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O Shotokai de Tetsuji Murakami, não foge ao grande
dilema que se arrasta há quase um século com o finar do paradigma
Moderno.
Assim e apesar de todos os avanços das ciências
(ou talvez por isso mesmo), este século foi incapaz de criar substituto
para o paradigma moderno. Vive-se um momento agudo de transição
"num paradigma emergente", que ainda não se sabe bem o que irá
ser.
Oiçamos o que nos ensina Edgar Morin, no seu livro
"Método III, Conhecimento do Conhecimento, ensaio sobre o
funcionamento do cérebro humano.
O cérebro humano possui uns quantos biliões de
neurónios, onde cada um dispõe de aptidões próprias e polivalentes,
tudo se jogando num encadeamento de associações/implicações e onde
tudo se decide, não num centro de comando mas de forma regionalizada. O
Cérebro é acêntrico e policêntrico, o que o distingue das máquinas
cognitivas artificiais que obedecem a princípios cêntricos/hierárquicos.
Por outro lado a nível organizacional, ela
processa-se em dialógica, ou seja, há um diálogo inseparável entre
análise/síntese e digital/analógico, as instâncias cerebrais vivem e
constituem uma perfeita democracia dialogante entre os dois hemisférios,
as instâncias triúnicas os feixes hormonais etc., coisa a que os
computadores também ainda não chegaram, funcionam, estes, segundo regras
e instruções rígidas.
No Universo o princípio hologramático é o
princípio chave de toda a organização policelular, cada célula contém
o engrama (rede) genético de todo o ser, "a galinha contém o ovo
que contém a galinha".
Este princípio hologramático existe no cérebro,
quando este produz imagens. Cada ponto do objecto hologramático contém a
presença do objecto inteiro, entender-se-á melhor se pensarmos na forma
"pobre" como se formam a imagem num monitor da máquina
cognitiva, onde a soma das centenas de pixel são o todo da imagem.
Ao contrário no cérebro humano, cada imagem tem o
todo e o todo tem a parte, onde a parte é capaz de regenerar o todo. O
princípio hologramático demonstra portanto um espantoso tipo de
organização.
O cérebro tem enormes aptidões estratégicas
cognitivas dispõe da dialéctica de Conhecer - Agir - Conhecer, foi assim
afinal que o Homo começou por transformar um ramo em pau, uma pedra em
arma, ou seja de problemas em soluções, de soluções em problemas, têm
evoluído as sociedades humanas.
Reparemos agora, o que aconteceu em pouco mais de
250 anos ao CENTRO.
Até então e segundo os registos bíblicos,
inicialmente e pela teoria criacionista o Homem era o Centro do Mundo.
Evoluía-se no sentido de se acreditar que já nem
tudo se centrava no homem e desloca-se o Centro para a Terra em si. Até
que aparece Copérnico a dizer que afinal era a terra que girava em torno
do Sol logo o Sol era o Centro.
Galileu, lá deu a sua ajuda, quando reparou que o
movimento da terra em torno do sol não era redondo mas elíptica, e lá
ficamos mais um pouco descentrados. Newton vai mais longe, quando repara
que há mais Sóis (outros sistemas). Lavoisier e Einstein acabam-nos com
o centro. Quando admitem a existência possivelmente de outros Universos.
Atentemos na palavra Universo, quer ela dizer a
União de todos os diversos e comparemo-la com o cérebro. Este desde o
aparecimento do Homo arcaico, que Arqueólogos e Antropólogos desde
sempre admitiram que o cérebro era portador de possibilidades culturais e
sociais, o que aliás se veio a confirmar mais tarde, todavia a maioria do
seu potencial ainda hoje se desconhece. Assim é a Consubstancialidade da
Unidade de todos os seus aspectos, que o tornam (assim como o Universos)
na máquina hiper complexa e maravilhosa que é.
Mas dirão: o que é que o Shotokai Murakami tem que
ver com tudo isto?
Quando em 1986 o Mestre Tetsuji Murakami estava a
morrer, alguém lhe perguntou, mestre sugere algum nome para dar
continuidade ao seu trabalho...;
Sim... "Os meus alunos".
Pessoalmente, acho que foi o treino/aula mais belo
que o mestre nos deu (mesmo aos que não o conheceram pessoalmente).
Devemos todos (shotokaistas-murakami), guardar estas palavras no nosso
oráculo e de quando em vez irmos lá recordá-las.
Reparemos nas semelhanças com tudo o que atrás
disse e a descrição do que se passa no Dojo onde treino (estou
convencido igual a todos onde se pratica o Karate-Do Shotokai Murakami).
