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Shoto Online - Revista Oficial da ASP |
Shoto |
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Livro "ASP - 25 Anos" (extractos) |
Introdução |
Preâmbulo |
A Génese do Karate em Portugal |
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Imaginemos um homem eterno, com uma memória perfeita, vindo não se sabe
donde. Chamemos-lhe (porque não ?) Bodhidarma. Não, não estamos na
Índia. Estamos hoje e aqui, num pequeno dojo de uma qualquer sociedade
recreativa. O homem é, segundo se diz, Mestre de Artes Marciais, em especial o
Karate. Será ?...
Um dia, o seu único aluno, decide pedir-lhe que lhe descreva todo o percurso
daquilo a que chamamos hoje Karate-Do. Ele decide aceitar mas com uma
condição: o aluno terá de treinar um ano inteiro, de Janeiro a Dezembro,
todos os dias, sem qualquer falha nem interrupção. Se assim fizer, no final de
cada aula sentar-se-ão ambos no centro do dojo e o Mestre contar-lhe-á uma
pequena parte da história. O aluno aceita o desafio com entusiasmo.
Chegado o primeiro dia de Janeiro, o Mestre começa por alertar que não lhe
vai contar a história de todas as Artes Marciais - tarefa certamente
interminável - mas sim e apenas aquelas que se referem ao Do... O aluno
fica sem perceber o que ele quer realmente dizer, mas decide não o interromper
logo na primeira descrição que, ao que parece, se refere a uma forma de luta
indígena de certa região da Índia, há mais de 1500 anos.
No primeiro dia da semana seguinte a descrição inicia-se com uma
fantástica viagem através dos Himalaias até à corte de Wu o imperador
de Liang, em Cantão na China. Logo de seguida a acção transfere-se
para um mosteiro mais a Norte na província de Honan, do imperador Hsiao
Ming. O nome desse mosteiro parece soar como Shaolin . Tanto quanto o
aluno julga entender, após um correcto adestramento físico e mental, os
pacíficos monges budistas que desse mosteiro partem, em pregação, acabam por
se tornar conhecidos pela eficácia dos seus punhos.
Os dias passam, as semanas também e depois os meses. Metodicamente, o Mestre
vai ilustrando a transmutação dessa técnica com descrições das
características peculiares das formas de luta de povos diversos da China e
depois da Coreia. Há um nome, em particular, que ele repete várias vezes e que
soa como Shang Wu, e que, segundo ele, estaria na origem de outras artes
de nomes tão esquisitos como: T'ai Ch'i e Pa-kua.
Com o início da Primavera, tendo-se já estabelecido uma relação de
amizade e respeito entre professor e aluno, este pergunta-lhe se, em vez do nome
Bodhidarma que se torna extremamente difícil de pronunciar, o professor
não se importaria que ele usasse um diminuitivo... "Podes chamar-me Daruma,
que é mais simples.", responde, com um sorriso, "Afinal, até era
assim que os Ryukyu's me chamavam..." E, adivinhando a pergunta do
aluno passa a explicar: "Ryukyu era um pequeno arquipélago
independente, a Sul do Japão, coincidente com o que se chama hoje Prefeitura de
Okinawa. A região estava separada em três reinos - Chuzan, Nanzan e Hokuzan -
desde há muito envolvidos em guerra civil".
Daruma vai prosseguindo a descrição da vida conturbada dos Ryukyu's,
nessa época, perpassada por combates de extrema violência e crueldade. Por
vários dias o aluno sai do dojo com as pernas a tremer, tal é o realismo das
descrições. Chega um dia, porém, em que Daruma refere o aparecimento de um
certo rei Sho-Hashi, de Chuzan, que acaba por dominar os outros
dois países, impondo em todo o território Ryukyu um regime feudal onde
o uso de armas passa a ser reservado às classes de nível superior.
Chega o Verão. Os quentes fins de tarde, após o treino, são de grande
serenidade. Durante os meses de Julho, Agosto e também por Setembro fora, o
Mestre entrega-se à descrição da vida calma dos camponeses dos Ryukyu's.
As referências às Artes Marciais são raras e subtis. Ali é um humilde
camponês que, provocado por dois samurais fortemente armados, recorre a um
pequeno malho de descasque do arroz, conseguindo matar um deles e ferir
fortemente o outro. Todas as tentativas para encontrá-lo são infrutíferas...
