de investigação
sobre a origem das artes marciais e elaborássemos um mapa sinóptico.
Este perdeu-se. Talvez um dia o voltemos a elaborar.
Quanto ao trabalho, é o que agora damos a público. Já revisto e aumentado.
Porém, com as qualidades e os defeitos que lhe poderíamos apontar
ab initio:
- trabalho que tem a pretensão de ser conciso, logo omisso em muito
do que é importante;
- e que desenvolve sobretudo os aspectos ligados às artes do Budô
- as que melhor conhecemos.
Quanto às origens, verificar-se-á que rejeitamos liminarmente a tese
grega da origem das artes marciais. Não lhe reconhecemos sequer crédito
para a criticarmos. Rejeitamos também a tese da origem mesopotâmica.
Agradecimentos
Em primeiro lugar ao Mestre DeRose, nosso Mestre de Yôga, sem o qual
o nosso apetite para a origem indiana das artes marciais não teria
sido aguçado. Ao Dr. Alexandre Ramos, cuja argúcia, perspicácia, erudição,
conhecimento enciclopédico, o alcandoraram a uma posição de crítico
incontornável dos nossos trabalhos. Ao Dr. Pedro Escudeiro, companheiro
de intermináveis páginas de reflexão, nem sempre coincidente e muito
menos pacífica. A todos os que de uma forma ou de outra deram o seu
contributo para este trabalho e assim os enuncio para não cometer
a injustiça de ignorar algum.
Introdução
Propósito
O presente trabalho destina-se apenas a
enunciar um conjunto de factos, tecer sobre eles algumas hipóteses
e deixar estes subsídios a quem sabe e queira investigar melhor e
com mais profundidade.
Quando falamos nas origens das artes marciais, de imediato enunciamos
e aceitamos que não haverá uma só origem. As artes chinesas parecem
ter sido influenciadas pelos desenvolvimentos e sistematizações ocorridos
na Índia. As artes marciais japonesas desenvolvem-se autonomamente,
mas também sob a influência chinesa. Desde logo, o Zen, subjacente
à cultura e à sociedade japonesa é, como demonstraremos, na origem,
uma técnica de Yôga.
Razão de ordem
Ao tratarmos de
artes marciais, devemos ter presente o que se quer significar com
tal expressão. Segundo o dizer de Ramos [i]
:
Denominam-se «artes marciais» (de Marte, nome romano
do deus grego Ares, o deus da guerra, dos agricultores e dos pastores,
filho de Zeus e Hera, e amante de Afrodite), os diferentes métodos
de defesa pessoal e técnicas militares que têm servido aos diferentes
povos para a defesa do território e dos bens pessoais e públicos dos
seus cidadãos (Natali, 1987). No entanto, nos dias de hoje, são somente
chamadas «artes marciais», «artes de combate» ou «artes de combate
e meditação» (Lima, 1990), as artes de defesa pessoal de origem oriental
(e.g., Karate-Do, Judo, Kung Fu), talvez por possuírem
uma codificação mais sistemática, por estarem organizadas de forma
hierárquica, e possuírem uma metodologia mais uniforme (Natali, 1987).
Por outro lado, referimo-nos a estas artes já organizadas como
sistema de combate, porque lutar sempre os humanos lutaram.
O
Yôga na génese das artes marciais
A origem das artes marciais perde-se no passado longínquo. Raramente
os autores coincidem numa exposição evolutiva dos diferentes sistemas
de luta. Porém parece existir uma certeza. Os estudiosos são quase
unânimes em considerar que se pode encontrar a origem das artes marciais
na Índia, embora já não o sejam no que respeita à designação do sistema
marcial originário.
Nalguns épicos clássicos do hinduísmo encontram-se descrições de sequências
de combate, como no Mahabhárata, e nesta obra deve considerar-se
o Bhagavad Guitá [ii]
, no Rámáyána, no Rig Vêda, assim
como noutros textos religiosos, como o Buddhacarita Sútra,
Jaiminiya Brahmana, e o Saddharmapundarika Sútra. O
conhecimento dos pontos vulneráveis do corpo (m'armam [iii]
), já existente nessas épocas recuadas, encontra
uma aplicação na prática da luta, assim como nos sistemas organizados
de combate com e sem armas. O conhecimento dos pontos vitais tem inclusive
uma obra que lhe é dedicada o M'arma Shastra.
