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Ao longo da história da humanidade, certas
pessoas declararam ter entrado num estado "superior" de
consciência, ter tido um contacto directo com a "Verdade",
uma intuição muito forte e indescritível de uma dimensão diferente
daquela vivida pelo comum dos mortais (Weil, 1976). Apesar desta vivência
poder ocorrer sem causa aparente, de repente e em qualquer local (Wilber,
1991), há milhares de anos que foram elaborados métodos, nos cinco
continentes, para se obter esse estado de consciência. Entre eles
podemos assinalar: as diversas modalidades de Yôga; o Sufismo;
os ritos iniciáticos egípcios, assírios e babilónicos, dos quais ainda
encontramos alguns traços nas sociedades iniciáticas contemporâneas
como a Teosofia, a Maçonaria e a Rosa-Cruz; a Cabala hebraica; a Alquimia;
os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loiola; diferentes técnicas
de meditação; o T'ai-Chi-Ch'uan (Weil, 1976, 1979) e outras
artes marciais orientais (Maliszewski, 1996).
Denominam-se «artes marciais» (de
Marte, nome romano do deus grego Ares, o deus da guerra, dos
agricultores e dos pastores, filho de Zeus e Hera, e amante de Afrodite),
os diferentes métodos de defesa pessoal e técnicas militares que têm
servido aos diferentes povos para a defesa do território e dos bens
pessoais e públicos dos seus cidadãos (Natali, 1987). No entanto,
nos dias de hoje, são somente chamadas «artes marciais», «artes de
combate» ou «artes de combate e meditação» (Lima, 1990), as artes
de defesa pessoal de origem oriental (e.g., Karate-Do, Judo,
Kung Fu), talvez por possuírem uma codificação mais sistemática,
por estarem organizadas de forma hierárquica, e possuírem uma metodologia
mais uniforme (Natali, 1987).
No Japão, o Budo (a via do guerreiro) agrupa a totalidade
das artes marciais. O Budo aprofundou de maneira directa as
relações existentes entre a ética, a religião e a filosofia. Os textos
antigos que lhe são consagrados dizem respeito essencialmente à cultura
mental e à reflexão sobre a nossa natureza: quem sou eu? Portanto,
o kanji "Bu" significa também parar a luta, pois
o objectivo no Budo não é concorrer com os outros, mas sim
encontrar sabedoria, paz e mestria de si. "Do" é a via,
o método, o ensinamento para compreender perfeitamente a natureza
do nosso próprio Eu, o não-ego (Deshimaru, 1983). Portanto, as artes
marciais são essencialmente uma via espiritual (Durix, 1978). A sua
relação com o desporto é muito recente (Deshimaru, 1983).
À primeira vista, a prática de artes marciais não parece ser
uma forma de meditação. Kata, a prática de formas codificadas,
mais parece uma dança, e os exercícios com um parceiro aparentam uma
competição ou um encontro violento. O que parece torná-las uma actividade
meditativa é a forma como a mente é usada na sua prática. Pensamentos
alheios podem aparecer, mas são ignorados em favor de uma concentração
contínua nas acções desenvolvidas. Nos exercícios com um parceiro,
os lapsos mentais ou o afastamento da mente das necessidades de ataque
e defesa, são desencorajados não só pela tentativa de seguir as instruções,
mas pelo conhecimento, periodicamente reforçado, de que o ataque do
oponente pode causar dor ou mesmo danos físicos (Kauz, 1992). A via
ensinada pelos mestres de artes marciais, não pretende conseguir automatismos
materiais - apanágio do cerebelo -, mas sim opções ultra-rápidas das
quais é melhor que a "cabeça" não participe. A partir daí
a antecipação espontânea assegura a vitória porque o praticante chegado
a tal grau, fundiu-se completamente com o adversário, com as suas
armas, com o mundo (Israel, 1998).
Foi propósito deste artigo realçar que as artes marciais do
oriente têm também como finalidade conduzir o praticante a um estado
de hiperconsciência, designado por samádhi no Yôga.
Começaremos por estabelecer um quadro teórico sobre a consciência
e seus estados modificados. Por fim, é exposto o resumo de um estudo
realizado pelo autor, sobre esta problemática.
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CONSCIÊNCIA
Em
Psicologia e Psiquiatria o termo «consciência», tal como muitos
outros, não admite uma definição universal. No que denominamos consciência
incluem-se faculdades, tais como, a orientação no tempo e no espaço,
a memória, assim como o estado de humor dominante e reconhecível como
próprio (Gastó, 1998). A consciência pode ser entendida de duas formas,
a saber: (1) em estreito significado da palavra, e (2) em sentido
lato da palavra (Scharfetter, 1999). No primeiro caso, a consciência:
é a percepção, conhecimento mais ou menos claro que cada um pode ter
da sua existência e da do mundo exterior (Nova Enciclopédia Larousse,
1996). Deste ponto de vista, consciência e mente podem distinguir-se:
a consciência é a parte da mente que respeita ao si e ao conhecimento.
A mente pode existir sem consciência, como já descobrimos através
dos doentes que possuem uma, mas não a outra. A consciência é um ingrediente
indispensável da mente humana, mas não constitui a globalidade da
mente humana (Damásio, 2000). No segundo caso, a consciência refere-se
à totalidade do potencial vivenciável, i.e., corresponde à área mental,
vida (vivência) psíquica. Portanto, inclui: a) os campos da consciência:
consciência da vigilidade ou vígil média (consciência quotidiana),
consciência do sono, sobreconsciência e subconsciência, e b) o consciente
e (pelo menos em parte) o inconsciente (Scharfetter, 1999). Nesta
perspectiva, Simões (1997a) propõe a seguinte definição de consciência
(psicológica): "é a totalidade experiencial, imediata e actuante
da vida psíquica momentânea, dentro do fluir contínuo desta. Manifesta-se
pelas capacidades de captar, ordenar, integrar e responder a informação
proveniente do mundo interior, exterior e de outros indivíduos, envolvendo
ou não estimulação de órgãos sensoriais, capacidade de influenciar
agentes físicos ou organismos vivos por meios não mecânicos, bem como
de elaborar a comunicação verbal, não verbal gestual e não verbal
presencial. É óbvio que nestas capacidades se incluem não só os fenómenos
psíquicos conhecidos, como também os chamados fenómenos "anómalos"
ou parapsicológicos e ainda os fenómenos placebo" (p. 109).