Acolá, um homem já idoso acorre em defesa de um amigo e consegue defender-se
habilmente da terrível lâmina de um sabre, com o cabo de madeira de uma
pequena mó. Levado à presença das autoridades não se consegue provar que
tenha feito uso de armas...
Num dos regressos a casa depois da costumeira aula, o aluno desvia-se um
pouco do caminho habitual procurando a frescura de um pequeno lago. Passeando o
olhar por uns pequenos remoinhos que agitam a água, interroga-se: "O que
será que vive por baixo do espelho ?"
E eis que inesperadamente, já no final de Setembro, Daruma deixa o
seu jovem amigo sem pinta de sangue com a mais viva e sentida das descrições
de batalha que jamais ouvira. Trata-se da invasão dos Ryukyu's pelo Shimazu
- a força de guerra do clã Satsuma que domina já um vasto território
em Kyu-Shu e que decide agora anexar as ilhas mais a Sul. Uma data fica a
soar - 1609 - ano do assalto frontal dos Samurais à porta de Naha. A feroz
resistência dos locais surpreende a poderosíssima força que há pouco chegara
a fazer tremer a própria autoridade imperial. O ataque frontal à porta de Naha
é prontamente repelido. Mas o desequilíbrio de forças é tremendo, nem todas
as entradas podem ser defendidas, Unten é o ponto fraco por onde o Shimazu
consegue penetrar e os Ryukyu's em breve ficam à mercê dos Satsuma.
A interdição do uso de armas é agora reforçada passando a aplicar-se a toda
a população local.
Cai o Outono. A caminho do dojo o aluno é de novo atraído pela tonalidade
cinzenta da superfície do lago, agora batida pelo vento. Pela melancolia das
palavras do Mestre descrevendo a profunda tristeza dos Ryukyu's, perpassa
uma agitação crescente. Em reacção à opressão dos suseranos Satsuma
reforçam-se as ligações tradicionais ao continente e, por detrás de
aparentes missões de intercâmbio cultural, esconde-se a aprendizagem de
secretas formas de defesa sem armas, desenvolvidas pelos monges de Shaolin
e sucessivamente transformadas e melhoradas por gerações e gerações de
Mestres chineses. Em Okinawa essas "formas", são então transmitidas
no mais rigoroso segredo a um círculo muito restrito de alunos. Estes, por seu
lado, como artífices diligentes, tratam de as refinar e aperfeiçoar. Aos
rumores da existência de uma tal "mão de Shuri" e "mão
de Naha", que se agrupavam no chamado Okinawa-te, ou
"mão de Okinawa", juntava-se agora uma misteriosa To-de,
associada às formas chinesas. Mas, por mais estratagemas que inventem, os
espiões do clã Satsuma não logram penetrar no hermetismo de tais
práticas.
Certo dia, no final de um treino aparentemente igual a tantos outros, o
Mestre informa: "Hoje não haverá palestra!". O discípulo não
compreende e começa a esboçar um protesto: "Mas Daruma...".
Este porém interrompe-o bruscamente dizendo-lhe: "O meu nome a partir de
agora passa a ser Shoto", se me chamares de outra forma não te
responderei". Em seguida assegura-se de que a porta do dojo está fechada,
pede-lhe que tome muita atenção aos nomes que vai ouvir e que, sobretudo, não
os confunda. Nesse dia não se sentam no centro do dojo, como habitualmente, mas
sim um em cada extremo da sala. Durante largos minutos permanecem, frente a
frente, contemplando-se em silêncio. Então, o Mestre levanta-se e diz: "Tekki-Shodan".
Executa uma série de impressionantes movimentos plenos de energia, curtos e
fortes, deslocando-se para um e outro lado, mas sem avançar. De seguida volta a
sentar-se e a aula termina assim. Despedem-se com uma saudação, sem uma
palavra.
O aluno interroga-se acerca do significado desta brusca mudança de atitude e
também da função daqueles estranhos movimentos. No entanto, em quase todos
eles, julga encontrar longínquas semelhanças com os quatro ou cinco movimentos
básicos que, ao longo de todo o ano, lhe têm vindo a ser ensinados e é com
grande curiosidade que se dirige para o dojo. Nos dois dias seguintes, quer o
nome, quer o esquema dos movimentos, apresentam notórias parecenças com os do
primeiro dia: "Tekki-Niddan, Tekki-Sandan". No quarto dia o
Mestre executa todos os três, um a seguir ao outro informando no final que
estas "formas", que ele designa genericamente por kata's, pertencem à
escola Shorei-ryu.