No Mahabhárata relata-se o que aconteceu quando Drona, um mestre
nas artes marciais, ensina a disparar o arco. Ele manda cada um dos
discípulos apontar a uma ave que se encontrava no cimo de uma torre.
E pergunta-lhes, um a um, o que vêem. E quase todos descrevem que
vêem o pássaro, as suas penas, as patas, a cauda, a torre, etc.
Drona,
zangado agride-os. Ao fazer a mesma pergunta a Arjuna, o maior dos
guerreiros, este responde que vê apenas o olho do pássaro. Ou seja,
Arjuna estava em êkagráta, a concentração da mente num só ponto,
o mais elevado nível de concentração. Arjuna estava certo, ele, a
seta, o arco, o alvo eram um só [iv]
. Ora
o êkagráta é o point de départ de la méditation Yôga [v] .
Reproduzimos a seguir alguns textos, provenientes dos shástra,
onde as situações de combate e de guerra são referidas.
2
- Depois de ver o exército pandava
disposto
a combater, Duryodhana
aproximou-se
do seu mestre d'armas
e
a ele se dirigiu desta maneira:
3
- «Dos filhos de Pandu, este exército imenso
(alinhado
pelo filho de Drupada, o teu aluno mais inteligente),
ó
Instrutor, observa bem em pormenor.
4
- Vê os grandes heróis, grandes archeiros,
que
são iguais, na luta, a Bhíma e a Arjuna:
Yuyudhana
e Virata e mais Drupada,
exímio
condutor do grande carro;
5
- Dhrixtaketu, aquele cuja luz brilha intensa;
o
valoroso rei de Káxi; Kuntibhoja
e
Tchakitana e Purijit, que conquista
em extensão; e Xaibya, entre os homens, um touro;
6
- Yudhamanyu, o lutador subtil;
o
do poder mais alto, Uttamaujas;
de
Draupadí, os filhos e o filho de Subhadra,
todos
guerreiros poderosos nos seus carros.
7
- Agora, ó eleito entre todos os bráhmana,
ó
tu, tu que nasceste duas vezes, dos notáveis que estão aqui do nosso
lado
conhece
os principais do meu exército.
8
- Tu, primeiro que todos e, logo de seguida,
Bhíxma,
e, depois, Karna, o que nasceu com brincos;
e
também Kama, Kripa e mais Axvattháma
e
Vikarna e o grão filho de Somodatta;
9
- tantos, tantos heróis, tão numerosos
por
minha causa dão a sua vida,
combatendo
com toda a espécie d'armas,
n'arte
da guerra todos bem treinados.
A Bela Ayodhya estava cheia de guerreiros, como a caverna de uma montanha
está cheia de leões; seus guerreiros eram impacientes e mortais para
os inimigos. Cada um deles era capaz de derrotar, sozinho, dez mil
carros, mas nenhum se aventurava a acometê-las. Mantinham a cidade
segura e tentavam desagravar todo e qualquer agravo que se lhes deparasse.
(....)
Sentinelas correram para Malyavan, e os bravos Nómades da Noite ergueram-se
no céu. Seus carros e elefantes chegaram correndo pelo ar; os graciosos
cavalos de guerra, que voavam céleres, vermelhos, brancos e azul-pálidos,
moviam-se lentamente em círculos e escavavam o firmamento. Garuda
voou para o ataque. Narayana ficou escondido pelos enxames de setas
dos demónios, que batiam duro, voavam de verdade e estavam com sede
Os cavalos dos demónios tropicaram. O barulho do arco de Narayana
petrificou-lhes os elefantes, que caíram do céu e se quebraram. Os
pendões de guerra agitavam-se loucamente, o sangue inundava os rios.
(....)
Nas ruas, carregando tochas, Hanuman viu as patrulhas nocturnas de
guerreiros rakshasas de todas as nações de demónios, trajados
segundo a mais rica e régia pompa heráldica, ou estadeando penas e
rémiges, ou usando peles cruas em decomposição, ou caminhando nus
com a cabeça raspada. Estavam armados de maças tachadas, facas, zarabatanas
ou punhados de relva santa convertida, por artes mágicas, em lanças
e azagaias.