Distingue-se o campo ou âmbito de consciência
(conjunto, maior ou menor, de processos psicológicos que ela abarca)
da clareza de consciência ou lucidez (a nitidez maior
ou menor dessa experiência) (Pestana & Páscoa, 1998). Fala-se
em consciência marginal ou limite da consciência, quando
uma experiência não se situa no âmago da atenção, sendo, portanto,
vaga e pouco clara (Chaplin, 1981).
CAMPOS
DA CONSCIÊNCIA
Apresentam-se em separado a consciência vígil média diurna
(consciência do dia-a-dia), a subconsciência (realidade do
não dia-a-dia) e a sobreconsciência ou superconsciência
(tocando a transcendência). Cada campo da consciência tem a
sua própria e característica área de experiência, assim como as respectivas
ligações com o Eu/Self, com o ser individual e com a validade
da racionalidade. No entanto, a designação destes três campos da consciência
não implica que eles sejam campos claramente delimitados e separados.
Na realidade, já no estado de consciência vígil média diurna nós flutuamos
continuamente na corrente de consciência (William James), em
discretas (e a partir do exterior nem sempre facilmente verificáveis)
oscilações relativamente à lucidez, clareza, alcance, horizonte, profundidade,
extensão, altitude, atmosfera, focalização, em relação a vivências,
receptividade ou actividades dirigidas, estimuladas interna ou externamente
(Scharfetter, 1999). A superconsciência é, portanto, a consciência
"clara" e transparente em oposição à subconsciência. Designa-se
por limiar da consciência, o limite a partir do qual um processo
inconsciente se torna consciente. Todavia, as delimitações definitivas
de "super", "sub" e "in"-consciente
(sobretudo deste último) não são precisas e unívocas (Dorsch, Hacker,
& Stapf, 2001).
ESTADOS
DE CONSCIÊNCIA
De modo bastante conciso, pode-se definir um estado de consciência
(EC), como um padrão generalizado de funcionamento psicológico (Tart,
1991). A atenção parece desempenhar importante papel no direccionamento
do estado de consciência, admitindo ou negando experiências específicas
que entram na consciência (Davidoff, 1983).
[1]
ESTADOS MODIFICADOS DE CONSCIÊNCIA
Em termos gerais, um estado modificado de consciência
(EMC), pode ser definido como um estado mental que pode ser subjectivamente
reconhecido, por um indivíduo ou por um observador objectivo desse
indivíduo, como representando uma diferença no funcionamento psicológico
daquele estado "normal", alerta e desperto do indivíduo
(Krippner, 1993). No entanto, é de realçar que um EMC não é definido
por um conteúdo particular da consciência, por um comportamento ou
por uma modificação fisiológica, mas em termos do seu padrão total
(Tart, 1991).
A designação altered states of consciousness, foi
utilizada pela primeira vez por Charles Tart no final dos anos 50
(Drouot, 1996). O mérito de Tart foi isolar os estados modificados
de consciência provocados pelas drogas, alargando o fenómeno da expansão
da consciência a um grande número de fenómenos como a meditação, o
Yôga, os sonhos lúcidos, a auto-hipnose, o transe, os estados
de êxtase, as vivências místicas, etc. (Descamps, 1997a). Contudo,
segundo Simões (1997a), a expressão estados alterados de consciência
(EAC) justifica-se apenas quando existe obnubilação de consciência.
Assim, na sua opinião (Simões, 1997b), «estados modificados de consciência»
é a tradução preferível da designação anglo-saxónica altered states
of consciousness.
No entanto, para Tart (1995), os termos estado de consciência
e estado modificado de consciência passaram a ser usados de maneira
demasiado imprecisa, significando qualquer coisa em que se pense no
momento em que são experimentados. Por isso, este autor propõe os
novos termos: «estado distinto de consciência», «estado básico de
consciência» e «estado distinto modificado de consciência», para uma
maior precisão. Um estado distinto de consciência (d-SoC
- discrete state of consciousness) é um padrão ou configuração
dinâmica singular de estruturas psicológicas, um sistema activo de
subsistemas psicológicos. Embora as estruturas/subsistemas componentes
mostrem algumas variações entre si no interior de um estado distinto
de consciência, as propriedades do padrão geral, do sistema geral,
são reconhecivelmente as mesmas. Apesar da variação subsistémica e
ambiental, um d-SoC é estabilizado por alguns processos, mantendo
assim a sua identidade e função. São exemplos de d-SoC: o estado
desperto comum, o sono sem sonhos, o sono com sonhos, a hipnose, a
intoxicação alcoólica e por canabinóides (e.g., haxixe), e os estados
de meditação. Quanto ao estado distinto modificado de consciência
(d-ASC - discrete altered state of consciousness), refere-se
a um d-Soc que difere de algum estado básico de consciência
(b-SoC - baseline state of consciousness). Em geral,
o estado normal de vigília é considerado o estado básico. Um d-ASC
é um novo sistema de características singulares próprias, o que implica
uma reestruturação da consciência. "Modificado" é usado
como termo puramente descritivo, sem ter valores agregados a si.
Na génese dos conteúdos dos EMC encontra-se um processamento
da informação resultante da experiência, sendo aquela tratada como
material ambíguo, temporariamente presente, condicionado pelo seu
conhecimento prévio e por esquemas cognitivos. Outros factores intervenientes
são a análise estrutural e semântica, por comparação com informação
previamente armazenada. Todavia, é de realçar que, no EMC não ocorre
apenas uma perturbação cognitiva, mas também uma alteração do humor
ou afecto. No fundo, trata-se de uma vivência, em que a totalidade
da personalidade é envolvida e por isso susceptível de modificar as
cognições (Simões, 1997a).
Para Dittrich (1997), as características gerais dos
estados modificados de consciência, podem resumir-se nos seguintes
pontos:
1. Representarem um desvio do habitual estado de consciência
do indivíduo saudável, quanto ao seu funcionamento psicológico ou
percepção subjectiva, não apenas ao nível da coordenação motora, mas
igualmente quanto à consciência de si mesmo e no relacionamento com
o mundo, como que constituindo uma realidade separada no tempo e no
espaço;
2. Durarem apenas uma ou poucas horas ao contrário das perturbações
psiquiátricas;
3. Poderem ser auto-induzidos ou, pelo menos, de indução voluntariamente
aceite;
4. Ocorrerem "normalmente", não sendo o resultado
de doença ou de circunstâncias sociais adversas;
5. Serem considerados "irracionais", "anormais",
"exóticos" ou até "patológicos" pelas normas sociais
dominantes na sociedade ocidental.