No dia subsequente, a apresentação continua, com uma kata denominada "Taikyoku
Shodan". O aluno fica contentíssimo, reconhecendo de imediato todos os
movimentos. As kata's dos dias seguintes: "Taikyoku Nidan",
"Taikyoku Sandan" apresentam-se como pequenas variações da
primeira, incorporando igualmente técnicas que ele conhece muito bem. Mas, na
essência, em nada diferem da primeira Taikyoku.
De novo a caminho de casa presta pouca atenção à chuva e ao frio do
Inverno que se aproxima. O que o intriga são as profundas diferenças entre
estes dois grupos de kata's. E reflecte de si para si: "Os movimentos das taikyoku
são leves, rápidos e profundos; os outros, por contraste, são como o próprio
nome tekki, mais forte, mais curto, mais pesado. As deslocações em
todas as direcções das taikyoku's fazem lembrar o voo livre de uma ave,
sem limites; nas tekki's, porém, as deslocações são muito limitadas
como se o movimento estivesse restrito a uma direcção. Será que as taikyoku's
são originárias de uma outra escola, um outro ryu ?"
Confirmando a sua suspeita as três Taikyoku são-lhe apresentadas no
final do treino seguinte como pertencentes à escola Shorin-ryu. Nesse
momento, o Mestre apercebe-se, pelo brilho dos olhos do seu aluno, de que ele
compreendeu a mensagem. Abraça-o com amizade, dizendo-lhe que, daí em diante,
quando outras kata's lhe forem apresentadas, não precisa de se preocupar em
decorar-lhes os nomes, apenas procure sentir o timbre dos movimentos e
identificar a que escola pertencem.
O dia seguinte é o primeiro de Dezembro. No fim da aula professor e aluno
voltam a sentar-se no centro do dojo. Shoto explica que chegou a altura da
divulgação, da abertura para o exterior: "O mundo acha que tudo tem que
ter um nome, por isso vamos chamar-lhe, Karate-do. Abre então de par em
par a porta do dojo e deixa entrar um bando de miúdos que, já há alguns
instantes se acumulavam ruidosamente junto à entrada, espreitando. Ao
princípio as crianças invadem caoticamente todo a sala, observando com
curiosidade todos os detalhes, mexendo nos cintos e rindo baixinho dos trajes
esquisitos dos dois homens. Cria-se uma enorme confusão e o aluno faz um ar
carrancudo. Shoto, por seu lado parece felicíssimo, deixando-se rodear
pelas crianças. Aos poucos, porém, vai-os encaminhando para um dos lados da
sala e, então, num repente, com uma voz forte e determinada manda-os alinhar,
pondo o seu aluno à direita. Os miúdos, apanhados de surpresa pela súbita
mudança, obedecem de imediato, ficando em quase completo silêncio.
O Mestre demonstra então uma série de kata's, - Bassai, Kwanku,
Empi, Gankaku. E depois, após uma pausa, Jutte, Hangetsu, Jion. O
aluno reconhece facilmente o primeiro grupo como Shorin-ryu, e o segundo
como Shorei-ryu. Os ávidos olhos das crianças, porém, são atraídos
apenas pelo espectáculo, riem e aplaudem os saltos e pontapés e, quando os
movimentos são lentos e concentrados, suspendem-se na respiração profunda do
Mestre. No final da aula quase todos pedem a Shoto que lhes ensine "Karate"
(como crianças que são, esquecem o do) e, para desespero do seu aluno,
o Mestre aceita. Daí para a frente as aulas enchem-se de crianças traquinas
que a todo o momento pedem: "Shoto, faz aquele salto ! Shoto,
ensina-nos outro truque ! Shoto, podemos fazer um jogo a ver quem ganha
?". No final de cada aula, depois de todos sairem, continuam a sentar-se no
centro do dojo, mas são os protestos do aluno que se fazem ouvir: "Não
compreendo. Você prometeu-me que me daria aulas durante um ano..." - E
estou a cumprir. "Mas disse-me que me contaria toda a história do
karate-do..." - E estou a contar. "Mas as crianças perturbam o nosso
trabalho" - Meu caro, se eu as mandasse embora então sim, estaria a
falsear tudo. "Como assim ?" - Assim, como assim, eles fazem parte do
caminho, fazem parte da história...