Na procura do sistema originário têm sido apontados os seguintes:
Thandava
Este sistema, ainda hoje conhecido como uma das «danças» de Shiva,
era uma arte marcial, praticada como técnica suplementar do Yôga pré-clássico,
o Yôga de Shiva, com mais de 5 000 anos. Este Yôga, o antigo era Dakshinacharatântrika
Niríshvarasámkhya, ou seja, este Yôga primordial, o dos drávidas
era matriarcal, sensorial e desrepressor, numa palavra, ele era tântrico
[ix]
, sem esquecer as suas raízes sámkhyas
pelas quais era um Yôga extremamente técnico, dinâmico e que não
adota misticismo [x]
. Deste sistema provirá o Kenpo (designação
japonesa para o sistema de luta de Shaolin).
O Thandava, a dança da delimitação do espaço vital, ainda
hoje é utilizado no Yôga. É parecido com um kata das artes
marciais, dos estilos ditos internos [xi]
. Esta prática que, quando executada por um Yôgi,
recebe o nome de Shiva Natarája Nyása [xii]
"constitui uma arte marcial secreta"
[xiii]
e muito antiga, o que faz situar o Yôga na génese
das artes marciais indianas e chinesas e até, de modo indirecto, as
japonesas. No Yôga, esta execução, permite ao sádhaka [xiv]
melhorar a sua linguagem gestual, promovendo a
identificação com o próprio criador do Yôga, Shiva, assim facilitando
a sintonia relativa à origem primeira, consequentemente, à autenticidade
e legitimidade do ensinamento [xv]
. Projecta o sádhaka para a egrégora do Yôga.
O Tenjiku-Nuranokaku é uma arte marcial do sul da Índia, igualmente
antiga, cujos mestres a entendem como um sistema de combate muito
eficiente e uma forma de o guerreiro se preparar para a guerra, mas
acerca do Yôga, dizem ser a arte suprema. É considerada a origem directa
do Shorinji Kenpo (japonesa) e do Kalarippayat (indiana),
também designado por Vajramushti, punho como um raio. Todavia,
alguns estudiosos apontam tanto o Kalarippayat como o Vajramushti
como o sistema primevo. Sobre
estes sistemas, ensinam-nos Villamón e Espartero
[xvi]
, que Introducción al Jûdô,
el Kararipayat (caminho del campo
de batalha) - también llamado Vajramushti - constituye un antigo
arte marcial que comprende no sólo técnicas com y sin armas,
sino también ejercicios de respiración controlada (prânâyama),
de manera que se identifica com el estilo Shaolin-si, supuestamente
introducido en China por Bodhidarma.
Acerca do Vajramushti, ensina Ramos que:
Embora
considerada uma arte marcial budista por muitos pesquisadores, o Vajramushti
(Vajra: real, bastão, ceptro, vara, directo, recto, correcto,
sol, etc.; mushti: golpe, soco, punho, raio, etc.) data de
época muito anterior ao surgimento do Budismo. As referências históricas
não são exactas, visto que o país de origem (a Índia), por sua própria
filosofia social de extrema religiosidade, nunca deu muita importância
aos registos históricos. Na realidade, o Vajramushti tem a
sua origem em época pré-ariana, quando a Índia ainda era habitada
pelos drávidas (3500 a 1500 a.C.). Esta arte marcial é mencionada
em quase todos os textos heróicos da civilização dravidiana, e em
várias lendas se atribui a Shiva a sua criação. Esta teria sido a
arte marcial que Bôdhidharma, o vigésimo oitavo patriarca do Budismo,
levou para o mosteiro de Shaolin na China, dando origem ao Kung
Fu (Natali, 1987). Também Muñoz-Delgado (1998) salienta que o
Vyáyám (outro nome de Vajramushti) é a mais antiga
tradição marcial da Índia. O termo Vyáyám provém do sânscrito
e significa: domar o alento interno. Actualmente, ainda é praticado
na Índia com nomes, tais como: Maippayat e Kalarippayat
(nomes dravídicos e recentes). O seu princípio fundamental está baseado
no conhecimento profundo das nossas energias e sua projecção interna
e externa. Portanto, podemos dizer que o Vyáyám está enquadrado
no caminho do conhecimento da Energia, ou seja, do conhecimento do
Tantra.
