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Neste número vamos falar de outro autor. Sim, é o da fotografia. Esse João
que nos invoca ao seu livro. Pois, porque ele está a dizer este livro é meu.
Mas ele está a dizer mais ainda: ele olha-nos para dentro do âmago e diz:
entrem no meu livro, por favor. E, acreditem, depois do apelo feito desta
maneira, não vimos alternativa senão entrar no Caminho. Porque soubemos
aproveitar a circunstância em que estava o espaço e o tempo: as coisas
desarrumadas pelo chão, todas no local exacto, e uma máquina fotográfica
apontada para ele. Não deixámos escapar a oportunidade. Tal como faz o
atacante quando ataca o adversário. Tal como faz o mestre Zen quando aponta
directamente para a realidade, o momento em que o discípulo descobre o som
duma mão, ou descobre que não...
Este artigo pretende chamar a atenção à forma de ler. Sim, este artigo é sobre o autor que é o leitor. Mas atenção: o leitor que é mesmo autor, aquele que interioriza de tal forma o conteúdo das frases que lê, que se torna dono delas, e ao dizê-las a outrem não sente necessidade de as colocar entre aspas ou itálico, pois percebeu que estas palavras sempre existiram desde o começo do mundo 1. Penso que está claro que não é qualquer livro que tem este privilégio. Nem qualquer autor. Não, só aqueles que foram escritos por verdadeiros leitores. Aqueles livros que nunca pretenderam criar nada de novo, mas que mudaram o rumo das sociedades. É que esta é a única forma de entrar nesse Caminho (vejam na fotografia). Nunca ter a pretensão de criar uma coisa nova, mas sim ler o que nos rodeia, e traduzir-lhe o sentido. Por isso, quando formos ler é preciso apanhar o livro do chão, como o faz esse João. Porque esse João, acreditem ou não, passa a vida a ler (sem querer), desde o levante ao sol pôr, até quando está a rasgar livros, como aliás todos nós fizemos quando éramos esse João. E quando deixamos de ser esse João, passamos a vida a fazer uma de três coisas: (1) constantemente a fugir ao Caminho; (2) a procurar recuperar esse João perdido; (3) a SER simplesmente o Caminho! Mas este Ser não é um ser pacífico que se limita a contemplar e a fundir-se na paisagem. Não. É aquele que faz uma guerra. Que não deixa ninguém adormecer. É aquele que diz com pertinência, directamente ao nosso âmago: Entra no Caminho! Não é isso que faz o karateca quando lança o seu ataque? Entra no Caminho! O adversário tem que entrar no ataque do outro. Diz um conto japonês que depois de diversas desistências do discípulo de cumprir o seu koan, respondeu-lhe o mestre: então, se não consegues, mata-te. E imediatamente o discípulo descobriu a essência da sua tarefa. Entrou no ataque do mestre. Entrou no caminho, era o que o mestre queria. Para ler um livro, entrar no livro; para sobreviver a um ataque, entrar no ataque; para viver, ler o Caminho (leitor). Para então escrever as frases já feitas (autor): será que já descobriste que o teu livro é o mesmo que o meu?
1 De modo que os homens sempre escreverão livros e, ainda que não o saibam, estarão sempre a escrever o mesmo livro. Ver o artigo Kata, neste número da shoto.
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