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Judo no Kata - Alguns contributos

 

 

 

Índice:

 


 

INTRODUÇÃO

 

"Oui, le Kata est beau quand il est vrai. Il est sérieux, grave, solennel, parce que ceux qui recherchent la vérité sont entièrement consacrés à leur tâche et que toutes les énergies physiques, émotives, psychiques et mentales sont tendues vers le seul but: la vérité du mouvement. Ceux qui sont conscients de cette recherche et contemplent un kata, participent mentalement à cette recherche."

Jazarin, Le Judo École de Vie,pgs. 129 - 130.

Alguns dos kata do Judo foram elaborados após muitos anos de investigação e de trabalho e ganharam forma definitiva em 1906 e 1907. Em 24 de Julho de 1906 [i], foi constituída uma comissão no Dai Nippon Butokukai, em Kyoto, afim de harmonizar os kata do Ju Jutsu. Esta Comissão foi presidida por Shihan Jigoro Kano. Foi decidido, nessa reunião, unificar os diferentes kata que eram praticados e ensinados nas cerca de 116 escolas de ju jutsu, então existentes. Foram eleitos, em todo o Japão, 20 especialistas dos koryu mais representativos. Esta Comissão reuniu no Butokuden [ii] e foi responsável pela harmonização, modificação e forma final de alguns dos kata do Judo.

                        A comissão era composta pelos seguintes membros:

 

 

Composição da Comissão do Butokukai que harmonizou os kata [iii]

 

Presidente

Jigoro KANO

Escolas de Jujutsu

Número de representantes

Identificação

Yôshin Ryu

3 representantes

Katsuta HIRATSUKA

Hidemi TOTSUKA

Takayoshi KATAYAMA

Takenouchi Ryu

4 representantes

Hikosaburo OSHIMA

Koji YANO

Shikataro TOKENO

Kotaro IMAI

Sekiguchi Ryu

2 representantes

Jushin SEIKIGUCHI

Mokichi TSUMIZU

Kôdôkan Judo Ryu

5 representantes

Hajime ISOGAI [iv]

Yoshiaki YAMASHITA

Sakujiro YOKOYAMA

Hidekazu NAGAOKA [v]

Hoken SATO

Shiten Ryu

1 representante

Kumon HOSHINO

Kyushin Ryu

1 representante

Yazo EGUCHI

Miura Ryu

1 representante

Masamitsu INAZU

Fusen Ryu

1 representante

Mataemon TANABE

Sosuishitsu Ryu

1 representante

Kihei AOYAGI

 

                        Os kata não são uma forma teatral de fazer Judo. São, de facto, a forma mais estética de demonstrar o Judo, mas em verdade não têm essa finalidade. O uke nunca deve sofrer passivamente a acção do tori. Tanto um como outro estão a combater. Os ataques são reais, verdadeiros, nunca teatro, e a reacção do tori tem de ser também autêntica. Se assim não for não é kata. É teatro, é tão só dança. Uke e tori devem ser vistos samurai, especialistas em combate corpo a corpo, ou com armas brancas, enfrentando-se, num duelo, em que cada um usa as suas técnicas, por vezes representativas de princípios diferentes, como a força agressiva, cega, imensa e a força provocada, flexível, usada com inteligência. E em cada kata os mestres de antigamente arrumaram as técnicas mais representativas de cada família. Donde resultam os kata com predomínio de nage waza, outros de katame waza, outros de atemi waza, outros que tudo juntam. A concentração e a tensão mental é grande e intensa. Se na maior parte das vezes uke toma a iniciativa e começa o ataque, noutras partes é tori que toma a iniciativa, antecipando-se ao uke.

                        O papel do uke não é estar à partida derrotado e saltar quando o tori o tenta projectar, ou parar um soco, a meio da trajectória, afim de dar tempo a que tori faça tai sabaki. É certo que o kata é um combate cujos ataques se sucedem numa ordem pré-determinada. Mas não é menos verdadeiro que os ataques do uke devem ser autênticos e se o tori não conseguir defendê-los será derrotado e o kata termina aí nesse instante. O uke deve ter um papel activo no kata. Se o tiver, a prática será autêntica, e ver-se-á, por vezes, tori falhar e ser derrotado. Veja-se o katame no kata, extremamente cerimonioso, em que o uke assume, na aparência, um papel passivo na maior parte do tempo. Contudo, no instante em que tori o tenta controlar, seja em osae waza, em shime waza, ou em kansetsu waza, o seu papel é então activo, livre, e procura fugir ao controlo, conseguindo-o, se tori não tiver domínio perfeito da técnica que aplica. Ou seja, deve estar sempre presente, na execução de um kata o espírito de combate - kihaku, a capacidade de projectar energia.

