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Centro de Artes Orientais www.cao.pt


 

 

1-TIPOS DE ESCOLAS DE ARTES MARCIAIS

Todas as Artes Marciais com "DO" têm objectivos diferentes das outras Artes Marciais de carácter popular ou comercial.

Nas antigas tradições marciais, tanto orientais como ocidentais, encontram-se dois tipos de escolas:

  • As escolas EXOTÉRICAS

  • As escolas ESOTÉRICAS

As escolas exotéricas são centros externos, públicos, nos quais se educa o praticante em disciplinas de carácter "cívico militar", com objectivos Sociais, Políticos, Religiosos, Militares etc.

As escolas esotéricas são centros de estudo filosófico, para aqueles que se destacam acima do comum, com o intuito de desenvolver outros interesses superiores de características mais transcendentes.

O objectivo das escolas filosóficas das Artes Marciais. é a iluminação do indivíduo, por iluminação entenda-se a conquista da sabedoria, ou seja o conhecimento dos mistérios ou a iniciação espiritual.

 


2-ESTÁDIOS

 

Também se podem explicar estas duas funções, a SOCIAL (exotérica) e a MÍSTICA (esotérica), pelo seguinte caminho:

  • ESTÁDIO DO MOVIMENTO E BUSCA DO EQUILÍBRIO

  • ESTÁDIO DA ENERGIA INTERNA OU VERTICALIZAÇÃO DOS ELEMENTOS SUBTIS
  • ESTÁDIO DA CLARIVIDENCIA

 


2.1-ESTÁDIO DO MOVIMENTO

É neste estádio que nascemos, vivemos e morremos. Um mundo de provas e de grandes sofrimentos em que todos estamos mergulhados.

Nas Artes Marciais este mundo corresponde à dimensão do movimento, no qual se busca o equilíbrio de todas as acções.

Aqui impera a lei da causa e efeito como polaridades que se opõem alternadamente.

É estabelecido nesta dimensão um desenvolvimento físico em função da acção e reacção. Com o tempo o praticante consegue o equilíbrio deste dois aspectos, chegando a harmonizar os movimentos, e com eles as suas acções quotidianas.

É uma dimensão pouco filosófica, já o que interessa é gerar uma disciplina constante, baseada na prática intensa e esforço pessoal.

Corresponde em geral às A.M. externas nas quais o instrutor não dá nenhum tipo de esclarecimento ou explicação.

0 objectivo fundamental é a busca do equilíbrio, equilíbrio, que produzirá uma condição favorável para entrar no segundo estádio, o da energia interior.

Ao mesmo tempo é gerado neste equilíbrio uma grande eficiência técnica e combativa por parte do praticante, entendendo-se esta eficiência dentro do campo concreto, formal e objectivo.

 


2.2-ESTÁDIO DA ENERGIA INTERNA

Este mundo corresponde ao estádio da energia interior e subtil do ser humano, nele trabalha-se através de sistemas de respiração, ritmos biológicos, desenvolvimento da imaginação etc. Os objectivos principais deste estádio são o de verticalizar, elevar e purificar a energia interior e a mente. É um sistema de desbloqueamento de canais energéticos, do desenvolvimento dos centros nervoso etc.. Aqui existem três aspectos que devem ser considerados e os quais se deve dar a maior importância, são eles:

    a) Fluxo respiratório

    b) Ritmo cardíaco

    c) Fluido nervoso

a) 0 praticante deve concentrar a sua mente na inspiração e expiração a tal ponto que, a pouco e pouco, perca a identificação com o seu corpo físico, para identificar-se com a respiração

b) Junto com a concentração da respiração., o praticante deve concentrar-se nas pulsações do coração até harmonizá-las com o ritmo respiratório.

c) Simultaneamente, o praticante deve imaginar que o fluido nervoso, percorre todos os sistemas e que se estende além do corpo.

Finalmente deve harmonizar este último aspecto com os dois anteriores.

 

A prática constante neste ESTÁDIO gera um desprendimento de todo o tipo de energia grosseira, purifica e subtiliza os humores e aclara em extremo a mente do praticante.

 

É importante, nesta etapa. que o praticante estabeleça uma linha de discernimento, clara e precisa, que 1he permita distinguir claramente a sua própria identidade, livre de qualquer outro tipo de condicionamento, factores externos, elementos desconhecidos do inconsciente etc.