Antes uma nota prévia, após a morte do mestre, o
seu lugar nunca foi ocupado (e espero que nunca venha a sê-lo), o lugar
imediatamente a seguir esse sim, e muito bem por um colégio de meia
dúzia dos mais próximos do mestre, que de forma sábia têm sabido ser
os guardiães e mentores dos seus ensinamentos, concerteza, esteja onde
ele estiver, estará satisfeito com o caminho que se seguiu - e o que me
parece óbvio irá ser o futuro. "Não o inquinemos " com
decisões avulsas.
Voltemos às semelhanças; todos os tipos de
organização política e social de poder estão representados num só
treino se Shotokai, aí encontraremos a Autocracia a Oligarquia, a
Democracia, o marxismo com o seu proletarismo etc. etc. (e tudo em 50
minutos). É isto que torna o Shotokai fascinante e talvez o ponha na
vanguarda.
Vejamos como as coisas se passam: Antes de entrar no
dojo, descalço-me, não só pelo respeito e veneração que o sítio me
impõem, como por questões higiénico-sanitárias, mas sobretudo
coloca-me (nesse particular) logo igual aos demais, o que se consubstancia
quando de Karategi vestido, olhando em redor vejo que, o que me diferencia
dos outros (infelizmente) é a cor do cinto.
Ao entrar no lugar de prática (culto), vergo-me
veneradamente à figura do mestre "ao seu poder
autocrático/estático".
Que mais belo exemplo de democracia haverá do que a
"cerimónia" de passar o chão do dojo com um pano, desde o
cinto branco ao qual eu tirei o pano da mão para ajudar à limpeza, ao
mais velho ou ao mais graduado (mestre) a quem passo o pano para
prosseguir o trabalho.
Segue-se o alinhamento para a saudação, esta é
feita de forma Oligárquica/hierárquica.
Que mais bela manifestação de sintonia colectiva,
de união dos diversos, de comunhão de objectivos, que o sentido no Rei.
Haverá mais algo de Anarco/consequente que a
explosão, com que se inicia o Bassai. E que dose de humildade
democrática é necessária ao mestre do grupo, para explicar pela
ducentésima vigésima vez ao cinto verde que o tsuki, não é feito de
forma biomecânica mas de forma hidráulica, ou o mestre aceitar,
tranquilamente o que algum menos graduado tem para lhe transmitir.
Vou na décima primeira época de Shotokai e nunca
reconheci o valor do meu mestre pela cor do cinto. Penso estar certo,
quando entendo que este se deve impor naturalmente ao grupo pelo valor das
suas capacidades, pela sua idoneidade, competência, humildade, zelo,
empenho dedicação e ajuda que dá aos seus alunos.
Pela humildade de aceitar que não sabe tudo, que
não é o melhor, que necessita dos menos graduados para ele mesmo
evoluir. Só assim o grupo o aceitará "naturalmente" e
naturalmente chegará ao cimo. A postura e a prática, dentro do grupo
Shotokaista não se compadece com artificialismos de subida ao poder,
isto, porque como já vimos o poder dentro do grupo não existe, como
trivialmente o aceitamos; ele está na parte que está no todo e no todo
que está na parte.
Esta é a chave que hoje já quase todas as
ciências aceitam, não podem estar isoladas, todas dependem de todas, é
o que os cientistas chamam Interdisciplinaridade.
O poder já não se exerce em pirâmide, e a
dificuldade de se entender é que ele (poder) já não é autocrático,
nem oligárquico, mas também não é popular nem democrático, ele é,
tudo isso. Assim sendo o poder não se impõe, conquista-se pela
humildade, pela competência, pelo exemplo, com naturalidade.
Aos que pensam atingir o Olimpo pelas graças de
Zeus, não o façam, há sempre um Hade atento, e essa força ctónica
são "os alunos".
Até lá treinem e aguardem, o vosso valor se
imporá, mas com naturalidade.
Não tenho dúvidas que o Shotokai Murakami, que é
o mais velho, que já se regionalizou há muitos anos, que tem sido um
exemplo em todo o panorama do karate nacional, saberá entender os novos
ventos que sopram, para tudo é necessário tempo, bom senso,
ponderação. Mas não tenhamos dúvidas que estamos à frente, também
nesta corrida, do Paradigma que emerge.
Termino com um pedido a todos os Shotokaistas,
lembrem-se das últimas palavras do mestre «O meu sucessor será "os
meus alunos"». |