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As várias correntes
do Budismo, com especial relevância para o Zen, serviram-se da palavra e
da imagem como meio para ajudar, de modo intuitivo, a encontrar o caminho
para a libertação. Já com esta primeira asserção nos colocamos no
meio de uma problemática demasiadamente difícil para o âmbito deste
trabalho, pois alguns conceitos são de muito grande complexidade,
expressos por vocábulos de muito difícil, senão impossível tradução.
Restringir-me-ei, portanto, às referências mínimas indispensáveis.
De qualquer modo, não devemos perder de vista que todas as linguagens
são redutoras, tornando-se elas próprias numa realidade distinta daquela
a que se pretendem referir. Escreveu Hui-neng (637 - 712), o sexto
patriarca do Budismo:
Nada existe de verdadeiro em lado algum, a verdade não pode ser vista
em parte alguma. Se disseres que viste a verdade, essa visão não é a
verdadeira.(1)
O objectivo desta
apresentação não pode, portanto, ser mais que uma chamada de atenção
para alguns pontos comuns entre a disciplina física e mental do Zen e a
do Bushido, nomeadamente na sua aplicação prática numa sociedade
moderna, partindo da série de pinturas, poemas e respectivos comentários
conhecidos como as "Dez pinturas sobre a pastorícia do boi", se
é que poderemos considerar esta como uma tradução aceitável.
Trata-se de uma alegoria muito espalhada desde o séc. XV na China
(dinastia Sung) e no Japão (período Ashikaga, ou Muromachi). O seu valor
simbólico foi imediatamente reconhecido, havendo delas várias versões,
sendo a mais antiga atribuída a um Mestre Zen da dinastia Sung conhecido
no Japão como Kaku-an Shi-en (em chinês, Kuo-an Shih-yan), da escola
Rinzai. No entanto, este refere-se a outro Mestre chamado Seikyo (em
chinês, Ching-chu), talvez seu contemporâneo, que usou a figura do boi
para ilustrar o seu ensino. Estas pinturas teriam sido em número de
cinco, havendo uma outra, segundo um comentador da obra de Kaku-an, da
autoria de um Mestre chamado Jitoku Ki (em chinês, Tzu-te Hui), que teria
conhecimento das primeiras, pois as suas seriam em número de seis.
Numa primeira análise, verificamos a existência de uma dualidade, a do
rapaz e a do animal. Aparentemente, esta seria uma alegoria do conceito de
Shin, (em chinês Hsin). Segundo o Dr. Suzuki, "esta é uma daquelas
palavras que desafiam qualquer tradução. (…) Significa 'mente',
'coração', 'alma', 'espírito', tanto individualmente como em
conjunto". Nesse caso, o que estaria em questão não seria mais que
um caminho, uma evolução do indivíduo no domínio das suas faculdades
intelectuais e emocionais. Num estudo um pouco mais aprofundado,
verificamos que esse é apenas um dos aspectos.
Já aqui poderemos encontrar um paralelo imediato com o conceito de 'Do',
em japonês, que, como se sabe, é a leitura que corresponde ao conceito
de 'Via' do ideograma que designa 'Caminho', na leitura mais prosaica de
'Michi'. Não é, seguramente, apenas a capacidade de aplicar uma técnica
com maior ou menor efectividade que distingue um grande mestre de um
mestre menos grande, ou de um aluno, ou de outra pessoa qualquer. O
caminho que o nosso jovem vai ter que atravessar revelar-se-á, afinal,
uma verdadeira Via, uma espécie de peregrinação. (2)
Nas quatro últimas representações, o animal desapareceu. Aliás, nas
pinturas VIII e IX, o mesmo acontece ao rapaz. Ao entender a unidade entre
o objecto, a sua representação mental e o próprio sujeito, já não
necessitará mais de se preocupar com o meio utilizado para atingir a
sabedoria, mas dela colherá os frutos. Daí que se diga que essa
compreensão é como o ouro separado da escória, sendo-lhe atribuídas as
características da Iluminação. Porém, ainda estão presentes os
objectos necessários para manter o boi dominado, embora deixados
esquecidos a um canto. A compreensão mais profunda da própria vacuidade
dos objectos é atingida na pintura VIII. A sua melhor característica é
a serenidade profunda que dela emana. Muito importante a ideia várias
vezes acentuada de que isto nada tem a ver com a ideia de santidade.
(1) O grande
especialista em Budismo Zen, Dr. Suzuki (Daisetz Teitaro Suzuki), nascido
em 1870, comentando este texto, atribui-lhe o significado da
impossibilidade de divisão do Absoluto em dois, o que vê e o que é
visto. (in "Manual of Zen Buddhism, Grove Press, New York, First
Evergreen Edition, 1960)
(2) Não é exclusivo da cultura oriental o paralelismo entre o caminhar e
o apreender a realidade exterior de modo a aperfeiçoar-se. Em
praticamente todas as culturas e religiões encontramos esta noção, que
pode tomar a forma da peregrinação ou a do viajar. A ida do crente a
Meca, ou a outra cidade santa, não difere no fundamental dos "Anos
de peregrinação de Wilhelm Meister", de Goethe.
(continua)
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