Decorre o último dia do mês de Dezembro. Está muito frio. Em cada um dos
últimos dias o caminho para o dojo pareceu-lhe mais e mais longo. Sente-se
doente, doem-lhe as pernas, todo o corpo lhe dói. Enquanto caminha penosamente
encontra uma vez mais o velho lago: "Já não há nada por baixo do gelo,
está tudo morto", pensa, e uma lágrima escorre-lhe pela face.
Contudo, ao chegar à porta do dojo algo de insólito se passa. Nem gritaria,
nem correrias... Onde estão as crianças ? Espreita pela porta e vê um grande
grupo de pessoas em kimono. Os olhares dirigem-se para ele e... os rostos
são-lhe estranhamente familiares. Não sabe o que há-de dizer: "Hum...
Boa tarde, o meu nome é..." - Olá, Mestre. Chegou atrasado hoje. Estamos
há que tempos à espera.
Como um autómato dirige-se para o vestiário e pega no kimono. Mete
de novo a mão direita no saco para retirar o cinto branco mas o que sai é um
cinto de côr preta. Larga-o bruscamente e esfrega a mão como se o cinto a
tivesse queimado. Repara então que as mãos, as suas próprias mãos estão
diferentes, mais ásperas mais... velhas. Prostrado, deixa-se caír sobre o
banco, apoia os cotovelos no colo e tapa os olhos, mas... no rosto sente
estranhas rugas. Tenta, controlar-se. Recorda o ensinamento do Mestre e
endireita as costas. O seu Mestre...Onde estará ? "Daruma",
"Shoto", nomes que lhe soam distantes, nomes longínquos da sua
juventude.
Repentinamente levanta-se, como se tivesse apanhado uma bofetada. Veste o kimono, coloca o cinto negro. Vai para o dojo. Atrás de si está a foto de um homem sentado serenamente na areia de uma praia. Senta-se. Os alunos imitam-no. Viram-se todos para a foto. Ao fundo as águas, já não do lago, mas do próprio mar, ondulam vivas. Quando se curva para a saudação apenas um nome invade a sua memória: Murakami.

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É sobretudo durante os estágios, que eram dirigidos pelo Mestre, que a sua
ausência pesa mais no nosso espírito. E, talvez por isso, tudo se faz como se
ele estivesse ainda connosco. Quando se corrige um pormenor técnico a um aluno,
há uma tendência natural para se referir sempre aos seus ensinamentos:
"Foi assim que o Mestre disse para fazer..." ou então "O Mestre
sempre insistiu nisto...".
Com efeito, a sua forte personalidade marcou-nos profundamente a todos e o
seu ensino, forjado no Karate tradicional mas também fruto de pesquisas
pessoais, não é susceptível de, na sua essência, sofrer desvios.
O seu "testamento", para os que devem continuar o seu trabalho,
pode resumir-se nas suas palavras, tão simples e, simultaneamente, de tão
profundo significado: "Trabalhai como sempre vos ensinei!". A chave
para o progresso técnico e espiritual é, pois, bastante simples: não
esqueçamos o seu método, não esqueçamos a sua via!.
Durante os quase 18 anos em que fui seu aluno, só contactava com ele,
praticamente, durante os estágios, em Lisboa ou em França. Por isso, o meu
carácter um pouco reservado não me permitiu conhecê-lo melhor, como pessoa
humana, senão alguns anos depois do seu primeiro estágio em Lisboa. Ao
princípio, em 1969, só vi nele o técnico excelente, quase um esteta do
movimento, cuja "performance" me seduziu logo nas primeiras aulas. Era
japonês, era perfeito tecnicamente, mais não era preciso. Foi praticamente a
única razão pela qual tanto insisti com o Dr. Pires Martins, gerente da
Academia de Budo, onde eu dava então aulas, para que se comprometesse a mandar
vir o Mestre no ano seguinte.
A existência de certas circunstâncias subjectivas, em que choques de
personalidades e ambições pessoais tornaram o núcleo dos alunos mais antigos
pouco menos que um saco de gatos, impediu-me, durante bastante tempo, de
corresponder ao desejo do Mestre para que eu tomasse uma parte mais activa, no
plano administrativo, no seio do nosso grupo. Não há muito tempo, considerando
já à distância, os factos passados e as pessoas envolvidas, acabaria por
fazer justiça à minha relutância de então.
No entanto, dou-me conta hoje de que, se não fosse a sua tenacidade, o seu
espírito de grupo, o seu amor pelo Karate-Do e pela Murakami-Kai de Portugal,
do qual foi um dos principais obreiros e que ele sózinho salvou várias vezes
do desaparecimento como colectivo, não seríamos hoje ao nível do Karate
nacional, uma das associações mais antigas e, talvez, a mais prestigiada do
país.