 


2.3-ESTÁDIO DA CLARIVIDÊNCIA

É neste patamar, o da sabedoria, a única região, onde o praticante deve buscar o Mestre, "aquele que vai ensiná-lo a caminhar em direcção a verdade". Quando se refere o Mestre não é de forma subjectiva, mas sim de forma concreta, pois e a única maneira de percorrer o caminho da evolução humana. Neste estádio avançado o praticante exercita-se em combate até alcançar a Mestria. Este tipo de combate e aquele em que o praticante exerce um controle directo sobre as suas emoções, desejos, ansiedades, dúvidas temores e medos. Alcança este estádio, aquele que pode descobrir com antecipação os ataques dos combatentes, com os quais se enfrenta. Não é um combate violento, nem defensivo nem ofensivo, é um combate de antecipação total a qualquer iniciativa, por parte dos outros, seja para anulá-la ou superá-la, sem entrar em combate.

 


3-ELEMENTOS FUNDAMENTAIS DAS ARTES MARCIAIS

 

Por ordem de importância são estes os quatro elementos fundamentais.

  • ELEMENTO MÁGICO

  • ELEMENTO ESTRATÉGICO

  • ELEMENTO TÁCTICO

  • ELEMENTO TÉCNICO

 

3.1-ELEMENTO MÁGICO

Corresponde a ligação que o praticante tem naturalmente com o espírito da guerra interior.

É o mundo místico que desperta na alma do praticante a reminiscência em forma mágica e súbita.

É algo que se traz ou não se traz e corresponde exclusivamente aqueles homens de natureza especial.

Aqui intervêm, como complementos, os Símbolos, o Cerimonial, as Cores, as Ordens, etc.

Este elemento mágico é o que dá ao praticante poder de viver, de matar e de morrer.

Esta dimensão mágica traduz-se em um poder interno que se desenvolve gradualmente, aumentando a sua intensidade até limites inimagináveis.

Este poder não é comum a qualquer homem, nasce-se ou não com ele.

Somente aqueles que possuem este poder interno podem atingir certos limites, os demais devem concentrar-se em desenvolver os graus básicos da iniciação.

É neste elemento mágico onde se encontra o Verdadeiro poder e eficiência das Artes Marciais e quem o possui tem em si mesmo o poder da vida e da morte.

 

3.1.1-Fundamentos Filosóficos da Dimensão Mágica

0 contexto esotérico das Artes Marciais implica um caminho iniciático conhecido como "pequenos mistérios".

Estes pequenos mistérios estabelecem-se através de mitos que nos transmitem a relação entre o mundo divino e o mundo humano.

Tais mitos determinam-se por meio de uma estrutura simbólica, que mostra vários ciclos ou períodos que corresponderiam a uma sequência ordenada que cumpre com a função pedagógica da transmissão do mistério da guerra no Cosmo, na natureza terrestre e no homem.

Esta sequência mítica desenvolve-se através das seguintes ideias:

    a) As origens (mito das origens)

    b) A Ideia do Centro (mito do eixo do mundo)

    c) A renovação do ciclo (mito do eterno retorno)

    d) O Rei do mundo (Mito avatárico)

    e) A obra fundamental (mito da saga do guerreiro)

    f) A Apoteose (Mito do Herói)

 

Toda a tradição guerreira tem as suas origens num tempo sagrado no qual todas as coisas teriam um valor mágico e misterioso.

Nestas origens o Senhor da guerra funda com regras e certos poderes de carácter mítico, assentando-as no eixo ou centro, que o ciclo se renova.

A partir deste momento assenta-se a tradição de que este Rei do Mundo voltará uma e mil vezes, através dos reis humanos, quando for necessário, com o objectivo de restabelecer a ordem a paz e a justiça.

É assim que o rei, começa a chamar guerreiros de fama e renome, para torná-los cavaleiros, ao serviço de um plano de ajuda a humanidade, para defendê-la e protegê-la contra os seus inimigos, que querem tiranizá-la e explorá-la.

Finalmente dá-se a apoteose, na qual todos morrem, salvando-se somente o rei, que abandona este mundo, indo à "ilha sagrada" de onde um dia retornará novamente para conduzir os guerreiros ao mundo divino.

 

Esta série de ciclos míticos, podemos encontrá-los por exemplo:

  • No mito de Artur, entre Celtas e Europeus

  • No mito de Kwan-Ti entre os Chineses
  • No mito de Bodhidharma entre Chineses e Japoneses

 


3.2-ELEMENTO ESTRATÉGICO

Depois do mágico é na estratégia que o praticante encontra a vitória.

É um elemento que permite descobrir os limites, perigos, riscos, e possibilidades reais, com que verdadeiramente o praticante, conta em um dado momento.

Quem se engana aqui forja sua própria derrota. Pelo contrário, aquele que acerta neste campo tem assegurada a vitória.