                        A prática de kata, tanto quanto o randori, também procura desenvolver os vários níveis de percepção em combate:

 

                        Go no sen - Também machi no sen, significa iniciativa na defesa, ou iniciativa contra a iniciativa do que ataca. Assim que o adversário toma a iniciativa, o tori defende-se seja bloqueando seja executando tai sabaki, antes de responder. Esta forma de iniciativa já implica que o budoka tenha perfeita percepção do ataque do uke e que aquele possa recuperar a iniciativa no decorrer do ataque. É a reacção sobre a pressão do ataque do uke.

                        Ju no sen - Iniciativa mútua. Esta forma de iniciativa implica atacar assim que o adversário iniciou o seu ataque, de modo a que ele seja atacado. Implica impor um ritmo novo, que pode ser lento, ou rápido, forte ou suave.

                        Sen no sen - Também ato no sen ou sen sen no sen, consiste precisamente em sentir a vontade de ataque do adversário e antecipar-se, atacando antes que este concretize a sua intenção. Observado do exterior parecerá que este tomou a iniciativa do ataque. A este nível há que distinguir três fases na percepção:

                        Ä Sakki - a capacidade de sentir a onda de ataque no instante em que ela se forma;

                        Ä Sen no sen, é a decisão de antecipação;

                        Ä Senken - inicio da execução da decisão de antecipação.

                        Estas três fases decorrem em menos de um segundo. A chave neste nível de percepção é Sakki.

                        Visto de outro lado pode dizer-se que na mente do budoka, na primeira fase, a defesa e o ataque ainda se separam e representam 1 e 2. No segundo nível, defesa e ataque já são só uma única e mesma coisa. Na terceira fase, é a iniciativa total. Visto do exterior, a testemunha comum diria que na primeira fase o uke tinha atacado e tori defendido. Na segunda fase, a testemunha diria que lhe pareceu que se atacaram ao mesmo tempo. Na terceira fase a testemunha tomaria o agredido por agressor.

                        Alguns budoka pensam que nos kata do Judo o nível de percepção é sempre o go no sen. Uke ataca, tori espera pelo ataque. Não acontece assim. E desde logo no nage no kata. Em certas técnicas, tal como no okuri ashi barai e no o uchi mata, tori subtrai a iniciativa ao uke e derrota-o. Tori antecipa-se provocando por vezes a reacção ao uke, para o derrotar. Se este não reagir derrota-o de imediato. Se reagir também o derrota.

                        Os kata contêm em si elevados ensinamentos. Ensinam, para além das técnicas que em cada um deles estão contidas de modo exemplar, heiho (estratégia), maai (distância de combate), hyoshi (ritmo).

                        Maai é um conceito profundo. É certo que significa distância. É certo que é o estudo da distância em combate. Porém, ma significa o espaço-tempo que separa dois lutadores. Ai é a procura de união. Ora aproximamo-nos de um significado em que maai, mais do que o estudo da distância é o estudo de como encurtá-la; é o estudo de como eliminá-la, para finalmente se conseguir a união com o uke [vi]. Visto de outra maneira “maai est l’espace harmonieux existant entre les formes” [vii]. Maai implica o estudo do espaço, da distância, do ritmo e a oportunidade.

                        Existem três tipos de distância:

                        a) - Chika ma - intervalo muito curto, que permite tocar o adversário sem mudar de posição. Em Judo poderá dizer-se que é a distância de contacto, onde se utilizam as técnicas de controlo - katame waza.

                        b) - Ma [viii] - é o intervalo intermédio que requer que o tori dê apenas um passo para concretizar uma acção de ataque ou de defesa. Em Judo poderá dizer-se que é a distância onde se utilizam as técnicas de projecção - nage waza.

                        c) - To ma - grande distância. Em Judo poderá dizer-se que é a distância onde se utilizam as técnicas de golpear os pontos vitais [ix] - atemi waza.