De acordo com Simões, Polónio, Von Arx, Staub, e Dittrich (1986),
os agentes de indução mais importantes de estados modificados
de consciência, são:
1. Alucinogénios de primeira ordem: mescalina; LSD (dietilamida
do ácido lisérgico, ou apenas, «ácido»); psilocibina; N,N-dimitiltriptamina
(DMT); e o 9-THC, a substância activa do haxixe e da marijuana;
2. Alucinogénios de segunda ordem: escopolamina; gás hilariante
(óxido nitroso); muscimol, a substância activa do amanita muscaria
(espécie de cogumelo venenoso). O seu efeito é caracterizado, frequentemente,
por obnubilação da consciência e, mais raramente, por alucinações
cénicas;
3. Redução dos estímulos do meio externo ou contactos ambientais,
em sentido lato, o que inclui: a privação sensorial; estados hipnagógicos;
hipnose; técnicas auto-
-hipnóticas como o Treino Autogéneo de Schultz; e técnicas de meditação;
4. Aumento dos estímulos do meio ou contactos ambientais (inundação
ou sobrecarga de estímulos sensoriais). Há basicamente dois tipos
diferentes: (1) uma estimulação intensa monótona e rítmica de vários
órgãos sensoriais; e (2) "bombardeamento" sensorial com
estímulos muito variáveis.
Outros agentes que provocam estados modificados de consciência,
que não encaixam neste esquema são, por exemplo, a combinações de
diferentes destas técnicas, a hiperventilação, a privação de sono
(Dittrich, 1997), a provocação de sentimentos mais fortes, quer de
tipo negativo (medo, dor, abandono) quer de tipo positivo (protecção,
sentimentos de auto-estima e felicidade, elegibilidade, condescendência,
corrente de força), a fome, o jejum, o frio, o calor, o jogging,
o alpinismo, o mergulho (Scharfetter, 1999), ou um esforço físico
extremo (S. Grof & C. Grof, 1995b). Contudo, C. Grof e S. Grof
(1994) salientam que, a grande série de aparentes factores desencadeadores
de estados modificados de consciência, sugere claramente que a
vontade das pessoas em vivenciá-los, é muito mais importante do
que a existência de estímulos externos.
Os EMC podem também surgir de modo espontâneo, sem causa específica
discernível, muitas vezes contra a vontade da pessoa a quem acontecem.
Além disso, todas as pessoas têm - pelo menos duas vezes por dia -
a experiência de estados modificados de consciência: no momento de
adormecer (estado hipnagógico) e no momento de acordar (estado hipnopômpico).
É entre a vigília e o sono que se encontra um espaço privilegiado
em que podemos ter sonhos, determinadas visões e determinadas percepções
(Baudin & Tora, 1997).
Os estados de consciência são pessoais, logo subjectivos. Os
conhecimentos obtidos num determinado estado de consciência são específicos
desse mesmo estado, pelo que para reexperimentar o que se conheceu
em determinado estado, é necessário retornar ao mesmo. No entanto,
os estados modificados de consciência (EMC) têm um conjunto de pontos
comuns (conteúdos), independentemente do modo como são induzidos,
isto é, não são etiologicamente específicos. A um nível dimensional,
significa que os EMC têm em comum determinadas dimensões principais,
independentemente da sua origem (meios de indução) ou intensidade
(Simões, 1997a). Estas dimensões são designadas por:
1. «Auto-ilimitação Oceânica»: é caracterizada por uma
dissolução de lógica, espaço, tempo, esquema corporal e limites, e
que culmina numa vivência de fusão (unidade) com o universo, acompanhada
por sentimentos de felicidade e paz (Scharfetter, 1999).
2. «Autodissolução Angustiante»: corresponde, no essencial,
a uma bad trip (má viagem) sob o efeito de alucinogénios: a
pessoa sente-se torturada, separada, dividida, paralisada, perdida
(Scharfetter, 1999).
3. «Reestruturação Visionária»: inclui pseudo-alucinações
visuais, visões, ilusões, sinestesias e alterações do significado
do ambiente (Simões et al., 1986).
Todavia, isto não exclui a existência colateral de dimensões
específicas, como, por exemplo, uma provável dimensão «Obnubilação
da Consciência», se os EMC forem provocados por alucinogénios de segunda
ordem (Simões, 1997a).
Segundo Simões (1996), podemos diferenciar os estados modificados
de consciência em vigília, da seguinte forma:
1. EMC em vigília ordinária, nos quais há dominância
do estado de activação em relação ao de repouso; ênfase na actividade
mental característica do hemisfério cerebral esquerdo; dominância
na recepção de estímulos exteriores; pouca utilização da imaginação
- domínio da actividade mental ou física, sobre a contemplativa;
2. EMC em vigília diferenciada, em que há domínio de
um estado de repouso; domínio da recepção de estímulos de fontes internas
(corporais ou de conteúdos da memória); imaginação considerável; estado
passivo de actividade mental - domínio da contemplação sobre a acção.
Estes últimos não são de experiência comum nas culturas ocidentais,
salvo em determinados círculos religiosos ou culturais e, por isso,
quando ocorrem, criam um sentimento inicial de surpresa e depois de
inquietação ou desassossego, por não existir concordância com as vivências
habituais (Simões, 1996). Mas, os estados modificados de consciência
não são patológicos em si mesmos, isto é, decorrem de um contexto,
frequentemente mágico, religioso ou curativo, sendo integrados na
cultura que os propicia (Simões, 1997b). Além disso, os estados modificados
de consciência têm geralmente a duração de minutos ou horas, o que
os diferencia da maioria das doenças psiquiátricas (Simões, 1996).
A teorização dos estados modificados de consciência rompe com
os paradigmas da lógica formal, nomeadamente da continuidade espaço-tempo,
da contradição, da causalidade linear, da psicologia da consciência
do Eu (vitalidade, actividade, consistência ou unidade, demarcação,
identidade), etc., mas também com o pressuposto da consciência como
produto exclusivo do cérebro (Simões, 1997a).