A estratégia não é algo sujeito às circunstâncias, nem ao inimigo, mas sim aquilo que depende de cada praticante e que este deve considerar somente em relação a si mesmo, forma parte do mundo mágico místico e estrutura-se em função de um verdadeiro ideal.

Poder-se-ia dizer que um bom estratega é aquele que vence as provas e dificuldades, que não deixam manifestar-se o Ideal Superior do Bem, da Verdade e da Justiça neste mundo.

E uma vez que tenha superado tudo, consegue que tal ideal se torne uma possibilidade completa, tanto para ele como para os demais.

Diante disto não cabem desculpas, já que se vence ou se fracassa.

A estratégia é algo subliminar que carece de argumentos pseudo-racionais e nunca poderia ser explicada sem um alto grau de domínio da disciplina marcial.

Esta para além do bem e do mal, do gosto e do desgosto, seguramente é a doutrina da guerra interior ou melhor o conhecimento propriamente dito.

Toda a batalha propõe problemas que o estratega deve resolver, e estes problemas desafiam a inteligência, a sabedoria e a vontade do estratega, sempre no sentido do enigma interior.

A estratégia consiste também em conhecermo-nos a nós mesmos, tanto em relação aos nossos limites, como às nossas virtudes.

Não podemos deixar que o inimigo nos leve além das nossas possibilidades, nem deixar que ofusque as nossas virtudes.

A boa estratégia é uma arte que se elabora ao longo de toda a vida e geralmente fora dos campos de batalha, pois aqui não há tempo para reflectir.

Filosoficamente esta doutrina estrutura-se em função de certas ideias fundamentais, a saber:

a) A Aquisição de um ldeal transcendente

b) Os mestres da sabedoria

c) O discipulado

d) A imortalidade da alma

e)As qualidades da natureza

f) Os obstáculos para a conquista da sabedoria

g) A ilusão do Mundo

h) A realidade superior

i) As provas iniciáticas

 


3.3-ELEMENTO TÁCTICO

3.3.1-Tipos de tácticas

O Elemento Táctico nasce baseado na observação do inimigo, do campo de batalha, das próprias forças.

Existem dois tipos de tácticas:

  • Tácticas convencionais

  • Tácticas naturais

As tácticas convencionais, são adquiridas mediante estudo e prática constantes. Cada estilo de A.M. geralmente têm tácticas próprias que o caracterizam e que devem ser guardadas com muito zelo.

As tácticas naturais surgem em função da experiência e das qualidades próprias de cada praticante, as quais darão um bom resultado quando se incluem nas tácticas convencionais.

 

Existe uma base referencial em toda a táctica que deve ser considerada em primeiro lugar. Esta primeira referência nasce da relação que se estabelece entre o sentido interno de ordem e harmonia do estratega e todas aquelas coisas que provenientes do inimigo, tratam de desestabilizar esse sentido interno ordenado e harmónico.

 

A partir desta base surge um segundo factor táctico, o qual se estrutura em função dos erros que o inimigo comete em relação à sua ordem e harmonia interna, erros que, sem dúvida serão explorados por todo o bom táctico.

Não devemos começar a explorar os erros do inimigo de maneira directa, mas sim deixar que eles se acentuem e, com o tempo se tornem os factores fundamentais de sua auto-destruição.

 

0 terceiro factor de importância na táctica é descobrir a tempo a linha de acção necessária para manter o equilíbrio das forças próprias e não perder jamais a iniciativa com respeito a essa linha de acção. 0 quarto factor importante é estudar de maneira profunda e constante o inimigo e os seus movimentos 0 quinto factor é estabelecer meios que nos mantenha sempre informados do que acontece nas linhas inimigas. 0 sexto factor é o de não atacarmos até estarmos seguros da vitória. Finalmente o sétimo factor de importância, é o de poder levar a decisão tomada até ao fim e às últimas consequências, sem duvidar e se trocar os planos traçados, depois de haver obtido os seis factores anteriores.

 

3.3.2-Fundamentos Filosóficos da Táctica

0 táctico deve possuir ao mesmo tempo um ideal superior de carácter humanista e que esteja inserido no plano evolutivo da humanidade.

Jamais devemos esquecer este ideal, o qual é de vital importância.

A melhor táctica é aquela que o ideal triunfe sobre tudo, e isto se constitui como eixo central do conhecimento táctico.

0 bom táctico sempre evita a guerra e não entra em batalha, se o seu ideal não está em jogo pode continuar a progredir.