                        Intimamente ligado ao estudo da distância está o estudo de hyoshi, ou seja do ritmo, da cadência numa sucessão de intervalos rítmicos constituída pelo espaço/tempo. Procura-se estar em harmonia rítmica com o Universo, dado que somos vibração, ao mesmo tempo que se quer perturbar o ritmo do adversário [x], que assim não poderá vencer-nos [xi]. O ritmo e a respiração (kokyu) unem-se como um só. Ritmo, respiração e movimento devem harmonizar-se na execução do kata. Uma má coordenação respiratória diminui a velocidade e a potência, assim como permitirá que um conjunto de emoções viscosas, como medo, cólera, perturbem a nossa atenção, o nosso zanshin. A respiração pode ser kokyuho, isto é, normal, sem retenção, ou taisoku, com retenção.

                        A prática de kata aprofunda também o estudo de shizentai no ri (o princípio da postura natural), ju no ri (o princípio da flexibilidade), ri ai (criação de sinergias com o oponente). Põe em confronto ikyu, a força mal usada, a ignorância, e hazumi, o momentum, ou seja o tempo certo exacto, conjuntamente com a força bem usada, ou seja, harmonia com o uke.

                        O kata deve ser praticado até a resposta sair. Deve ser praticado até ao nível RI [xii]. Até ao momento em que o corpo responde, quando algo faz a técnica. Só então o judoka começa a ser eficiente, começa a ser capaz de se defender na rua.

                        Os antigos bugei, os sistemas de combate japoneses eram construídos através do kata. Tanto os sistemas de combate com mãos vazias, como com armas, eram-no, exactamente, porque se organizavam por kata.

                        O kata precedia o randori e o teste final, o shiken shobu. No Judo, o facto de os dois primeiros kata a serem estudados [xiii] terem o nome conjunto de randori no kata, deveria, por si só, demonstrar quanto o kata e o randori estão ligados.

                        Há um tempo de aprendizagem, kihon, onde em primeiro lugar se estuda e pratica para ganhar um entendimento mecânico e executar as técnicas na ordem indicada. É o tempo de aprender cada detalhe técnico - onde colocar o pé, a mão, onde puxar, onde empurrar, como se deslocar, etc. Corresponde ao nível SHU, dos três níveis tradicionais de progressão [xiv].

                        Após o treino básico, kihon, o judoka deve começar a aperfeiçoar as técnicas base para adquirir uma forma mais perfeita. Cada judoka tem as suas próprias características, as suas próprias dificuldades e as suas próprias facilidades. Consciente de quais são, deve começar a procurar o entendimento de cada técnica, a sua forma básica e os factores de variação. Ou seja, oyo, a análise do kata. Com o estudo aprofundado do kata, orientado por um mestre de alto nível, o judoka poderá eliminar todas as suas obscuridades, erros, incompreensões [xv]. Em termos práticos, ocorre o estudo das razões de uma técnica falhar ou ser bem sucedida em randori ou shiai. O judoka deve passar do nível do fazer, para o nível do usar a técnica. Deve preocupar-se, em relação a cada uma delas, com yoten, ou seja, os pontos chave.

                        Nos diversos kata do Judo há dez aspectos, internos, que lhes são comuns [xvi]:

01. Yoi no kishin - O espírito deve estar disponível.

02. In yo - Alternativa de actividade e de passividade.

03. Chikara no kyojaku Emprego correcto da energia.

04. Waza no kankyu A velocidade correcta.

05. Tai no shinshuku Alternância da expansão e da contracção.

06. Kokyu A respiração correcta.

07. Tyakugan(O fim exterior), inter-relação entre o corpo e o espírito.

08. Kiai A intenção sem reserva.

09. Keitai no hoji A posição.

10. Zanshin A atenção correcta.

 

                        Sensei Barioli classifica os kata em dois grandes grupos: os fundamentais e os acessórios.

                        Como fundamentais, indica cinco, se considerarmos tão só como um o randori no kata, ou seis, se o dividirmos em dois, definindo-os da forma que em seguida se reproduz:

1 - Randori no Kata

1 - Nage no kata

"um exemplo de estratégia tomando como exemplo a técnica das projecções."