EXPERIÊNCIAS
TRANSPESSOAIS
As experiências transpessoais (ou estados conscientes
"expandidos") abarcam um conjunto de fenómenos muito
vasto e de múltiplas facetas, no entanto, elas têm um denominador
comum: envolvem a expansão ou extensão da consciência além das limitações
usuais do ego e das limitações de tempo e/ou espaço, i.e., o conteúdo
de uma experiência transpessoal particular vai além dos elementos
do mundo fenomenal tridimensional (ou «realidade objectiva»), que
nós conhecemos nos estados de consciência usuais (Grof, 1983). Tipicamente,
estes estados desenvolvem-se em quatro diferentes níveis: sensório,
evocativo-analítico, simbólico e integral. No nível sensório,
há relatos subjectivos de alterações do espaço, do tempo, da imagem
do corpo e das impressões sensórias. No nível evocativo-analítico,
surgem ideias e pensamentos novos acerca das psicodinâmicas do indivíduo
ou acerca da concepção do mundo e do seu papel nele. No nível simbólico,
há uma identificação com personalidades históricas ou lendárias, com
a recapitulação evolucionária ou com símbolos míticos. No nível integral
(que, comparativamente, poucos indivíduos atingem), há uma experiência
de consciência cósmica, experiência máxima, experiência religiosa
e/ou mística, na qual Deus (ou a "Base do Ser") é confrontado
ou então ocorre uma sensação subjectiva de dissolução no campo energético
do Universo (Krippner, 1993).
Grof (1991) realça que deve ser feita uma distinção entre os
estados modificados de consciência (EMC) e as experiências transpessoais.
O termo estados modificados de consciência inclui as experiências
transpessoais, mas existem certos tipos de experiências que podem
ser qualificados de estados modificados de consciência, que não atingem
o critério para serem catalogadas como transpessoais. São exemplos
de EMC, não necessariamente transpessoais: as experiências de revivência
vívida e complexa de uma memória infantil; vários jogos de fantasia
e experiências simbólicas resultantes do uso de técnicas de fantasias
afectivas induzidas; e as experiências primariamente estéticas, envolvendo
visões de cores, de padrões ornamentais e de estruturas geométricas,
em sessões psicodélicas.
NÍVEIS DE CONSCIÊNCIA
Para Bentov (1990), consciência é a capacidade de resposta
a estímulos, por parte de um sistema (que também pode ser um sistema
nervoso, por mais rudimentar que seja). Assim, a quantidade de
consciência é dada em termos do número de respostas que um sistema
pode dar, como reacção a um estímulo. Quanto à qualidade da consciência
ou nível de consciência, é o grau de refinamento ou inteligência
de tais respostas, bem como o seu espectro, expresso em termos de
resposta de frequência (ou resposta sinusoidal). Na prática, podemos
considerar o nível de consciência de uma pessoa por meio da razão
entre o seu tempo subjectivo e o seu tempo objectivo. A gama dessas
razões é muito ampla. Começa com pequenas diferenças, que normalmente
seriam interpretadas como uma simples "divagação da atenção",
passando pelo sonhar, que é, um estado modificado de consciência,
passando pela dilatação temporal induzida por hipnose, e chegando,
finalmente, a um estado de meditação profunda, durante o qual o tempo
é "parado" ou "quase parado". Podemos expressar
isso numa forma matemática simples: índice de nível de consciência
= tempo subjectivo / tempo objectivo.
TRAÇO
MODIFICADO DE CONSCIÊNCIA
Hoje sabemos que existem enormes diferenças entre os estados
de consciência de pessoas "normais" (Tart, 1991). E, portanto,
um estado modificado de consciência para uma pessoa pode ser a experiência
do dia-a-dia para outra (Bentov, 1990; Tart, 1991, 1995). Pelo facto
das sociedades treinarem as pessoas a comportarem-se e a comunicarem
em linhas socialmente aprovadas, estas diferenças são encobertas,
deixadas de lado, sob o pretexto de serem "subterfúgios",
"idiossincrasias", "diferenças pessoais", etc.
(Tart, 1991).
Bentov (1990) escreveu:
Temos
a tendência de julgar que o sistema nervoso humano é como qualquer
outro órgão do nosso corpo, relativamente estático e não sujeito a
mudanças. Eu gostaria de assinalar que, pelo contrário, ele possui
um tremendo potencial de desenvolvimento, que se processará ao longo
da evolução biológica normal, durante os milénios que virão. Essa
evolução pode ser acelerada graças ao emprego de certas técnicas.
(p. 223)
Uma tal alteração duradoura da estrutura e dos processos de
consciência não é mais um estado modificado de consciência, mas representa
um traço modificado de consciência (TMC), onde os atributos
de um estado modificado de consciência são assimilados aos estados
de consciência comuns (Goleman, 1991).
Descamps (1997b) salienta também que, o estado transpessoal
diferencia-se nitidamente das experiências transpessoais, breves e
imprevistas, pelo facto de ser procurado e permanente. A obtenção
do estado transpessoal culmina numa transformação completa do ser.
A pessoa deixa de estar centrada no seu ego, enroscada sobre si própria,
"encapsulada no seu corpo". O indivíduo "pessoal"
é orgulhoso, egoísta, colérico, rancoroso e interesseiro. A sua busca
de poderes psíquicos para espantar os outros e o próprio, através
da magia, da bruxaria ou da parapsicologia, limita-se apenas a reforçar
o ego. Por outro lado, o estado transpessoal produz humildade, pois
o ego é abolido. Pela abertura do coração, leva a pessoa a abrir-se
às outras e permite o perdão, visto que não estamos separados uns
dos outros e já não há mais nada que possa ser ferido. Este estado
desemboca numa transformação completa da vida, que já não está centrada
em objectivos egoístas, mas abre-se ao altruísmo, ao amor, à ajuda
de todos os seres vivos, na consciência de formar com eles um só.
De acordo com Weil (1976), até hoje não sabemos muito bem
o que é a percepção "normal" ou o que é "ser
normal", pois o conceito de "normalidade" varia
conforme as épocas, conforme as sociedades e culturas. Assim, na opinião
de Tart (1991), mais do que discutirmos sobre a utilidade do conceito
de estados de consciência, deveríamos dedicar-nos à compreensão de
como os vários indivíduos diferem.
ÍNDIA:
BERÇO DAS ARTES MARCIAIS
Na tradição
hindu, Shiva, o Terceiro Aspecto da Trimurti (Trindade) hindu,
cujo atributo é a renovação (DeRose, 1999), tem cem nomes (Zimmer,
1997), entre os quais: Yôgêndra, Yôgêshwara ou Mahayôgi, o Senhor
do Yôga (Daniélou, 1989), mas também: Sômaskánda, o Deus da
Guerra (Zimmer, 1997).