Quando em Combate (Kumite em japonês), a táctica evolui a partir dos seguintes elementos:

    a) Produzir a dimensão Mágica

    b) Garantir o elemento estratégia

    c) Estudar e captar o inimigo

    d) Dominar o inimigo

    e) Destruir a resistência do inimigo

    f) Reabilitar o inimigo

 

a. A criação da dimensão mágica faz-se através da imposição do carácter, unindo a vida e a morte, como sentido de destino histórico, pois são duas coisas naturais e todos devem aceita-las com naturalidade. (pólo fixo) Compreendido isto o "WA" (espírito) manifesta-se gerando o Kime ou força concentrada.

b. A estratégia é garantida por meio de movimentos estáveis, não sujeitos a nenhum tipo de influência do adversário, que o praticante deverá manifestar através de movimento da sua guarda, a qual corresponde a um plano definido independente de grande resolução e iniciativa. Aqui o praticante devera exercer um controle eficiente aos seguintes factores, medo, insegurança, ansiedade, desejo, dúvida etc. (elemento fogo).

c. 0 estudo e captação do adversário corresponde ao elemento "Ar" e é a Dimensão psicológica do praticante. Aqui observa-se o inimigo, estudando a sua defesa, seus movimentos em geral, o alcance das suas armas naturais ou criadas, seus defeitos e debilidades, seu ritmo etc.

d. Dominar o adversário, este aspecto corresponde ao elemento "água" e expressa-se através do KI (ou energia) quando esta se projecta ocupando a guarda do adversário ou defendendo a sua própria guarda. A energia interior protege as possíveis vias de entrada do adversário e penetra pelas mesmas vias as defesas do adversário até superá-las totalmente. Aqui o "WA" (espírito) do adversário se retrai com o qual a guarda se debilita completamente.

e. Destruir a resistência do adversário, corresponde ao elemento "Terra", que avança de forma concreta sobre todas as linhas de defesa do adversário, até destrui-las sistematicamente, incluindo focos isolados de resistência.

f. Reabilitar o adversário, far-se-á usando a admiração e o respeito que tomou conta do adversário, transformando-o num guerreiro aliado, mesmo que a sua integração seja lenta mas sempre justa.

 

3.3.3-Outros sistemas tácticos

    1-Distância

    2-Centro

    3-Ritmo

    4-Aparência

 

3.3.3.1-Distância

Distância (ou MAAI em japonês) é a arte de dominar e usar o espaço existente entre os adversários, em favor próprio.

 

A distância tem vários factores:

a) Distância do Golpe - Quando para golpear é necessário dar um passo.

b) Distância longa - Onde não é possível golpear com um passo único, mas existem técnicas que permitem encurtar a distância de forma rápida e efectiva.

c) Distância curta. Aqui é possível atacar sem necessidade de dar um passo, mas para que o golpe seja eficaz e preciso ter um conhecimento interno

 

Este conceito de distância integra outras tácticas tais como:

  • Táctica de cruzar a longa distância - consiste em tomar a iniciativa de aproximação dando primeiro um passo pequeno e logo depois outro grande

  • Táctica de guarda disfarçada, consiste em esperar o ataque do adversário, com o peso na perna dianteira, e quando o adversário ataca trocar o peso para a perna posterior, fazendo com que este perca a sua distância
  • Táctica de guarda de perto, Baseia-se em lutar, com a guarda balanceada, equilibrada e dinâmica, que permite entrar na guarda do adversário no momento que for
  • aberta, impedindo-o de manobrar.
  • Táctica da falsa distância. Consiste em manter as guardas perto do corpo para criar uma distância menor, sem que o adversário o perceba, para depois atacá-lo de surpresa.
  • Táctica de ângulos, Consiste em fazer com que o oponente, adquira uma direcção específica, para atacá-lo pelas diagonais, ou obrigá-lo a vir ao encontro para projectá-lo por cima do corpo, como o acto de passar por debaixo de uma onda.

3.3.3.2-Centro

  • A conquista ou posse do centro é outro elemento importante, já que é referencial de todo o tipo de movimento, seja de ataque ou defesa.
    0 centro pode ser uma ideia que toma conta da personalidade do lutador, pode ser um lugar ou uma área.
    Todo o lutador tem o que se chama o seu próprio espaço, em que o oponente jamais deverá entrar, pois se ele atacar este espaço, será quase impossível a defesa.

  • A Táctica do centro, integra outras tácticas específicas como:

    Táctica de limpar o centro: quando o centro e ameaçado, deve-se limpar o centro, jogando o oponente para os lados, para depois entrar na sua linha defensiva, com um passo decisivo e firme. Pode ser usada como táctica de ataque da mesma forma como e usada para a defesa.
    Táctica para puxar o Centro: quando o adversário é muito forte, e tem um centro firme, no momento em que ele tenta atacar o nosso centro, devemos opor uma grande força de resistência, por alguns instantes, para depois de forma súbita e inusitada, soltar toda a resistência, o que produzirá um grande desequilíbrio no atacante.
    Táctica da folha vermelha (em japonês Momiji): consiste em atacar o adversário como uma folha que cai; com tanta suavidade, como a folha vermelha, ou seja, seca; exige muita tranquilidade, sem oferecer resistência alguma ao adversário; a respiração deve tornar-se suave e leve, como se levássemos um bebé ao colo.

