| Em tempos longínquos toda a extensão do litoral a sul
do rio Tejo era praticamente deserta, existindo apenas pequenos casais e
habitações isoladas, onde pontuavam dois povoados com algum
significado: um, localizado no interior, designado como o "Monte", e outro junto ao mar, conhecido como a "Costa".
No povoado interior exerciam-se actividades ligadas à agricultura,
à produção de vinho e à exploração dos recursos provenientes dos
vastos pinheirais adjacentes; no litoral, a actividade predominante
focava-se nas artes da pesca.
De acordo com a tradição oral transmitida de geração para
geração, em tempos idos viveu na área interior uma mulher de idade
bastante avançada, sem que se lhe conhecesse qualquer família nem a
sua proveniência.
Esta mulher habitava num velho casebre, afastada da restante
população da zona, a qual também não registava qualquer memória do
seu aparecimento, dos motivos que ali a levaram a residir ou mesmo do
que se alimentava, pois não se lhe conhecia qualquer rendimento ou
ofício, nem nunca foi vista a adquirir géneros alimentares ou de outra
espécie.
Esta mulher fazia diariamente enormes caminhadas entre os diversos
pontos da área, permanentemente envolvida por uma longa capa que
encobria totalmente o seu corpo, desconhecendo-se qualquer detalhe da
sua figura física. Para adensar a aura de mistério em seu redor muito
contribuiu o seu ar estranho, a ausência de laços de amizade e as mais
que raras palavras proferidas, gerando o rumor de que tal personagem
devotava as suas acções à bruxaria e à prática de bizarros ritos.
Durante a Primavera as suas ausências prolongavam-se e as crianças
afirmavam que o interior da sua capa escondia uma vasta riqueza em
moedas de ouro, dizendo-se que a sua capa era rica, uma
capa-rica.
Entre os finais de Março e o princípio de Abril de um ano que a
memória não recorda desses tempos idos, a velha mulher, ao sentir que
os seus dias terminavam, deu a conhecer o desejo de que a capa que
sempre a envolvia fosse entregue ao Rei de Portugal, para que este a
utilizasse da melhor maneira possível para beneficiar a população.
Tal aconteceu poucos dias depois, aquando da sua morte, pois a
população depressa satisfez o seu pedido com base na sua reputação
de feiticeira. Quando o Rei de Portugal verificou o interior de tal
capa, o seu espanto foi total ao constatar que esta estava completamente
recheada com douradas flores de acácia, flores
essas colhidas no vasto acacial que ainda hoje existe na zona litoral
situada entre a Trafaria e a Fonte da Telha.
Profundamente emocionado
com tamanha sensibilidade demonstrada pela velha mulher que tantas
agruras passou em vida, o Rei de Portugal proclamou a riqueza daquela
capa única, uma capa-rica, surgindo daí o topónimo de Caparica. O Rei
de Portugal ordenou igualmente que se compensasse a população com a
edificação de uma igreja, a Igreja de Nossa Senhora do Monte,
atribuindo a toda a área a designação de Caparica.
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