Yôga
(união) é qualquer metodologia estritamente prática que conduza
ao samádhi, o estado de hiperconsciência, de megalucidez,
que proporciona o autoconhecimento, bem como o conhecimento do Universo
(DeRose, 1999). O Yôga é uma filosofia que se caracteriza por
ser estritamente prática e também pela sua estrutura iniciática
(gupta vídya - tradição secreta), ou seja, aprende-se por transmissão
oral (parampará) da boca do Mestre (pati ou guru)
ao ouvido do discípulo (shishya ou chêla) (vakrat
vak tantraram) (Eliade, 1954). Todavia, o papel do guru
é como que exteriorizar, ou substituir, o verdadeiro guru interior,
o Átma (o Eu na filosofia hindu Vêdánta), enquanto o
iniciado não consegue ainda, por si próprio, entrar em comunicação
consciente com Ele (Barahona, 1996). As técnicas corporais do Yôga
têm como objectivo canalizar correctamente as energias (pránas),
a fim de que elas circulem a um certo ritmo nos principais canais
(nádís) do organismo subtil, para activar a formidável
energia serpentina kundaliní enrolada no chakra
basal (múládhára), localizado na base da coluna, e fazê-la
subir através dos outros chakras até ao «Lótus das mil pétalas»
(sahásrara), localizado no cimo do crânio (Eliade & Couliano,
1995). Nas tradições filosóficas e espirituais orientais, o mecanismo
que conduz à "iluminação" (esclarecimento intelectual) individual
e que produz a evolução das espécies para níveis mais elevados de
consciência, é a kundaliní, uma força potencial que uma vez
despertada pode produzir uma variedade de efeitos físicos, emocionais,
mentais e espirituais (Greyson, 1993). Kundaliní é um termo
sânscrito que pode ser traduzido por serpentina ou enroscada,
aquela que tem a forma de uma serpente. É um termo feminino por ser
o Poder Ígneo, de natureza feminina, isto é, de polaridade negativa.
A kundaliní é uma energia física, de natureza nervosa e manifestação
sexual (DeRose, 1992, 1999; Santos, 2000). Chakra é também
um termo sânscrito que pode ser traduzido por roda ou círculo.
São centros de força situados em todo o corpo humano; os sete principais
localizam-se no plano médio-sagital (ao longo da coluna vertebral,
intercílio e topo do crânio) (DeRose, 1999). O despertar da kundaliní
refere-se ao poder sagrado experimentado como um calor extremo, o
qual é obtido pela transmutação da energia sexual, geralmente através
de técnicas xamânicas, tântricas, yôguicas e místicas (Eliade, 1989).
De acordo com a opinião dos antigos mestres, o aparelho reprodutor
tem duas funções: a reprodução e a evolução. Com o despertar
da kundaliní dá-se a reversão do aparelho reprodutor e o seu
funcionamento mais como mecanismo de evolução do que de reprodução,
enviando para o cérebro um fino fluxo de "energia nervosa"
muito potente (Krishna, 1985).
Até ao século XIX pensava-se
que o Yôga teria sido um produto trazido para a Índia, por
nómadas das planícies eurasianas, em torno de 1500 a.C. Hoje, essa
tese está totalmente descartada (Santos, 2000), uma vez que no Vale
do Indo, foi encontrado um selo representando o proto-Shiva Pashupati
(o Senhor dos animais), sentado numa posição de Yôga, rodeado
de animais, com três rostos (criador, conservador e renovador),
e com o falo erecto (Eliade & Couliano, 1995; Krishna, 1985;
Wheeler, 1972). Segundo a tradição, Shiva é o primeiro Mestre yôgi
(Daniélou, 1989; DeRose, 1983, 1999).
Segundo Straube (n.d.),
dentro do Swásthya Yôga (ou Shiva Yôga) existe uma
prática denominada Shiva Natarája nyása (identificação
com Shiva no seu aspecto de bailarino real), que se assemelha a
uma dança, mas que na realidade constitui uma arte marcial secreta
da qual nasceu o Kempo (nome japonês de Kung Fu),
e posteriormente o Karate-Do. No entanto, há que ter presente
que existem dois tipos principais e antagónicos de dança, correspondendo
às manifestações benévola e colérica de Shiva. A Tándava,
dança feroz e violenta, alimentada por uma energia explosiva e arrebatadora,
é uma erupção delirante que provoca a devastação. Efusão violenta
e frenética de energias divinas, tem características que sugerem
uma dança de guerra cósmica destinada a despertar as energias destrutivas
e a provocar a devastação sobre o inimigo; é, simultaneamente, a
dança triunfal do vencedor. A dança da guerra converte em guerreiros
aqueles que a executam, despertando as suas virtudes bélicas e transformando-os
em intrépidos heróis (Zimmer, 1997). Segundo a lenda, o Kalarippayat,
arte marcial indiana de origem dravídica, provém do Samhara Tándava,
dança de dissolução cósmica do deus Shiva, na qual aparecem movimentos
de ataque e defesa com base no princípio da dualidade Homem-Mulher
(Shiva-Shaktí) (G. Habersetzer & R. Habersetzer, 2000). A Lásya,
pelo contrário, é uma dança lírica e suave, cheia de doçura e representa
as emoções da ternura e do amor. Shiva é o perfeito mestre das duas
(Zimmer, 1997).
Shiva, o criador mitológico
do Yôga, é muitas vezes representado na iconografia como
um guerreiro, que tem como "emblema" principal
a trishúla, a lança tridente (Chevalier & Gheerbrant,
1997), "a sua arma como herói" (Zimmer, 1997, p. 144).
Shiva é também representado portando outras armas: uma espada, um
gancho, um laço, um escudo, e um arco e flechas, pois, segundo a
tradição védica, Shiva fora, em tempos antigos, um caçador. Tal
como o linga(m) (falo), a flecha de Shiva é o veículo da
sua energia: os dois são o mesmo (Zimmer, 1997). Por isso, Shiva
também é chamado Agrionos (o Caçador) e Sharva (o Arqueiro) (Daniélou,
1989).
De acordo com Eliade
(1954, 1989), o despertar da kundaliní também pode também
ser proporcionado pelas iniciações militares. Para este autor,
vários termos do vocabulário "heróico" indo-europeu (e.g.,
furor, ferg, wut, ménos) exprimem justamente
esse calor "mágico" e essa cólera que caracterizam, nos
outros planos da sacralidade, a incorporação do "poder".