  • Todos os Kata's dos diferentes estilos de A.M., têm algo em comum: todos eles começam num ponto e acabam no mesmo ponto (e também com uma defesa).
    Este facto corresponde a um sistema simbólico, no qual encontramos o simbolismo do centro, já que o ponto de início de todo o Kata representa o centro e o seu desenvolvimento, um segmento de raio ou diâmetro da circunferência.
    Por outro lado em alguns estilos encontramos Kata's, cujo desenvolvimento se efectua nas quatro direcções, sempre partindo do centro e voltando a ele.
    Encontramos aqui um conhecimento transmitido pelos Mestres aos guerreiros, que traz relação com esta guerra sagrada entre o guerreiro branco (a consciência) e o guerreiro negro (os quatro elementos)
    0 simbolismo do centro seria então a única posição estável e segura que o guerreiro branco deve assumir.

  • Quando a consciência se estabelece no centro, a partir daí consegue dominar e dirigir os quatro animais simbólicos que representam o corpo, a energia, as emoções e os pensamentos.
  • A guerra interior desenvolver-se-ia porque a força que o cavaleiro negro lança, estaria sempre a magnetizá-lo violentamente para fazê-lo sair do centro e este perderia a batalha
  • A Doutrina do Centro:
    Esta doutrina é o coração da estratégia universal e é dela que surgem todos os modelos da táctica clássica.
  • Porém o que é o Centro ?
    Será um lugar; a distância equidistante entre dois combatentes, uma ideia?
    Para definir o que é o Centro, temos que separar a natureza de seus atributos, já que na natureza não encontramos Centro, mas sim direcções, movimentos, redes de comunicação, linhas de força, e, de acordo com as teorias actuais, um entrelaçado de sistemas fragmentados.
    É somente quando observamos o universo, sob o ponto de vista filosófico, que surge o centro como atributo deste por excelência.
    Podemos dizer então que o centro corresponde a uma concepção espiritual da vida e neste caso podemos entendê-lo como forma (conceito) e como abstracção (espírito). 0 centro implica então a ideia do bem, da verdade, da justiça etc.
  • Mas se é possível concebê-lo, deve haver forma, e qual será a forma do Centro ?
    Nos esquemas tradicionais o Centro representa-se como um ponto que equidista de todos os demais, seja em figuras planas (círculo, quadrado, triângulo etc.) ou em figuras de volume (cubo, esfera etc.).
    Com isto podemos esboçar uma definição do Centro, pois nele podemos integrar tudo o que foi dito até agora, se reagruparmos cada uma destas coisas, ou seja; natureza, espírito, atributos e símbolos, chegamos a um ponto onde todas as coisas se encontram.
    Centro é então, o ponto de configuração onde todas as coisas se Harmonizam e ao mesmo tempo se articulam para cumprirem com eficiência as funções que lhe são próprias.
    Deste modo, com esta definição teórica, podemos chegar a definir a forma prática do Centro. Em sistemas naturais ou criados pelo homem, a forma de centro encontra-se naquilo que, pertencendo a qualquer coisa em movimento não se move, e ao mesmo tempo é o suporte do movimento. Numa roda, o centro é o cubo ou círculo onde o eixo gira, transmitindo a vida a todo o sistema; no sistema solar o centro é o espaço, onde o sol se move, transmitindo força a todo o sistema, e no homem, é a concavidade onde a consciência se move, relacionando todos os elementos que o constituem.
  • É a vontade como atributo, e a Lei como objecto o primeiro de todos os elementos. Mas como é que o homem pode chegar a realizar o Centro?
    Somente quando o concebe e se identifica com ele.
    Assim no homem a ideia-forma do Centro, é o Homem Superior, o Herói, o Comandante.
    Do ponto de vista estratégico, o centro não é um círculo de defesa nem de ataque, senão a integração de ambos simultaneamente, unificando ponto e circunferência: é o Centro total.

 

3.3.3.3-Ritmo

Outro factor importante, se considerarmos a táctica como um todo, é o ritmo, posto que ele envolve o tempo de execução de qualquer técnica usada em combate. 0 tempo encerra a vontade e a decisão de lutador, portanto se o ritmo do adversário é captado, conhecemos a sua intimidade e tal conhecimento permite prever os seus movimentos.

