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A história do
Tiro com Arco e o desenvolvimento de Kyudo como disciplina autônoma.
A utilização do artefactos de arremesso data da Pré-História, e não
deixamos de ficar admirados quando observamos com alguma minúcia uma
ponta de seta em sílex.
Estes objectos arqueológicos têm um detalhe e perfeição comparável ao
fascínio que nos provoca um moderno microchip com todas as suas perninhas
douradas. Objectos de grande beleza demonstram uma acuidade na sua
manufactura, difícil de supor que foram feitos à custa de golpes de
pedra, para não dizer à pedrada. E se no paleolítico e no neolítico os
archeiros encontraram o seu retrato gravado nas pinturas rupestres, não
deixam de ser figurados em todas as civilizações ditas clássicas, como
na Egípcia, na Mesopotâmia, na Assíria, na Grega, na Romana, passando
pela Chinesa, lembremos a dinastia Ming com o Imperador Hung-Wu, como
ainda mais recentemente no mundo Islâmico.
A escolta de archeiros surge assim como círculo específico e
diferenciado das outras hostes guerreiras, já porque mantinham o inimigo
à distância. Esta situação fez com que alguns exércitos se
diferenciassem pelo seu corpo de archeiros.
Nos dias de hoje são os cavaleiros de Abusame, tiro com arco japonês mas
a cavalo, quem, com os seus tiros rituais, fazem a abertura do Festival da
Primavera no Japão.
O início da prática do Kyudo
A nossa prática do kyudo começou em 1991, quando (e não vamos entrar em
grandes detalhes das circunstâncias em que tal ocorreu, embora muito
interessantes) nos foi apresentado o Mestre Shirotzugo Yokokojy. Um
Japonês que escolhera, há altura, Sesimbra para viver com a sua esposa a
merecida reforma. Intrigados com o livro de Herrigel , "A arte
cavaleiresca do tiro com arco" e motivados por um aprofundar do
conhecimento relativo ao Zen e à prática do tiro com arco, propusemo-nos
criar as condições necessárias e suficientes para que o mestre
praticasse e nos transmitisse a sua experiência. Iniciamos a preparação
de um Dojo, um local gentilmente cedido, com as qualidades dos três S's:
Sol, Silêncio e Superfície. Um espaço à sombra de belos pinheiros
mansos onde construímos um pequeno estrado de madeira e um espaldão para
protecção das flechas.
A prática do Kyudo e o desenvolvimento da concentração, da atenção
e da paciência
De início fomos obrigado a alterar uma série de comportamentos
inconciliáveis com o Kyudo, Assim os nossos primeiros passos nesta
disciplina foram: paralelamente à interiorização dos movimentos do tiro
(feitos numa repetição exaustiva dos movimentos, durante mais de 6
meses, com o auxílio de uma fisga de elástico feita pelo Sensei), o
desenvolvimento de capacidades mínimas de paciência e entrega ao que nos
dispúnhamos então aprender. Hoje estou convencido que a maioria das
artes tradicionais, e especialmente as marciais, ajudam efectivamente a
desenvolver estas capacidades do ser humano, que tão maltratadas são
pela sociedade contemporânea.
A procura de uma renovada eficácia, que não advém do artificialismo
técnico ou sofisticação tecnológica ou de qualquer facilitismo
mediático, mas pelo contrário de um trabalho, sincero persistente e
esclarecido sobre o indivíduo, obriga a um trabalho sincero sobre a
concentração, a atenção e a paciência.
Os treinos
Treinar Kyudo é ter lições Zen. De forma persistente e atenta o mestre
de Kyudo toma uma atitude correctora, que nos leva a considerar o Kyudo
como o Zen de Pé em contraponto com o Zazen, ou Zen sentado.
É de realçar que os treinos começam por um período de exercício, no
qual se realiza diversas vezes o mesmo movimento respiratório, o (Tchatayso).
Recordamos, a propósito do Zen, um certo vídeo que o Sensei nos mostrou.
A fita nada tinha a ver com o Kyudo, um mestre gordinho, de pêra rala e
branca, dispensava algumas considerações em japonês, que não podíamos
entender de todo, enquanto um outro, mais novo, fazia exercício de coluna
em suaves movimentos ondulatórios, isto tudo acompanhado de uma música
de fundo e de belas imagens naturais, de onde pressupúnhamos que o mestre
extraía analogias.
Sr. Yokokojy simplesmente repetia, - muito bom, muito bom, - como se para
nos encorajar a descodificar as imagens e apreendermos algo, que ele sabia
intimamente não nos conseguir transmitir verbalmente.
(continua)
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