Para além da relação Mestre-discípulo, tínhamos criado laços de amizade
e, como amigos, discutíamos sobre muitas questões (recordo-me como ele gostava
de me "picar" sobre questões políticas, campo em que tínhamos,
quase sempre, pontos de vista opostos), mas estávamos de acordo sobre coisas
como a sinceridade, a verdade, a solidariedade, em suma, a razão e o humanismo
com meios de agir na sociedade.
Os seus últimos dias também me puseram em evidência duas outras das suas
maiores qualidades: a coragem e o estoicismo. É certo que o seu método, o
nosso método, pode, por si só, contribuir para o desenvolvimento de todas
essas qualidades, mas não é menos certo que só pelo exemplo pode o professor
dar autenticidade ao que ensina.
Os seus assistentes e outros responsáveis, assim como todos os praticantes
nos quais o seu exemplo frutificou, estão à altura de continuar a sua Ideia.
Devem fazê-lo, pois só assim terão merecido ser discípulos de um grande
Mestre.

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(extractos do livro "ASP - 25 Anos" publicado em 1994)
| (...) Entretanto, em França, Manuel Ceia e também
Fernando Neto, antigo praticante da Academia de Budo, continuam a
praticar em vários dojo's de karate de Paris, passando de um para outro
sem que o nível técnico do trabalho encontrado os satisfaça. Decorre
em Paris o conturbado ano de 1968. Um dia são informados de um dojo
situado numa tal rua de Mercoeur. Franqueiam a porta e encontram
uma sala de dimensões modestas, pequenas mesmo. Mas cedo se esquecem
desse pormenor. Há ali algo de grande e de diferente. Desde logo os
impressiona o carácter exigente daquele Mestre. Começam a praticar e
cedo tomam consciência que o que aprenderam na Academia de Budo a
nível técnico de pouco lhes serve ali. Decidem então reiniciar a
prática como cintos brancos, situação que se mantem durante alguns
meses até que o Mestre decide conceder-lhes a ambos a graduação de
3º kyu.
Aos poucos vão sabendo mais daquele homem. O seu nome é Tetsuji Murakami. Nasceu na Prefeitura de Shizuoka no Japão no ano de 1927. Tendo praticado o Kendo nas escolas, disciplina obrigatória durante a guerra, foi aos 19 anos que contactou pela primeira vez com o Karate. Após três anos de treino "à experiência" com Mestre Yamagushi (nome que não deve ser confundido com o mestre de Goju-Ryu) decidiu este aceitá-lo como discípulo. Durante dez anos submeteu-se ao treino duro mas apaixonante de Mestre Yamagushi. Durante estes anos aprendeu também Aikido. Entretanto em 1957 o Sr. Henry Plée, um dos mentores do Karate em França, terá solicitado a um tal Jim Alcheik que procurasse no Japão um professor de Karate decidido a vir ensinar para França. No dia 3 de Novembro do ano de 1957 Tetsuji Murakami chega a França. Habituado a um mundo onde a palavra possui um valor sagrado, aceita assinar um contrato redigido em francês, língua que desconhece, a favor da Académie Française des Arts Martiaux, em Paris, pertencente ao Sr. Plée. Depressa se apercebe de que este contrato lhe impõe condições que mal lhe permitem sobreviver nesse país desconhecido, mas é tarde demais. Só em princípios de 1959 logra abandonar a A.F.A.M. passando a leccionar Karate, Aikido e Kendo num outro Dojo situado numa cave do Boulevard Blanqui, sempre em Paris, local que há-de apelidar de Renseikan - ou seja o "Clube da Prática Correcta". A partir de 1961/62, passa a dedicar-se exclusivamente ao ensino do Karate. Manuel Ceia começa a trocar correspondência com Mário Rebola convencendo-o a deslocar-se a França para treinar com o Mestre Murakami. Na realidade esse primeiro encontro falha, dado que o Mestre se encontra ausente em Itália a dar um estágio. Desse modo treina sob a orientação do aluno mais antigo e... fica convencido. De regresso a Portugal propõe ao Dr. Pires Martins a vinda de Mestre Murakami a Portugal, agendando-se a data de Agosto de 1969 para o acontecimento. (...) |
Nota: Se pretender saber um pouco mais sobre as origens históricas e os principais factos que marcaram a história do Karate consulte a página sobre História do Karate-do ou a Cronologia Budo.
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