Este conceito integra tácticas tais como:

  • A Táctica do tempo certo. Conhecendo a táctica do adversário, deve-se atacar com um contra-ritmo, com o qual entramos nos vãos da guarda dele, surpreendendo, ou melhor, considerando a cadência global do adversário, atacá-lo com outra cadência que o incomode.

  • Táctica do meio-tempo. Quando se detecta o tipo de ataque do adversário, é atacá-lo no intervalo do momento em que se inicia o ataque e no momento final do mesmo
  • Táctica de "em tempo". Aqui o ataque deve ser feito com uma simples respiração, ou seja, sem preparo prévio, normalmente quando atacamos, fazemo-lo com um tempo prévio de preparo, ou seja pensamos (1,2,3 e agora) isto deve ser emendado, por um ataque no tempo Um, isto e (1, agora).
  • Tácticas das espadas unificadas. Quando o adversário ataca, a defesa e o contra-ataque são simultâneos, só que o contra-ataque deve ser mais rápido que o ataque.
  • Táctica da ida sem retorno. Consiste em atacar o adversário, com decisão total, sem levar em consideração qualquer risco, até o da morte, e por outro lado, atacá-lo da mesma forma como ele ataca, de maneira simultânea. Esta táctica inspirou os Japoneses para criar os Kamikaze's.

 

3.3.3.4-Aparência

Todo o combate implica uma grande dose de imagens e aparências, que ocultam as intenções finais dos lutadores. Quem dos dois descobrir primeiro, qual a verdadeira intenção do outro, consegue obter o factor surpresa, que é fundamental para vencer.

Este conceito de aparência envolve tácticas como as seguintes:

  • Táctica de Expandir o Adversário: consiste em obrigá-lo a abrir várias frentes simultaneamente para assim o desgastar e debilitá-lo; isto é feito com uma boa defesa, muito fechada que desespere o adversário e o obrigue a expandir-se até que gaste as suas reservas, e nesse momento, contra-atacá-lo definitiva e contundentemente.

  • Táctica da Lua Reflectida na água: consiste em oferecer ao adversário, por exemplo uma guarda forte para depois contra-atacá-lo com suavidade, ou uma guarda débil para depois o contra-atacar com força e contundência.
  • Táctica da Sombra da Lua: quando não sabemos o que fazer devemos imitar o nosso adversário, o que ele faz, nos fazemos.
  • Táctica da Remoção da Aparência: quando não se conhece a intenção do adversário, deve-se aplicar uma técnica que pareça real, mas não se deve executá-la totalmente, desta forma o adversário mostrará a sua intenção verdadeira, e com isso se escolhe outra táctica que seja favorável, e com ela se ataca, agora de forma real e definitiva.
  • Táctica de Pressionar a Sombra para Baixo: consiste em fazer um pequeno movimento para obrigar o adversário a mudar a sua táctica, o qual vai se incomodar pelo facto de ter que usar técnicas que não lhe sejam favoráveis.
  • Táctica do Corpo Total: consiste em atacar o corpo inteiro do adversário de tal forma que, embora o adversário bloqueie, considere tal bloqueio como parte do corpo deste, continuando o ataque até atingir de forma total.
  • Táctica de Bater no Rosto: quando o adversário é muito bom e resiste bem aos nossos ataques, devemos golpear o seu rosto com uma bofetada, com esta surpresa ele se desequilibra, e em seguida fazemos um ataque mais profundo.
  • Táctica de Atingir uma Parte: quando o oponente nos impede de realizar um ataque contundente, devemos atacar uma parte dele, atingindo-o fortemente (por exemplo, um dedo, um braço, um joelho etc) para depois atacá-lo de forma definitiva.

 


3.4-ELEMENTOS TÉCNICOS

3.4.1-Os Três Elementos Superiores

É importante iniciar esta análise, ressaltando, que as técnicas marciais não surgem do combate rotineiro. Elas surgem em função do elemento Mágico, Estratégico e Táctico.

As diferentes técnicas das Artes Marciais não têm um valor absoluto, como às vezes se pensa; ao contrário, guardam valores simbólicos e respondem melhor a uma necessidade inteligente e não mecânica.

Quem se mecaniza tecnicamente é facilmente vencido por qualquer estratega-táctico. A importância de qualquer técnica é sempre de carácter secundário.

 

O que mais interessa desenvolver são os três elementos superiores. A aquisição de uma boa técnica produz-se por meio do desenvolvimento dos três elementos superiores e dos aspectos complementares a toda a técnica que são:

  • Disciplina

  • A energia interior
  • Um corpo vigoroso, saudável e bem constituído

 

3.4.2-Tipos de Técnicas

Chegamos então à concretização das Artes Marciais.