Não se sabe ao certo qual das artes marciais indianas acima indicadas
é a mais antiga, mas considerando que o Yôga pré-clássico tem mais
de 5000 anos, poderá pensar-se que a mais antiga será o Thandava
[xvii]
, técnica suplementar do Yôga [xviii]
. O Thandava é visto como "dança feroz e violenta
(....) frenética de energias divinas, tem características que sugerem
uma dança de guerra cósmica destinada a despertar as energias destrutivas
e a provocar a destruição sobre o inimigo; é, simultaneamente, a dança
triunfal do vencedor". Para Habersetzer
[xix]
"Samhara-Tandava, danse de la «dissolution cosmique»
du Dieu Shiva, dans laquelle apparaisent des mouvements d'attaque
et de défense reposant sur le principe de la dualité Homme-Femme (Shiva-Shakti)".
Shiva, enquanto criador do Yôga, é muitas vezes representado como guerreiro,
portando o correspondente armamento. Tem como «emblema» principal
a trishula, a lança tridente [xx]
, "a sua arma como herói" [xxi]
. Também surge com outra armas, sendo la hache
de guerre um dos seus simbolos [xxii]
, com uma «espada (....) um laço, um escudo», e
ainda «armado de arco e flechas» [xxiii]
, sendo designado, quando assim é, como Sharva
(o arqueiro) [xxiv]
, ou até, no Shiva Púrana, como o Grand Archer
Shiva [xxv]
. Ainda, nas palavras de Daniélou «Shiva
apparut (....) portant un arc et un trident» [xxvi]
. O arco de Shiva tem o nome de Pinaka.
Numa obra tardia, do séc. X, Shiva, designado por Tripurahara, o destruidor
das três cidades dos Asura, também é apresentado como arqueiro [xxvii]
:
O
teu carro era a Terra, e Indra o teu cocheiro,
E
o Senhor das montanhas eram o Sol e a Lua,
E
Vishnu a tua flecha,
Quando
ias destruir pelo fogo,
Tripura,
Aquele pedacinho de palha!
E, maxime, Shiva é "o Deus da Guerra (somaskanda)"
[xxviii]
e é descrito como [xxix]
Celui qui a mille yeux et qui, depuis l 'Orient,
Transperce tout de son regard, Rudra l 'archer,
Ou ainda, "le dieu des soldats", como surge em L 'Hymne aux
Cent Rudras de Vájaseneyi Samnita (Yajur Vêda, 16, I) [xxx]
E também [xxxi]
Tu portes un arc jaune, un arc d 'or
Qui frappe mille, qui tue cent, ô Dieu chevelu.
Assim como, no Maitrayani-samhitâ II, 8 [xxxii]
Hommage à ton courroux, ô Rudra,
Hommage à ta flèche, hommage à ton arc,
A tes deux bras aussi, hommage!
Nalgumas lendas também
se encontra a natureza guerreira de Shiva. Entre outras, na lenda
da origem de Virabhádra. Diz esta lenda, da qual há pelo menos três
versões, que Shaktí casou com Shiva contra a vontade de seu pai, que
era o rei de ariano de uma cidade-estado. Por vezes Daksha, pai de
Shaktí, também é apresentado como se fosse uma divindade. Shaktí vai
viver com o marido para o monte de Kailasha. Passados muitos anos
Shaktí tem conhecimento de que o seu pai marcou uma celebração de
culto aos deuses, uma faustosa celebração, mas foi convencido pelos
sacerdotes a não prestar culto ao genro - Shiva. Assim não convidou
para a festa nem a filha, nem o marido desta. Shaktí, indignada quer
aparecer no local e data da celebração. Shiva desaconselha-a de participar
em tal festejo. Ainda assim, Shaktí compareceu. Presente estava toda
a alta sociedade ariana, outros reis de cidades-estado, nobres, sacerdotes,
na lenda também os deuses dos arianos compareceram. Daksha quando
a vê, insulta e injúria da pior maneira Shiva. Shaktí sentiu-se tão
insultada e humilhada pelo desprezo do pai pelo seu amado esposo,
que se lançou às chamas sacrificiais. Morreu queimada. O povo drávida,
adepto de Shiva revolta-se e o local do culto é profanado. E os drávida
exigem que Shiva passe a constar do panteão dos deuses. Para apaziguar
a revolta, os brahman aceitam proclamá-lo como deus do panteão
hindu.