2 - Katame no kata

"um exemplo de utilização do du ki (energia proveniente do ventre) tomando como exemplo a técnica das imobilizações."

2 - Kime no kata

"um exemplo de intenção sem reserva."

3 - Ju no kata

"o movimento segundo o principio da adaptabilidade."

4 - Koshiki no kata

"os segredos mesmos do ju-jutsu".

5 - Itsutsu no kata

"as manifestações de energia no Universo."

 

                        Como kata acessórios, explica o mesmos autor, que são muitos e surgiram para dar resposta a exigências concretas. Sensei Barioli aponta entre outros, os seguintes:

1 - sei'ryoku zen'yo kokumin taiiku no kata

2 - kodokan goshin jutsu

3 - fujoshi jo

4 - goshin no kata

5 - nage ura no kata

6 - renko ho no kata

 

                        No estudo e na prática do kata há o nível OMOTE, o exterior, o visível, e o nível URA, interno e oculto. No kata o que é que deve ser entendido, compreendido, estudado? O que é suposto que seja reconhecido? Questões que vão surgindo na aplicação das técnicas nos kata.

                        Para Otaki & Draeger, o kata tem dez propósitos [xvii]:

                                "1. To afford a basic training method for Judo

                                2. To develop representative basic Judo techniques

                                3. To ensure harmonious technical development and a wide range of Judo tecniques

                                4. To ensure a harmoniously develop body

                                5. To improve mental controle

                                6. To display the mechanics and spirit of Judo by exhibition

                                7. To promote the development of the Judo spirit

                                8. To ensure the development of self-defense principles and values

                                9. To provide a suitable kind of Judo practice for all

                                10. To ensure the preservation of the traditional symbolic values of Judo."

 

                        Otaki & Draeger classificam os kata da seguinte maneira [xviii]:

De Randori:

Nage no kata 

(formas de projecção)

Katame no kata

(formas de controlo)

De defesa pessoal:

Kime no kata

(formas clássicas de defesa pessoal)

Goshin jutsu (no kata)

(formas modernas de defesa pessoal)

Goshin ho (no kata)

(formas modernas de defesa pessoal para mulheres)

De educação física:

Seiryoku zen'yu kokumin taiiku no kata

(forma nacional de educação física)

Ju no kata

(formas de flexibilidade).

De teoria e origens do Judo:

Itsutsu no kata

(as cinco formas)

Koshiki no kata

(formas antigas)

 

                        É uma classificação que tem sido aceite pela maior parte dos autores sem que lhe seja feita a necessária critica. E não pode deixar de ser redutor, classificar um kata fundamental do Judo, como o Ju no kata, como tão só de educação física. É pobre, é pouco, é confrangedor. Como desenvolveremos mais tarde, o Ju no kata "des formes de la souplesse est plein d'enseignements pour la continuité du movement, la logique des actions et les transformation des déséquilibres." [xix]

                        Na prática de kata deve ainda ter-se presente kiten, ou seja o ponto central da do kata, onde se desenrola o combate. Este ponto define-se pelas linhas de acção do combate, do kata - embusen [xx]. Este conceito contém a ideia de bu, no mesmo sentido de budô. Embu refere-se a acção militar, Sen é neste caso linha. É a linha militar. As linhas para lá das quais está o inimigo. É uma linha de batalha. Mas também pode ser uma linha defensiva.. Este conceito reflecte a natureza combativa e guerreira do Judo. Como também reflecte a aplicação imediata dos kata do Judo a uma situação de combate. Dá-nos também a linha na qual o kata se desenvolve. Conjugado com o ponto central, tori e uke sabem sempre onde deve decorrer a acção.

                        Apresentaremos ao longo de vários números da Surya algumas reflexões sobre este tema. O primeiro comentário que se segue a esta introdução é acerca do Koshiki no Kata ou Kito Ryu no Kata.

                        Este trabalho baseia-se na bibliografia apresentada, no estudo pessoal da prática de kata e, grandemente, nos ensinamentos que tenho recebido do meu mestre, o Dr. Glyn Bannister, 7.º Dan, Kyoshi e de outros mestres com quem tenho aprendido kata, entre os quais destaco Sensei Bill Wood, 8.º Dan, Kyoshi discípulo do falecido Dôcho Kenshiro Abbe e, após a morte deste, do agora também falecido Sensei Haku Michigami, 9.º Dan, Kyoshigo Shihan. Assim como também devo referir Sensei Ritchie Raymond, Kyoshi, 7.º Dan do Dai Nippon Butokukai. Por último agradeço também a Kancho Alfredo Bates, 9.º Dan, Hanshi. A todos eles e a outros que não enuncio, estou grato pelo que me ensinaram.