Como foi dito a técnica surge como consequência do desenvolvimento dos elementos mágico, estratégico e táctico. Ela deve reflectir da maneira mais fiel possível todos estes três elementos.

A técnica é a arte de manifestar as ideias e conceitos, os objectivos e conquistas do espírito mágico da guerra interior.

O acto de recriar neste mundo os Ideais, Poderes e Forças do mundo Superior é o caminho da Técnica.

 

Existem diferentes técnicas, que podemos classificar do seguinte modo:

3.4.2.1-Técnicas Adquiridas

São todas aquelas que são transmitidas de geração em geração, que formam parte da tradição marcial.

3.4.2.2-Técnicas Súbitas

São aquelas que surgem no decorrer da luta como factores decisivos de vitória.

3.4.2.3-Técnicas Simbólicas

São aquelas que se obtêm por iniciação mágica e que cumprem três funções:

  • Técnicas Secretas de vida e de morte, de carácter decisivo e de supremacia.

  • Técnicas Filosóficas que transcendem o valor temporal do combate e transcendem em busca da compreensão da verdade.
  • Técnicas Mágicas que levam o praticante a participar de uma Dimensão mística e superior.
  • Técnicas Secretas: podemos colocar aqui o conhecimento das plantas e ervas para curar, golpes em pontos vitais, para reanimar ou matar, etc.

    Técnicas Filosóficas: entre estas técnicas saliente-se as danças, cerimoniais, sinais com as mãos, técnicas geometrizantes, técnicas de ataque e defesa específicas, sequência de movimentos programados etc.

    Técnicas Mágicas: podemos enquadrar aqui as palavras e gritos de poder, técnicas psicológicas e para psicológicas, sistemas específicos de respiração, de canalização de algum tipo de energia subtil, desdobramento da consciência, libertação do potencial interno etc.,

    3.4.3-Grupos de Técnicas

    3.4.3.1-Os três grandes grupos

    Podemos dividir a técnica em três grandes grupos:

      a) Técnicas de Defesa

      b) Técnicas de Ataque

      c) Técnicas Mistas.

     

    As Técnicas de Defesa podem ser classificadas em

    • Técnicas de bloqueio

    • Técnicas interceptoras
    • Técnicas de esquiva
    • Técnicas de projecção

    As Técnicas de Ataque podem ser classificadas em:

    • Técnicas de golpe (percussão)

    • Técnicas de antecipação
    • Técnicas de transbordamento (ultrapassar os limites)
    • Técnicas de perseguição
    • Técnicas desconcertantes
    • Técnicas de destruição

    As Técnicas Mistas são a união de ambos os conceitos, defesa e ataque simultâneos.

    A técnica deve sempre nascer a partir da vontade, da inteligência e da consciência, como um todo ordenado e harmonioso.

    3.4.3.2-Técnicas de Defesa

    As técnicas defensivas devem contar sempre com um depósito de energia suficiente para suportar o ataque do adversário até desgastá-lo totalmente.

    • Técnicas de bloqueio. São todas aquelas técnicas que servem para deter o ataque do adversário antes que este atinja o seu objectivo. Devem ser usadas com flexibilidade e capacidade de absorver o ataque, já que devem continuar intactas para novo uso em qualquer momento.

    • Técnicas interceptoras São todas aquelas que servem para deter o ataque do adversário antes que este fortaleça o seu avanço, através de vectores de tempo e espaço ou trajectória, devem ser realizadas com muita consciência e seriedade, já que são técnicas que encerram grande risco e perigo.
    • · Técnicas de esquiva São todas as que servem para anular e desequilibrar o adversário. Devem ser usadas com grande presença de ânimo e muitos reflexos e produzem geralmente um grande desconcerto no atacante. Não devem ser usadas sem necessidade e devem ser feitas no último momento do ataque, no qual o adversário, já conta com a consecução do seu trabalho.
    • · Técnicas de projecção São técnicas que tem como objectivo, usar o desequilíbrio do ataque do adversário e projectá-lo para além dos limites possíveis. São utilizadas no corpo a corpo ou quando o adversário ultrapassou as defesas, devem ser feitas com muita base de equilíbrio geral e vigor.

    3.4.3.3-Técnicas de Ataque

    Estas técnicas devem contar com boas linhas de abastecimento de energia, as quais devem ser definidas a qualquer custo. Estas linhas de abastecimento guardam relação directa com o sistema de respiração com ritmo sincronizado, que se deve manter constantemente com as sequências do ataque.