De acordo com outra versão da lenda, Shiva sente-se
afrontado pela morte de Shaktí e decide punir o sogro. Então arrancou
um dos seus cabelos da cabeça e a partir dele criou um poderoso herói,
de nome Virabhádra. Ordenou-lhe que comandasse os exércitos de Gana,
os demónios de Shiva e que destruísse a cidade de Daksha. Virabhadra
destrói a cerimónia de Daksha, vence e dispersa os deuses presentes,
vencendo-os. Afugenta os sacerdotes. E entrega Daksha a Shiva. Enfrentaram-se
num combate singular, em que Shiva usou a arte marcial secreta, parte
do Yôga, o Shiva Nataraja Nyása, ou Tandava. E esmagou-o
sobre os pés. Veja-se a fotografia da estátua de Shiva no Tandava
e o pormenor de Dakzha, debaixo dos seus pés armado com escudo e espada.
Tal revela que Shiva, o Yôgêshwara, o Senhor do Yôga, era alguém que
conhecia as artes da guerra, fosse as da estratégia militar, do assalto
a cidade, do confronto aberto entre exércitos, fosse no manuseamento
de várias armas que faziam parte do arsenal do guerreiro drávida.
E assim é, pois passados milénios ainda os artesões na Índia continuam
a retratar, à margem da versão oficial dos arianos, um Shiva hábil
e vencedor no combate corpo a corpo.
Na versão oficial, a dos arianos, Shiva esmaga
sobre os seus pés a ignorância, o demónio da ignorância - Muyakala.
No mesmo sentido Min-ho observou que "en Inde, ont
existé des méthode de combat structurées, basées sur des techniques
de yôga" [xxxiii] , sendo ainda o machado de guerra mais um dos símbolos de Shiva [xxxiv] .
Defendendo a mesma
tese, Ramos afirma que [xxxv]
Contudo,
a finalidade original das artes marciais orientais não é a vitória
sobre um oponente, mas sim a mesma do seu precursor, o Yôga,
ou seja, desenvolver no Homem, não só poderes paranormais,
como estados superiores de consciência, reveladores de uma
suposta realidade transcendente
(Deshimaru,
1983; Jazarin, 1996; Maliszewski, 1996; Morris, 1993; Payne, 1981;
Severino, 1988). Portanto, as artes marciais são essencialmente uma
via espiritual (Durix, 1978). A sua relação com o desporto
é muito recente (Deshimaru, 1983).
Seja qual for a mãe de todas as artes marciais, estes sistemas foram
estudados e praticados na China, ao contrário do que é hábito afirmar,
muito antes da ida de Bodhi Dharma para Shaolin (ano 525 d.
C.). Há documentos escritos, chineses, anteriores a esta data, que
incluem o que parece ser um sistema de educação física baseado numa
espécie de dança ritual, com grande variedade de movimentos, imitativos
dos animais, e exercícios respiratórios, que fazem lembrar pránáyama
(expansão da bioenergia através de exercícios respiratórios).
Por influência da Índia ou não? Parece que só se pode especular, contudo,
a «Índia manteve estreitos contactos histórico-culturais com muitos
países do Oriente Antigo e com o mundo greco-romano (....) já era
habitada na mais remota antiguidade» e que «já no VII milénio a. n.
e. a população cultivava muitos cereais, tinha domesticado o gado
bovino e estabelecido estreitos contactos com as culturas contemporâneas
do Irão e da Ásia Central. A Índia passou a fazer parte do grupo dos
mais antigos focos de cultura do Oriente» [xxxvi]
. A influência deste "foco de cultura"
fez-se sentir com grande intensidade no Sueste Asiático, na Ásia Central
e no Extremo Oriente. E é igualmente certo que
"sur le plan des pratiques psychosomatiques et psychothérapeutiques, on
constate une ressemblance étonnante entre les pratiques du yôga
indien et celles du taoïsme chinois." [xxxvii]
A tese da origem indiana é, hoje, amplamente aceite, havendo o entendimento
de que
l 'Inde joue le rôle le plus important dans l 'évolution des arts Budô. (...)
