|
Há
algum tempo enviei para o José Patrão um resumo intitulado "Vencer
sem Lutar".
"Estou convicto que a competição
em karate mostra aos alunos que se eles querem vencer, o único caminho é a
luta, enquanto que no karate-do aprendemos que se a vitória pode ser obtida
sem luta. O Karate-do é um modo de vida, não é um jogo. O Karate-do tem
um objectivo bastante elevado, ensina às pessoas que, na vida diária, a
única forma de vencer, é com os outros e não contra os
outros. Em japonês
"hito" significa "homem" e escreve-se assim /\, duas
linhas que parecem juntar-se, o que aponta que cada homem se inclina para o
seu semelhante, e que cairá caso esse suporte seja retirado. Isto parece
apontar para o facto de que o ser humano só pode progredir através da
cooperação e não da luta. Eu penso que os dois ensinamentos são
completamente diferentes, não se pode seguir ambos, pois isso depende do
que queremos para a nossa vida. Eu penso que este ponto deve ser
compreendido e não é difícil."
Não me refiro
simplesmente aos que praticam kumite de competição. Estou convencido que
aqueles que acham este tipo de prática divertida, devem seguir os seus
sentimentos. Embora eu veja nada de errado nisso, penso que devem admitir
que isso não tem nada a ver com o conceito de karate de mestre Egami. O que
escrevi expressou minhas ideias sobre a vida, que me foram dadas acima de
tudo pela disciplina e pela prática do karate de mestre Egami, e antes pela
prática do karate de mestre Murakami.
Comecei a treinar
karate há muitos anos. No princípio, como acontece sempre, era só uma
questão de emulação, uma experiência que gradualmente se transformou em
conhecimento. E agora estou a começar o processo da compreensão. Descobri
que o processo de compreensão só começou quando comecei a mover-me conjuntamente
com o meu parceiro em movimentos naturais. Acredito que o treino é um
processo de auto-aprendizagem que acontece com o relacionamento com os
outros. Inicialmente eu só experimentei um relacionamento conflituoso com
os outros, porque não era capaz de estar bem comigo, sem os meus colegas.
Apesar de todas as minhas boas intenções, esta aproximação tornava-se
sempre numa confrontação durante os treinos. E era normal que assim fosse.
Penso que a jornada
que o karate representa é extraordinária. É preciso que treinemos
incessantemente com grande dedicação, humildade e paciência, com confiança
total no nosso professor, a fim de que possamos agarrar, cada um à nossa própria
maneira, o significado desta disciplina maravilhosa.
Quando decidimos
começar a praticar karate, escolhemos descobrir através dos nossos corpos
o relacionamento entre nós e os outros, e entre nós e a natureza. Só
compreendemos isto mais adiante na nossa jornada. À partida, o nosso desejo
era fortalecer o nosso corpo e a nossa mente, e só com o tempo descobrimos
que não o fazemos para subjugar outros.
Existimos graças
às outras pessoas, não poderíamos viver por nós próprios, e devemos
estar gratos por compartilhar as nossas vidas com eles. Quando pensamos na
felicidade, devemos também pensar na felicidade dos outros tentando pormo
-nos no lugar dos outros. É justamente, quando nos pomos no lugar das
outras pessoas que o nosso treino e prática nos conduz no sentido da
compreensão da mais elevada das vitórias, é então que nos tornamos num só
com o nosso parceiro e ganhamos sem combater. Nos treinos necessitamos de
estar juntos com o nosso colega, transformarmo-nos num com ele, para nos
imaginarmos realmente no seu lugar, sentir exactamente o que ele sente, e
experimentar o que ele faz. Se nós não pudermos fazer isto, será muito
difícil conseguir unicamente a harmonia com nosso parceiro simplesmente
através da técnica, e tudo se resumirá, inevitavelmente a uma questão de
domínio sobre o outro, que é algo de diferente da via de karate que o Mestre
Egami nos ensinou. A sua via conduz-nos para esse "mundo oculto"
onde o confronto, a oposição, o conflito, a dualidade e a submissão
desaparecem, sendo substituídos por palavras tais como bem-vindo,
acompanhar, desviar, dissolver, unir e harmonizar.
Acredito que
devemos preservar os ensinamentos e os princípios de Mestre Egami através
da nossa compreensão, mudando-nos e aperfeiçoando-nos a nós próprios.
Precisamos de melhorar a nossa capacidade de interagir com o mundo ao nosso
redor, com os outros e com a natureza. O Mestre Egami deixou-nos o seu
testamento no seu livro "The Heart of Karate-do", publicado
previamente com o título "The Way of Karate Beyond Technique". Não
é necessário que mudemos as técnicas. Se a técnica mudar com os anos,
será porque nos mudamos a nós próprios, porque o que queremos da vida
mudou: para construir um novo tipo de existência com os outros, ou
inevitavelmente contra os outros. Então o gedan barai que executamos poderá
acompanhar a energia do parceiro até a dissolução da sua energia sem
perturbá-lo ou aleijá-lo, de outra partiria o seu braço. Fomos
habituados a concentrar a energia num ponto e consequentemente também a
nossa atenção é focalizada num ponto. É desejável que cada um de nós
investigue e descubra a percepção de um estado de globalidade uma
"visão aberta" que inclua o ponto focal da técnica e o adversário
por inteiro. Nesta dimensão, que não é somente física nem somente
mental, a técnica não é concentrada somente no ponto do contacto, mas
irradia através do corpo inteiro do adversário.
Isso dependerá do
que desejamos que "saia" da técnica, e a técnica espelhará
sempre fielmente o que nós somos no momento preciso de sua execução.
Certamente não podemos ser diferentes do que somos, nem podemos ensinar o
que não compreendemos, mas com o treino e o compromisso de compreender as
palavras de mestre Egami podemos melhorar e assim contribuir, cada um de
nós à sua própria maneira, para construir a imagem do karate que mestre
Egami desejou divulgar às novas gerações: "Um treino do espírito
que conduz à harmonia, através do treino do corpo".
Muito
Obrigado.
Outubro
de 2003
Enzo
Cellini
|