 


 

Koshiki no Kata

 

Kito Ryu no Kata

 

 

                        O Koshiki no Kata (formas antigas) representa a transição exacta do velho Ju Jutsu para o JUDO. Há muito tempo, encerrava uma grande parte da violência mortal dos Samurais.

                        O Koshiki no Kata "actual" é um Kata do Kito Ryu Ju Jutsu, transmitido por Sensei Iikubo Tsuneshira, sem nenhuma modificação. É constituído pelas técnicas "clássicas" que foram praticadas por Shihan Kano. Os mestres defendem que 75% do Judo provém deste kata. Nas palavras de Dr. Kano [xxi]:

 

"Le koshiki no kata est un kata transmis par la branche takénaka de l'école Kitô, que j'ai repris en l'état. Je l'ai transmis tel qu'il était autrefois afin de faire comprendre le sens profond et la noblesse du combat en judo, et parce qu'il est tout à fait approprié pour indiquer le chemin parcouru pour passer du Ju jutsu au judo. Donc, il me paraît fondamental de l'étudier absoluement."

 

                        Este kata deve desenvolver ZAN-SHIN, ou seja, vigilância, intuição. É na origem um kata de combate com armadura. Os deslocamentos, as esquivas, as técnicas são diferentes de qualquer outro kata pois são dois homens vestidos de armadura. É um kata que ensina a lógica do combate, e permite estudar os princípios subjacentes ao nage waza. Representa o combate que ocorre quando, numa batalha, as armas se perderam, ou foram destruídas, e os samurais se confrontam de mãos nuas, ou usando o tanto.

                        Kito Ryu no Kata é muito mais profundo do que os meros aspectos técnicos. Permite a tomada de consciência de hontai, ou seja a forma base, a posição fundamental, verdadeira, em suma da substância. A ligação entre todas as técnicas deste kata é a noção de hontai. É um princípio de serenidade física e mental. A atitude é serena, o espírito é sereno.

                        Ensina a vencer pela utilização da força do adversário. Ensina a utilizar a própria força. Ensina a vencer a força pela não resistência e a não resistência pela dureza. Ensina a confiar na própria força, sem contudo a demonstrar. Um coração que é forte e demonstra tem a vitória dificultada. A forma deve sempre adaptar-se ao adversário, deve mesmo ser modificada, se tal se tornar necessário à vitória. Mas o coração, a alma, o espírito deve manter-se inalterável [xxii]. A alma e o coração devem manter-se vazios e impenetráveis.

                        A aprendizagem é fastidiosa, lenta e difícil, mas a sua recompensa final pode traduzir-se por uma proximidade à "sabedoria", uma espécie de serenidade interior.

                        Com o domínio de hontai o judoka poderá, na presença de um adversário, preparar-se, para de imediato, a alma imutável, não lhe mostrar, nem no corpo, nem na atitude, a não ser o vazio. Tal só se adquire com um trabalho constante, regular, com o treino do corpo e do espírito. Se o judoka tiver o domínio mental e físico de hontai, então diante um adversário apenas lhe oferece o vazio. E o adversário não poderá vencer por mais rápido que seja. Estes ensinamentos são próprios do Kitô Ryu. A vitória ocorre não somente pela aprendizagem dos aspectos externos, da técnica, mas também por um estado de espírito adequado.

                        Nos primeiros 14 movimentos do Koshiki No Kata, Tori e Uke são dois samurais tradicionais que levam sua armadura (yoroi) e demonstram a técnica original. A técnica que fez possível o JUDO. Pois

"il y a dans ce Kata la force d'une Tradition, et c'est en ce sens qu'il mérite d'être transmis sans altération. C'est aussi ce que voulait rappeler Kano Shihan en revêtant le Hakama du Samurai chaque fois qu'il devenait Tori  dans ce Kata." [xxiii]

                        A segunda parte composta de sete movimentos, é ligeira, alegre, sinuosa, fluída, sem nenhuma interrupção. É a exaltação depois da dura batalha, a beleza pura do movimento, a harmonia rítmica (hasumi [xxiv]). As técnicas que se encadeiam a uma velocidade rápida, exprimem como que uma "liberação" no sentido do espírito e do corpo, pois os samurais estão aliviados das armaduras, depois do combate.