Les Indo-ariens tombent sur des cultures comme Harappa et Mohenjo
Dar, qui sont d 'une part beaucoup plus anciennes et disposent d 'autre
part de techniques de combat et de guerre parfaites. [xxxviii]
Na China encontramos o:
Wu Shu
Wu Shu é a designação genérica para o conjunto de artes marciais
chinesas. É de referir que tem o significado de bujûtsu - esta
é a forma de ler wu shu em japonês [xxxix]
. Os ideogramas das duas palavras são exactamente
os mesmos.
Conta-se que quando Da Mo chegou a Shaolin, após ter sido expulso
da corte do Imperador chinês Wu In Chin Lung, encontrou os monges
deste mosteiro adoentados e alvo de frequentes assaltos e agressões.
Ter-lhes-á ensinado técnicas de meditação, Dhyána, que em chinês
veio da dar Ch 'na e mais tarde, no Japão, Zen. Ensinou-lhes
também técnicas de pránáyama (controlo da bioenergia através
de exercícios respiratórios) e finalmente ensinou-lhe uma arte marcial
indiana, que veio a resultar no Kung Fu de Shaolin.
Os doze exercícios básicos que Ta Mo transmitiu aos monges foram adoptados
também no Nepal. De acordo com Denaud [xl]
estes 12 exercícios encontram-se descritos no I
Chin Ching, manual para exercitar os músculos e os tendões e são os
seguintes:
1 - Le corps droit, les bras pliés
sur la poitrine. On maîtrise le souffle et on contrôle les esprits.
Le coeur est calme.
2 - Dressé sur la pointe des pieds,
les deux bras à l 'horizontale. Le coeur est en paix. Le souflle est
apaisé. Le regard est fixe.
3 - On joint les deux mains au-dessus de la tête comme pour supporter le ciel.
4 - Le bras droit dressé vers le ciel, la paume tournée face à la tête comme
si elle étyait orientée vers les deux pupilles. On harmonise progressivement
la respiration parle nez. L 'exercice se répète à gauche et à droite.
5 - Exercice de force destiné à activer la circulation du souffle des deux côtés
à gauche et à droite, le poing se tournant successivement vers les
deux pupilles.
6 - Le bras étendus en avant sont ramenés avec énergie à leur position initiale.
7 - Le bras gauche est retourné derrièrre la nuque et la main vient jusqu 'au
visage. Le bras droit, de même, est retourné derrièrre le dos. Le
corps est droit, le souffle est calme. On veille à la rotation à gauche
et à droite.
8 - La position consiste, les mains bien déployées, à recroqueviller les jambes
jusqu 'à terre.
9 - La position dite du «dragon qui examine ses griffes» intéresse la rotation
de l 'épaule.
10 - L 'attitude du «tigre qui cherche as nourriture» suggère la position à
quatre pattes, de la marche animale.
11 - Les mains sont recroquevillées derrière la nuque. Le corps est ployé vers
le sol.
12
- Le corps est complètement courbé vers le sol, mais la tête est redressée
et les mains réunies touchent la terre.
Tanto na realidade histórica, como no imaginário daqueles que se dedicam
à prática e estudo dos sistemas de combate, o templo de Shaolin
surge associado a estes.
Ao longo da História da China terão existido muitos templos com este
nome, mas aquele a que os praticantes de artes marciais se referem
estava situado na província de Ho-Nan.
A ligação tradicional deste templo às artes marciais tem um fundamento
histórico muito antigo. Naquela província chinesa localizava-se um
centro de culto, onde tinham lugar adivinhações - o "oráculo
de Yin". Estes oráculos, são os mais antigos escritos
protochineses, descobertos nesta província, perto da cidade de Aniang,
que se referem à sociedade urbana chang, conjunto de primeiras
povoações chinesas de tipo urbano, portadoras da indústria do bronze,
que nos dão a conhecer este oráculo. Nesta sociedade, do II milénio
a. C., havia já uma sólida sedentarização, centros urbanos, separação
entre agricultura e o artesanato. Havia comércio internacional e guerras
constantes de conquista.
