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Depois de uma guerra, as tropas vencedoras queimaram o palácio dedicado às belas Artes. O génio apresentou-se ao General dizimador com o intuito de lhe confiar os segredos da Beleza Imortal: - Desde o princípio dos tempos, ilustre general, existiram homens que amaram
a beleza e buscaram criar imagens dela, cada qual a seu modo.
Mas, para aquele que as criara, possuíam uma beleza secreta, havendo um
prodígio revelado em cada forma que os demais não podiam ver. Assim foi que
os homens dos antigos tempos, antes dos Imperadores terrestres, escreveram nas
montanhas, entre as pedras, pintaram e cantaram ao ar. E todos os anjos que
viviam nas montanhas apareceram, escutaram e entenderam. E o Grande Imperador
Amarelo entendeu, pois Ele escuta tudo, conhece tudo e entende tudo.
Passaram-se muitos séculos e os homens construiram cidades, onde nasceram
homens eruditos, poetas, músicos que tocavam cordas de seda, grandes
escultores de marfim e trabalhadores de pedras preciosas.
Mas, continuou o génio, eu pergunto: de onde provém o pensamento que o
erudito estrutura em dez mil caracteres?... De onde recolhe o poeta as
pétalas dos seus versos?... Quem canta nas cordas da música?...
Estas coisas emanam do vazio?... Ou pensa que o Grande Imperador envia um anjo para tecer algum feitiço?... ... Com muita certeza que não, meu estimado general. Os primeiros sonhadores
nunca morreram. A esperança que foi traçada na antiga rocha é a mesma
esperança que havia no traço do pincel erudito. As burdas formas das primeiras
molduras do Homem vivem novamente na perfeição do Espírito.
A cada século que passa, o Tempo, a negligência, a Guerra, a decadência,
devoram os tesouros da terra, mas não tocam a alma da beleza, nem corrompem o
seu Espírito... Uma vez, um artesão fez um pratinho de argila e, quando
terminou, estava feliz porque havia dado forma à beleza. Um dia, o pratinho
quebrou-se, mas nem por isso estava morto. Converteu-se em espírito.
Mil anos depois, outro homem confeccionou o mesmo prato; não o sabia, mas o
prato formado com argila húmida, pela roda giratória, era o mesmo prato
renascido, que vivera mil anos antes... Assim, como o homem consegue um corpo
melhor a cada novo nascimento, o pratinho, a segunda vez que nasceu, teve uma
asa nova, que era de linha mais graciosa. E o pratinho foi muito belo e a sua
vida durou vinte anos. Quebrou-se outra vez e, de novo, transformou-se em
espírito. Depois de dez vezes passado pela roda, o mesmo pratinho foi levado
a existir como tesouro na casa dos Sung, com uma delicadíssima porcelana com
desenhos de fios de ouro, tão frágil que parecia mais o Espírito em si, do
que uma coisa terrena. E, desta vez na casa dos Sung, quebrou-se novamente.
- E agora, general, foste a causa do que se destruiu...- o génio atirou os
quatro pedaços de porcelana aos pés do general e disse:
- Pensas, ó ignorante, que porque estes pedaços estão quebrados, serão
enterrados outra vez no pó e a beleza foi destruida? Não senhor...
Amanhã virá outro sonhador e o pratinho de novo terá vida e seguirá
vivendo até que todos os homens se convertam em Espírito e se sentem juntos
para o banquete do Grande Imperador Amarelo.
Assim acontece com todas as obras realizadas pelos homens. Não se lamente dos
poemas que perdeu, pois outro poeta os encontrará na sua alma... Não se
lamente pelos livros que incendiou, porque serão escritos outra vez... Não
se lamente pelas canções que silenciou, pois serão cantadas por toda a
Eternidade...
Sonhamos o que destruimos, apenas para despertar e descobrir que nada se
perde...
Com uma bola de fogo, incendiou a casa de dez mil linguas, mas nenhuma destas
linguas foi silenciada.
Ó Meu venerado general, os homens buscaram sempre silenciar as linguas desde
o princípio do mundo, mas as palavras do primeiro homem serão pronunciadas
novamente pelo último homem, pois jamais se deixará de falar alguma vez: o
conhecimento não morre com os livros, mas os homens morreriam sem o
conhecimento. De modo que os homens sempre escreverão livros, e ainda que
não o saibam, estarão sempre a escrever o mesmo livro.
Um pensamento é tão pouco nosso, quando cremos que ele nos pertence... Os pensamentos são como pássaros; voam desde o céu até nós e vão-se novamente embora. Iguais à sagrada Fénix, lider de todos os pássaros; são imortais... Os homens podem morrer pelos pensamentos porque os homens são mortais, mas os pensamentos jamais morrem em mãos dos homens, têm vida eterna, não perecem com o tempo. Por isto general, contente-se em aprender a sua lição. (...) Uma fina pintura sobre uma frágil seda pode parecer algo débil e terno, que necessita da protecção constante; mas, essa fina linha é mais forte do que as montanhas, mais antiga que os céus, mais duradora que o tempo. Ó General, hás-de servir a beleza, não porque seja frágil e necessite de protecção, mas sim porque é divina e merece homenagem. Busce a beleza, mas não a procure nas cinzas das casas que destruiu com a sua guerra inútil. Procure-a entre as ruínas do seu próprio coração, criadas pelas suas próprias ambições.
1 Título atribuido por Miguel Castro Caldas. O texto trata-se de uma antiga lenda chinesa, citada em "O espírito das artes Marciais", Roque Severino, Ícone Editora; adaptada livremente também por Miguel Castro Caldas. |