Assim, tal como um yôgin (praticante de Yôga) ou um
xamã (adepto do Xamanismo), o jovem herói "aquece" durante
um combate iniciático. Maliszewski (1996) refere que os mestres
da arte marcial indiana Kalarippayattu, embora considerem
o Yôga como a prática suprema para alcançar o estado de hiperconsciência
(samádhi), realçam que também é possível despertar a kundaliní,
através do treino correcto desta arte marcial. No entanto, segundo
Morris (1993), os ensinamentos sobre kundaliní nas artes
marciais eram transmitidos directamente do mestre ao discípulo,
somente depois de este ter passado muitos anos com o seu mestre
e de ter provado que merecia recebê-los. Além disso, Cangelosi (1997)
realça que os ensinamentos sobre a kundaliní (jing chi
em chinês) nas artes marciais são secretos, uma vez que o seu despertar
pode ser perigoso:
Nem
todos os indivíduos conseguem dominar marcialmente este tipo de técnica,
e muitos mestres do passado, realizando provas da emissão desta energia,
frequentemente sofreram sérios transtornos no seu organismo. Isto
explica a razão destas técnicas serem na antiguidade, ensinadas de
forma secreta e selectiva. Por este motivo, com o passar do tempo,
muitos destes ensinamentos perderam-se. Exclusivamente permanecem
através de lendas e das histórias dos grandes mestres do passado.
Talvez seja melhor assim... (p. 47)
De facto, o despertamento do poder da serpente
(kundaliní-shaktí) pleno e seguro deve ser precedido por uma
etapa de purificação intensiva do corpo (Feuerstein, 2001) e das nádís,
designada por bhúta shuddhi, não apenas com a prática
de mantras (vocalização de sons), kriyás (actividades
de purificação interna), pránáyámas (exercícios respiratórios
para expansão da bionergia), mas também com uma rígida selecção alimentar,
jejuns regulares moderados e com um sistema de reeducação das emoções
para que o praticante não conspurque o seu corpo com os detritos tóxicos
das emoções viscosas como o ódio, a inveja, o ciúme, o medo, etc.
Para além disso, também é regulada a quantidade de exercício físico,
de trabalho, de sono, de sexo e de alimentos. Há uma medida ideal
para cada um desses factores. Qualquer excesso ou carência pode comprometer
o resultado almejado (DeRose, 1992, 1999).
Os termos libido, orgônio (ou orgone)
e sexualidade, podem designar diferentes aspectos da kundaliní
(DeRose, 2000). A ideia de libido foi introduzida na Psicologia pelo
austríaco Sigmund Freud (1856-1939), o fundador da Psicanálise. Para
os freudianos, a libido é a energia derivada da pulsão sexual, que
proporciona a força que motiva e impele quase toda a actividade humana
(Feuerstein, 1991; Singer, 1991; Weil, 1979). No entanto, kundaliní
difere da libido por trazer consigo uma implicação "espiritual",
o aspecto que Freud escrupulosamente evitou ao falar da libido (Singer,
1991). Por outro lado, o psicanalista austríaco Wilhelm Reich (1897-1957),
ex-discípulo de Freud, considerava que o conceito freudiano de libido
expressava uma energia real que flui no organismo e é organizada segundo
leis que se aplicam à estrutura do carácter das pessoas, de acordo
com uma economia tal que o sistema permite libertar ou conter montantes
dessa energia. No início, Reich acreditava que esta energia, o orgone,
termo derivado das palavras «organismo» e «orgasmo», era específica
aos organismos vivos, mas ulteriormente definiu-a como uma energia
pré-atómica universal (Pierrakos, 1989).
Quem tornou disponíveis as informações acerca da kundaliní
junto a grandes audiências ocidentais de forma geral e popular, foi
o indiano Gopi Krishna (1903-1984), fundador da Kundaliní Research
Foundation, Ltd. (S. Grof & C. Grof, 1995a). Na sua opinião (Krishna,
n.d.):
Esse mecanismo,
conhecido como kundaliní, é a verdadeira causa de todos os fenómenos
espirituais e psíquicos autênticos, é a base biológica da evolução
e do desenvolvimento da personalidade, a origem secreta de todas as
doutrinas ocultas e esotéricas, a chave mestra para o ainda
não resolvido mistério da criação, a fonte inesgotável da filosofia,
da arte e ciência, e o manancial de todas as crenças religiosas, presentes,
passadas e futuras. (p. 199)
Em 1932, o psiquiatra e psicanalista suíço
Carl Gustav Jung (1875-1962), fundador da Psicologia Analítica, organizou
um seminário internacional sobre a Psicologia do Kundaliní Yôga
(Sannella, 1992). Jung (1996) estava convencido que o simbolismo do
Kundaliní Yôga sugeria que a bizarra sintomatologia presente
nalguns pacientes do tempo presente, nomeadamente a localização peculiar
dos sintomas físicos, resultava do despertar desta força. Jung considerava
também que, ver a experiência da kundaliní como uma criação
pessoal, é algo perigoso. Isso levaria à expansão do ego, a uma falsa
superioridade, ao pedantismo ou mesmo à loucura. No entanto, o crédito
de trazer à atenção dos círculos médicos o processo do despertar da
kundaliní e por demonstrar sua significação clínica prática
pertence ao psiquiatra e oftalmologista norte-americano Lee Sannella
(S. Grof & C. Grof, 1995a). Sannella fundou com outros médicos
a Kundaliní Clinic em Oakland - Califórnia, no final dos anos 70 (Feuerstein,
1996), onde reuniu amplas evidências de que muitos pacientes americanos
manifestam uma síndroma que se enquadra nas descrições do despertar
da kundaliní e caracterizou um processo fisiológico específico
(S. Grof & C. Grof, 1995a). Contudo, os curiosos fenómenos associados
ao despertar da kundaliní, como as sensações intensas de calor,
luz, som, pressão e até dor, não devem ser confundidos com a kundaliní
em si mesma. Por isso, Sannella deu a esse fenómeno o nome genérico
de «fisio-kundaliní» (Feuerstein, 2001).