É pela existência do oráculo que se estabelecem neste templo os monges
que ainda hoje dão continuidade ao Kung-Fu.
Templo que tem sido sempre associado aos sistemas de combate chineses.
Os seus monges guerreiros eram tão indomáveis que em 630, o Imperador
Tai Tsung, necessitou da ajuda de Shaolin para vencer os mongóis.
O mosteiro passou então a ter autorização para manter um exército
de 500 monges guerreiros.
O templo de Shaolin teve uma história atribulada. Foi parcialmente
destruído em 556, em 692 e em 844. Foi abandonado de 690 a 975. Foi
incendiado em 612. Em 1736 voltou a ser incendiado pelos Manchus.
E em 1928, foi incendiado por Xi Yusan, um senhor da guerra. De cada
vez que foi destruído foi restaurado. O templo de Shaolin ainda
existe e continua a dedicar-se ao estudo do Kung. Fu.
Houve ainda quatro outros mosteiros com o nome de Shaolin.
Localizavam-se respectivamente em Hebei, em Fukien, em Sichuan e um
outro também em Fukien. Estes dois últimos foram destruídos no séc.
XVII. Os dois primeiros foram destruídos e restaurados frequentes
vezes.
Na actualidade reclamam-se herdeiras das artes indianas e chinesas,
as seguintes artes marciais:
Shorinji-Kenpo
Shorinji refere-se a Shaolin, Kenpo às artes de combate praticadas
neste templo, na terminologia japonesa.
É uma arte marcial japonesa, existente nos nossos dias, cujas origens
remontam à Índia, à mais de 5000 anos, reclamando ter no Tenziku-Naranokaku
o seu antepassado mais remoto. O Shorinji Kenpo é muito
parecido com o Kalarippayat.
As técnicas utilizadas pelo Shorinji Kenpo serão as utilizadas
no templo de Shaolin, recebidas da Índia.
Kalarippayat
Kalari, campo de batalha, payat, adestramento. Arte marcial indiana,
praticada principalmente no sul da Índia, nas províncias de Tamirnadou
e Kerara, que também se reclama herdeira directa do Tenziku-Norunonaku,
e que tem características muito idênticas às do Shorinji
Kenpo.
Alguns autores inclinam-se para o Kalarippayat como a mais
antiga arte marcial. De acordo com Denaud [xli]
a antiguidade desta arte marcial remonta à época
mitológica de Shiva:
Il existe aussi dans la mytthologie du Kalarippayat un autre
grand sage, surtout vénéré dans le sud du pays: il s 'agit d 'Augasthiar
Maharshi, venu des montagnes du nord de l 'Inde et envoyé par les
dieux dans le sud pour s 'opposer à Varuna (dieu des mers) lors du
mariage de Shiva et de Pârvatî (divinité des montagnes). Grand combattant,
il enseigna l 'art du combat à dix-huit disciples, qui furent chargés
de transmettre oralement l 'art du Kalripayat.
É interessante verificar que esta referência aos 18 discípulos, pois
pode também ser tomada por uma referência aos dezoito pontos de base
do Kalarippayat,
ou seja os Adavus do Kalarippayat. Tais pontos de base vieram a dar origem
aos 18 estilos de Kung Fu de Shaolin ou 18 Lo Han Shou -
as 18 mãos de Bouddha. Cada um destes estilos de base deram origens
a inumeráveis estilos de mão, ou de boxe chinês. Também em Okinawa,
e no que ao Karatedô
concerne, muitos kata
dividem-se em dezoito sequências o que se enquadra perfeitamente na
tradição da Índia. Veremos mais à frente, que o número dezoito também
está presente nas artes marciais nipónicas.
Tenjiku-Norunonaku
Kalarippayat Shorinji Kenpo
A influência das artes marciais indianas faz-se sentir para norte, sul,
este e oeste. Para leste a China, Japão, Okinawa, Birmânia, Tailândia,
Vietname, Coreia, Mongólia, Indonésia. A partir da Índia e da Mongólia
para a Rússia. Para Ocidente a Índia teve ao longo da sua existência
contactos comerciais, culturais, comerciais, militares, com as civilizações
iraniana, Arábia do Sul, Egipto, mundo greco-romano, etc.