    • Técnicas de golpes (percussão) São aquelas que tem como objectivo causar impacto no adversário, com armas naturais ou criadas, e que buscam desarticular o sistema de combate do adversário. Devem ser aplicadas claramente, sem que o inimigo possa responder a elas, causando danos irreparáveis. Devem ser efectuadas com base a espaços reais na defesa do adversário, nunca ao ar ou sem intenção verdadeira. Não devem ser efectivadas com força bruta, mas pelo contrário, com muito estilo técnico. -Técnicas de antecipação, Tem como objectivo fundamental ganhar a iniciativa, quebrando os momentos de inércia e gerar no adversário sentimento de impotência. Devem ser feitas com muita decisão e valor com sentido de risco, sabendo absorver a fracasso no caso de não triunfar

    • Técnicas de transbordamento (ultrapassar os limites) Têm como objectivo quebrar as guardas e as defesas do adversário. São usadas quando o adversário e muito estável e sólido nas defesas. Devem ser feitas com muita persuasão, firmeza e vigor. São técnicas muito especializadas que exigem um grande aperfeiçoamento e precisão técnica, ao contrário, encerram um grande risco que é melhor não correr. Técnicas de perseguição Consistem em técnicas de contra-pé, de impulsos etc., Tem como objectivo caçar adversários escorregadios e altamente movediços. Nunca devem ser feitas com ares de superioridade, mas pelo contrário, muito medidas, calculadas e sobriamente. São técnicas nas quais há que considerar factores psicológicos negativos, como por exemplo, o desconcerto, o cansaço o desespero etc., devem ser feitas pacientemente e a longo prazo.
    • Técnicas desconcertantes. São usadas para quebrar os esquemas mentais do adversário como para surpreendê-lo defensiva ou ofensivamente. É necessário muita imaginação, mentalidade não conflituosa e soltura. São técnicas adicionais de muito difícil aquisição e domínio
    • Técnicas de destruição. São aque1as que tem por finalidade acabar o combate, São as técnicas mais difíceis de dominar, já que implicam que aquele que as sustenta deve ter um poder real de guerra. Somente devem ser usadas em momentos especiais de carácter mágico e definitivo. Ainda que se não deva limitar o seu uso a estas condições, devem ser usadas sempre dentro de um critério sério e maduro. Guardam relação com pontos vitais e com conhecimentos relativos a reservas de KI, notavelmente poderosos, não enquanto força bruta, mas sim como poder de penetração do KI libertado, até ao ponto de afectar o adversário de forma contundente e definitiva.

     

     


    4-AS MÃOS NAS ARTES MARCIAIS

     

    As mãos assumem um papel importantíssimo porque elas representam tudo o que sucede num combate.

    As mãos abrem ou fecham ciclos e processos; elas são o suporte de todas as decisões que chegam a traduzir-se em acção, elas definem o espaço de luta, tanto interno como externo; por meio delas se assume o controle das energias e também a sua canalização.

    As mãos são também elementos mágicos que canalizam o poder interno através de signos (Mudras) com os quais se pode curar, dar a vida, dominar, controlar, destruir ou matar etc.,

    As mãos são o último elemento que o praticante marcial desenvolve e implicam o mais alto grau de conhecimento, sintetizam simbolicamente os outros elementos.

    Conta a tradição que Gichin Funakoshi, antes de morrer em idade avançada, havia declarado que "agora podia dizer que havia dominado o tsuki" (mãos), depois de toda uma vida de constantes práticas.

    Quando se chega ao domínio das mãos estas se abrem. como se fossem flores e através desta abertura se transmitem energias. A mão esquerda recebe, a direita entrega. Ao mesmo tempo descobrem-se os canais da vida e o movimento que inter-relaciona todas as coisas que entram em contacto com a esfera de acção do praticante.

    As mãos abertas neste sentido são, então, portadoras de poderosos conhecimentos mágico-práticos; ao contrário, ou seja as mãos fechadas, são ainda incapazes de transportar tais conhecimentos.

    As mãos abertas abrem o ciclo de unificação de todo o processo completo da evolução humana e aqui que encontramos o segredo da harmonia da mente, do coração e das mãos; ou seja os três mundos.

    Esta harmonia sintetiza-se no Ovo Áurico, produzindo um sistema de economia fechada onde as energias tomam todas as direcções simultaneamente, tanto para a periferia como para o Centro.

     

     

    Carlos Mendes

    Praticante de Shotokai - Murakami Kai

    Créditos: O presente artigo foi baseado e contém numerosos extractos em adaptação livre no livro "A Trilha Iniciática das Artes Marciais", Michel Echenique, Edições Nova Acrópole, Setembro de 1994.

    © Copyright, Carlos Alberto Mendes, 1998

     

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