                        Há um principio e um fim nas técnicas do Kito Ryu. Esta escola apelida esta noção de ki no dan, isto é, etapa de energia. Este kata tem duas etapas. A primeira parte chamada OMOTE (cima, frente, fundamental, principal, positivo, yang, externo) faz "oposição" à segunda parte, chamada URA (reverso, inverso, detrás, derivado, secundário, negativo, yin, interno) pelas razões já invocadas.

                        Na primeira parte deste kata os judoka encontram-se num nível de demonstração de Ki. É uma parte em que se demonstra a tomada de energia e o seu domínio durante e no fim da evolução de cada técnica. Utiliza-se ki, percebendo-o, adquirindo-o, desenvolvendo-o, desenvolvendo a percepção a este. Há uma necessidade de adaptação às circunstâncias. Já na parte Ura cessa qualquer distinção de grau, de etapa ou de evolução do ki. Ele foi e é interiormente dominado, como só um mestre o poderá fazer. É um momento em que o positivo e o negativo se entrecruzam, se anulam e dão origem à energia total, à energia bipolarizada, à energia una. É quando ocorre a oppositorum coincidentia. Os opostos unem-se. A maestria é total.

                        Nos aspectos psicológicos tanto o Tori quanto o Uke, deverão sentir e desenvolver estabilidade, serenidade, muga mushin [xxv], hasumi, grande força interior, é por isso que, "bien au-delà d'un enseignement de technique, koshiki-no-kata enseigne comment entraîner l'ésprit. C'est ce qui fait un exercice aux valeurs éternelles." [xxvi]

                        Na série omote o estudo é mais o da correcção da posição (hontai) do que da procura da vitória. A procura da substância implica uma procura do conhecimento do Eu profundo, do conhecimento simultâneo do uke. Por outro lado na série Ura “on va à la rencontre de l’autre avec force, vitesse comme un déluge de pluie, s’il s’échappe, on le poursuit dans un mouvement sans une seconde de retard, on effectue le combat sans étape» [xxvii]

                        O'Sensei Kano demonstrava este kata tendo como Uke, Yoshioka YAMASHITA, 10º Dan, ou Isogai HAJIME, 10º Dan.

                        A saudação neste kata faz-se de modo diferente. Os Judokas deverão baixar-se frente a frente, dobrando os joelhos em simultâneo, até chegarem ao chão. Para executar o zarei, as mãos colocam-se um pouco mais à frente do que é normal e as pernas levantam-se um pouco.

                        Ao contrário do que acontece nos outros kata, em que a posição do Tori e do Uke em relação ao kamiza é sempre a mesma, no Koshiki no Kata, tal não acontece.

                        Assim, em seguida damos a indicação das técnicas em que o Tori se encontra à esquerda do kamiza e o Uke à direita. Considera-se que se observa a partir do kamiza: 1 – Tai; 2 - Yumi no uchi; 3 – Ryukuchi; 4 - Mizu guruma; 6 - Hiki otoshi; 8 Uchi kudaki; 13 - Yu dashi; 15 - Mi kudaki; 17 - Mizu iri; 19 - Saka otoshi; 21 - Iwa nami.

                        As técnicas em que o Tori se encontra à direita do kamiza e o Uke à esquerda são as seguintes: 5 - Mizu- nagare; 7 - Koda-ore; 11 - Shikoro-dori; 12 - Shikiro gaeshi; 14 - Taki- otoshi; 16 - Kuruma gaeshi; 18 - Ryu-setsu; 20 - Yuki ore.

                        Na técnica n.º 9 - tani - otoshi, ambos estão de frente para o kamiza.

                        Para além dos aspectos guerreiros, há quem se refira ao que há de simbólico e poético neste kata. Porém Jazarin [xxviii] rejeita liminarmente esta tese, ensinando que os seus movimentos "portent un nom significatif de son esprit et de as recherche" e que "chacune décrit littéralement la forme du movement et la forme d'énergie qui est átudiée."