ESTUDOS
EMPÍRICOS
Ramos (2001) realizou um estudo com o propósito
de determinar se um estado modificado de consciência (EMC), nas diferentes
dimensões: «Auto-ilimitação Oceânica», «Autodissolução Angustiante»
e «Reestruturação Visionária»; um estado modificado de consciência
que resume os aspectos comuns dos EMC como um todo; e/ou, um estado
modificado de consciência independente de qualquer dimensão, decorre
do treino de Karate-Do Okinawa Goju-Ryu. Este
estudo teve ainda como objectivos secundários: averiguar se o treino
desta arte marcial modifica os conteúdos da consciência; descrever
os conteúdos da consciência dos karatekas (praticantes de Karate-Do)
em situação de treino; indagar se o treino desta arte marcial modifica
conteúdos específicos da consciência; e, determinar se aumenta a capacidade
de atenção e concentração, após cada sessão de treino. Participaram
neste estudo vinte e três karatekas do estilo Okinawa Goju-Ryu,
de nacionalidade portuguesa, jovens adultos, caucasianos, do género
masculino, residentes no Distrito de Lisboa. Foram efectuadas três
sessões experimentais no Clube Atlético de Queluz (C.A.Q.) e no Ginásio
do Monte Abraão (G.M.A.), intervaladas uma semana. Para indagar se
um estado modificado de consciência decorre do treino de Karate-Do
Okinawa Goju-Ryu, com indivíduos portugueses, jovens adultos,
caucasianos, do género masculino, os participantes responderam ao
Questionário de Estados Modificados de Consciência APZ, desenvolvido
por Dittrich (1975), antes de cada uma das três sessões experimentais,
referente às vivências ocorridas nas duas horas anteriores, e novamente
no fim das mesmas, relativamente às vivências que ocorreram durante
o período de treino de Karate-Do. Sempre que se verificou um
aumento do número de indivíduos que vivenciaram um estado modificado
de consciência, do primeiro para o segundo momento de avaliação, recorreu-se
ao Teste estatístico não-paramétrico de McNemar para determinar se
esse aumento foi significativo. Para averiguar se o treino desta arte
marcial, na população referida, modifica os conteúdos da consciência,
comparou-se o número de respostas "Sim" assinaladas no Questionário
de Estados Modificados de Consciência APZ, no primeiro e no segundo
momento de avaliação de cada uma das três sessões experimentais. Quando
se verificou um aumento do número dessas respostas "Sim",
do primeiro para o segundo momento de avaliação, recorreu-se ao Teste
estatístico não-paramétrico de McNemar para determinar se esse aumento
foi significativo. Para descrever os conteúdos da consciência que
caracterizam a amostra em estudo, em situação de treino de Karate-Do
Okinawa Goju-Ryu, recorreu-se às respostas "Sim" assinaladas
no Questionário de Estados Modificados de Consciência APZ, no segundo
momento de avaliação de cada uma das três sessões experimentais. Em
termos de rastreio da prevalência destes conteúdos da consciência,
recorremos a uma metodologia semelhante à utilizada por Simões et
al. (1986), i.e., foi pedido aos karatekas que realizassem
uma retrospecção de um ano. Para indagar se o treino desta arte marcial,
na população referida, modifica conteúdos específicos da consciência,
comparou-se o número de respostas "Sim" assinaladas em determinados
itens do Questionário de Estados Modificados de Consciência APZ, no
primeiro e no segundo momento de avaliação de cada uma das três sessões
experimentais. Quando se verificou um aumento do número de respostas
"Sim" assinaladas num item, do primeiro para o segundo momento
de avaliação, recorreu-se ao Teste estatístico não-paramétrico de
McNemar para determinar se esse aumento foi significativo. Para averiguar
se o treino desta arte marcial, na população referida, aumenta a capacidade
de atenção e concentração após cada sessão de treino, os participantes
executaram o Teste de Atenção e Concentração D 2, desenvolvido
por Hogrefe (1972), com a duração de um minuto, antes de cada uma
das três sessões experimentais, e novamente no fim das mesmas. Sempre
que se verificou uma melhoria nas pontuações no Teste D 2, do primeiro
para o segundo momento de avaliação, recorreu-se ao Teste estatístico
paramétrico "t" de pares ou ao Teste estatístico não-paramétrico
de Wilcoxon (consoante as distribuições estatísticas eram normais
ou não) para determinar se esse aumento foi significativo. Para todas
as análises estatísticas, o nível de significância escolhido foi o
de a = .05. O número de indivíduos que vivenciaram um estado
modificado de consciência (EMC) nas dimensões: «Auto-ilimitação Oceânica»,
«Autodissolução Angustiante», «Reestruturação Visionária»; um estado
modificado de consciência que resume os aspectos comuns dos EMC como
um todo; e, um estado modificado de consciência independente de qualquer
dimensão, não se alterou significativamente do primeiro para
o segundo momento de avaliação, nas três sessões experimentais. Apenas
um indivíduo vivenciou um EMC na dimensão «Autodissolução Angustiante»,
um EMC na dimensão «Auto-ilimitação Oceânica, um EMC na dimensão «Reestruturação
Visionária», um EMC que resume os aspectos comuns dos estados modificados
de consciência como um todo, e um EMC independente de qualquer dimensão,
na primeira sessão experimental; um indivíduo vivenciou
um EMC independente de qualquer dimensão, na primeira sessão
experimental; um indivíduo vivenciou um EMC na dimensão «Autodissolução
Angustiante», um EMC na dimensão «Auto-ilimitação Oceânica, um EMC
na dimensão «Reestruturação Visionária», um EMC que resume os aspectos
comuns dos estados modificados de consciência como um todo, e um EMC
independente de qualquer dimensão, na segunda sessão experimental;
e, um indivíduo vivenciou um EMC na dimensão «Autodissolução
Angustiante», um EMC na dimensão «Auto-ilimitação Oceânica, e um EMC
independente de qualquer dimensão, na terceira sessão experimental.
Existiram diferenças significativas entre o número de conteúdos
da consciência vivenciados pelos participantes nas duas horas anteriores
à primeira sessão de treino de Karate-Do Okinawa Goju-Ryu e
durante a mesma,
T (n = 3160) = 18, p = .000; existiram diferenças significativas
entre o número de conteúdos da consciência vivenciados pelos participantes
nas duas horas anteriores à segunda sessão de treino de Karate-Do
Okinawa Goju-Ryu e durante a mesma, c2 (1, n = 3160) = 118.00,
p = .000; não existiram diferenças significativas entre o número
de conteúdos da consciência vivenciados pelos participantes nas duas
horas anteriores à terceira sessão de treino de Karate-Do Okinawa
Goju-Ryu e durante a mesma, T (n = 2686) = 1, p = 1.000. Os conteúdos
da consciência vivenciados em todas as sessões experimentais por mais
de um quinto dos participantes e vivenciados por mais de dois quintos
no último ano de treino de Karate-Do Okinawa Goju-Ryu, foram:
"Eu estava convencido de já ter vivido a mesma situação" (item
41 - EEMC); "Estava cansado e esgotado, porém ao mesmo tempo completamente
acordado" (item 58 - EEMC); e, "Eu estava extremamente acordado
e supersensível" (item 137 - EEMC). Não existiram diferenças
significativas entre o número de indivíduos que vivenciaram o
conteúdo da consciência: "Eu estava convencido de já ter vivido a
mesma situação" (item 41 - EEMC), nas duas horas anteriores à primeira
sessão de treino de Karate-Do Okinawa Goju-Ryu e durante a
mesma, T (n = 20) = 3, p = .250; não existiram diferenças significativas
entre o número de indivíduos que vivenciaram o conteúdo da consciência:
"Eu estava convencido de já ter vivido a mesma situação" (item 41
- EEMC), nas duas horas anteriores à segunda sessão de treino de Karate-Do
Okinawa Goju-Ryu e durante a mesma, T (n = 20) = 3, p = .250;
não existiram diferenças significativas entre o número de indivíduos
que vivenciaram o conteúdo da consciência: "Eu estava convencido de
já ter vivido a mesma situação" (item 41 - EEMC), nas duas horas anteriores
à terceira sessão de treino de Karate-Do Okinawa Goju-Ryu e
durante a mesma, T (n = 17) = 3, p = .250. O número de indivíduos
que vivenciou o conteúdo da consciência: "Estava cansado e esgotado,
porém ao mesmo tempo completamente acordado" (item 58 - EEMC), manteve-se
do primeiro para o segundo momento de avaliação, na primeira sessão
de treino de Karate-Do Okinawa Goju-Ryu; existiram diferenças
significativas entre o número de indivíduos que vivenciaram o
conteúdo da consciência: "Estava cansado e esgotado, porém ao mesmo
tempo completamente acordado" (item 58 - EEMC), nas duas horas anteriores
à segunda sessão de treino de Karate-Do Okinawa Goju-Ryu e
durante a mesma, T (n = 20) = 7, p = .016; não existiram diferenças
significativas entre o número de indivíduos que vivenciaram o
conteúdo da consciência: "Estava cansado e esgotado, porém ao mesmo
tempo completamente acordado" (item 58 - EEMC), nas duas horas anteriores
à terceira sessão de treino de Karate-Do Okinawa Goju-Ryu e
durante a mesma,
T (n = 17) = 3, p = .250. Não existiram diferenças significativas
entre o número de indivíduos que vivenciaram o conteúdo da consciência:
"Eu estava extremamente acordado e supersensível" (item 137 - EEMC),
nas duas horas anteriores à primeira sessão de treino de Karate-Do
Okinawa Goju-Ryu e durante a mesma, T (n = 20) = 4, p = .125;
não existiram diferenças significativas entre o número de indivíduos
que vivenciaram o conteúdo da consciência: "Eu estava extremamente
acordado e supersensível" (item 137 - EEMC), nas duas horas anteriores
à segunda sessão de treino de Karate-Do Okinawa Goju-Ryu e
durante a mesma, T (n = 20) = 4, p = .125; não existiram diferenças
significativas entre o número de indivíduos que vivenciaram o
conteúdo da consciência: "Eu estava extremamente acordado e supersensível"
(item 137 - EEMC), nas duas horas anteriores à terceira sessão de
treino de Karate-Do Okinawa Goju-Ryu e durante a mesma, T (n
= 17) = 2, p = .500. Existiram diferenças significativas na
capacidade de atenção e concentração entre o momento "antes" e o momento
"depois" da primeira sessão de treino de Karate-Do Okinawa Goju-Ryu,
t (19) = -4.28, p = .000, ES = .95; existiram diferenças significativas
na capacidade de atenção e concentração entre o momento "antes"
e o momento "depois" da segunda sessão de treino de Karate-Do
Okinawa Goju-Ryu, t (19) = -3.14, p = .005, ES = 70; existiram
diferenças significativas na capacidade de atenção e concentração
entre o momento "antes" e o momento "depois" da
terceira sessão de treino de Karate-Do Okinawa Goju-Ryu, T
(n = 17) = -2.57, p = .010. Estes dados sugerem que o treino de Karate-Do
Okinawa Goju-Ryu com indivíduos portugueses, jovens adultos, caucasianos,
do género masculino, apenas modifica esporadicamente os conteúdos
da consciência, e que apenas alguns indivíduos vivenciam estados modificados
de consciência durante o treino desta arte marcial. Contudo, não podemos
afirmar que este estudo não tenha qualquer utilidade. Em primeiro
lugar, como salienta Burns (2000), até quando uma hipótese é refutada
(falseada), há um avanço do conhecimento. Em segundo lugar, quando
um cientista confirma uma hipótese existencial ("existencial"
implica que alguém existe), cumpre com a sua tarefa imediata (McGuigan,
1976). Em terceiro lugar, apesar da maioria dos karatekas não
ter vivenciado um EMC durante o treino desta arte marcial, este estudo
tem algumas implicações práticas: (1) segundo Gleitman (1993), os
indivíduos que apresentam características psicológicas ou fisiológicas
invulgares, podem por vezes fornecer informação que seria difícil
ou mesmo impossível obter a partir do estudo de indivíduos "normais".
Como tal, a realização de estudos de caso com estes indivíduos que
vivenciaram estados modificados de consciência durante o treino de
Karate-Do Okinawa Goju-Ryu, poderia fornecer dados interessantes
e quiçá importantes; (2) para os profissionais de saúde mental é importante
saber que a prática de Karate-Do Okinawa Goju-Ryu pode, nalguns
indivíduos, desencadear a entrada em estados modificados de consciência
e, consequentemente, poderem vir a desenvolver problemas espirituais.
[2]
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
O comportamento é uma função da vivência.
Isto é, a vivência de si próprio e do mundo representa um fundo de
motivação para o comportamento. O conhecimento de estados modificados
de consciência vígil, bem como dos seus conteúdos principais e das
condições de desencadeamento, é importante para a delimitação de formas
de comportamento e experiências invulgares (neste sentido anormal),
e para a evicção de uma patologização antecipada (declaração como
sintomas de uma doença psíquica) (Scharfetter, 1999). Só a sua persistência
ou falta de autonomia pessoal ou social após a sua vivência os tornam
patológicos (Simões, 1997b).
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