                        Eis o nome dos movimentos deste Kata:

KOSHIKI NO
       KATA

OMOTE

01

TAI

Posição de partida do corpo

02

YUMI NO UCHI

Num sonho

03

RYUKUCHI

Evitar o emprego da força vital

04

MIZU GURUMA

O moinho de água

05

MIZU NAGARE

Corrente de água

06

HIKI OTOSHI

Puxar e fazer cair

07

KODA ORE

Tronco de árvore caindo

08

UCHI KUDAKI

Reduzir a pó

09

TANI OTOSHI

Queda no vale

10

KURUMA DAOSHI

Cair em roda

11

SHIKORO DORI

Arrancar o capacete

12

SHIKIRO GAESHI

Derrubar pelo capacete

13

YU DASHI

Chuvada estival da tarde

14

TAKI OTOSHI

Queda em cascata.

URA

15

MI KUDAKI

Reduzir o corpo a pó

16

KURUMA GAESHI

Roda voltada

17

MIZU IRI

Mergulhar na água

18

RYU SETSU

A neve sobre o salgueiro

19

SAKA OTOSHI

Queda com reviravolta

20

YUKI ORE

Ramo quebrado pela neve

21

IWA NAMI

Rochedo varrido pelas vagas

 


[i] Brosse, Le Judo. Son Histoire, ses Succès, pg. 27.

[ii] Casa da virtude guerreira.

[iii] Brosse, Le Judo..., pg. 27.

[iv] Aluno de O'Sensei Kano mas membro do Butokukai.

[v] Aluno de O'Sensei Kano mas membro do Butokukai.

[vi] "Avec l'adversaire Maai, la distance, en japonais, ce n'est pas une distance qui sépare mais c'est au contraire une distance qui rapproche", Delorme, Dojo, Le temple du sabre, pg. 87.

[vii] Takéuchi apud Coquet, Iai-Do ou l’art de trancher l’égo, pg. 120.

[viii] Ou uchi ma, ou juban no ma.

[ix] Kyusho.

[x] Delorme, KENDO, la voie du sabre, pg. 96.

[xi] Perturba-se o ritmo do adversário, numa fase superior, quando o budoka é capaz de, com o seu ki, bloquear ou perturbar a circulação de ki do seu oponente.

[xii] Cfr. artigo do autor "Os estádios de evolução do kata: Shu Ha Ri", Surya online.

[xiii] Nage no Kata e Katame no Kata, compõem o Randori no Kata.

[xiv] Cfr. idem artigo do autor "Os estádios de evolução ...", Surya online.

[xv] Jazarin, Le Judo. École de Vie, pg. 131.

[xvi] Barioli, Le grand livre du Judo, pg. 178.

[xvii] Otaki & Draeger, Judo Formal Techniques. A complete Guide to Kodokan Randori no Kata, pg. 40.

[xvii] Otaki & Draeger, Judo Formal ..., pg. 40.

[xviii] Otaki & Draeger, Judo Formal ...., pg. 32.

[xix] Jazarin, Le Judo. École de Vie, pg. 130

[xx] Também pode ser designado por dosen ou por engisen.

[xxi] Jigoro Kano apud Michel Mazac, Les katas en Judo - selon les Propos de Me KANO

[xxii] O judoka deverá cultivar o estado de fudoshin, o espírito imutável. É um desenvolvimento e outra aplicação de hontai. Ou, como ensinava Sun Zi, Imóvel como a montanha.

[xxiii] Inogai & Habersetzer, Judo Kata. Les formes classiques du Kodokan, pg. 227.

[xxiv] Momentum, ocasião, oportunidade, harmonia rítmica com o adversário.

[xxvi] Habersetzer, Encyclopedie technique, historique, biographique et culturelle des arts martiaux de l'extreme orient, pg. 364.

[xxvii] Kotani apud Mazac, Bulletin de l’Academie de Judo Michigami, n.º 24, 15 de Janeiro de 1993.

[xxviii] Jazarin, Le Judo. École de Vie, pg. 130.

 

 


JOÃO CAMACHO

3º Dan de Judo - Doshi - Presidente do Yudanshakai da Associação de Judo Tradicional de Portugal

Yogachárya Docente formado pela Uni-Yoga - União Nacional de Yoga de Portugal

Advogado

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